Indie Neon BR: Walfredo em Busca da Simbiose, Parque da São, Oruã, mulato, afterhourless, Illucas, Tenório  e muito mais!

A Indie Neon BR traz conteúdos em micro-resenhas do que de melhor tem acontecido no Indie Nacional. Singles, discos e novidades com o radar antenado do Hits Perdidos ganham o palco em um post informativo que acompanha sempre uma playlist!

Sobre a Indie Neon BR

A Indie Neon BR visa apresentar novidades de artistas contemporâneos aliados à identidade do Hits Perdidos com foco em artistas que usem artifícios como sintetizadores, experimentem texturas oníricas e flutuem entre gêneros correlatos ao Indie Rock e seus afluentes. Por aqui você encontrará sons alternativos fora do convencional empurrado goela abaixo todos os dias, nosso Lado B reunirá micro-resenhas, listas e playlists alimentadas aos poucos.

Do synthpop ao lo-fi de quarto, passando por dream pop tropical, post-punk revival e beats cheios de vapor estético — aqui é o lugar do underground.

Uma editoria dedicada ao indie brasileiro com sintetizador, identidade e com o espírito DIY (faça você mesmo). Pra quem faz som em casa, na garagem ou com estética além do lado esquerdo do dial — e quer ser descoberto por quem escuta além do algoritmo.


Walfredo em Busca da Simbiose - Indie Neon - Foto Por Mauricio Saldanha (@mausaldanha)
Walfredo em Busca da Simbiose é destaque na editoria Indie Neon. – Foto Por: Mauricio Saldanha (@mausaldanha)

Indie Neon BR #7

Tenório “Pedra de Rio Não Sabe Que Montanha é Quente”

Filipe Consolini sob a alcunha de Tenório apresentou recentemente seu novo projeto instrumental com referências que vão de Tigran Hamasyan, Amaro Freitas, Shai Maestro, até Radiohead, Badbadnotgood e Portishead. Jazz, rock e música brasileira aparecem no horizonte dentro do seu escopo de pesquisa.

Em sua companhia o músico tem Henrique Meyer na guitarra, Victor José no baixo e Felipe Marques na bateria, artistas conhecidos na cena independente por articular projetos como Antiprisma, Supercolisor e OZU.

A faixa começou a ser composta por Filipe enquanto vivia na Serra da Mantiqueira — cujo nome em tupi significa “serra que chora”, região conhecida pelo grande número de nascentes, rios e montanhas — e foi finalizada na cidade de São Paulo.

O resultado disso é expansivo e repleto de ideias de interações entre frequências e ritmos. Universo esse que grupos contemporâneos como Black Country, New Road têm explorado com certa excelência. São camadas adicionadas ao longo da audição, entre duelos de instrumentos, dissonâncias, quebras de tempo e uma estranha sinergia sensorial ao integrar cada elemento, deixando a viagem sonora plástica, repleta de curvas e sentimentos.

“O som pode ser descrito como uma inquietude suave: tensão e atmosferas carregadas de mistério, ao mesmo tempo, em que oferece paisagens delicadas e respiros harmônicos. O título se reflete nos arranjos: a música desce em fluxo contínuo, como um rio que percorre a montanha, em um percurso de tensão e entrega.”, comenta Filipe.

Parque da São Ideograma

Um dos projetos mais interessantes e imersivos que chegou por aqui foi o duo carioca Parque da São. Formado por Arthur Bittencourt (ente, Ovo ou Bicho) e Julio Santa Cecília (DJ Guaraná Jesus, Relevo Espacial) com lançamentos sendo disponibilizados pelo atento Seloki Records, seu som mistura indie folk e psicodelia entre outras curvas sonoras.

Previamente foram disponibilizados três singles, sendo o último a ser revelado antes do álbum de estreia Ideograma foi “Estados Unidos”. A curta duração da faixa esconde a sua densidade e natureza soturna de fogueira no acampamento, com frequências alienígenas sendo captadas pelas frequências do rádio. E até por isso as referências de nomes como Sun Kil Moon, John Martyn e Jim O’Rourke, citadas por eles, façam bastante sentido neste single.

Essa mistura de noite com natureza deixa tudo muito intenso, como eles dizem, até mesmo fantasmagórico, entre pensamentos intrusivos e questionamento. O violão, por sua vez, mostra que está tudo bem. A faixa ainda conta com a voz de Clarissa Cosenza para deixar tudo ainda mais denso… entre frequências mais baixas e provocações estéticas.

