De Salvador (BA), Giovani Cidreira a cada lançamento que passa tem se mostrado cada vez mais um artista versátil, com raízes D.I.Y. e contemporâneo tanto em suas escolhas sonoras, como também ao indagar sobre assuntos que sente na pele.

Quando todos esperavam com que o músico se resguardasse no processo criativo de seu segundo álbum, ele no dia 28/03 como quem não quer nada, solta uma potente e “classuda” Mixtape.

E não foi registro qualquer, ou como costumamos chamar, compilado, e sim, uma obra conceitual e alinhada com o momento. Onde a pressa, e o faça você mesmo, não necessariamente tem a ver com o desleixo.


Giovani Cidreira

Giovani Cidreira no fim de março pegou todos de surpresa com sua experimental e ácida mixtape. – Foto Por: Filipa Araújo


Giovani Cidreira – MIX$TAKE
(28/03/2019)

Ácido, na ferida, pontual e experimental. O que naturalmente gera uma expectativa sem tamanhos para o futuro álbum mas que se tiver este “tempero” com certeza mais uma vez o levará as principais listas de melhores do ano (Lembrando que Japanese Food foi um dos grandes destaques de 2017). Deixando o rótulo de promessa, e por sua vez, se consolidando no independente brasileiro.

O baiano chegou abusado já em fevereiro quando apareceu com o clipe D.I.Y. para “Pode Me Odiar” que é um tanto quanto dadaísta em sua estrutura e de forma simples, e descartável, como a web tem sido a cada dia (talvez até uma crítica isso), mostra o músico enviando frases de sua composição para amigos, entre eles produtores (como Rafaela da Casa Vulva), músicos e pessoas de seu círculo mais íntimo.

A reação deles, e a notória preocupação com “a falta de sentido” cativa com que visualizemos o vídeo até sua cena final. Simples, inteligente e desconexo feito a superficialidade das relações modernas.

Tudo isso gravado apenas com o auxílio de um iphone onde também foi gravado o registro. O roteiro foi feito pelo músico em parceria do músico com Rollinos, que também assina a direção do clipe.



Fato é que o clipe low budget também serviu para mostrar um pouco mais sobre a estética anárquica – e conectada de Mixtake/Mi$take que ousa misturar influências de Frank Ocean, referências do hip hop ativista, sensibilidade e experimentalismo, a sua persona.

Se você gosta de Blood Orange também pode ir sem riscos, pois a verve eletrônica também aquece seu caldeirão plural e temperado com críticas sociais bastantes pontuais.

Até mesmo o processo de gravação do registo foi anárquico. A mixtape, produzida por Giovani em conjunto com Benke Teixeira (Boogarins), foi gravada em meio a encontros entre Recife, Goiânia e São Paulo e marcou o início de uma amizade e parceria artística.

Assim como o vídeo, as 6 faixas (e 1 interlúdio) da mix foram gravadas em um Iphone, e a Casa Vulva, foi um dos principais redutos desta história.



Com beats e estética do lo-fi hip hop, “Oceano Franco”, faixa que conta com a parceria de Jadsa Castro, como próprio nome diz faz referências a lutas sociais, traz denúncias pontuais e homenageia uma geração que tem como um dos principais nomes Frank Ocean.

De certa forma a canção traz spoilers das participações do novo álbum que deve ser lançado em breve. Quem ouviu os recentes trabalhos de Alice Caymmi e Josyara vai pegar algumas das referências de canções como a potente e brilhante “Mansa Fúria”.

Mas convido vocês para tentar captar todas as dicas da letra que parece uma colcha de retalhos do atual cenário musical nacional.

“Pode Me Odiar” é tão chill que não é difícil não querer cantarolar ou entrar em seu flow. Retratando a inconstância humana, fragilidade, destemperos e desequilíbrios nas relações. Liberdade, solidão e um vazio sem fim, entre melancolia, e ironicamente, melodias grudentas.

Sinta o ritmo e siga o bonde na introspectiva, e flutuante, “Seu Cigana Flow”, canção que conta com a participação de Luê. Causando estranhamento e liberando sensações de emancipação. Experimental do começo ao fim feito as obras de Maria Beraldo e Ava Rocha.

Com sintetizadores, e estética synth pop, temos “Ngm + Vai Tevertist”. Catalisando um anticlímax que discorre sobre aprisionamento e uma dolorosa libertação. Fala sobre racismo de maneira delicada e pontual. Aliás, a sensibilidade é um dos pontos altos da mixtape.

Os batuques celestiais transparecem em “Mano Sereia”, faixa que o músico tem em companhia Filipe Castro e mais uma vez Jadsa Castro. Entre beats, eletrônica, ancestralidade, religiosidade e discurso, a música alerta sobre a violência e o descontrole social de nossos tempos.

Já caminhando para o fim do registro temos “Casa Vulva”, que além de homenagear o local, fala sobre se perder, conflitos, distúrbios e o preço que pagamos por viver. Um dos samples parece até mesmo uma escaleta.

Mas quem fecha mesmo é “Pode Me Odiar Pt. 2”, uma versão ainda mais experimental e remixada do single. A mensagem que fecha o registro é bastante PMA: “Se Você Tem Um Sonho Você Tem Que Acreditar Mais Que Todo Mundo”.

Dado o recado e é isso mesmo, por mais difícil e por mais barreiras que tentem te impor, resista. E fazer arte é isso: Acreditar quando ninguém mais tem fé em você.

Bravo, Giovani, Bravo!


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Irreverente, provocativo, sensível, experimental e colocando o dedo nas feridas. Seria uma boa forma de te convencer a dar o play na nova mixtape do artista baiano.

Ácido, tecnológico, perspicaz e pontual, o músico usa e abusa do anticlímax para passar seu recado. Giovani Cidreira é cirúrgico na arte de desconstruir e reconstruir as torres e pilares de seu trabalho.

Buscando referências no pop, experimental, hip hop, R&B, eletrônico e colocando em pauta importantes temas de nossos tempos. Antenado com os principais destaques de uma rede cada vez mais escrava de algoritmos, Cidreira presta homenagens a contemporâneos como Frank Ocean, Blood Orange, Josyara e Alice Caymmi.

Elevando assim as expectativas para seu novo álbum que também contará com produção de Benke Ferraz, dos Boogarins, e será lançado via Selo RISCO.

Novo álbum a

caminho

O segundo álbum, inclusive já foi gravado, e teve como casa os estúdios da Red Bull Music Station. Para este novo registro Giovani Cidreira convocou um time de peso que conta com os músicos Lucas Martins (Céu, Curumin), Ynaiã Benthroldo (Boogarins, Macaco Bong) e Filipe Castro (Giovani Cidreira, Alice Caymmi).

Além de diversas participações especiais como Ava Rocha, Luiza Lian, Fernando Catatau (que produziu uma faixa), Dinho Almeida (Boogarins), Josyara, Luê, Obirin Trio, Jadsa Castro e os músicos da banda Maglore. Por aqui já estamos ansiosos para ouvir!