Os 50 Melhores Discos Nacionais (2025)
Melhores Discos Nacionais (2025)
2025 é a oitava vez que nos dedicamos a fazer listas de Melhores Discos do Ano no Hits Perdidos. Não será a única do site, além desta com escolhas do editor teremos também individuais dos colaboradores. A intenção é essa mesma trazer diversos pontos de vista e novas dicas para quem acompanha o Hits Perdidos.
A ideia não é polemizar ou dizer que um disco é pior por não estar na lista. Muito pelo contrário, estas listas têm a intenção de recapitular o que rolou por aí – e não foi pouca coisa.
Por aqui, por exemplo, foram ouvidos mais de 280 discos nacionais ao longo do ano. De estilos diferentes, com histórias peculiares, discursos e uma musicalidade que mostra um pouco sobre para onde a música brasileira está caminhando.
Listas são polêmicas por si só e no ano passado reunimos um time de jornalistas e formadores de opinião para dar seus pitacos sobre a confecção destas (Confira aqui).
Melhores Álbuns Nacionais (2024)
Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2018 (Confira a Lista).
Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2019 (Confira a Lista).
Melhores Álbuns Nacionais de 2020 (Veja a Lista).
Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2021 (Confira a Lista).
Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2022 (Confira a Lista).
Melhores Álbuns Nacionais de 2023 (Confira a Lista).
Melhores Álbuns Nacionais de 2024 (Confira a Lista).
Nossa lista passeia por ritmos como Neopsicodelia, MPB, Brega, Rock, Soul, Jazz, Alternativo, Experimental, Folk, Hip Hop, Pop, Samba, Indie, R&B, Shoegaze, post-punk, hardcore, Pagodão Baiano e Eletrônica. Sem regras estabelecidas, muitas vezes um crossover de estilos é visível.
Os 50 Melhores Discos Nacionais (2025)

52) FBC ASSALTOS E BATIDAS
De volta às origens, é como podemos definir o momento do lançamento de ASSALTOS E BATIDAS, do mineiro FBC. Após se aventurar em discos com propostas como o Miami Bass e o Soul, ele retorna ao rap que o consolidou como um dos grandes nomes em nível nacional.
O lançamento chegou justamente no dia do seu aniversário com produção de Pepito e Coyote Beatz, além de um curta-metragem com direção geral e fotografia de 1RG e trilha composta a partir das próprias faixas do disco.
Além do rap, entram como influências do projeto, ritmos e texturas de estilos como jazz, metal, funk, MPB e do Boom Bap dos anos 90.
“Esse trampo é um retrato sujo e bonito do Brasil que quase ninguém quer ver. E por isso mesmo, precisa ser ouvido e visto. Se você se identificar, se quiser colar com a gente nessa, já tá somando demais”, revela FBC.
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51) NAIMACULADA A Cor Mais Próxima Do Cinza
Arte é algo para ser incômodo, que te cutuque e provoque. Nem sempre ela é polida, segue normas ou reflete o ponto de vista médio. É justamente nesse lugar que Cor Mais Próxima do Cinza, estreia do Naimaculada, se enquadra.
O caos urbano, entre seus ruídos, acizentado, entre desigualdades e dissonâncias, se reflete ao longo do material que não se prende a estilos. Rock, Jazz, MPB, Hardcore/Punk e Psicodelia se diluem nos córregos poluídos da cidade ao longo da sua narrativa.
Até por isso, sentir-se um peixe fora d’água, como citado em “Não É Sobre Peixes”, faixa que tem vocais que nos lembram até mesmo Barão Vermelho, faz uma crítica ao vazio que grandes metrópoles podem causar a quem não se encaixa nos moldes alheios. “Quatro Quina” com baixo reverberante e referências que vão de ecos da Vanguarda Paulista ao Crossover, coloca o dedo na ferida para discorrer sobre o cotidiano deturpado e normalizado da cidade.
Em “A Arte é Culpada”, eles fazem até mesmo uma paródia com os versos ecoados na Semana de Arte Moderna para criticar a estrutura do funcionamento das redes e a realidade do cenário underground. Melancolia, desaforo, embates, crises e poesia, tudo isso tem espaço na estreia dos paulistanos que durante o disco olha para diferentes cantos e gritos da cidade.
“São Paulo é uma cidade cinza, onde ninguém se importa com ninguém”, comenta o guitarrista Samuel Xavier que integra o grupo formado em 2022.
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50) lento, distante Tecendo Ficções
Representando Belém (PA), terra do queridíssimo Se Rasgum, a lento, distante é daquelas gratas surpresas que chegam em nossa caixa de e-mail. Shoegaze e Dream Pop, são as referências principais da sonoridade do grupo que surpreende pelas soluções sonoras e variantes em Tecendo Ficções, seu álbum de estreia.
Em sua formação, a banda formada em 2023 conta com Sandy Iketani (vocal), Henri Monteiro (guitarra e vocais), Vinícius Lobato (guitarra), Lucas Parijós (baixo) e André Menino (bateria).
Com som etéreo, canto leve, ambiências que nos levam para universos paralelos, sinestesia e estética marcante, ficamos ansiosos para quem sabe algum dia poder assistir uma apresentação ao vivo.
“As canções funcionam como fios que costuram realidades e invenções, misturando lembranças, desejos e ausências em um tecido sonoro denso, que se estende entre a lucidez e o sonho.
Tecendo Ficções é, ao fim, um convite a mergulhar no paradoxo humano: inventar mundos para sobreviver às perdas, criar histórias para habitar o vazio, transformar o tempo fragmentado em poesia.
É uma obra que entende a distância como lugar de criação, em que a incompletude deixa de ser falha e se transforma em potência. O sujeito lírico assume uma função de alguém que, a partir de fragmentos e distâncias, tece significados possíveis para suportar o vazio ou reinventar o sentido da vida”, comentam os integrantes em material enviado à imprensa.
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49) Bella e o Olmo da Bruxa Afeto e Outros Esportes de Contato
Bella e o Olmo da Bruxa, após rodar pelo circuito independente, lançou seu segundo álbum de estúdio, Afeto e Outros Esportes de Contato, de forma totalmente independente.
As referências no disco são bastante abrangentes, do peso em camadas sutis, mas ruidosas do Title Fight à calmaria caótica de Deftones, pelo experimental lo-fi da Lupe de Lupe, pelo pop-punk do Sum 41 e o pop rock nacional de FM (de Fresno e Charlie Brown Jr.).
Até mesmo um samba de surpresa aparece na faixa que encerra o registro. Inclusive, a ausência de medo de assumir seu som como pop rock, ou de soar radiofônico, facilita o diálogo com o público e já abriu portas com audiências bastante diversas. Essas referências fazem com que o material não repita fórmulas e fique interessante pensar em como vão trabalhar isso com os novos ouvintes.
Tem música acústica (“Deus, Gay”), mais sentimental da escola Fresno que bebeu da fonte do American Football. American Football (“Eu Sei, É Foda”), guitarras estridentes indie do Title Fight (“briga de irmão e outras cadeias de violência”), através de faixas que contemplam o cotidiano, entre corações partidos, mudanças e aprendizados do amadurecer.
A formação conta com Julia Garcia, Felipe Pacheco, Ricardo De Carli e Pedro Acosta. Ricardo, inclusive ao lado de João Lentino, assina a produção. O material foi gravado em Porto Alegre, nos estúdios Pimenta e Fulminante, e em São Paulo, no Estúdio Lauiz, para a faixa que conta com a coautoria da banda Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo.
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48) Gaby Amarantos Rock Doido
Confesso, esse disco me surpreendeu. Fui ouvir apenas aos 45 do segundo tempo do ano, mas foi fácil assimilar os porquês do seu destaque e alcance nas mais diversas audiências.
Um álbum com faixas curtas que se interligam e levam a aparelhagem de rua nortista mais perto do ouvinte. Sua narrativa, referências e temas mostram outras facetas da artista que divide a produção com o coletivo MGZD (Baka, Dedé Santaklaus e Cido).
Pertencimento, orgulho, bom humor e até mesmo versões deixam o resultado repleto de autenticidade e levam a cultura para os quatro cantos de um país com dimensões continentais.
“Foguinho”, por exemplo, brinca em ser uma adaptação de “Somebody That I Used To Know” (do grupo Gotye) que foi motivação de processo por utilizar a obra do carioca Luiz Bonfá. É desta forma de brincar com as versões, algo comum nas aparelhagens e na música da região, que ela devolve aquela sequência de acordes para o Brasil, ressignificando a forma de fazer pop com muita sagacidade e quentura.
O material ainda conta com parcerias com os conterrâneos da Gang do Eletro (“Tumbalatum”), a sertaneja Lauana Prado (“Não Vou Chorar”), MC Dourado (“Cerveja Voadora”) e Viviane Batidão (“Te Amo Fudido”).
47) Papôla Esperando Sentado, Pagando Pra Ver
De Recife (PE), a Papôla lançou um disco que te ganha logo na faixa que abre. Esperando Sentado, Pagando Pra Ver conta com 10 faixas e tem como referências a atmosfera oitentista de ritmos como city pop japonês, dream pop, new wave, a música brasileira e o rock experimental. Suas sonoplastias, arranjos e ecos dão toda uma aura pop deliciosa e o apreço pelos detalhes criam toda uma narrativa entre o sublime e o ordinário… feito uma orquestra em busca do seu caminho em direção ao amanhã.
No campo das temáticas a banda explora o retrato das aventuras, dramas e jogos amorosos vividos numa cidade grande, com vista para o mar e para a solidão, mas sem medo de se deixar levar e viver.
Essa dicotomia do dia a dia, entre os encontros e desencontros, o solar e o apagar das luzes, os carnavais e a azaração… aliados à prosa, o tropeço, o torto, a malemolência, a solidão e a luta constante pela validação e sobrevivência transparecem ao longo da sua narrativa de um sonhar acordado. Daqueles discos que você consegue dançar, se envolver, se emocionar e voltar para a pista.
“A gente decidiu soltar essas canções aos poucos, primeiro porque somos bem ansiosos, risos. Então, à medida que íamos gravando, fomos soltando também, até pra testar como iria chegar nas pessoas. E, além disso, percebemos que os singles também foram movimentando outras coisas, como shows, por exemplo.
Esse ano tocamos no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, só com o alcance dessas músicas. O disco chega com um terreno preparado já”, revela o vocalista Beró.
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46) Flau Flau Íntimo Oriental
A paraibana Flau Flau lançou recentemente seu álbum de estreia, Íntimo Oriental, com produção de Paulo Emmery (Letrux, Jards Macalé) e participação de Dinho Almeida, dos Boogarins. Um lançamento do selo do estúdio DoSol. O título, um jogo de palavras com o “Extremo Oriental” de sua cidade natal, reflete a natureza introspectiva do álbum, segundo material enviado à imprensa.
Entre as referências citadas pela artista estão nomes bastante distintos como Tame Impala, a conterrânea Cátia de França e Marina Lima. Assim como Warpaint, Boogarins e Blonde Redhead, o pop radiofônico, das Spice Girls e do Rouge, também entram no emaranhado que traz a brasilidade de nomes como O Grande Encontro e Adriana Calcanhotto, dentro do mesmo escopo plural e expansivo que se propõe.
“Falo dos meus relacionamentos nas letras e sou lésbica, simples assim. Ser sapatão me dá uma liberdade de transitar entre o masculino e o feminino, de ser roqueira sem depender de um homem cis pra dizer o que devo gostar nesse mundo. Eu pego o que acho bom e transformo em meu”, revela a artista sobre a natureza e perspectiva das suas composições.
Todos esses universos que a obra contempla fazem do pop psicodélico que produz repleto de confissões, entre reverbs e uma pista de dança intimista que não vê limites para a sua abstração. O disco, de fato, te convida para a imersão desde seu primeiro acorde criando texturas e um universo particular para comunicar tudo que o move, tanto no campo da mensagem como nos territórios sonoros que abrange.
Ao mesmo tempo que olha para o que vem de fora, são nos detalhes que vemos o quanto no entorno pop oitentista de Marina Lima o disco orbita. Algo que fica mais explícito em “Meu Todo Azul” que faz uma justa homenagem ao clássico Fullgás (1984). Até mesmo o fenômeno do “Jomo” (“Joy Of Missing Out” – prazer de ficar de fora), fenômeno recente que se opõe ao fomo (Fear Of Missing Out – FOMO – medo de ficar de fora), ganha uma música só para ele. Com camadas de sintetizadores, atmosfera dançante e vocais melódicos feitos para dançar sozinho no seu quarto sem abrir mão das luzes neon das festas.
As compressões de “Free To” também desafogam o lado mais experimental texturizado do álbum. O que deixa tudo ainda mais eletronicamente interessante com sobreposições de camadas e timbres delirantes. Esses ecos e curvas sonoras ao mesmo tempo que de natureza pop, ganham glitches e texturas que fazem com que o ouvinte navegue nesse oceano em “Lua Cheia, Cachorro Doido”.
Essa narrativa delirante ganha mais cores em “Amor ou Delírio” que automaticamente pelo título nos remete a “Amor Delirio” da paulistana Papisa. “Bye Bye”, já na parte final da obra, tem feat de Dinho Almeida, dos Boogarins, com direito a texturas delirantes, pop cintilante e intensidade nos ecos e cantos dos artistas que se sobrepõem em meio ao mar revolto de grande viagem psicodélica. Essa natureza experimental delirante desemboca na pungente com acordes que nos remetem ao som de uma cítara indiana na expressiva, misteriosa, ritualística e deliciosa “Johnny People” que fecha o álbum de forma grandiosa.
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45) obelga Último Ensaio Sobre Seus Olhos
Natural de Uberlândia (MG), o rapper obelga lançou seu álbum de estreia no fim de novembro pelo selo RISCO com direito a participações de artistas do calibre de Ana Frango Elétrico, JOCA, Tarcis, VND, dadá joãozinho, Murica Sujão, entre outros.
Seu rap é múltiplo e vai buscar para enriquecer sua sonoridade influências de sonoridades de R&B, Soul e Boogie, o que deixa sua aura como atemporal, entre arranjos acústicos e muita intensidade nas rimas.
Reflexões sobre a espera, a luta, a resistência enquanto artista independente, entre memórias da infância e a dinâmica das relações afetivas, se fundem na narrativa que também atravessa as suas origens e convívio mais íntimo. Um disco que assim como Boogie Naipe (Mano Brown, 2016) te convida para dançar na mesma intensidade que mostra o lado mais vulnerável sem filtros.
“Este disco é sobre relações que atravessam tempo e espaço, sobre o que a gente espera da vida e da música, e sobre como resistir e se manter íntegro nesse caminho. Cada faixa nasceu de uma vivência pessoal que se conecta com a vida de quem escuta”, afirma obelga no material enviado à imprensa.
Pirlo que assina a produção no disco destaca ainda a homenagem a referências clássicas: “A gente buscou inspiração em Quincy Jones, Isaac Hayes e Mano Brown, sintetizando essas influências com um toque pessoal, moderno e orgânico”. Contribuem na instrumentação nomes como Ryam Beatz, Bruno Mamede, João Viegas e Mackson Kennedy.
44) Tori Areia e Voz
De Aracaju (SE), Tori nos apresenta seu segundo álbum, Areia e Voz, com produção assinada pela artista ao lado do músico Domenico Lancellotti.
O material reúne parcerias com Nina Maia (“Areia e Voz”), Guilherme Lirio (“O Som de Quem Dorme Bem”), Francisca Barreto (“Discreta Paz”), Bernardo Bauer (“Repouso”) e Julia Guedes (“Rios Aéreos”).
É justamente esse lado íntimo, sensível e de se mostrar vulnerável que deixa sua construção leve, poética e com arranjos de cordas minimalistas.
Trocas com artistas, a literatura de Clarice Lispector e Allan Jonnes e revisitar discos do passado compõem o cenário contemplativo e denso da narrativa do disco.
“É um álbum em que busco materializar as paisagens que sonhei para cada canção. Esteticamente esse é um norte da produção musical: misturar o sublime, o doce da voz, e os ruídos. No disco há pássaros, sopros, suspiros, nuvens de texturas, ranhuras”, comentou a artista durante o lançamento.