Com o lançamento do álbum completo, a Parque da São, deixa claro o teor cinematográfico que norteia o material. O impacto da obra do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul serviu como inspiração estética para este disco que vinha sendo preparado ao longo de 3 anos.

Foram justamente as imagens e as trilhas das obras que ajudaram a construir sua narrativa, além, claro, do Rio de Janeiro, cidade em que residem, artistas contemporâneos como Alex G, Negro Leo e Animal Collective e o trabalho de sound design de Oneohtrix Point Never que mistura psicodelia e pop de uma forma bem atmosférica. Eles sintetizam dizendo que o álbum está entre o plano dos sonhos e de sentir as emoções intensas, feito uma meditação transcendental.

Contribuem no registro, o baterista Arthur Martau (Ant-Art, Simone Mazzer) e o baixo do produtor e multi-instrumentista Paulo Emmery (Jards Macalé, Antonio Neves, Tonton, Letrux), e arranjo de Ilan Becker (grãomestre) na canção que fecha o álbum (“Cerimônia”). A produção, mixagem e masterização do álbum são de Julio Santa Cecília, já João Fujioka, assina todas as artes envolvendo o lançamento.

O universo inventivo repleto de camadas, misturas e ambiências de seus outros projetos já dava um spoiler: entraríamos em uma grande viagem sensorial longe dos rótulos das prateleiras de discos. Com direito a provocações sonoras sinestésicas, como na faixa que abre (“Canção para Soytiet“), melancolia psicodélica folk (“Eco dos Homens”), concebida principalmente a partir da influência do disco de covers do Modest Mouse por Sun Kil Moon, como relatado pelos próprios integrantes.

Os delays e devaneios que flertam com a estética do Inspiral Carpets ganham cores nas telas sonoras de “Pira”. Já “Água Doce” ressoa como a brisa do sereno e as curvas dos ventos de forma quase meditativa. O eco das curvas sonoras, o silêncio e colorido aparecem na vívida faixa que dá título a obra que parece até abrir um portal. Já “Cerimônia”, segundo eles próprios ocupa um lugar central no conceito do álbum: representa o ápice da narrativa — o despertar da meditação transcendental.

“O trabalho dialoga com referências como o disco Baião de Princesas, do grupo A Barca, a música “Obatalá” da banda Metá Metá e com a fotografia de Luiz Braga, buscando criar uma ponte entre a pesquisa cultural brasileira e a linguagem sensível explorada por Apichatpong, revelam os integrantes sobre “Cerimônia” que tem arranjos de Illan Becker, um coro de vozes femininas que tem até a participação especial de Marita Graça, mãe de Arthur.

“Vazio” encerra a sessão meditativa explorando camadas mais leves e fechando o ciclo de reencontro com o seu lado mais sensível… agora finalmente em harmonia.

Julia Melo “freak”

De Blumenau (SC), Julia Melo apresenta sua nova fase explorando as ondas sonoras dos sintetizadores e do pop alternativo. Entre suas referências estéticas ela cita Kate Bush, FKA Twigs, Aphex Twin, Lorde, Björk e CSS. Marlon Lopes da Silva, produtor e guitarrista da banda Adorável Clichê, foi o responsável pela masterização e foi co-produtor da música.

Segundo a artista, “Freak” que sucede o EP Celestial (2020) foi inspirada nas festas que tocava como DJ aliadas à sua bagagem musical. O universo onírico e subversivo, entre o sonho e a realidade, ganham esse tempero de pista de dança, não é por acaso que ela mesma associa-o ao surrealismo e campo gravitacional de David Lynch.

Algo que senti ao ouvir foram referências do hyperpop e colagens sonoras que dão movimento para todo o universo imerso entre a confusão mental e a tentativa de compreensão. O sentimento de não pertencimento permeia a faixa que ganhou um videoclipe com referências do filme Corra, Lola, Corra e edição de Julia Melo e Larissa da Silva. O vídeo conta também com glitches e efeitos de luz que deixam a pista ainda mais dark pop.