43) Celacanto Não tem mais nada pra ver aqui
Viajando pelas ondas psicodélicas com referências que passam pelo indie rock e até mesmo o punk rock, o grupo que tem Miguel Lian em sua formação faz uma refinada estreia em Não tem mais nada pra ver aqui e entra em nosso radar.
Entre as referências diretas e indiretas do material estão nomes como Joy Division, Television, Talking Heads, Shame, Squid, Black Country New Road, Lô Borges, Milton Nascimento, Caetano Veloso, O Terno e Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo.
O disco é dividido em dois momentos estéticos: na primeira parte do álbum, o eu lírico reflete sobre o caos externo, trazendo para as canções temas como compreensão da existência num mundo acelerado, corporativista e capitalista.
Já o segundo momento é mais intrínseco e afetivo, voltado a um caos interno, revelando sentimentalismo e até dilemas românticos, conforme revela o release.
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42) D’água Negra SINAL VERMELHO VIDRO PRETO
O tempo passa muitas vezes num espaço onde acontece tanta coisa nos atravessa que nos perdemos um tanto pelo caminho. Para mim, nem parece que Erógena, ótimo EP de estreia dos manauaras da banda D’Água Negra já completa quatro anos.
SINAL VERMELHO VIDRO PRETO, disponibilizado pela dobra discos, com produção de Daniel Brita, marca a nova fase artística e faz uma boa salada no que diz respeito à forma de construir pontes entre a música contemporânea e o cotidiano. Com DNA brasileiro, o novo trabalho do trio incorpora referências de jazz, rock, soul, trip-hop, eletrônica e poesia.
Falar sobre o local, mas se sentir interconectado com um país de extensão continental fazem parte do entorno do disco. Essa tensão é o fio condutor da estreia do trio formado por Bruno Belchior, Clariana Arruda e Melka Franco. As pontes e conexões que só as artes podem fazer se estendem para a sua narrativa de forma ampla. Entre a poesia e as soluções sonoras, entre beats e referências literárias, a urgência de transformar essa erupção de sentimentos em algo minimamente tangível é perceptível.
“Corpo Quente” é um excelente exemplo, entre as trocas e fusões sonoras exploradas ao longo da odisseia sonora, as ondas eletrônicas, o groove, as quebras rítmicas, os vocais incandescentes se fundem a teclados que parecem saltar… entre sopros e a liberdade de quem nem por um segundo parece pedir passagem, apenas ocupa o espaço que lhe cabe.
É justamente no cotidiano e na expansão do universo de interconexão entre as artes que novas pontes são construídas conectando Manaus a Londres, ou onde eles permitirem que o som pode chegar. Um exemplo disso é “Underwater Love” que ao mesmo tempo que transborda o calor das ruas do Brasil se conecta com o trip-hop surgido no outro lado do oceano.
Harmonias, texturas, desabafos, hiperconectividade e a diminuição de fronteiras invisíveis permeiam a obra que não vê limites por onde os grooves podem nos levar. Seja em uma faixa mais lisérgica, em uma timeline que contempla um futuro possível, ou retornando as origens do que te faz correr atrás dos sonhos. É um alento para quem anseia por se conectar independente de quanto tempo isso seja necessário. Seu brilho está justamente nos detalhes e no refino de um disco que te convida para a pista de dança, entre delírios, epifanias e verdades intrínsecas.
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41) Tagua Tagua RAIO
Nos últimos anos, o gaúcho Felipe Puperi, também conhecido pelo projeto Wannabe Jalva, tem se dedicado integralmente ao Tagua Tagua. Em 2024, durante o lançamento do EP acústico Todo Tempo, tivemos a oportunidade de conversar com o músico gaúcho (leia a entrevista aqui). Em maio, ele apresenta RAIO, seu terceiro álbum de estúdio, lançado pelo selo norte-americano Wonderwheel Recordings. O disco conta com nove faixas e 26 minutos de duração, sucedendo os álbuns Inteiro Metade (2020) e Tanto (2023).
Gravado, escrito e produzido em seu apartamento no centro de São Paulo, RAIO mantém as influências sonoras que marcam o trabalho de Tagua Tagua: neo-soul, psicodelia e tropicália. Entre as referências citadas por Felipe estão nomes como Tim Maia, Cassiano, Bill Withers, Daft Punk e a banda indie francesa L’Impératrice, que se apresenta em breve no Brasil.
Uma das novidades do novo trabalho é a fluidez entre músicas em português e inglês. As transições do álbum acompanham o ciclo de um dia, do amanhecer ao anoitecer. A estética quente e solar é evidente tanto na capa multicolorida quanto na sonoridade groovada, características marcantes do universo de Tagua Tagua. O músico mantém sua identidade ao criar pontes sutis com seus trabalhos anteriores, refletindo sobre sensações, relações humanas e a busca por sentido.
A faixa “Dia de Sol” funciona como um portal de entrada para essa nova fase, conectando-se diretamente com Tanto. Já “Let It Go” mistura português e inglês em uma atmosfera dançante de disco music, com teclados pulsantes e arranjos modernos que fluem como o nascer de uma onda.
A faixa-título, “RAIO”, revela o lado mais espontâneo e errante do projeto. É um convite ao desconhecido, um chamado para buscar respostas sem medo de errar — entre o doce da descoberta e o amargo das falhas.
“Lado a Lado”, com White Denim, se destaca pela sofisticação pop, swing e camadas rítmicas cheias de texturas. A participação de James com o adendo da flauta adiciona um toque tropical irresistível, contribuindo para a identidade do Tagua Tagua.
A crítica à artificialidade das relações modernas aparece em “Artificial”, carregada de ironia e sintetizadores. A faixa mostra que nem todo groove precisa ser “good vibes” para ser impactante, usando autotune como ferramenta expressiva dentro de uma pegada disco retrô.
“Química” trata com leveza e bom humor das incompatibilidades afetivas. A música soa como uma confissão embalada por ritmos envolventes e letras com tom agridoce.
“Come a Little Closer” retoma elementos do álbum de estreia Inteiro Metade, com um clima nostálgico que dialoga com o passado. Aqui, o funk, os baixos marcados e os efeitos sonoros assumem o protagonismo.
Em “Talvez”, a melancolia se transforma em doçura. A faixa tem arranjos pouco óbvios, imersivos e percussões marcantes, com um riff cativante que gruda na mente.
Encerrando o álbum, “Rito de Passagem” é, segundo Felipe, uma conexão emocional com os discos anteriores. Trata-se de uma faixa delicada, quase espiritual, que encoraja o ouvinte a continuar mesmo diante das incertezas da vida. É o encerramento perfeito para um álbum que transita entre o íntimo e o universal, entre o claro e o escuro, com a esperança como ponto final.
Leia o faixa a faixa exclusivo feito pelo Felipe no Hits Perdidos
40) Joaquim Varanda dos Palpites
A estreia do cantor, compositor e instrumentista, Joaquim, aconteceu pela Coala Records. Varanda dos Palpites foi produzido pelo próprio artista ao lado de Marcus Preto e teve a sua construção realizada ao vivo com uma banda formada por Fábio Sá no baixo, Filipe Coibra na guitarra e Biel Basile na bateria. Tó Brandileone assina a mixagem, e Felipe Tichauer, a masterização.
“Nos interessava nesse álbum imprimir, de alguma forma, a sonoridade do meu voz-e-piano ao vivo em um arranjo de banda gravado. Acredito que as escolhas dos integrantes da banda e gravar a cozinha simultaneamente, somadas às mixes e masterizações sublimes de Tó e Felipe, foram dorsais pra chegar nisso”, disse Joaquim durante o lançamento.
Entre as referências de letristas citados ao longo dos lançamentos ele aponta os contemporâneos Tim Bernardes, Sophia Chablau, Paulo Novaes, Ana Frango Elétrico e Clarice Falcão. Além de clássicos como Beatles, Stevie Wonder, Elis Regina, Chico Buarque, Aldir Blanc, Os Mutantes.
Assim como Angela RoRo, homenageada no álbum com uma versão de “Fogueira”, e Rubel, que participa do disco na faixa “Falta”. O material ainda conta com a participação de Luiza Villa em “Me Conta”, faixa onde o músico explora a versão brasileira de “Something Stupid” de Frank e Nancy Sinatra. É justamente na delicadeza dos arranjos, entre o piano e a riqueza dos timbres que o disco com teor bastante íntimo vai crescendo para o ouvinte a cada nova audição.
39) Firefriend Fuzz / Blue Radiation
Com 20 anos de trajetória, o Firefriend é referência dentro do circuito de música alternativa brasileiro. Contando em sua formação atual com Julia Grassetti (baixo e vocais), Ricardo Cifas (bateria), Pinhead (synths e teclados) e Yury Hermuche (guitarra e vocais).
Com referências que passam por Sonic Youth, The Velvet Underground, The Brian Jonestown Massacre e Spacemen 3, o grupo lançou recentemente dois álbuns de estúdio de uma só vez, Fuzz e Blue Radiation, pelos selos Cardinal Fuzz (UK) e Little Cloud (USA) com direito a prensagem do décimo segundo registro de estúdio do grupo em vinil.
Fuzz (ouça) foi gravado em São Paulo em um período de apenas quatro dias no mês de dezembro de 2024 após meses de pós-produção e colaborações de músicos da cena paulistana. Já Blue Radiation (ouça), um álbum quase todo instrumental, foi gravado durante a pandemia, na garagem da banda em uma São Paulo estranhamente calma.
“O processo de composição do Fuzz tá muito ligado ao do Blue Radiation. Muitas das nossas músicas surgem de experimentos e jams, como as músicas que a gente lançou no Blue Radiation. Então a gente vai pro estúdio e vamos fazer uma jam. De lá saem ideias, ou às vezes um chega com uma ideia, uma guitarra, um baixo, uma bateria…
Às vezes chega com uma música pronta, mas depende também de como os outros integrantes da banda vão interpretar isso que você tá levando. Então o nosso processo de criação é em conjunto. A gente constrói as músicas juntos e muitas vem de jams.
Então o Blue Radiation e o Fuzz, apesar de eles terem sabores diferentes, eles estão muito relacionados. O processo de criação é muito semelhante. A diferença é que o Blue Radiation a gente tocou aquelas músicas uma vez na vida, gravou e lançou.
O Fuzz a gente tocou essas músicas milhares de vezes, arranjou, rearranjou, mudou de ideia, colocou voz, tirou voz… E produziu e gravou em um estúdio profissional. Tem essa diferença dos sabores, né? Mas eles se relacionam perfeitamente. E o processo de criação é muito semelhante, só depende da etapa em que cada um foi parando”, revela Julia Grassetti em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos.
Leia entrevista exclusiva no Hits Perdidos
38) Parque da São Ideograma
Um dos projetos mais interessantes e imersivos que chegou por aqui foi o duo carioca Parque da São. Formado por Arthur Bittencourt (ente, Ovo ou Bicho) e Julio Santa Cecília (DJ Guaraná Jesus, Relevo Espacial) com lançamentos sendo disponibilizados pelo atento Seloki Records, seu som mistura indie folk e psicodelia entre outras curvas sonoras.
Previamente foram disponibilizados três singles, sendo o último a ser revelado antes do álbum de estreia Ideograma foi “Estados Unidos”. A curta duração da faixa esconde a sua densidade e natureza soturna de fogueira no acampamento, com frequências alienígenas sendo captadas pelas frequências do rádio. E até por isso as referências de nomes como Sun Kil Moon, John Martyn e Jim O’Rourke, citadas por eles, fazem bastante sentido neste single.
Essa mistura de noite com natureza deixa tudo muito intenso, como eles dizem, até mesmo fantasmagórico, entre pensamentos intrusivos e questionamento. O violão, por sua vez, mostra que está tudo bem. A faixa ainda conta com a voz de Clarissa Cosenza para deixar tudo ainda mais denso… entre frequências mais baixas e provocações estéticas.
Com o lançamento do álbum completo, a Parque da São deixa claro o teor cinematográfico que norteia o material. O impacto da obra do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul serviu como inspiração estética para este disco que vinha sendo preparado ao longo de 3 anos.
Foram justamente as imagens e as trilhas das obras que ajudaram a construir sua narrativa, além, claro, do Rio de Janeiro, cidade em que residem, artistas contemporâneos como Alex G, Negro Leo e Animal Collective e o trabalho de sound design de Oneohtrix Point Never que mistura psicodelia e pop de uma forma bem atmosférica. Eles sintetizam dizendo que o álbum está entre o plano dos sonhos e de sentir as emoções intensas, feito uma meditação transcendental.
Contribuem no registro, o baterista Arthur Martau (Ant-Art, Simone Mazzer) e o baixo do produtor e multi-instrumentista Paulo Emmery (Jards Macalé, Antonio Neves, Tonton, Letrux), e arranjo de Ilan Becker (grãomestre) na canção que fecha o álbum (“Cerimônia”). A produção, mixagem e masterização do álbum são de Julio Santa Cecília, já João Fujioka, assina todas as artes envolvendo o lançamento.
O universo inventivo repleto de camadas, misturas e ambiências de seus outros projetos já dava um spoiler: entraríamos em uma grande viagem sensorial longe dos rótulos das prateleiras de discos. Com direito a provocações sonoras sinestésicas, como na faixa que abre (“Canção para Soytiet“), melancolia psicodélica folk (“Eco dos Homens”), concebida principalmente a partir da influência do disco de covers do Modest Mouse por Sun Kil Moon, como relatado pelos próprios integrantes.
Os delays e devaneios que flertam com a estética do Inspiral Carpets ganham cores nas telas sonoras de “Pira”. Já “Água Doce” ressoa como a brisa do sereno e as curvas dos ventos de forma quase meditativa. O eco das curvas sonoras, o silêncio e colorido aparecem na vívida faixa que dá título a obra que parece até abrir um portal. Já “Cerimônia”, segundo eles próprios ocupa um lugar central no conceito do álbum: representa o ápice da narrativa — o despertar da meditação transcendental.
“O trabalho dialoga com referências como o disco Baião de Princesas, do grupo A Barca, a música “Obatalá” da banda Metá Metá e com a fotografia de Luiz Braga, buscando criar uma ponte entre a pesquisa cultural brasileira e a linguagem sensível explorada por Apichatpong“, revelam os integrantes sobre “Cerimônia” que tem arranjos de Ilan Becker, um coro de vozes femininas que tem até a participação especial de Marita Graça, mãe de Arthur.
“Vazio” encerra a sessão meditativa explorando camadas mais leves e fechando o ciclo de reencontro com o seu lado mais sensível… agora finalmente em harmonia.
37) Molho Negro VIDAMORTECONTEÚDO
Molho Negro chega ao seu sexto álbum de estúdio com VIDAMORTECONTEÚDO, primeiro lançamento em parceria com a DeckDisc. 13 anos não são 13 semanas — muito menos 13 dias. É inspirador ver projetos longevos no cenário independente brasileiro — ainda mais quando o foco é o som alternativo. Assim como Gabriel Thomaz, com seus Autoramas, João Lemos é um dos operários do rock nacional e mantém a postura íntegra em não renunciar a fazer o som que gostaria de ouvir, independente do quão longe ele pode ir.
Atualmente formada por João Lemos (vocal/guitarra), Raony Pinheiro (baixo) e Antonio Fermentão (bateria) — que grava seu primeiro disco com o grupo — o novo trabalho de estúdio é questionador e reflete a realidade de centenas de artistas ao redor do país. Discute temas sensíveis que geram inseguranças e que mexem com a autoestima de quem se dedica à arte como ofício (ou que gostaria que fosse sua única fonte de renda).
No meio disso tudo, os coaches, fórmulas mágicas, pressão por números, obrigação de ter que gerar conteúdo (“Ou você morre fazendo arte, ou vive o suficiente para virar criador de conteúdo”) e autossabotagem aparecem no retrovisor. Não é à toa que VIDAMORTECONTEÚDO se faz necessário justamente por falar sem travas a respeito das doenças mentais. Partindo do ponto de millennials, mas sem deixar de conversar com outras gerações que têm que lidar com males como ansiedade e depressão desde muito cedo. Questiona até mesmo essa indústria movida a dopamina e relembra como podemos ser frágeis. Entre ambulâncias que tocam sirenes, tentativas de fuga de notícias pesadas, paranoias, cobranças, julgamentos externos e a necessidade de desconexão, o disco alterna entre momentos cortantes e outros em que suplica.
As experimentações também são um ponto-chave de conectividade que o disco permite. Aliás, se fosse resumir o álbum, diria que a frase pronta “desconectar para se conectar” ganha vários sentidos ao longo do seu andamento. Pois além de refletir sobre uma sociedade cronicamente online, também nos relembra sobre a importância de lapidar a arte. O que a faz gerar identificação e soar mais humana, menos algorítmica. O exercício de autoconhecimento e o observar do seu entorno, se fazendo necessários. Ou deveriam ser para conseguir produzir algo que nos fizesse sentir mais, consumir menos, ou como gosto de dizer: nos sentir menos consumidos.
‘Se não der em nada, tudo bem, a gente toca pra ninguém’, verso de ‘Sem Sinal’, é talvez um dos mais fortes do disco. Tanto para falar sobre a realidade do redimensionamento do rolê da música, mas também sobre a luta para existir, seja como CPF ou CNPJ.
Já “Espraiada” é das mais sensíveis, não só por ser extremamente confessional ou por optar por voz e violão, mas por traduzir sentimentos como inércia, apatia, solidão e se sentir fora do tom. O verso “Só o que vende é a vaidade” é daqueles desabafos de quem olha para o entorno e não consegue ver verdade no que é feito de plástico, edits e narrativas perfeitas para a rede social.
A angústia, a bateria social, a ansiedade de pertencer a algo, de ter que ter uma opinião, de precisar se informar sobre a vida de pessoas que nunca saberão da sua existência ou serão de fato presentes na sua vida, aliadas a comparações amplificadas por parte de realidades que nem sempre existem como são contadas, acabam afetando quem sucumbe a hiperconectividade. O disco, apesar de questionar até mesmo o funcionamento do cenário musical, também ressoa como uma cartela de escitalopram para aliviar a pressão da rotina de trabalho, retratar o desolamento e em certos momentos pedir até mesmo ajuda.
Gosto de sentir que o espírito de quem ama rock, punk, garagem, hardcore, continua presente lá, mas que assim como o consumo por novas referências, permite experimentações eletrônicas que, por sua vez, podem levar toda essa força de insistir em fazer música independente dos obstáculos e estender a mão para conversar com uma nova geração que não está mais interessada em rótulos de prateleira, mas em sentir que pertence a algo, ou que aquela música vai agregar algo na sua vida. Seja calmaria, ódio, felicidade, conflito, explosão.
O lado irônico continua presente na banda paraense, mas eles não fogem quando o assunto é falar sobre assuntos sérios. “Bombas & Refrigerantes” é reflexo disso e até resgata a frase “lembra quando a gente era tudo amigo” em uma música ironicamente dançante que faz uma série de analogias sobre mudanças, afastamentos e feridas abertas.
Depois de se desconectar, agora é chegada a hora de se conectar. E nada como shows viscerais e com presença para tudo se justificar. Se nos encontramos na música, ter assistido ao show do Molho Negro com o Jair Naves no Festival 5 Bandas, foi como um respiro de duas gerações de artistas que ainda prezam pela conectividade além das telas e notificações.
36) Partido da Classe Perigosa Práxis
No ano em que nos despedimos do Planet Hemp, ouvir um disco tão rico em mistura e crítica social como o Práxis, do Partido da Classe Perigosa, é daqueles respiros que a música subversiva nos proporciona. Para ter uma ideia, no disco os cariocas misturam hardcore, música eletrônica, funk carioca e o punk.
Nas devidas proporções, sua sonoridade dialoga com grupos como Sleaford Mods, mas também carregando críticas ao capitalismo tardio. Uma simbiose de gêneros e narrativa rica que transborda os problemas sociais de um país desigual, entre dissonâncias, bom humor e uma pitada de acidez que te leva para “o baile” do submundo. Som altamente recomendável para fãs de projetos como Tantão e Os Fita.
“A identidade sonora do Partidinho nasceu da necessidade de se fazer um som dançante, pesado e que representasse a vida da classe trabalhadora no contexto do capitalismo tardio sem a necessidade de estar em um estúdio com todos os integrantes presentes”, contam os músicos, em entrevista exclusiva ao site Escotilha.
35) AJULIACOSTA Novo Testamento
De Mogi das Cruzes (SP), AJULIACOSTA apresentou o álbum NOVO TESTAMENTO ainda em setembro pela EMPIRE. O material reúne parcerias com nomes de peso como KL Jay e Mu540. Ao longo do seu andamento, mistura sonoridades como o boom bap oitentista e o trap com críticas ácidas em meio a uma revolução que olha para dentro para externalizar as emoções de uma jovem artista ainda nos seus vinte e poucos anos.
“O Que A Júlia Vai Ser” talvez seja a faixa que condense a natureza do álbum. A faixa ganhou um audiovisual repleto de bom humor que ilustra bem sua nova fase artística.
“Eu sabia que eu precisava apresentar algo novo e foi um momento de desapego na minha vida, onde eu precisava reaprender comigo, estudar qual era meu processo e fazer as coisas com um pouco mais de consciência. Durante esse meu tempo no rap, as coisas só foram acontecendo e quando você para pra fazer álbum, é preciso realmente colocar intenção no que está fazendo. Ele reflete um momento muito intenso de autoconhecimento, em que eu redescobri o que eu gosto musicalmente, como as coisas fluem em mim, e reconheci o que é inspirador.
O Novo Testamento fala de uma revolução, tá ligado? E eu considero revolução uma parada muito pessoal. O que é revolução pra você? O que é revolucionar? Às vezes, pra alguém é simplesmente fazer uma coisa que ela gosta, pra outra pessoa é realmente ter mais consciência social, isso é revolucionário. Na faixa ‘Até Sob a Luz do Seu Olhar’ falo de um amor diferente. Um tipo de amor em que eu vou te amar, eu vou estar aqui pro que você precisar, mas eu não vou ser essa mulher que vai ficar dentro de casa, na sua sombra. Eu acho que isso é revolucionário”, comentou a artista durante o lançamento.
34) Chediak Música Elétrica
Confessional por natureza, Chediak, em Música Elétrica tenta contar a história de como a música eletrônica lhe deu voz para expressar seus sentimentos e outras coisas que ele não conseguia comunicar para o resto do mundo.
Entre as vertentes que o disco atravessa estão gêneros musicais como UK Garage, Baile Funk, House, Drum’n’Bass, Ambient, Dubstep, Jungle, Jersey Club e Techno.
A respeito disso, ele mesmo revela que tentou usar a música eletrônica não apenas como estética, mas como linguagem para dar voz a tudo isso.
O disco começou a ser desenvolvido ainda em 2017, quando Chediak lançou seu primeiro EP (Moments Spent With You) e vem do sentimento de criar algo que refletisse sua personalidade e não apenas seu gosto musical.
Sua jornada levou anos, entre acertos e erros, muitas ideias e horas dedicadas ao seu aperfeiçoamento. Em 2024, após perder o pai, ele decidiu finalizar o disco reimaginando como tudo começou. O disco sendo resultado de um longo processo que abrange toda a sua vida artística. Trazendo consigo uma sensibilidade notória ao longo da sua construção.
33) Pedro Emílio Enquanto os Distraídos Amam
Misturando pop, indie, música urbana e MPB, com direito à produção de Matheus Stiirmer, Pedro Emílio lançou em maio o álbum Enquanto os Distraídos Amam.
Entre as inspirações para o registro, o músico revela que histórias alheias e momentos corriqueiros se transformaram em canções cujas letras refletem dores e desejos universais.
No campo artístico, ele cita referências como Tom Misch, Men I Trust, Tuyo, Djavan e Gilberto Gil.
“Gosto de pensar que de qualquer conversa, existe a possibilidade de nascer uma música, um texto ou até mesmo uma frase intrigante.
Eu dei atenção a distração das pessoas ao meu redor.”, diz Pedro
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32) Vovô Bebê Bad English
Quem voltou a lançar discos foi Vovô Bebê ao lado de um time de artistas do calibre de Ana Frango Elétrico, Guilherme Lírio e Biel Basile (O Terno).
Dessa vez o compositor, arranjador e produtor carioca transita entre vertentes do rock e a estética dos anos 1990 em um disco em inglês. O material tem a produção de Chico Neves.
“Esse disco é como uma volta no tempo, uma espécie de retorno ao período em que eu me formei musicalmente, que no caso foi na minha adolescência nos anos 90.
Na verdade, é um recorte bem específico de uma época: Rádio Cidade, grunge, Gugu, Spice Girls, bandas gringas e o rock nacional com suas misturas inusitadas. Odelay do Beck. Inclusive muitos trabalhos produzidos pelo Chico.
O resultado não é exatamente esse, é mais uma sensação estética que eu me permiti revisitar e usar como guia na hora da produção, depois de mais de 20 anos. (Ou seja: é outra coisa!)”, resume Vovô.
31) Stefani BUNMI
Apesar de 20 anos de carreira e mesmo sendo referência no rap, a rapper do ABC paulista Stefanie lançou seu primeiro álbum de estúdio BUNMI pelo selo JAMBO, e com patrocínio da Natura Musical, apenas em 2025. Com origem no idioma iorubá, o nome “BUNMI” significa “meu presente”.
A direção do álbum é do Daniel Ganjaman (Criolo, BaianaSystem, Planet Hemp) e Grou, e entre as participações estão Emicida, Luedji Luna, Rashid, Ana Tijoux (Chile), Kamau, Rodrigo Ogi, Rincon Sapiência, Iza Sabino, Jonathan Ferr, Mahmundi, Nega Gizza e Cris SNJ.
“O disco é a celebração de cada passo que dei, das batalhas que venci e dos sonhos que ainda estou conquistando. Conseguir chegar até aqui, com certeza, é uma das minhas maiores vitórias.
Este álbum é meu presente para o mundo, fruto da minha história e da minha alma. Cada verso carrega um pedaço de mim, e eu espero que ele toque quem ouvir, assim como ele me tocou ao ser feito. Cada vivência e cada passo que dei contribuíram para a formação da artista que me tornei e para o que este trabalho representa”, disse Stefanie durante o lançamento.
30) Jadsa Big Buraco
Natural de Salvador (BA), Jadsa lança seu segundo álbum de estúdio, Big Buraco. Após disponibilizar Olho de Vidro (2021, Natura Musical/Balaclava Records), a artista se envolveu em outros projetos. Entre eles o EP Zelena (2023), em parceria com YMA, e os trabalhos ao lado de João Milet Meirelles sob a alcunha de TAXIDERMIA – o EP OUTRO VOLUME (2021) e o álbum Vera Cruz Island (2024).
Seu talento como produtora e compositora também aparece em colaborações com outros artistas. Jadsa participa da composição da faixa “Um Choro”, do EPDEB, lançado em 2022 por Juçara Marçal; e a produção musical de “Empírica”, quarta faixa de Sal, disco de Anelis Assumpção.
O resultado da obra tem elementos que mostram como essa maturação ao compor tem levado a baiana para novos horizontes, longe de rótulos ou de caixinhas mercadologicamente pré-estabelecidas pelo mercado brasileiro. Este que muitas vezes é careta. Em muitos casos, artistas acabam jogando no seguro ou miram em virais para tentar ter algum tipo de retorno dentro desse “sistema” – o que geralmente causa frustração justamente por não os levar ao (tão relativo) sucesso.
No release escrito pelo jornalista conterrâneo Pedro Antunes de Paula, podemos compreender um pouco mais sobre os processos artísticos e questionamentos que Jadsa imprime no disco. Desde o sentimento de não poder errar, a também como a experiência com outros músicos contribuiu para que ela pudesse estabelecer novos métodos de produção.
Big Buraco traz consigo um processo acelerado, mas que aproveita o frescor e imersão de quem trabalhou ao seu lado. O processo ao todo durou sete dias, no Estúdio Wolf, na capital carioca, por lá, ela ao lado do produtor Antonio Neves apresentou as canções para um time de músicos nas vésperas, e quase de improviso apertou o REC.
Esse processo orgânico, como ela mesmo reflete, foi uma escolha. Assim como se aproximar ainda mais do popular, desde intérpretes da MPB, como Elis Regina, a ícones atemporais da composição, como Itamar Assumpção e Dorival Caymmi, ao pop dos anos 90 e 2000. Este desapego do abstrato, experimental e alternativo, por sua vez, é um desafio à parte. Quem acompanha música sabe muito bem como produzir hits ou ao menos canções que entrem no imaginário popular é um desafio que deveria ser mais valorizado.
Tanto é que o novo disco da Jadsa faz um passeio pela MPB, neo-soul, samba, reggae, hip-hop e até blues em seu escopo. O que ressalta como ela está antenada à forma de consumo da música na atualidade e como a conexão hoje em dia se dá por outros laços além das antigas prateleiras das lojas de discos.
Cair num buraco sem saber o que vai encontrar pela frente. Definitivamente algo de que não se sai ilesa. É essa forma que após algumas audições do disco você vai digerindo toda digressão e camadas que Jadsa rege a sua pequena orquestra. Dos sons da boca aos sopros, seu som se amplifica nesse disco indo do popular ao sofisticado sem fronteiras ou medo de errar.
“Eu tenho várias vozes dentro de mim. Como vou falar de Itamar Assumpção sem prestar atenção nas sílabas? No big buraco, se estou falando de vida, de amor, eu precisava cantar. Senti a necessidade de ser inteira na canção”, comenta a artista que completa 10 anos de carreira
Ironia, amores, brincadeiras com a musicalidade e as sílabas enriquecem a narrativa de um disco que expande a interpretação para que o ouvinte navegue por suas entranhas. Sua trajetória íngreme por natureza, ganha 12 capítulos divididos em faixas que aproximam ainda mais suas vivências e intimidade com quem se dispõe a ouvir – em um mundo onde todo mundo quer falar e poucos se permitem a atenção da escuta.
Talvez o big do disco seja justamente como a cada audição ele vai crescendo. De poder reparar em todas as texturas e arranjos que os músicos caprichosamente escolheram. “big bang”, por exemplo, tem um nível de polimento, desenrolar e aconchego poético que salta os olhos. “tremedêra” com muita esperteza usa a sonoridade das palavras, assim como Djavan, para criar imagens no inconsciente de quem dá o play em um (quase) reggae com arranjos tão sofisticados quanto o de um jazz.
“sol na pele” ecoa amor do começo ao fim de forma carinhosa, repleta de desejo e lembrando as subidas e descidas de Salvador, como se fossem as curvas de um corpo. Entre batidas do Olodum, a poesia de Caetano Veloso como trilha e o balançar desenfreado de uma paixão.
“mel na boca”, por sua vez, cria imagens no horizonte mesmo sendo curta, com direito a percussão marcante e o convite para se aventurar. Serve como uma espécie de introdução para entrar de cabeça no “big luv” que vai do groove passando pelo jazz, soul, experimental, MPB e o pop. Esta dialoga com “tremedêra” e mescla versos em inglês e português.
“no pain” é das mais dramáticas do álbum, onde o amor antes idealizado dá lugar a desilusão. A mistura rítmica também é marca da faixa que faz uma conexão, e diminui ainda mais, as fronteiras entre a música latina. Seu trompete lembra até mesmo o choro de um mariachi desiludido.
Lembra que falamos que os projetos que Jadsa se envolveu acabaram contribuindo para que sua habilidade enquanto compositora ganhasse ainda mais horizontes? É exatamente esse caminho que “1000 sensations” nos leva através das ambiências e de sua composição provocadora. Talvez uma das coisas mais interessantes do disco seja justamente como ele te convida a dialogar, refletir, chorar e dançar.
“big mama” usa a cacofonia como recurso mais uma vez e tem seu norte em um groove espacial quase tridimensional. Sob as ondas ancestrais do reggae, “your sunshine” segura as pontas para realinhar a órbita. A conexão com as raízes, e identidade, transparece na faixa através das batidas tribais e sua oratória que ressoa como um grande mantra.
O samba dá às caras já no apagar das luzes do álbum em “samba pra Juçara”. O que mostra a versatilidade de brasis que compõe as referências da artista baiana. Samba, bossa nova, jazz, groove e o vocal como um instrumento à parte servem como combustível para o remelexo.
Quem fecha os trabalhos é “big buraco”, faixa que exalta a brasilidade e o navegar para dentro. O que sintetiza, de certa forma, com maestria a experimentação proposta pelo segundo disco de estúdio da soteropolitana.