Grisa “Mares de Morros”

Após debut, Grisa dá as caras com “Mares de Morros”, versão para “I Lost Something in the Hills” da alemã Sibylle Baier. A original foi gravada entre 1970 e 1973 para o único álbum de Sibylle, Colour Green. Esse disco ficou guardado anos e só foi oficialmente lançado em 2006, mais de 30 anos após ter sido gravado, quando o filho de Sibylle, Robby, colocou as músicas num CD e presenteou familiares. Uma das cópias foi parar nas mãos do J Mascis (Dinosaur Jr.) que repassou para o selo Orange Twin (da Laura Carter, do Elf Power) que resolveu lançar o disco em fevereiro de 2006.

“Tudo começou graças a Ana Gouveia, minha amiga talentosíssima que teve uma ideia pra um curta-metragem e me mostrou essa composição da Sibylle Baier falando que me imaginou cantando essa música em português”, explica Grisa.

Em sua versão à brasileira, Grisa criou a versão em português “substituindo por imagens e sentimentos de uma Minas Gerais onde me perdi, a terra visceral dos “Mares de Morros” e janelas de guilhotina”. A música foi a primeira de Grisa gravada e produzida ao lado de Gil Mosolino (Applegate) que coproduziu, mixou e masterizou o álbum Amor Trespasse.

Folk e com teor confessional, a versão ganhou uma sensibilidade e novas imagens de forma, como se fosse uma espécie de “Stairway To Heaven” à mineira. Essa visão da cidade, entre as experiências e vivências que se entrelaçam, evocam o sentimentalismo e cores vívidas que se entrelaçam no horizonte.

Labatú “Conta Gotas”

A Labatú volta à rotina de lançamentos com “Conta Gotas”, faixa com estética oitentista que faz uma espécie de dueto de vocais femininos e masculinos, entre teclas, poesia reflexiva e atmosfera dançante. O quarteto tem gravado suas produções no Estúdio Jacarandá com Rafael Thémes.

O single é a primeira amostra do álbum de estreia que tem previsão para ser lançado no início de 2026.

Disk Mandy “Jeito fácil”

Com referências de Clairo, Paira, The Chemical Brothers e Marina Sena, passando pelo breakbeat 90s e pop alternativo, Disk Mandy apresenta “Jeito Fácil”. A faixa, inclusive, ganhou um videoclipe com direção de Giulia Batista, que retrata a artista pela cidade de Curitiba com direito a colagens e texturas.

“É uma música que surgiu a partir dos meus próprios dilemas, intuições e improvisos. E o clipe, veio para dar cor, literalmente, para todo o projeto; uma face muito mais animada e diurna do que anteriormente, mas mesmo assim íntima, trazendo manualidades ainda não exploradas até então”, comenta a artista.

Esse limiar entre pop radiofônico, colagens rítmicas do breakbeat, deixam tudo com aquela cara de rádio algorítmico. Entre o revival e as tendências de fusões estéticas, a letra tem aquela proposta clara de fazer com que o refrão fique na cabeça.

A música foi produzida e mixada pelo multi-instrumentista Daniel Cataldi e masterizada por Fernando Delgado, com assistência de Bruno Martuchello.



Rhoden “Refém”

Rhoden retoma sua carreira autoral com o single “REFÉM”. Em paralelo à carreira na produção de outros artistas, o novo material faz um mix entre R&B, pop e alternativo. Assim como seus trabalhos anteriores, o grave e as ambiências são pulsantes, assim como a linha de baixo estridente escolhida para criar toda a atmosfera.

Alternando entre o minimalismo, guitarras, teclados, beats e letra direta e objetiva, a canção aposta nas melodias, melismas e energia reverberante. Moderna, com referências do R&B, a inventiva música eletrônica também vai para o primeiro plano, deixando tudo ainda mais pulsante. Entre as referências, Rhoden cita nomes como Jean Tassy e Masego.

Illucas “Teto Preto”

Illucas, integrante da Cidade Dormitório, de Sergipe, apresenta “Teto Preto”, canção que tem como plano de fundo a cidade, seus delírios, pensamentos intrusivos e conflitos boêmios. Essa sensação de inconstância, se junta em seu “sincericídio” poético e groove swingado com direito a metais. Entre memórias, clarões e desespero, sua letra revela a realidade descompensada enfrentada por muitos artistas que vivem no pêndulo entre o centro e a periferia.

“Busca retratar de forma simples, porém bem aclimatada e confidencial, o trajeto de um jovem frequentador de bairros boêmios até sua casa, na zona periférica de São Paulo. Transita entre os altos e baixos, pensamentos e injúrias explícitas, a bebedeira e inseguranças que este caminho noturno pode proporcionar”, revela Lucas Rocha.