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29) Jonas Sá _MNSTR_
Jonas Sá neste ano lançou sua primeira música inédita em 7 anos, “DEUS”, viajando pelas ondas do Funk-Soul. Antes de disponibilizar seu quarto álbum de estúdio, _MNSTR_, ele revelou “DE SENTIR VOCÊ”, um folk-blues lisérgico.
Em sua companhia ele tem uma super banda com Alberto Continentino, no baixo acústico, Donatinho no piano, Marcelo Callado na bateria, Thomas Harres e Pedro Fontes, nas percussões, e Thiago Nassif no dobro e violão de aço.
Jonas, além de conduzir a canção com seu violão de nylon e cantar, também toca sintetizadores e coros por cima de uma base toda gravada ao vivo no estúdio. A produção é assinada pelo trio Jonas Sá, Ricardo Dias Gomes e Thiago Nassif, enquanto a mix (divina) é novamente assinada por Mario Caldato Jr.
Segundo o músico, a música fala sobre a importância de se cercar de pessoas queridas para lidar com um mundo violento e impiedoso e ressalta sua esperança na cumplicidade, no companheirismo e no amor. Ecos dos anos 1970, e grandes nomes, como Luiz Melodia, serviram como inspiração para a parte lírica. É na sua sensibilidade, narrativa e arranjos que abraçam o ouvinte, que a canção cresce e reflete a engenharia dos tempos bem longe dos algoritmos. Cravando a mensagem que os Beatles lá atrás já ecoavam aos quatro cantos.
No disco ele atua como uma espécie de crooner, indo do politizado ao cinematográfico, explora diferentes frequências e traz consigo referências de diferentes locais feito colagens sonoras de quem domina a arte de ver beleza em pequenos fragmentos da música pop produzida ao longo das décadas. São crônicas urbanas do cotidiano, entre seus percalços e aclives, distorções e dissonâncias, um retrato da arte feita por um cancioneiro. Tem espaço para o groove do blues, para o experimental quase punk, para uma balada em espanhol (“TU HOMBRE”), para arranjos mais dançantes, psicodelia, melodrama e cadência.
28) Winter Adult Romantix
A paranaense Samira Winter, atualmente radicada nos EUA, parece a cada novo lançamento subir o sarrafo na qualidade e amadurecimento das suas obras.
Mantendo a identidade DIY, e referências do indie rock, shoegaze e dream pop com aura pop.
O material tem como inspirações memórias e os romances de Mary Shelley.
Suas referências passam por nomes como Sonic Youth, Elliott Smith e o shoegaze californiano.
Uma viagem delicada e gostosa de se ter, entre romances e guitarras distorcidas adocicadas.
Recomendado para quem gosta de: terraplana, Personas, lento, distante.
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27) Valentim Frateschi ESTREITO
Um dos músicos mais ativos, e promissores, da nova geração paulistana, Valentim Frateschi, lança pela Seloki Records seu álbum de estreia. ESTREITO reúne nove faixas criadas pelo compositor, produtor e arranjador ao longo dos últimos cinco anos. E talvez seja por isso que o álbum saia do lugar-comum citado em “Meu Contato”, faixa que no disco tem participação de Sophia Chablau.
Há espaço para a MPB, o jazz e a experimentação, o que vem sendo uma marca do coletivo de músicos que orbitam à sua volta, o que acredito ser algo muito alinhado com a forma que consumimos música hoje em dia. A máxima de “faça o som que gostaria de ouvir”, nunca fez tanto sentido como faz para essa geração. E como ávido consumidor de música, só resta aplaudir a audácia.
O músico mesmo afirma que a motivação para o título vem justamente da semântica e metáfora que encapsula não apenas o álbum, mas o momento existencial da trajetória sonora para se chegar ao presente. Por essa razão, o caminho “estreito” surge em seu horizonte como um campo de passagem… necessário e urgente para a transmutação.
Sempre falamos por aqui que discos não escolhem momento de lançamento. A maturação das composições não necessariamente é algo linear, embora o momento de despejar no mundo, uma hora tem que chegar. “Pássaro Cinza”, “Corpo Colado”, “Estreito” e “Mau Contato”, por exemplo, vieram desse contexto fragmentado, desde a concepção, a finalização dos arranjos que se transformaram ao longo do tempo (2019 – 2022).
Em tempos de centenas de milhares de estratégias de lançamento, o incontrolável orgânico ainda acontece. “Falando Nisso”, feat. com Nina Maia, é a prova disso. Ela foi a primeira a ser gravada e foi lançada ainda em 2023 como single – sem necessariamente ter o contexto do disco, sendo incorporada ao trabalho apenas após um tempo.
É dessas imperfeições e experimentações que o disco faz o que gostamos tanto: se permitir. E você sente ouvindo que se tivesse mais tempo, as soluções poderiam mudar. Essa lógica que coloca o artista x qualquer mandamento do mercado que faz de trabalhos assim tão genuínos. Vinhetas como “flnd”,” novo espaço”, e “Colado”, são resquícios do processo de gravação.
Ao todo são 25 minutos de duração, com colagens sonoras interessantes e passeios por territórios que misturam na timeline mental do ouvinte um misto de nostalgia, desamparo, ansiedade e ânsia pelo futuro. Talvez os males silenciosos que dão a tônica para o mundo moderno. Entre esses caminhos estreitos que temos que passar ao longo do nosso amadurecimento pessoal existem curvas sinuosas, síndromes do impostor e muitos fantasmas. E não é fácil, todos sabemos. As provas aparecem a todo momento e esses estreitos ao longo da vida parecem ficar ainda mais desafiadores. Mas a gente acostuma e tem que dar nossos pulos.
Como inspirações na composição, Valentim cita nomes como Vovô Bebê, Maurício Pereira e Ana Frango Elétrico. Já no campo das referências para a sonoridade a mistura de ritmos e timelines atemporais aparecem: “vejo o disco como um cruzamento entre João Donato, Jards Macalé e Arthur Verocai com Crumb, BADBADNOTGOOD e Yellow Days”.
26) Fernando Motta Movimento Algum
Destaque da cena mineira, o cantor e compositor Fernando Motta lançou em maio seu novo disco com produção de Thiago Klein (Quarto Negro, Apeles) e participações especiais das bandas terraplana (PR) e Paira (MG).
O disco ainda contou com nomes como Lucas Gonçalves (Maglore) no baixo, e Roberto Kramer na masterização.
“As parcerias abraçaram de forma decisiva todo o conceito estético do disco. Independentemente do propósito de trabalharmos juntos, estamos sempre ouvindo música juntos, compartilhando descobertas musicais.
Isso facilitou para que tudo fluísse melhor e soasse coeso com todas as ideias que eu já vinha tendo”, revelou Motta durante o lançamento.
Se você procura por guitarras raivosas, sintetizadores e pianos em um universo que mistura dream pop, shoegaze, jangle, slowcore, pós-punk e flerta com música eletrônica e o dance noventista talvez seja um material para mergulhar com calma.
25) Catto CAMINHOS SELVAGENS
Catto retorna em 2025 com seu quinto álbum de estúdio, CAMINHOS SELVAGENS, um trabalho que marca uma virada sonora e emocional em sua trajetória. Após o sucesso de Belezas São Coisas Acesas por Dentro (2023), que rendeu uma turnê nacional em tributo à icônica Gal Costa (1945–2022), a artista agora mergulha em um universo mais denso, cru e roqueiro — sem abandonar sua sensibilidade poética.
Sete anos após seu último trabalho autoral — indo na contramão das pressões do mercado — Catto apresenta CAMINHOS SELVAGENS. Com 15 anos de trajetória na música independente, a artista materializa, nesta nova fase, um registro que estende sua linguagem para o campo cinematográfico, expondo suas feridas sem medo de julgamentos.
Nascida em Lajeado e criada em Porto Alegre, a artista se despe em “PARA YURI TODOS OS MEUS BEIJOS”, faixa que funciona como um tributo às memórias, lugares e romances vividos por lá. Essa visceralidade é a marca mais forte do disco, que reúne oito canções inéditas.
A produção musical é assinada por Catto ao lado de Fabio Pinczowski e Jojo Inácio, parceiros de longa data. Toda a carga dramática e suas ambiências são resultado de um longo processo que começou com demos gravadas em seu próprio celular, amadurecendo até alcançar a intensidade orquestrada da versão final.
Esse cuidado contribui para a jornada do álbum, conferindo-lhe cores esperançosas, mesmo após uma trajetória marcada por dores, transformações, distanciamentos e as cicatrizes deixadas pela pandemia.
As referências sonoras vêm diretamente do rock alternativo dos anos 90, com guitarras sinuosas e atmosferas etéreas que guiam essa guinada mais pesada em relação aos lançamentos anteriores. É possível associar o álbum a nomes como The Smashing Pumpkins, The Cranberries, R.E.M. e Radiohead, cujas influências teatrais são incorporadas neste novo trabalho.
Compositora de praticamente todas as faixas, Catto imprime intensidade nos versos, que ganham vida própria. Para quem já assistiu a suas performances ao vivo, sabe como a interpretação nos palcos eleva ainda mais o trabalho. A única faixa composta em parceria é a que dá título ao álbum, “CAMINHOS SELVAGENS”, escrita em colaboração com César Lacerda.
CAMINHOS SELVAGENS foi gravado no Estúdio 12 Dólares (SP), por Fabio Pinczowski, Tofu Valsechi e Pedro Serapicos. O disco conta com participações de músicos como Michelle Abu, Felipe Puperi (Tagua Tagua) e Gabriel Mayall, Bruno Silveira e Magno Vito. A mixagem é de Tiago Abrahão (Make Love Studio – SP) e a masterização de Brian Lucey (Magic Garden Mastering – Los Angeles).
A cadência do desenrolar do disco é o que mais impressiona. Em outros tempos, poderia ser chamado de ópera-rock — termo que remete a medalhões de outras épocas —, mas sua construção evidencia uma jornada de cura. De forma onírica, Catto não tem medo de se expor, de seguir na contracorrente do pop e de se reinventar. A maneira como aborda o prazer e suas dores, sem pudores, revela como as cicatrizes continuam presentes e servem de força neste processo de cura.
As fases da jornada ganham forma em oito cenas cinematográficas. A faixa “EU TE AMO” ganhou um videoclipe dirigido por Juliana Robin, que retrata um hotel típico das beiras de estrada, sintetizando o espírito louco e desenfreado das paixões derradeiras. O clima de tensão, a experiência do desconhecido e a intensidade se desdobram em versos desesperados que transbordam.
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24) Walfredo em Busca da Simbiose Mágico Imagético Circular
Três anos depois de Self, Walfredo Em Busca da Simbiose, projeto do artista paulistano Lou Alves, aparece no horizonte com seu Mágico Imagético Circular. Repleto de narrativas poéticas, o conceito do disco gira em torno da não linearidade, tarô, literatura e filosofia. Sonhos, metafísica, vivências e experimentações artísticas, entre a solidão e o pertencimento recaem quando evoca seu lado artístico com sinceridade em sua odisseia.
Produzido majoritariamente em casa, contou apenas com participações pontuais de músicos próximos, Dizzy Vargas (synths), Uiu Lopes (baixo e voz em “Zum Zum Zum”), João Lopes (bateria) e Pedro Lacerda (bateria). A produção, arranjos e mixagem ficaram por conta do Lou, captações das baterias na Matraca Records por Fernando Rischbieter e Pedro Vince, e masterização por Pedro Vince.
Suas referências dão mesmo o ar de refino e busca pela atemporalidade, não é por acaso que cita Mutantes, Rita Lee, Gilberto Gil, Jorge Ben, Pink Floyd e David Bowie como grandes inspirações. Sua própria vida acaba tendo resquícios, e cicatrizes, nas músicas como o próprio Lou revela em algumas com um teor ainda mais sentimental e afetuoso.
“Rita Lee”, segundo single, fala, por exemplo, sobre sua condição de “ovelha negra” na família, transformando dificuldade em afeto. Já “Zum Zum Zum”, parceria com Uiu Lopes, evoca a brasilidade de Gilberto Gil, cheia de trocadilhos e humor.
Até por isso a música como ferramenta de cura, entre a solidão, as decepções e a ressignificação de momentos ganham tanta forma em um trabalho em que o artista se debruça sobre si para se reinventar. O resultado, por sua vez, ressoa no ouvinte justamente por essa carga energética de desprendimento e atenção cirúrgica nos detalhes e curvas sonoras que o trabalho reluz.
São camadas sonoras que recaem como a trilha sonora de alguém que busca por seu espaço e ressignificação em meio a lugares e ambientes onde nem sempre se sente parte mas que ao olhar por um novo ângulo se vê pronto para criar novas memórias. Essa linha atemporal que permeia o álbum é algo de se destacar. Algo tão simples e humano que nem sempre damos tanta atenção como merece.
Um disco que pode ser ouvido daqui uma década sem perder sua força motriz, sua sensibilidade assumidamente pop e com foco na experiência do ouvinte. Diferencial esse que conseguimos justamente observar em discos clássicos que o material se espelha. Tudo isso de forma que converse com as elucidações e horizontes sonoros que o artista almeja trazer para a órbita da obra.
Em um mundo contemporâneo marcado pelo afastamento da hiperconectividade e raso das relações, Lou olha para dentro para descobrir respostas para dilemas que vão muito mais a fundo do que apenas escolher temáticas e criar uma narrativa linear. São fragmentos do cotidiano, entre seus momentos de esperança, destempero, quebra de padrões, entre alívios cômicos e reaproximação dos corpos no plano metafísico. Até por isso, os desejos, contradições e as tentativas de reconexão se veem tão fortes no horizonte.
Sua linguagem acessível, visceral e adocicadamente pop, deixa toda essa experiência de vulnerabilidade ainda mais tangível para quem vive neste grande planeta azul. O fator não-linear se confunde com nossas próprias memórias que muitas vezes não contemplam uma timeline reta e que em nossa mente ressoam como uma série de eventos que nos levaram até aqui. Tudo junto e misturado, feitas as memórias que fazemos pelo caminho do que chamamos de vida.
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23) Pedro Bienemann Ondas de Choque e Calor
Dos lançamentos mais aguardados da nova música brasileira definitivamente está Ondas de Choque e Calor, do Pedro Bienemann.
Para quem acompanha suas outras empreitadas musicais, em projetos como a 131, ao lado de Lumanzin, o talento como compositor e arranjador não é uma novidade… e poder ouvir com antecedências este lançamento que aconteceu oficialmente no dia 14/08/2025 foi um privilégio que tivemos.
A estreia solo vem pelo selo Matraca Records e conta com a produção musical conjunta entre ele próprio e Fernando Rischbieter, com coprodução do baterista Pedro Lacerda.
Até por isso a versatilidade em ir com facilidade da MPB para o rock psicodélico, do eletrônico ao analógico, é algo esperado. A construção dos arranjos, transições sonoras e a coesão, por outro lado, chamam bastante a atenção.
“Eu trabalho com música e arte desde muito novo e os meus maiores mestres e mestras sempre foram os amigos e amigas que fiz ao longo dessa caminhada e tive o privilégio de trocar conhecimento. Essa coisa de tocar vários instrumentos se deu a partir daí, dos convites de tocar com pessoas e linguagens novas, instrumentos novos, muitas vezes coisas que nunca tinha feito e isso vira bagagem pra tudo que eu faço no meu trabalho solo, tanto esteticamente como poeticamente falando”, comenta Pedro.
Os timbres, a criatividade e as soluções evocando ambiências, mostram caminhos e experiências sonoras que podemos classificar como etéreas. Entre escalas diferenciadas, construções ricas, suas progressões e letras que miram no pop de outrora. O próprio material questiona o fenômeno da exaustão geracional, a busca por se destacar na multidão, pela autenticidade em um mundo cada vez mais robótico e o amor como refúgio ecoam como temas em um trabalho memorável.
O material conta com duas faixas com participações especiais, “Não Te Falta Nada”, cujo arranjo de cordas foi desenhado por Lumanzin e “Um Sinal”, onde divide os vocais com Curumin.
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22) Oruã Slacker
O quinto álbum de estúdio da Oruã finalmente ganha o mundo. Imerso entre as idas e vindas para o exterior, o material tem a produção do guitarrista do Built to Spill, Jim Roth.