Lançamento capitaneado pela Matraca Records/ybmusic tem como referência artistas como Passo Torto, Elza Soares e Mad Season.

FERALKAT “Tsunami”

Natasha Durski retorna às produções sob a alcunha de FERALKAT com “Tsunami”, primeiro single do álbum KARUKASY (previsto para 2026). Inspirado na palavra que em tupi significa “dor da tarde”, um término e suas consequências se fundem em um som do disco que faz um mix entre dreampop, indie, bedroom pop, math rock e post rock.

“Essa música é sobre o impacto de um término difícil, esse momento em que uma vida inteira precisa ser deixada pra trás. O ‘Tsunami’ é tanto o mar turbulento interno quanto o pranto — as lágrimas dessa dor. O sample de ‘Space Song’, do Beach House, reforça essa sensação, com o verso ‘who will dry your eyes when it falls apart’ ecoando na solidão desse fim.

Quis explorar até onde dá pra ir com uma produção independente, mantendo a qualidade profissional, mas abraçando o lofi que vem junto disso. Trabalhei muito o paneamento e o estéreo, então recomendo ouvir com bons fones ou um bom sistema de som pra sentir a música por inteiro”, revela Natasha.

Esse mar turbulento, sofrido e repleto de lamúria se reflete tanto na densidade e estética introspectiva espacial da canção, como nos seus versos que nos dão a sensação de estar preso em uma espiral. Esse exercício de abstração e imersão estão bem claros na dinâmica torturante escolhida pela artista para atravessarmos junto às etapas de uma ruptura. No caso, ela também tentou fazer uma ruptura sonora cheia de aclives, entre quedas, labirintos e mudanças de rota.

A artista assina a voz, letra, guitarras, synths, bateria e beat, baixo de Fellipe A. Dantas, mixagem feita por Natasha e Fellipe, e masterização de Stefanos Pinkuss. Entre as referências, Durski cita Björk, Beach House, Magdalena Bay, PJ Harvey da fase White Chalk, Tame Impala, Cocteau Twins, Ruído/mm, Julee Cruise e DIIV.

afterhourless No Friends at Dusk

afterhourless, projeto solo do Rafael Panke (ruído/mm, Delta Cockers, Lonely Nerds’ Songbox) lançou o EP No Friends at Dusk pelo novo selo curitibano Spleen Teen em parceria com o selo inglês Shore Dive Records. O músico que já colaborou com Marina Gasolina e Rose & Me, assina letras, composições, toca e grava todos os instrumentos, além de cuidar da produção e da mixagem.

afterhourless faz um retorno às suas origens musicais e explora bastante as melodias e guitarras mais lisérgicas. Fãs de selos como midsummer madness não vão ficar desapontados. Bastante atmosférico, No Friends at Dusk preza pelas camadas e ambiências. Entre a nostalgia, os aclives, o plano dos sonhos e distorções que flertam com o universo das guitar bands e da densidade do pós-punk. O single que abre, “Coriolis, Centrifugal Love”, vai agradar com certeza fãs de grupos como Swervedriver, The Stone Roses e My Bloody Valentine.

O uso pontual dos sintetizadores ajudam a estabelecer a densidade e sentimentalismo que Rafael queria trazer para o EP de pouco mais de 17 minutos de duração. Um exemplo disso é “The Route to Andromeda” que tem toda aquela frequência mais baixa típica das canções para ninar e cria ao longo do seu horizonte paisagens imagéticas. Sobreposições e vocais no melhor estilo Bob Mould aparecem em faixas com foco na lead guitar, como na auspiciosa e espacial “Unused Space”.

mulato Criatura

Após uma série de reavaliações sobre processos pessoais e relação com a cultura brasileira, Matheus Antonio optou por rebatizar seu projeto como mulato. Criatura é a prova de como seu processo de busca por referências e por estabelecer diálogos mais amplos em termos estéticos transparece. Além do mergulho dos anos 1990 e 2000, já presentes na sua caminhada até aqui, agora ele incorpora influências do soul setentista, do jazz e da bossa nova.

Um maior diálogo com as ruas e origens também serve como elemento capital dentro dessa jornada, como ele mesmo revela. Conhecido por sua capacidade de produção e de participar de todos os processos, o material contou com colaborações pontuais de Pedro Millecco na bateria, baixistas e arranjadores convidados, cada um adicionando camadas à visão inicial.