Essa energia psicodélica, cheia de efeitos de pedais, aliada a vocais sussurados e dinâmicas que estimulam o desconexão, sua construção vai envolvendo o ouvinte a cada camada e progressão de acordes.
“Mexico Suite” conversa até mesmo com a natureza disruptiva de grupos como Sonic Youth. Esses aclives, entre guitarras mais acachapantes e curvas dissonantes, entre reverberações e sopros na linha mais intensa que bandas de Jazz Punk, como The Cravats, utilizam como recurso deixam tudo mais transgressor e latente.
Raiva, intensidade, crítica social e quebra de paradigmas permeiam sua narrativa, entre um descompasso, uma compressão e efeitos de pedais.
Elementos de noise, afrobeat, lo-fi indie rock e psicodelia se fundem a referências da plural e agregadora música brasileira, talvez o maior diferencial do disco. Eles mesmos referenciam nomes como Luiz Gonzaga como uma das influências. O material ainda conta com uma parceria com o inventivo e conterrâneo Caxtrinho em “De Se Envolver”, uma das gratas surpresas ao longo da audição.
As guitarras se unem ao violão em momentos mais contemplativos, como é o caso de “Slave of the Golden Teeth”. Para quem gosta de Bike e Boogarins, o disco pode encaixar feito uma luva dentro de uma playlist bastante atmosférica, lisérgica e sensorial. “Casual”, single previamente divulgado, é daquelas mais cadenciadas e que dialoga com o trabalho de artistas como Dinosaur Jr. indo de encontro com a nossa tão prolífera e alucinante música psicodélica brasileira.
Já “Inaiê” mostra uma faceta mais densa e lenta da forma que seu andamento, e metais, nos colocam em frequências mais leves, daquelas ótimas para abrir uma apresentação antes de pegar pesado com dissonâncias e guitarras mais ásperas. Ela meio que faz uma ponte com a natureza e expande sua narrativa para uma conexão mais espiritualizada.
“Marejar” por outro lado é mais expansiva, dissonante, flertando com o space rock com elementos lo-fi. Sua atmosfera mais caótica e de repetir acordes mais secos dialoga até mesmo com um universo que vai do The Doors ao Gang Of Four, passando pela sonoridade onírica de artistas como Ema Stoned, mistura interessante e que merece atenção. O material fecha de forma mais intimista com a acústica, “Banguela”, faixa que tem uma atmosfera noventista que marcou a finada MTV Brasil com direito a experimentação de teclas e arranjos mais eruditos em sobreposição.
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21) Budang Magia
Dos nomes promissores do hardcore brasileiro, os catarinenses da Budang lançam seu álbum de estreia, Magia, pela Deck, com produção do Rafael Ramos.
A intensidade é uma das marcas do registro, que em menos de 32 minutos apresenta 16 faixas aliando referências do hardcore old school, rock alternativo e até mesmo do grunge.
Com riffs sujos, viradas, breakdowns, entre momentos mais cadenciados, referências de Cro-Mags, Turnstile, Slapshot, Agnostic Front, são notáveis. Eles ainda citam as lendas Ratos de Porão e Nação Zumbi como grandes influências locais.
Mas não pense que as linhas mais melódicas, e arranjos mais trabalhados, não fazem parte do instrumental do grupo assumidamente fã de grupos como Pixies, Sonic Youth e Angel Dust, esta última que conta com membro fundador do Turnstile.
A política, críticas à hipocrisia, bom humor, lutas sociais, romances e até mesmo uma releitura de Mamonas Assassinas (“1406”) aparecem ao longo do seu andamento. Um dos pontos positivos é ver a evolução estética e o maior cuidado com o acabamento da produção quando comparado às gravações anteriores. Com momentos de ‘motoqueiro louco’, o disco é uma boa trilha para quem sente falta de um hardcore que mesmo escrachado não perde a sua mensagem. Boa trilha para andar de skate e com certeza se tivesse sido lançado na década de 90 iria direto para as trilhas das revistas Fluir ou 100% Skate.
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20) The Completers The Completers
Após 10 anos de maturação da sonoridade, o quarteto The Completers, de Porto Alegre (RS), lançou um disco interessante pelo selo Yeah You!.
O álbum de estreia do grupo flutua entre as ondas darks do post-punk de artistas como The Cure, Joy Division, The Sound e Wire, mas sem perder a fúria transgressora punk.
A masterização do disco ficou por conta de Carl Saff, que já trabalhou com Sonic Youth, Dead Moon, Wipers, Mudhoney, Fu Manchu e muitas outras bandas.
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19) ‘akhi huna pedras vivas Vol. 1 e 2
De Sobradinho (DF), o duo formado por irmãos, ‘akhi huna mistura ancestralidade libanesa, MPB, soul, reggae, dub, pop psicodélico e R&B, em um disco daqueles que já nasce atemporal.
“Queríamos um disco mais extenso, que abarcasse nosso amadurecimento desde o primeiro álbum. Temos uma harmonia umbilical que torna o processo de criação natural. É como se um completasse o impulso criativo do outro”, afirma Dila.
“Diz respeito a sermos as pedras que edificam nossas casas e construções afetivas”, dizem os artistas sobre a origem do título pedras vivas, Vol. 1.
Eles mesmos citam uma grande salada de frutas de referências, da música brasileira dos anos 70, ao gospel norte-americano dos anos 90 e ao hip-hop de Brasília dos anos 90, o duo cita Jorge Ben, Milton Nascimento, Tania Maria, Ron Kenoly e DJ Jamaika. Envolvente, instigante, dinâmico e com prumo para o cuidado estético, fazem com que o disco vá crescendo em ambiências, mensagem e trocas com quem se dispõe a ouvi-lo.
“O sincretismo cultural e religioso faz parte da história da nossa família, assim como para a maioria das famílias brasileiras. Conceitualmente, o disco se passa num dia de cerimônia do batismo nas águas, então acaba tudo vindo de uma bacia cultural semelhante”, contam os irmãos.
Um mês e meio após a primeira parte, PEDRAS VIVAS ganha seu volume 2. Nele o duo traz consigo participações de Youssef Abad, Thanise Silva, Larissa Umaytá e Pratanes.
A colaboração do cantor palestino Youssef Abad aparece em “sangue e continuação”, canção que abre o disco. Já a flautista, maestrina, arranjadora e produtora musical Thanise Silva marca presença em “3.2g”, enquanto Larissa Umaytá, conterrânea da dupla, assina a percussão de “crema de gato”. Fechando as participações, os vocais de Pratanes se fazem presentes em “vamo embora meu bem”, faixa que fecha o álbum.
A música produzida nos anos 70 acaba servindo como inspiração na jornada de pouco mais de 20 minutos. Discos como Um Canto Pra Subir de Margareth Menezes e a discografia de Prince servem como referências atemporais para a obra. A viagem sonora explora diferentes sonoridades e ecos urbanos que vão das frequências psicodélicas, passando pelo sensorial, pela ancestralidade, texturas e o groove do soul. Manifesto sonoro que olha para o passado, o presente e mira no futuro possível.
“O volume 2 se passa no momento seguinte ao da liturgia do batismo e as faixas que o integram simbolizam a continuidade e o movimento diaspórico e migrante das águas. O sincretismo cultural e religioso faz parte da história da nossa família, assim como para a maioria das famílias brasileiras. Conceitualmente, os discos se passam num dia de cerimônia do batismo nas águas, então acaba tudo vindo de uma bacia cultural semelhante”, revelam Dila e Mansur JP.
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18) Bike Noise Meditations
A Bike é uma das bandas que acompanhamos há quase uma década. De maneira ousada, para o mercado independente, a cada lançamento eles preparam uma nova surpresa. Seja no formato inusitado, de lançar um disco em quartos, como também em explorar sonoridades ainda não experimentadas antes. É nesse ponto que Noise Meditations acerta. Barulhento, imagético, astral, pesado, o mergulho é denso e de certa forma também reverencia suas origens.
Não é por acaso que a mistura de música indiana, krautrock, jazz, psicodelia nordestina e noise nunca fez tanto sentido dentro da discografia até aqui. Essa guinada mais catártica noise expansiva é o que já vinha me chamando a atenção nas apresentações que pude ver. Esse até então descompasso estava só guardando o que estava por vir.
Para mim, é o registro mais intenso e acertado do grupo até aqui. Tem momentos de cadência, inventividade e viagem cada vez mais disruptiva. A mistura entre Sonic Youth e Lula Cortês & Zé Ramalho, nunca fizeram tanto sentido, e as possibilidades sonoras provenientes disso com certeza elevarão a transgressão sonora que eles produzem quando sobem num palco. Claramente, eles estão em seu melhor momento como compositores e arranjadores. É como se tivessem sido literalmente picados pela cobra-coral que é a protagonista na sexta faixa.
“A ideia era uma sonoridade que fosse guiada por ruídos e drones acompanhada de batidas e percussões repetitivas que dessem a ideia de música para meditar no caos. Fizemos letras curtas para que fiquem na cabeça como pequenos mantras”, explicou Julio durante o lançamento.
Toda essa energia vibracional se explica até mesmo no processo de gravação que aconteceu em um único dia no estúdio El Rocha, em São Paulo. Essa busca incessante pelos timbres, natureza punk e ruídos fazem toda a diferença no exercício de imersão que o disco te convida. “Passamos metade da diária montando, microfonando, timbrando os equipamentos e depois gravamos duas vezes cada música, pegamos a melhor versão e partimos para a mixagem e para a masterização”, completa.
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17) Jovens Ateus Vol. 1
Há dois anos, Diego Carteiro resenhava o primeiro EP do grupo Jovens Ateus. Natural de Maringá, no Paraná, atualmente a maior parte da banda reside em São Paulo e no dia 10 de abril lançaram seu álbum de estreia Vol. 1 via Balaclava Records, selo no qual entraram recentemente.
Formado por Guto Becchi (voz), João Manoel (guitarra), Fernando Vallim (guitarra), Bruno Deffune (baixo) e Antônio Bresolin (sintetizador e bateria eletrônica) a banda teve como marca seu pós-punk com DNA dos anos 80, com referências do estrangeiro mas também de bandas clássicas nacionais.
Naquela primeira mostra, incluindo “Iglesia”, uma releitura de “Igreja”, de um dos melhores discos do Titãs Cabeça Dinossauro (1986).
“A estética caminha por essa década, trazendo referências de nomes como Mercenárias e o trio paulistano Muzak, já que a banda possui o nome de mesmo título de uma faixa do trio que integra a compilação “Não São Paulo” de 1985.
Mesmo falando de anos 80, o pós-punk é um gênero que sempre se manteve atual, criativo e interessante. É o caso do Jovens Ateus, que também conseguimos captar referências ao The Soft Moon, Molchat Doma e Human Tetris“, pontuou Diego para o Hits Perdidos durante o lançamento do primeiro EP.
Após isso eles lançaram um split com os catarinenses da Budang e agora enfim, o primeiro álbum ganha a luz do dia. O processo foi um pouco diferente do habitual, ao invés de se reunir com um produtor e começar a desenhar o disco, eles gravaram tudo sozinhos e após conversar com o produtor Roberto Kramer (Raça, Adorável Clichê, Jambu) decidiram regravar todas as faixas.
“Todo o processo de fazer o disco foi, de certa forma, algo inédito para nós, pois nunca tínhamos feito isso juntos. Nunca paramos e dissemos que faríamos um álbum. Ao longo de alguns meses gravamos muitas demos e, tempos depois, selecionamos o que consideramos bom e trabalhamos em cima desse material até chegarmos onde queríamos. Gravamos ele todo por conta própria, inicialmente.
No estágio em que estávamos prestes a mixar, encontrei Kramer em um bar onde trocamos uma breve ideia e ele me contou que conhecia nossa banda e tinha interesse em ouvir no que estávamos trabalhando.
Já havia uma admiração da nossa parte pelas produções dele e, uma vez que nos reunimos, ele ouviu o que tínhamos e demonstrou interesse em estar junto. Foi então que decidimos regravar tudo mais uma vez, agora no estúdio dele, e trabalhamos em conjunto nesse disco em parceria com a Balaclava”, pontua João Manoel em comunicado enviado à imprensa
É notória a guinada que a produção tem em relação à visceralidade dos primeiros trabalhos, o leque de referências se expandiu com mais melodias plásticas e arranjos que vão para outros lugares, como o lado mais rústico do Thrash Metal, em “Saboteur Got Me Bloody”, a cadência quase onírica do dream pop. O encontro com o produtor resultou em uma sonoridade ainda mais imersiva, o que evidencia por sua vez o mergulho profundo, e poético, no campo das composições dos paranaenses.
O primeiro single apresentado ainda em fevereiro, “Passos Lentos”, segundo os próprios integrantes, traz influência de nomes como New Dad e Beach Fossils.
“Vultos”, que abre o registro, chega serena com a densidade e bateria eletrônica marcando o passo. A tensão post-punker é captada em sua letra, que traz a sensação de desconforto iminente para o primeiro plano em meio a ruídos e uma gama de elementos sonoros.
“Homem Em Ruínas” é daquelas que mesmo tendo referências bem marcantes do estilo, é moderna por seu diálogo com a música eletrônica e apelo lo-fi. A sensação de estar em frangalhos e prestes a se emancipar desta realidade ganha versos poéticos em meio a sintetizadores, distorções e uma canção que assim como clássicos dos anos 80 acaba em fade-out.
“Espelhos” feito uma vertigem, fala sobre o abatimento de um momento de reconstrução emocional para seguir em frente. É impossível ouvir sem sentir ecos de New Order/Joy Division. “Mágoas” previamente lançada, e que agora também conta com uma versão “Dirty Mix + Slowed Reverb”, tem o peso da angústia após um encerramento de ciclo o seu pilar. Ela já flerta com o shoegaze, mostrando a versatilidade fúnebre das canções do grupo.
“Correntes” retoma a referência do indie rock com perfume de post-punk do Beach Fossils, uma das referências do projeto. Até por sua natureza punk, afinal, ela se resolve em apenas um minuto e meio, em meio a desesperança e a dor de um corte profundo no peito. Entre as mudanças, a correnteza acaba puxando nosso interlocutor para um momento onde a solidão ganha o primeiro plano.
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16) YMA Sentimental Palace
Seis anos após Par de Olhos, YMA chega com seu segundo álbum de estúdio, Sentimental Palace. Com narrativa cinematográfica, Yasmin utiliza como recurso um hotel metafórico para retratar temas como o desejo e a obscura decadência do mundo. Entre o mistério, o fúnebre, o oculto e os anseios, as curvas sonoras e a estética, para deixar a experiência ainda mais intensa, suas canções ganham arranjos ainda mais oníricos.
“Percebo que, de 2019 pra cá, tudo mudou num ritmo vertiginoso: o mundo, as relações, o corpo, o jeito de estar presente. Fazer esse segundo disco foi uma maneira de me compreender no meio do caos”, reflete a artista.
O material que conta com 11 faixas e 36 minutos de duração, é um lançamento Matraca Records e tem participações especiais de Lucas Silveira (Fresno), Jup do Bairro e Sophia Chablau. Entre os instrumentistas o disco reúne participações de nomes como Fernando Catatau, Marcelo Cabral, Gabriel Milliet, Vitor Wutzki, João Barisbe, entre outros.
“Um hotel, onde cada porta guarda um tema, mistérios, demônios. Compor o disco foi como mapear esse território psíquico: abrir portas, observar o que estava ali e depois fechar com algum tipo de resolução. Ou não”, afirma YMA.
Essa narrativa, se estendeu também para o ambiente do estúdio: “O processo de criação do disco foi quase inteiramente dentro do estúdio, que acabou virando um lugar de passagem. Um hotel também, onde cada hóspede chegava com sua própria bagagem sonora”.
A natureza surrealista do exercício proposto ao longo do álbum reflete desde a forma como decide introduzir o ouvinte em seu universo particular. Entre vozes, ecos, receios, dissonâncias, transformações internas, perda de controle e temperança.
Essas ondas temperamentais ganham contornos, entre corais, ambiências, questionamentos, quebras de paradigmas e universos paralelos. Essas texturas, experimentos sonoros que não se prendem a estilos, ambiências que criam imagens, entre o desespero e a vontade de fugir, dão toda a tônica de uma cabeça inquieta que vê o “hotel” em certo momento em chamas.
“2001”, single revelado previamente, é daqueles que ao longo da audição ganha ainda mais protagonismo dentro da sua construção. Com sentimentos que ficam ainda mais aflorados, linhas de metais e um grito por ajuda em meio a um apocalipse. Já “LA FEMME” parece até mesmo uma homenagem à estética do grupo fundado pelo guitarrista Sacha Got e pelo tecladista Marlon Magnée, de Biarritz (França), sendo repleta de suspense, densidade e delírios.
A busca pela conexão aparece em “dentro de mim”, referências a Platão e à ficção, com cenário apocalíptico como plano de fundo para falar sobre decepção reluzem em “Te quero fora”, parceria com Lucas Silveira (Fresno). Jup do Bairro foi escalada para “Lagosta, Ostra”: uma das mais intensas, experimentais, provocadoras e futuristas presentes ao longo da obra.
“Jup é a nossa grande poeta do pós-apocalipse — sou apaixonada pelas coisas que ela escreve, na performance, na voz. Essa faixa é a mais porrada do disco. Contracenar com ela nesse banquete entre o luxo e o lixo foi a cereja do bolo”, explica a artista.
O que se contrapõe com o olhar mais lo-fi presente em “Rita”, faixa que tem a companhia de Sophia Chablau e destila sobre males modernos, como ansiedade e pessimismo. O disco fica flutuando entre o tangível e o intangível, o real e o imaterial, esta é a forma que YMA encontrou para falar de devaneios e temas tão pesados do nosso cotidiano. De forma que fosse mais leve, porque de pesados já bastam os rumos da humanidade e a rotina que sufoca.
A produção musical e a mix são de Fernando Rischbieter e a master de Pedro Vinci. O produtor Lauiz, da banda Pelados, assina a produção da faixa “dentro de mim” e a coprodução de “fritar na areia!!” e “Lagosta, Ostra”.
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15) terraplana natural
O segundo álbum dos curitibanos do terraplana, natural, continua a explorar a estética dos pedais de distorção e chiados do shoegaze. Gêneros como slowcore, post-hardcore e o post-punk também entram entre as referências.
O álbum foi produzido e mixado pelo estadunidense JooJoo Ashworth (Automatic, SASAMI) e masterizado por Greg Obis da Chicago Mastering Service.
“O processo inteiro desse álbum foi muito mais natural [que o primeiro]. Compusemos as músicas nos períodos de intervalos entre shows do olhar pra trás, e as coisas foram saindo de um jeito bem mais fácil e leve.
Conversei com a Samira [Winter] no Balaclava Fest que tocamos em 2023, e ela comentou que conhecia um produtor que poderia gostar de trabalhar com a gente.
Então entrei em contato com o JooJoo, apresentei as demos que tínhamos e ele topou de imediato. Durante a gravação do álbum, tudo fluiu de um jeito bem fácil e divertido. A questão da língua pode ter sido uma barreira em alguns momentos, porque nenhum de nós é fluente em inglês e muito menos ele em português, mas por causa disso também aconteceram diversos momentos divertidos que deixavam as coisas mais leves, e acho que isso fez com que a música também falasse por nós ou por ele em certos momentos.
No fim, saímos desse processo todo com um aprendizado muito forte de produção, da forma de ver, fazer e tratar a música, e também de confiança no nosso próprio trabalho.”, comentou Vinícius.
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14) Josyara AVIA
De Juazeiro (BA), a cantora Josyara apresentou seu terceiro álbum de estúdio, AVIA (Deck), no qual assina a coprodução ao lado de Rafael Ramos, e os arranjos de todas as composições.
O disco conta com canções em parceria com Liniker (“Peixe Coração”), Pitty (“Sobre Nós”), Juliana Linhares (“Eu Não Sou Prova de Amor”) e Iara Rennó (“Seiva”), além de releituras de Anelis Assumpção (“Eu gosto assim”) e Cátia de França (“Ensacado”); e participações de Chico Chico (“Oasis (A Duna e O Vento)”) e Pitty entre outras regravações.
“Avia significa deixar correr, caminhar, despachar, adiantar, concluir. A escolha por esse nome para o disco sugere exatamente essa interpretação: seguir em frente, fazer acontecer.
Eu desejo que a alegria que eu senti ao fazer esse disco alcance as pessoas; que elas possam se emocionar e sintam vontade de compartilhar com quem elas gostam.
É um álbum composto de temas muito humanos, acho que naturalmente muitas pessoas irão se identificar e essa conexão vai acontecer – assim espero!”, comentou Josyara durante o lançamento.
13) Teago Oliveira Canções do Velho Mundo
Dos discos mais sensíveis e maduros do ano, Teago Oliveira, vocalista da Maglore, lançou em outubro seu segundo álbum solo, Canções do Velho Mundo. A produção conta com participações especiais do baterista norte-americano Eric Slick (Dr. Dog) (“Spaceships”) e Silvia Machete (“Vida de Casal”).
As músicas parecem dialogar com quem amadureceu junto ao longo dessa jornada que chamamos de vida. Não é por acaso que algumas canções são explícitas em relação às máscaras sociais que vamos deixando pelo caminho.
Memórias, epifanias, reflexões, esperança, entre outros temperos de quem se debruçou em um processo longo de composição e de colocar a mão na massa em uma produção independente são visíveis. Isso aparece nos mínimos detalhes.
Este cuidado transparece em versos sensíveis que de tão sinceros parecem cortantes feito uma navalha.
Teago te convida a viver essa experiência de forma leve e tirando o peso daquelas bagagens que carregamos pelo caminho. “Desencontros, Despedidas”, é das mais explícitas nesse sentido, uma faixa em que toca sua gaita assim como Bob Dylan. Falando nisso, a capa ter uma maleta não é puro acaso… ao longo da sua narrativa ele viaja através de memórias, melancolia, entre flashes, questionamentos e futuros possíveis.
O romance não fica de fora dessa jornada, canções “Eu Nasci Pra Você” e “Vida de Casal” são declarações de amor eternizadas. Isso de enxergar a vida tanto pelo lado do copo meio cheio como pelo meio vazio é o que equilibra o andamento de um disco que ao mesmo tempo que é pé no chão, carrega muita esperança pelo que vem pela frente.
Musicalmente, o material transita em referências que vão da MPB, passando pelo folk, o indie e o soft rock setentista. Seu lado cancioneiro faz com que as canções prezem pela atemporalidade acima da busca por novos hits, o que não impede com que sejam fáceis de cantarolar junto e se identificar com as passagens ali transcritas. Um exemplo disso é a belíssima “Sou de Salvador”, daquelas que parecem perfeitas para trilhas sonoras de filmes do nosso tão em alta cinema brasileiro.
Em “Não Se Demore”, ele discorre sobre colapso, espiritualidade e resistência, explorando a ideia de viver o instante antes que ele se dissolva. A melodia, e seus backing vocals, percorrem esse caminho leve que grupos contemporâneos como Jungle costumam explorar com maestria.
Os arranjos de violino deixam tudo ainda mais dramático em meio a versos fortes como “a verdade tá desmoronando ao fervilhar do sol / e a nave mãe chamando como um grande farol/você piscou e o grande irmão te pegou na ratoeira/tem lobisomem solto em noite sem lua cheia”.
“É uma música que nasceu dentro do processo de gravação do disco. Uma canção que fala sobre um estado de vibração, de não ter pressa, mas também não deixar o tempo passar, ao mesmo tempo que compõe com elementos imagéticos o caminho que o mundo está tomando”, explica Teago.
Em “Vou Morrer Tentando” ele abre o coração para falar sobre como nesta caminhada o que importa é seguir em frente em direção à felicidade. No fim, voltamos para a mensagem eternizada na música pop mundial pelos Beatles, não é mesmo? Os arranjos de cordas deixam tudo ainda mais especial e encerram o disco deixando um gostinho de quero mais.
12) Deekapz Deekapz FM
Daquelas estreias mais aguardadas, é assim que podemos resumir um pouco a expectativa pelo debut do duo Deekapz (leia entrevista), formado por Paulo Vitor e Matheus Henrique. Com seu viés urbano, eles têm crescido nos últimos anos misturando funk brasileiro e música brasileira.
O novo disco faz ponte e amplifica tudo isso, com outras sonoridades, como o R&B noventista, a house music, o pop, o soul, os afrobeats… tudo isso a partir do olhar afrodiaspórico.
O conceito do álbum é um caso à parte, eles aproveitam do legado do universo narrativo inspirado nas rádios noturnas dos anos 90 e 2000, onde programações variadas se conectam por meio de vinhetas, texturas analógicas e uma curadoria afetiva que dialoga com diferentes momentos do dia e da vida, o que faz toda a diferença no momento da audição.
Essa viagem, e a destreza com que fazem as transições para contar estas histórias, dão um brilho ímpar ao trabalho que faz pontes para o futuro que desejam para a música brasileira. Parcerias com nomes históricos da música eletrônica, como DJ Marky e Makoto, representantes do R&B contemporâneo como Luccas Carlos, lendas do rap nacional como Criolo, além de novos nomes que têm despontado como Bibi Caetano e Maui engrandecem a curadoria da FM retrô-futurista.
Outras colaborações com nomes contemporâneos como Nego Balla, Gab Ferreira, Clara Lima, Nill, Jamés Ventura, Urias e Maffalda contribuem para ser possível a ampliação de territórios em que o som do duo ainda pode alcançar.
“A gente foi experimentando muita coisa nos últimos anos e agora chegou a hora de juntar tudo isso numa narrativa própria. É como se cada música fosse uma estação, uma vibe. A rádio do disco tem hora que tá pra cima, hora que tá contemplativa, mas sempre contando a nossa história”, comentou o duo durante o lançamento.
Homenagens aos clássicos e a conexão à nova geração de artistas brasileiros se fazem presentes ao longo da narrativa. Parcerias como “Dance” com a Fat Family, e “Repare”, ao lado da banda Tuyo, ajudam a contextualizar as transformações e a reverência à música capaz de mudar realidades.
“Foi um sonho nosso realizado. O Fat Family sempre foi uma referência, é aquele som que a gente cresceu ouvindo nas festas em casa, no rádio, no carro… Ter elas com a gente nessa faixa foi surreal”, comenta Paulo.
“A gente sempre acreditou que a música tem esse poder de atravessar gerações. Quando o Deekapz nos chamou, sentimos essa troca de energia: eles com uma visão contemporânea e a gente trazendo nosso soul, nosso R&B com aquela pegada anos 90. Foi uma sintonia linda e uma honra fazer parte desse momento deles”, afirma Fat Family.
“A Tuyo tem essa sensibilidade que a gente admira muito. Eles conseguem trazer silêncio e profundidade pra dentro da batida. É o tipo de parceria que amplia nosso som pra outros lugares”, completa Matheus.
“‘Repare’ foi construída nesse lugar de escuta e sensibilidade, onde o beat não atropela o silêncio, mas dá espaço pra ele existir. É bonito ver como eles estão construindo essa nova fase”, complementa Tuyo.
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11) Terno Rei Nenhuma Estrela
Um pouco antes deles se apresentarem no Lollapalooza Brasil, os primeiros singles “Nada Igual / Viver de Amor“, “Próxima Parada” foram disponibilizados. A poucos dias do lançamento que acontece nesta terça (15), eles lançaram o último single que dá nome ao quinto álbum de estúdio “Nenhuma Estrela” que chega pela Balaclava Records.
Com 13 faixas inéditas, o material foi produzido pelo curitibano Gustavo Schirmer, que os acompanha desde o Violeta (2019), com mixagem pelo francês Nicolas Vernhes, que já trabalhou com nomes como Wild Nothing, The War on Drugs e Deerhunter.
Talvez um dos grandes trunfos de Nenhuma Estrela seja justamente o caminho iniciado lá atrás, com Gêmeos: o de se tornar uma banda focada em canções. Isso se evidencia na atemporalidade das novas composições, que vão na contramão da lógica industrial imposta aos artistas que alcançam certa relevância no mercado.
Se no mundo da moda temos o termo slow fashion, o Terno Rei foca num consumo consciente e responsável, dentro da insanidade da era dos algoritmos. Suas músicas se renovam a cada novo público alcançado, independentemente do tempo necessário para isso.
Essa postura foi compreendida desde os tempos de Violeta, conquistando tanto um público mais velho — acolhido pelas composições e o ar vintage dos arranjos — quanto os mais jovens, encantados por uma banda que soa como “se fosse de outra época”. Seja ouvindo um LP com os pais ou uma música tocando na rádio, a redescoberta dos anos 2000 por uma nova geração — quando eles eram apenas adolescentes — cria uma ponte instantânea entre gerações.
Escolhida para abrir o disco, “Peito”, é um recado para o andamento do disco, um caminho para algo mais pop, leve e com os vocais em primeiro plano. A bateria oitentista de grupos citados por eles como referência para a faixa, como The Blue Nile e Prefab Sprout, dão esse ar jazzy, despojado e soturno. De peito aberto, a canção deixa doer, mas enquanto traja um terno cintilante no melhor estilo oitentista.
Aliás, durante a audição que aconteceu há algumas semanas na BMG, Ale Sater ressaltou como as linhas de bateria de Luis Cardoso, foram uma das partes que mais empolgaram o vocalista e guitarrista ao ouvir o seu resultado. O tom reflexivo e melancólico também é outro cartão de visitas para as temáticas exploradas ao longo do novo registro de estúdio.
“Nada Igual” foi escolhido como primeiro single justamente por sua força e DNA característico das composições do grupo. Ao ouvir, é impossível não pensar em clássicos radiofônicos de grupos como The Smiths e a faixa chega logo num momento onde uma nova geração está redescobrindo o trabalho dos ingleses liderados pelo ranzinza Morrissey. Ter uma canção nova no baralho neste momento… pode facilitar as engrenagens do algoritmo do TikTok e fazer com que ganhe mais lastro em quem ainda não descobriu a banda após o boom de Violeta.
“A energia pulsante e o ritmo em “Nada Igual” representam muito bem nosso momento atual, além de trazer elementos marcantes presentes no disco.”, apontou Ale Sater durante o seu lançamento
Referências do post-punk de grupos como The Cure, Echo & The Bunnymen e até mesmo dos indies do Blur acabam aparecendo em “Nenhuma Estrela”. A indecisão, o nervosismo, a melancolia e o ato de repensar os próximos capítulos da vida depois de um abalo sísmico aparecem feito uma navalha cortante em uma canção pop repleta de sintetizadores e um emaranhado de cordas de nylon. O looping da letra e os versos adicionados em sua segunda parte, aliado aos sopros, dão ainda mais intensidade – e profundidade – para a música.
A mistura de “Próxima Parada” destoa um pouco das anteriores justamente pelas linhas de baixo terem como inspiração o trip hop aliadas a guitarras noventistas, o que faz dela uma das canções pops mais improváveis do registro.
Um dos riffs de guitarra parece até fazer uma homenagem a “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, e quando Ale Sater cantarola “Não sei se vou” parece brincar com o trecho de “Hello, hello, hello, how low”, da mesma música. Essa dinâmica de trip-hop com rock alternativo também aparece no projeto Paira, também lançado pela Balaclava. A necessidade de sair da estagnação é o sentimento que se preenche ao longo dos versos da canção que ganhou um videoclipe dirigido por Miguel Thomé.
Com instrumental mais solar, a letra de “Casa Vazia” tem o distanciamento como tema, como o próprio nome sugere, nos levando para as baladas energéticas, ao mesmo tempo, que tristes dos anos 90. O lado lúdico aparece tanto nos coros como na alegoria de usar o super-homem como elemento presente em sua construção.
Quem acompanha o Terno Rei sabe que eles até já lançaram singles e projetos com outros artistas, mas não de canções presentes em um álbum. Pela primeira vez eles quebram essa “regra” e em grande estilo com participação de Lô Borges, ícone do Clube da Esquina.
As referências, e homenagens, ao grupo mineiro aparecem inclusive no instrumental de “Relógio”, basta prestar um pouco de atenção, e verá as melodias lisérgicas presentes nos acordes. Eles mesmos consideram como “a faixa mais elegante do álbum”. Daquelas que você ouve e fica imaginando um encontro no palco do Terno Rei com o Boogarins.