 “Foi um mergulho na minha natureza e na selvageria do meu inconsciente, nesse lugar da primeira infância, sem tantos filtros. Esse disco fala de sobrevivência. Todo mundo é um pouco dessa criatura que vai ter que atravessar o caos, a violência, encontrar o próprio caminho. E eu acho que esse trabalho é sobre persistir acreditando, ainda que nem tudo seja tão favorável e justo”, explica o artista natural de Jandira (SP).

Essa busca por se mostrar sem filtros sua verdade aparece de forma explícita em verso de “Tatuagem de Cobra” (“Toco o céu como 2pac / E regresso cada vez mais verdadeiro”) feito um renascimento, como ele mesmo elucida. O caos urbano dá seu cartão de visitas logo na faixa de abertura (“Bizarro!!!”) com referências que vão desde o barulho do metrô, colagens sonoras, beats do hip-hop, distorções e grooves com todo o espírito de artistas como Run-DMC, com uma roupagem moderna em sua estrutura.

“Desenho Cego” é daquelas canções quase cinematográficas, não apenas no sentido de criar imagens mas também em expandir referências e narrativas. Ele mesmo revela ter misturado acordes de jazz, bossa nova com psicodelia, guitarras flutuantes e reverência ao soul dos anos 70.

“A letra é baseada no conceito de efeito borboleta a partir das escolhas que fazemos, e que se refletem na imprevisibilidade da vida: lagartas tentando desabrochar, escolhas no escuro, desenhando cego um futuro que não se controla”, revela Matheus sobre a faixa que completa: “Materializa musicalmente a ideia de ser mulato – representada numa música de influências negras de diversas diásporas e as ramificações globais do rock alternativo”.

A loucura que causa até doenças em nosso psicológico da hiperconectividade, aliás, um dos temas que mais tem gerado canções nos últimos anos, ganha um alento em “Azaleia”. Nela, em outras palavras, ele procura além de alertar os danos provenientes do hábito, estabelecer uma relação de empatia com quem se vê entediado… mas que ao mesmo tempo tem dificuldade em estabelecer conexões offline. O veneno amargo dos nossos tempos.

Transformação, sobrevivência e transformação, feito uma borboleta, é o que o músico estabelece em “Criatura”, faixa título. Os dilemas, dores e quebras de certezas inerentes ao crescimento e pequenas mortes que ficam pelo caminho nesse processo ganham uma canção para chamar de sua. As camadas sonoras, entre a viola caipira, loops e tom sereno mostram como o processo de amadurecer nem sempre é silencioso. Viver como um ato de resistência e se transformar como o de sobrevivência.

Esta é apenas algumas das reflexões que sua poética pode nos transmitir. Sua longa duração contribui para que você embarque nessa jornada ao seu lado. Seja lá o que você estiver passando em sua jornada pessoal, ouvir atentamente pode gerar uma reflexão importante e ressoar como um sopro de esperança.

Lembro quando ouvi “Punks”, parceria do mulato com Hugo Noguchi, tem alguns anos e naquele momento foi uma das canções do indie daquele momento que mais tinha gerado reflexão. Sua estrutura harmônica era de fato à frente do tempo e talvez por isso nesse momento de renascimento artístico ela ser resgatada faça todo sentido. A quebra brusca do uso dos samples de Duda do Marapé e do MC Magrão contribui para a dinâmica da narrativa escolhida com uma rara sensibilidade. Ver ela voltar às plataformas e com o peso de significado que tem para ele deixam tudo ainda mais denso.

“Essa canção fala sobre o deslocamento e a alienação na vida urbana, partindo dos recortes dos dois artistas participantes, mulato em relação a diáspora africana e Hugo Noguchi em relação a imigração amarela”, revela Matheus.

Oruã Slacker

O quinto álbum de estúdio da Oruã finalmente ganha o mundo. Imerso entre as idas e vindas para o exterior, o material tem a produção do guitarrista do Built to Spill, Jim Roth. Essa energia psicodélica, cheia de efeitos de pedais, aliada a vocais sussurados e dinâmicas que estimulam o desconectar, sua construção vai envolvendo o ouvinte a cada camada e progressão de acordes.

“Mexico Suite” conversa até mesmo com a natureza disruptiva de grupos como Sonic Youth. Esses aclives, entre guitarras mais acachapantes e curvas dissonantes, entre reverberações e sopros na linha mais intensa que bandas de Jazz Punk, como The Cravats, utilizam como recurso deixam tudo mais transgressor e latente. Raiva, intensidade, crítica social e quebra de paradigmas permeiam sua narrativa, entre um descompasso, uma compressão e efeitos de pedais.