“Pega” tem um joguete de baixo que te intriga e se entrelaça com os sintetizadores criando um clima de mistério. As programações, a levada lenta e circular da música deixam tudo ainda mais reflexivo e soando como uma espécie de sonho acordado.
“Programação Normal” tem nos arranjos de teclado uma espécie de conexão com Gêmeos. De certa forma ela me lembra um pouco blink-182 no álbum autointitulado justamente por apostar em canções menos óbvias, e com arranjos melódicos fora das fórmulas costumeiras, como, por exemplo, em “Down”. O assombrar dos demônios do passado deixam ela ainda mais obscura, entre a solidão e a ânsia por experimentar novos ares, após um fim de ciclo.
Se tem algo que o Terno Rei aprendeu ao longo do tempo foi se especializar em fazer baladas e “32” de certa forma é bastante literal e de fácil identificação para quem é jovem, mas não tão jovem assim (talvez um Pós-Jovem). Uma espécie de acerto de contas com o passado embalado pelos dias da juventude, entre perigos, quedas e o vivenciar inevitável do processo de amadurecimento. Uma canção que tem toda a cara de virar tema de curta-metragem devido às boas analogias que faz.
“Agora sou eu que tenho os meus 32 dentes, o mundo na frente, não posso ficar pra trás. Aguenta muitos socos, eu sinto nos ossos, eu sinto ao acordar, que agora sou eu”, confessa Ale Sater.
“Coração Partido” expõe as feridas sem dó e as incontáveis noites sem dormir. Tudo isso imerso entre sintetizadores, guitarras que dançam e arranjos delicados. Em colaboração com Clara Borges, da Paira, eles navegam para um território ainda não explorado na carreira, um mergulho nas pistas de dança oitentistas, de trabalhos de artistas como New Order e Depeche Mode, até por isso a verve frenética se instaura. Aquela música que você ouve e fala “eu sei o que vocês fizeram aqui”. Essa versatilidade, por sua vez, é também uma das marcas do quinto álbum dos paulistas.
“Viver de Amor” poderia muito bem se encaixar na carreira solo do Ale Sater, mas com isso talvez perderia um pouco da combustão dos arranjos feitos em conjunto. Ela é mais serena, folk, meio americana escola Wilco, mas que também permite ter sopros mirando o improviso do jazz feito Kenny G.
De natureza contemplativa, e confessional, à primeira orelhada pode até causar certo estranhamento nos fãs que esperam um novo Violeta, mas vai crescendo a cada nova audição justamente por sua carga sentimental.
“Essa é uma das nossas favoritas da carreira. É unânime entre nós que ela se destaca e soma a essa nova fase que vivemos. Traz uma proposta diferente do outro single e ao que já fizemos no passado, então julgamos que seria interessante mostrar esse outro aspecto do disco.”, revela Bruno Paschoal, guitarrista e tecladista
“Acordo” tem a difícil tarefa de encerrar o disco. Ela narra a rotina repleta de desconfianças e incertezas em um mundo que te coloca em xeque todos os dias. Um desabafo que fica evidente em versos como “E se é tão fácil assim /
Por que você não faz?” e em “Agora eu sou como eu queria / Mas querem me acusar”.
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10) BaianaSystem O Mundo Dá Voltas
Alguns dizem que os discos lançados no começo do ano são esquecidos pelas listas, mas por aqui não tem isso não.
Disponibilizado digitalmente às vésperas do carnaval, no dia 16/01, O Mundo Dá Voltas, do BaianaSystem, é daqueles discos que impressionam a qualquer amante de música logo na primeira audição.
Eles mesmos descrevem a produção como “um álbum que é o retrato da força das pessoas em sua passagem pelo mundo e do que as move por tantos caminhos, tantas batalhas.
As voltas para um acerto de contas, as voltas para o mesmo lugar ou um outro completamente diferente, a capacidade de girar como a essência do sentido do mundo”.
O quinto álbum dos baianos produzido por Daniel Ganjaman reúne participações de grandes nomes como Gilberto Gil, Pitty, Emicida, Melly, Anitta, Seu Jorge, Manoel Cordeiro, Antonio Carlos & Jocafi, Dino D’Santiago, Vandal, Buguinha Dub e o músico e escritor angolano Kalaf Epalanga.
“Kalaf era uma paquera antiga que a gente tinha, por essa ligação com Angola e por causa de o (grupo português de kuduro angolano) Buraka Som Sistema ser uma referência muito grande pro Baiana.
A gente estava muito ainda na história dos afrobeats nigerianos, mas aí vimos que se estava falando do português, dessa língua latina. E aí, em Itaparica, surgiu o “Porta retrato da família brasileira”, um tema que o Kalaf tinha trazido como “Améfrica”” — conta Roberto Barreto em entrevista para O Globo.
9) BK’ Diamantes, lágrimas e rostos para esquecer
Quando BK’ lançou o disco, o sentimento era de clássico instantâneo mesmo muitos ficarem receosos em cravar isso logo nos primeiros dias.
O álbum que dá sequência a jornada iniciada em Icarus (2022) faz com que ele seja um material mais pop que se entrelaça ainda mais com o cerne da música brasileira, o que deixa ele musicalmente ainda mais complexo.
Trechos de “Esquinas”, de Djavan, referências ao Fat Family (“Da Madrugada”), Luciana Mello, do grupo psicodélico Karma, assim como parcerias com Jenni Rocha, Luedji Luna, Borges, Melly, Fye Bwoii, Mc Maneirinho e arranjos de Pretinho da Serrinha, fazem deste disco uma produção grandiosa.
O álbum foi produzido entre maio de 2024 e janeiro de 2025, no estúdio carioca Cia. dos Técnicos. O material conta com samples da MPB e batidas originais criadas por produtores como Deekapz, JXNV$, Nansy Silvvz, Paulo DK, Kizzy e Ruxn.
A cereja do bolo foi justamente a repercussão da faixa “Cacos de Vidro” que conta com sample da Evinha (“Esperar Pra Ver”) que enfim teve seu reconhecimento merecido após tantos anos de carreira. Samples de Milton Nascimento também aparecem em “Ninguém Vai Tirar a Minha Paz”.
8) Alberto Continentino Cabeça a mil e o corpo lento
O terceiro álbum de estúdio de Alberto Continentino, Cabeça a mil e o corpo lento (RISCO), é um dos grandes discos brasileiros do ano. Alberto é conhecido por seu trabalho como baixista de artistas como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Ana Frango Elétrico, Milton Nascimento, Baco Exu do Blues e Bala Desejo.
O repertório do terceiro disco do compositor e instrumentista chegou recheado de parcerias, entre elas: Quito Ribeiro, Ana Frango Elétrico, Domenico Lancellotti, Tomás Cunha Ferreira, Cabelo, Kassin, Gabriela Riley, Silvia Machete, Jonas Sá, Nina Becker, Laura Eber e Negro Leo.
Como curiosidade, o disco partiu dos versos, com as melodias sendo escritas depois por Alberto — um procedimento que ele experimentou (e gostou) nas parcerias com Silvia Machete que entraram no disco dela de 2020, Rhonda.
“A escolha dos parceiros foi a primeira composição do disco. Escolhi pessoas que escrevem de uma forma bem livre. Elas podiam mandar a letra em qualquer língua, em qualquer formato. Queria essa inspiração, para fazer algo também fora dos formalismos da canção, do que eu estava acostumado a fazer. E foi isso que aconteceu. As letras trazem paisagens, não necessariamente têm um sentido objetivo. Era o que eu queria.”, revela o músico
Ana Frango Elétrico, Gabriela Riley, Silvia Machete e Nina Becker dividem os vocais com Alberto nas músicas, o disco ainda tem colaborações com Dora Morelenbaum, Leticia Pedrosa e Nina Miranda. Apesar de não ter sido algo pensado previamente, ele afirma que adora a combinação de vocais masculinos com femininos.
Alberto marcou a data das gravações para outubro de 2020 no estúdio Rocinante, em Araras (região de Petrópolis, na Serra Fluminense), com o baterista Thomas Harres, o guitarrista Guilherme Lirio e o engenheiro de som (e responsável pelo estúdio) Pepê Monnerat. Encomendou as letras e fez as melodias conforme elas iam chegando.
“Entramos no estúdio com as músicas mais formatadas do que eu imaginava que ia ser quando tive a ideia lá atrás. Acabou que o disco não ficou tão experimental quanto eu imaginava. Eu não sou cantor, mas eu tenho minha maneira de cantar. Usei recurso de dobras e coros, coloquei a voz como mais um instrumento, uma camada entre coisas outras que estão acontecendo.”, revela Alberto sobre o processo de produção
Depois das sessões no estúdio Rocinante, Alberto gravou em São Paulo, no estúdio Buena Familia, do engenheiro de som Duda Lima. Ali, teve a companhia do baterista Vitor Cabral e do guitarrista Guilherme Monteiro. Apenas uma das faixas, “Uma verdade bem contada”, foi gravada no Estúdio Marini, de Kassin, com Caio Oica na bateria, Danilo Andrade no Rhodes e nos synths, além do próprio Kassin na guitarra.
Após isso foram convocados os sopros (Joana Queiroz, Marlon Sette, Diogo Gomes, Jorge Continentino), a percussão de Orlando Costa e os synths de Rodrigo Tavares. Além do baixo, no disco Alberto toca piano, teclados, synths, Rhodes, clavinete, Wurlitzer, percussão eletrônica e violão. Kassin assina a mixagem sozinho de oito faixas.
O resultado é um disco que experimenta frequências em meio a um emaranhado de referências e narrativa única: onde o som conduz o resto. Jazz, funk, música brasileira estão entre as que sintoniza, mas não se restringindo apenas isso. O brilho vem justamente da riqueza dos detalhes que a obra permeia.
Ele até revela que o disco “não ficou tão experimental quanto eu imaginava”, o que nos mostra como a arte destes encontros ajudou a moldar ainda mais o que estava por vir. E talvez essa seja a grande beleza da humanidade imaterial na música. Cada um deixando um pouco de si.
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7) Pelados Contato
Pelados lançou em agosto talvez um dos discos mais ousados em um mercado que flerta com o cômodo e o careta, fórmulas de ocasião e a corrente invisível dos algoritmos das plataformas de streaming. Quebram todas essas amarras, métricas e também se permitem sair da zona de conforto que seria lançar um segundo disco de indie rock pautado em guitarras sleazy.
Gui Jesus, do RISCO, durante a audição de Contato até confessou que o processo de produção do grupo é bastante diferenciado e que tem uma das músicas que volta para ouvir toda a semana de tão surpreendente que ficou. E quando uma música fica na cabeça de quem respira música é porque ali certamente algo tem.
A audição coletiva me levou para alguns lugares. Alguns deles no passado e outros voltados para o contemporâneo. Tendo vivido o indie do começo dos anos 2000, imerso por um tempo naquela estranheza upbeat, quase acidental, do LCD Soundsystem e Hadouken, e ter curtido muito uma proposta sonora mais voltada para o swing do baixo, de grupos como Primal Scream e The Rakes, e até de ter mergulhado nos ecos inventivos das camadas sonoras de grupos mais antigos como Happy Mondays, My Bloody Valentine, Talking Heads e nos lançamentos dissonantes da cultuada Creation Records.
Essa inventividade, que ganhou maior destaque quando os jornalistas da época a intitularam como new rave, nos direciona para um tributo a Manchester… no disco nos traduz como uma releitura contemporânea de quem não viveu tudo isso, mas que se diverte com os revivals tanto do próprio indie quanto do drum & bass, e de uma vasta pesquisa sonora por querer tirar mais dos instrumentos que fazem desta novidade interessante para quem viveu aqueles dias. É sempre interessante quando uma banda de rock se dispõe a flertar com a música eletrônica e o fato de as músicas não terem uma sequência óbvia deixa tudo mais interessante.
Os próprios nomes das músicas, divertidos, aleatórios e provocadores, aliados a letras muitas vezes abstratas, mostram como o experimento é também parte de um processo de autodescoberta. Ao mesmo tempo que pode não ser considerado um disco de rock, ou de pop, ou de experimental, ele acaba, por sua vez, sendo tudo isso. Mesmo que de forma acidental. Nomes como “planeta oxxo”, “boy, so confusing”, “whatsapp 2”, “instruções para descongelar o gilberto gil no estúdio”, “enel” e “modrić” mostram como o cotidiano, a internet, a velocidade e a distopia dos tempos acabam entrando no radar atento de quem muitas vezes está cansado de telas e deseja viver o ao vivo. O nome Contato cai como uma luva, vindo de quem vê a vida precarizada e tenta buscar por refúgios para se sentir vivo.
As relações com outros seres humanos, as pressões, as fofocas e amenidades, os memes, a espiral de coisas do cotidiano e suas armadilhas… a política, o existencialismo, o amor, o futuro e todos os receios provenientes do capitalismo acabam ecoando de uma forma ou outra ao longo do trabalho. Não necessariamente de uma forma direta. Mas sim, entre as curvas que o som traça, numa frase colocada de forma sutil, como parte de um conceito estético mais abrangente. Muitas vezes intangível como nossos sentimentos.
Em uma mensagem amplificada justamente por transpor os limites do que é o individual e o coletivo. Essa tentativa de irmos juntos até o final por uma compreensão mais profunda e empática acaba estabelecendo um diálogo entre o ouvinte e o interlocutor. Até por isso o recurso dessa narrativa Sci-Fi encaixa bem nesta parte lúdica de tentativa de descobrir o que está por vir. Ou melhor dizendo, como lidar com tudo isso. Onde linguagem, experimento e o contato se estabelecem além da superfície. Como um aconchego de quem também está disposto a tentar entender o que está vivenciando.
Para além de tudo isso, é um disco em que a construção e o processo acabam sendo tão ou mais interessantes que o resultado. Em tempos de obediência, planejamentos estratégicos infinitos e fórmulas, entre os limites do que é pop e o que é alternativo, isso acaba sendo um alento de quem se permite cruzar as fronteiras. Ao mesmo tempo, o entorno e o espírito de coletividade, dos tantos projetos que os músicos já puderam se envolver, ajudam a encurtar as fronteiras de gêneros como krautrock, new rave, eletrônico, experimental, neopsicodelia, house, drum & bass, MPB e outras frequências sejam encurtadas.
No campo lírico, as brincadeiras e ironias, entre cacofonias, remixes e até mesmo usando a voz como instrumento de apoio, acabam servindo como elementos para suavizar o cotidiano. Tirar aquele peso do entorno e torná-lo mais palpável. Tudo mais possível. Essa forma de criar vínculo com o ouvinte nos traz para 2025 e toda a hipérbole e esvaziamento das coisas, entre rotina, problemáticas, teorias da conspiração, TikTokização das coisas, mudanças, desajustes, ódios e dicotomias.
A audição é tão provocadora que este texto saiu completamente do controle. E talvez seja justamente essa falta de controle que sinto tanta falta na arte contemporânea. Quando vejo novas provocações sobre formas e estrutura, uma parte de mim me faz lembrar porque gosto tanto de música, e mais do que isso, das imperfeições mundanas. Da forma como transformamos nossas relações e nós mesmos.
A viagem psicodélica que nos faz entrar quase em transe, de “modrić”, é um caso à parte, daquelas que realmente ficam ecoando audição após audição. Tudo isso entre o destempero, o receio, a mudança e o compasso quebradiço. Entre a poesia quebradiça, a desilusão e toda a viagem cósmica das progressões de acordes dissonantes. “estranho efeito”, single previamente lançado, cruza fronteiras, condensa e sintetiza um pouco do que a obra permite, entre loops, frequências eletrônicas e linguagem.
Viajar a bordo desta espaçonave não é das missões mais tranquilas. Mas nem por isso eles não trazem momentos mais leves, como na percussiva e clean, “boy meets girl”, que abusa das texturas e das linhas de baixo entrelaçadas aos loops, entre frequências mais darks cheias de efeitos. Essa natureza anárquica faz com que repensemos até o qual seria o lado A e o lado B do disco, justamente por sua capacidade de confundir. O lado cowboy de Lauiz em seu disco Perigo Imediato, ganha ares galácticos na interessante “boy, so confusing (lauiz e doutor smirnoff enfrentam seus fantasmas no planeta xcx)”.
“music is supposed to be fun” é daquelas que gritam: LCD Soundsystem é minha religião e nada me faltará. E talvez seja isso mesmo, se divertir, mesmo sem aquele compromisso com a seriedade, onde o canal de contato é tão importante como a mensagem, assim como o CSS fazia em seus discos dos anos 2000. Se você for pensar, música sem se divertir, se transforma em algo burocrático quase sem alma. Então, é mais um acerto da produção essa lembrança.
As transições entre as canções, principalmente na segunda parte mais dark do material, são um caso à parte. Elas se interligam feito um set de DJ, o que deixa tudo mais fácil e interessante dentro da narrativa. “Instruções Para Descongelar o Gilberto Gil no Espaço Sideral”, tem toda aquela narrativa mais espacial que vemos, por exemplo, em discos como Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997), do Spiritualized. Daquela calmaria em marcha de comunhão, onde temos a certeza de que não estamos sozinhos.
Contato é o disco que não sabíamos que precisávamos ouvir, mas que mesmo assim recai como um abraço.
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6) Azymuth Marca Passo
50 anos após a estreia, em abril o trio carioca Azymuth lançou Marca Passo pelo selo inglês Far Out Recordings, o primeiro após a morte do baterista da sua formação original, Mamão.
O material foi produzido por Daniel Maunick, colaborador recorrente na discografia do grupo.
Os créditos de Daniel também incluem álbuns de Marcos Valle, Sabrina Malheiros e Terry Callier.
Único remanescente da formação original, o baixista Alex Medeiros participa das gravações ao lado do tecladista Kiko Continentino (Milton Nascimento, Djavan) e o baterista Renato Massa (Marcos Valle, Ed Motta) em um disco que mistura jazz, funk, psicodelia tropical e samba.
“Last summer in Rio” (composta por José Roberto Bertrami que nos deixou em 2012), ganha uma reedição no disco. Originalmente ela integra o álbum Telecommunication (1983)… e na nova versão conta com a guitarra de Jean Paul Bluey Maunick, integrante da banda britânica de acid jazz Incognito e pai de Daniel.
5) Arnaldo Antunes Novo Mundo
Em março, Arnaldo Antunes apresentou seu novo álbum de estúdio, NOVO MUNDO, pelo selo RISCO. A nova era do eterno Titã conta com a produção de Pupilo, foi gravado por ele (bateria, percussões e programações de ritmo), Kiko Dinucci (guitarras, violões e efeitos eletrônicos), Vitor Araújo (teclados e piano) e Betão Aguiar (baixo).
Dois fatores deixam a obra interessante, a volta ao som pesado e inclinação ao rock e ao dub (referências que o acompanham desde os tempos de Titãs), ao mesmo tempo que não se limita a isso; e a generosidade na conexão com nomes da nova geração como Vandal (“Mundo Novo” com citação de “Mundanoh” do rapper baiano) e Ana Frango Elétrico (“Pra Não Falar Mal”) — parceria que deu uma liga incrível.
Além de grandes encontros com Marisa Monte, sua parceira em Os Tribalistas, em “Sou Só”, em David Byrne, em “Body Corpo” e “Não Dá Pra Ficar Parado”. O material conta também com parcerias nas composições de artistas como Erasmo Carlos e Marcia Xavier.
Há também a participação de Tomé Antunes, filho de Arnaldo, na guitarra em “Pra Brincar”, e de um quarteto de cordas, com arranjo de Antonio Neves, em “Sou Só”. Ao longo da sua epopeia, ele tenta entender os dilemas do mundo moderno, entre algoritmos, dinâmicas das relações no plano digital, o ódio das redes sociais, através de metáforas e um humor refinado inerente a sua poesia e presentes ao longo da sua discografia.
Reouvir esse disco no fim do ano é bastante apropriado, “Primeiro de Janeiro” e esse sentimento de “ano novo, vida nova”, ganha um significado mais amplo envolto a um reggae com arranjos que nos remetem a grandes artistas jamaicanos como Buju Banton e UB40 (“Jogue a roupa que não cabe mais / é primeiro de janeiro / tira a máscara da cara e fica em paz / com seu rosto verdadeiro / segue a direção do seu coração / do seu passo faz o seu chão”).
“Tire o Seu Passado da Frente” é daquelas que lava a alma, com referências ao rock eletrônico, versos cortantes e natureza punk. O swing presente em “Tanta Pressa Pra Quê?” vai beber da guitarrada paraense e mostra como a contínua pesquisa por referências faz parte do seu DNA musical… este que não enxerga música por rótulos e aponta para o futuro.
“Depois de um projeto tão íntimo e minimalista, que evidenciava as canções de um modo mais despido, apenas com o piano do Vitor e a minha voz, eu já estava ficando com saudades dos shows mais dançantes, com banda. Também acho que fiquei mais instigado por isso depois da turnê de reencontro com os Titãs. Mas na verdade não se trata apenas de um retorno a um som de banda, mas de uma renovação, graças ao Pupillo, produtor do Novo Mundo, e aos músicos que o gravaram, pois eles trouxeram uma sonoridade muito diferente da que eu vinha explorando nos meus últimos álbuns, e também muito atual.
Estou empolgado com o resultado, me senti muito à vontade com as sugestões de arranjos; a mistura de sons elétricos, eletrônicos e acústicos; o “violão preparado” e as guitarras de mil sons do Kiko; as ideias geniais do Pupillo; o baixo essencial de Betão e também por prosseguir de outro modo minha parceria com Vitor, que rendeu tantas belezas nos últimos anos, em nosso projeto conjunto. Todos estavam dispostos a experimentar coisas novas (arranjos, timbres, ritmos, efeitos), que é o que me entusiasma. Então é um disco que traz esse frescor”, afirmou Arnaldo durante o lançamento.
4) Mateus Aleluia Mateus Aleluia
É praticamente impossível ouvir o quinto álbum do Mateus Aleluia e não se emocionar.
Principalmente pela forma bela como fala sobre o amor ao longo de um disco com seis canções e pouco mais de uma hora de duração. Tadeu Mascarenhas assina a produção musical, os arranjos e a regência.
Aos 82 anos, o integrante do trio Os Tincoãs, entoa logo na primeira música os versos:
“quando o amor me manda eu sigo e vou / de caravela ou carro de boi, jegue ou teco teco / sigo o amor” seguido de “Não está dentro de nós, está em nós (…).
O amor nos rege, não sejamos rebeldes. Para nossa continuidade, entreguemo-nos sem pestanejar. O amor nos manda” mostram a densidade que tem ao abrir o coração para falar sobre a pureza do sentimento.
Sua relação com a ancestralidade, negritude, entre ambiências, e introspecção o músico baiano conta história de luta, resistência, reflete sobre a maturidade, relata sobre sua busca pela felicidade e declara livremente sobre seu amor à música.
3) Joca CORTAVENTO
CORTAVENTO chega seis anos após a estreia de Joca fazendo uma fusão interessante e efervescente entre tambores, religiosidade, hip-hop, Miami Bass, jazz, garage e amapiano.
Nascido no interior de Minas Gerais e criado em Niterói, o artista no disco soube entender a importância do tempo e a resiliência necessária para o seu desenvolvimento. Saindo fora da caixinha, explorando frequências e ambiências.
“O meu primeiro álbum retrata um momento da minha vida e vem com uma força muito forte de juventude, de ímpetos de expansão. Fala muito sobre desejo. E sinto que Cortavento é um relato desses processos de busca, contato e descontentamento com a própria vontade de movimentar”, explicou Joca em entrevista à Rolling Stone Brasil.
Entre as parcerias aparecem ao longo da tracklist nomes como Ebony, Tuyo, Luciane Dom, Amanda Sarmento, Jef Rodriguez e Luana Karoo.
“Além de agregar na música especificamente, que cada uma dessas pessoas fez junto comigo, agregam no meu processo artístico para a vida, de conseguir entender de que forma o outro chega num resultado que, em termos de plataforma, está também alinhado com o que eu faço. Sinto que esse processo de composição, de criação, de produção, é muito íntimo. Poder ter contato com esses artistas no estúdio, entender como eles trabalham, é muito engrandecedor”, revelou Joca.
O disco opera como se fosse um vinil: no lado A, o sonho, a leveza, a sensação de voo. No lado B, o retorno ao chão, às raízes, ao corpo.
“Desde muito pequeno, eu gosto de misturar claves, trabalhar com sobreposições, construção de novos ritmos, criar variações com ritmos ancestrais. Sinto que no Brasil a gente tem uma força muito, muito potente e muito intensa e incontrolável que surge desse encontro das culturas africanas e indígenas. E dentro de contextos super violentos, uma forma de sobreviver foi através da música, da palavra, do movimento, da comida. Isso me inspira porque eu enxergo que as gerações passam e esse fundamento se mantém vivo.
Em 2025, é muito difícil criar algo novo, então a forma de misturar os mundos é uma maneira de refletir quem eu sou e o meu ímpeto criativo.
No primeiro momento, eu me debrucei sobre a minha espiritualidade para entender de onde veio os ritmos ancestrais que formam a música contemporânea. Num dado momento, eu entendi que o uso desse conhecimento precisava ser feito com cuidado, já que estamos falando de uma sonoridade feita por um povo marginalizado. Então, a partir daí, eu começo a relatar um pouco mais sobre o meu desenvolvimento espiritual para a minha forma de contar histórias usando esses símbolos.
Eu espero colher uma cena mais plural e inclusiva. Que esse álbum estimule uma próxima geração a sair da caixinha, provocando os novos artistas a buscarem o diferente para além do que está estabelecido no mercado”, revelou sobre o momento durante o lançamento.
2) Luedji Luna Um Mar Pra Cada Um
Após colher os frutos do aclamado Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água (2020) — que ganhou versão deluxe em 2022 e ao vivo em 2025 —, Luedji Luna retorna aos holofotes com seu quarto álbum de estúdio: Um Mar Pra Cada Um. O projeto chega às plataformas digitais nesta segunda-feira, 26 de maio, e aprofunda a proposta artística da cantora baiana com influências de jazz contemporâneo, neo-soul, além de uma forte carga espiritual e emocional.
O novo álbum de Luedji Luna é marcado por uma investigação íntima, filosófica e plural sobre temas como carência emocional, amor idealizado, espiritualidade e ancestralidade. O disco conta com 11 faixas inéditas e participações especiais de nomes como Nubya Garcia, Liniker, Takuya Kuroda, Isaiah Shaker, TALI e da poeta Beatriz Nascimento, em uma participação póstuma por meio de inteligência artificial.
“Eu fiz esse disco pra investigar, para além do meu desejo, a minha carência, que gera essa busca incessante. Ele surge para que eu possa curar minha versão do passado que inventava amores, pois era a única maneira de habitar o amor, e para que eu compreenda que eu sou digna de ser amada porque, assim como qualquer ser humano, sou um ser divino.
Nele, eu encontro o amor divino, supremo, como em “A Love Supreme” presente na obra do John Coltrane. É por essa razão também que temos uma presença massiva de sopros neste trabalho.”, confidencia Luedji
O material reúne ao todo 11 faixas e as participações especiais aparecem em “Dentro Ali”, “Harém” e “Salty” e “Baby, Te amo”. A última é inclusive uma publicação póstuma de Beatriz, que recita o próprio poema a partir da utilização de uma IA.
Em faixas como “Gênesis”, que abre o disco, a baiana tem a companhia dos conterrâneos Bira Marques no piano, Bruno Mangabeira no sax, Nei Sacramento na bateria e Ângelo Santiago no contrabaixo. O álbum conta com ficha técnica extensa com direito a arranjos de violinos, violas, violoncelos, sintetizadores, caxixi entre outros.
A espiritualidade e a música como cura também são elementos que ressoam como ressonância.
“O sopro que anima a vida, que está presente no início de todas as coisas, na cosmogonia cristã e em tantas outras. A etimologia da palavra ‘espiritualidade’ vem do latim ‘spiritus’, que quer dizer sopro. Ele é o veículo e o amor é a fonte originária; o fundamento de toda criação, de tudo que existe. Por isso, a primeira faixa se intitula ‘Gênesis’ e começa com um sax”, relembra Luedji Luna
A faixa de abertura, “Gênesis”, dá o tom do álbum: instrumental, densa e espiritual. Participam da gravação Ubiratan Marques (BaianaSystem,Orquestra Afrosinfônica), Ângelo Santiago e Nei Sacramento, reforçando a ligação com a musicalidade afro-baiana e jazzística. A escolha do saxofone como instrumento de abertura conecta-se ao conceito de “sopro” como essência da vida — uma metáfora presente em diversas cosmogonias e na própria etimologia da palavra “espiritualidade”.
Na sequência, faixas como “Karma” e “Kyoto” exploram a projeção de desejos, superações e o sentimento de saudade em meio a batidas suaves de jazz e soul. “Kyoto”, em especial, une beats refinados a uma atmosfera de introspecção a milhares de quilômetros de casa.
“Rota” é um dos pontos altos do disco. Com uma orquestra completa (violinos, violas, violoncelos) e piano de Lucas Romero, a faixa remete à obra de Guilherme Arantes com uma abordagem lírica sobre os caminhos que recalculamos ao longo da vida.
“Dentro Ali”, com a saxofonista britânica Nubya Garcia, traz arranjos delicados e letras sobre sonhos, futuro e memórias. A canção funciona como uma jornada introspectiva guiada por grooves e sopros — elementos centrais em Um Mar Pra Cada Um.
“4hz” marca a transição para a segunda parte do álbum, com reflexões sobre o amor sob a perspectiva de uma mulher negra. Logo em seguida, “Harém” ganha contornos sensuais e intimistas, com participação marcante de Liniker na segunda metade da música.
A faixa “Gamboa” é uma ode tropical à paixão, misturando afrobeat e bossa nova com arranjos envolventes. Já “Salty” aposta em um funk refinado, com metáforas oceânicas que evocam as paisagens da Bahia. A canção inclui colaborações de alto nível com o saxofonista japonês Takuya Kuroda e TALI.
“Jóia” é uma das mais confessionais do disco. Com citações a “Pérola Negra” (Luiz Melodia) e produção emotiva, é um desabafo sobre afeto e vulnerabilidade. O encerramento se dá com “Baby, Te Amo”, faixa poética que une música e tecnologia com a voz digitalizada da poeta Beatriz Nascimento, criando um epílogo lírico para o álbum.
Luedji Luna prova, mais uma vez, que sua arte vai além do som: ela é corpo, pensamento, fé e memória. Um Mar Pra Cada Um não é apenas um álbum — é uma jornada sonora de cura e expansão. Um convite para mergulhar nas águas profundas do amor, da ancestralidade e da própria existência.
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1) Don L CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?

Quando Don L lança um álbum a certeza que temos é que vai nortear os próximos lançamentos da cena de uma forma ou outra e com CARO Vapor II – qual a forma de pagamento? não foi diferente, seja pela ousadia, pela provocação e por sair da zona de conforto que outros artistas se colocam.
Ele mesmo considera este como o mais ambicioso da sua carreira e mistura em seu rap gêneros como samba, baião, bossa nova, funk e tantos outros com a sua linguagem de quem vem do Ceará. Tudo isso é fruto de uma pesquisa que vai dos anos 1950 até meados da década de 2000. As ideias de Don L, que já vinha com batidas, foram finalizadas em colaboração com nomes como o produtor Iuri Rio Branco. Nave, de RPA2, contribuiu em três das quinze faixas.
Com olhar para o futuro, segundo o material de divulgação, o álbum é um exercício de imaginação e de redefinição do que a música popular brasileira pode ser hoje. Do samba jazz carioca transportado para as ruas do Conjunto São Pedro de Fortaleza ao baião encontrando as produções dos Neptunes, o artista entende as propostas antigas de música como sonhos de futuros possíveis, pilares da construção de um país cuja obra ficou inconclusa.
O registro conta com inúmeras participações especiais de nomes de peso da música brasileira como Alice Caymmi, Alt Niss, Anelis Assumpção, Bela Maria, Bruno Paschoal (Terno Rei), Catatau, Giovani Cidreira, Luiza De Alexandre, Luiza Lian, Terra Preta, Theo Crocker, Feijuca e Thiago França, além de vários músicos de estúdio.
É claro que uma lista com 50 Melhores Discos Nacionais (2025) ia contar também com uma playlist no Spotify para você conhecer tudo!