Elementos de noise, afrobeat, lo-fi indie rock e psicodelia se fundem a referências da plural e agregadora música brasileira, talvez o maior diferencial do disco. Eles mesmos referenciam nomes como Luiz Gonzaga como uma das influências. O material ainda conta com uma parceria com o inventivo e conterrâneo Caxtrinho em “De Se Envolver”, uma das gratas surpresas ao longo da audição.

As guitarras se unem ao violão em momentos mais contemplativos, como é o caso de “Slave of the Golden Teeth”. Para quem gosta de Bike e Boogarins, o disco pode encaixar feito uma luva dentro de uma playlist bastante atmosférica, lisérgica e sensorial. “Casual”, single previamente divulgado, é daquelas mais cadenciadas e que dialoga com o trabalho de artistas como Dinosaur Jr. indo de encontro com a nossa tão prolífera e alucinante música psicodélica brasilera.

Já “Inaiê” mostra uma faceta mais densa e lenta da forma que seu andamento, e metais, nos colocam em frequências mais leves, daquelas ótimas para abrir uma apresentação antes de pegar pesado com dissonâncias e guitarras mais ásperas. Ela meio que faz uma ponte com a natureza e expande sua narrativa para uma conexão mais espiritualizada.

“Marejar” por outro lado é mais expansiva, dissonante, flertando com o space rock com elementos lo-fi. Sua atmosfera mais caótica e de repetir acordes mais secos dialoga até mesmo com um universo que vai do The Doors ao Gang Of Four, passando pela sonoridade onírica de artistas como Ema Stoned, mistura interessante e que merece atenção. O material fecha de forma mais intimista com a acústica, “Banguela”, faixa que tem uma atmosfera noventista que marcou a finada MTV Brasil com direito a experimentação de teclas e arranjos mais eruditos em sobreposição.

Walfredo em Busca da Simbiose Mágico Imagético Circular

Três anos depois de Self, Walfredo Em Busca da Simbiose, projeto do artista paulistano Lou Alves, aparece no horizonte com seu Mágico Imagético Circular. Repleto de narrativas poéticas, o conceito do disco gira em torno da não linearidade, tarot, literatura e filosofia. Sonhos, metafísica, vivências e experimentações artísticas, entre a solidão e o pertencimento, que recaem quando evoca seu lado artístico com sinceridade em sua odisseia.

Produzido majoritariamente em casa, contou apenas com participações pontuais de músicos próximos, Dizzy Vargas (synths), Uiu Lopes (baixo e voz em “Zum Zum Zum”), João Lopes (bateria) e Pedro Lacerda (bateria). A produção, arranjos e mixagem ficaram por conta do Lou, captações das baterias na matraca records por Fernando Rischbieter e Pedro Vince, e master por Pedro Vince.

Suas referências dão mesmo o ar de refino e busca pela atemporalidade, não é por acaso que cita Mutantes, Rita Lee, Gilberto Gil, Jorge Ben, Pink Floyd e David Bowie como grandes inspirações. Sua própria vida acaba tendo resquícios, e cicatrizes, nas músicas como o próprio Lou revela em algumas com um teor ainda mais sentimental e afetuoso.

“Rita Lee”, segundo single, fala, por exemplo, sobre sua condição de “ovelha negra” na família, transformando dificuldade em afeto. Já “Zum Zum Zum”, parceria com Uiu Lopes, evoca a brasilidade de Gilberto Gil, cheia de trocadilhos e humor.

Até por isso a música como ferramenta de cura, entre a solidão, as decepções e a ressignificação de momentos ganham tanta forma em um trabalho em que o artista se debruça sobre si para se reinventar. O resultado, por sua vez, ressoa no ouvinte justamente por essa carga energética de desprendimento e atenção cirúrgica nos detalhes e curvas sonoras que o trabalho reluz.

São camadas sonoras que recaem como a trilha sonora de alguém que busca por seu espaço e ressignificação em meio a lugares e ambientes onde nem sempre se sente parte mas que ao olhar por um novo ângulo se vê pronto para criar novas memórias. Essa linha atemporal que permeia o álbum é algo de se destacar. Algo tão simples e humano que nem sempre damos tanta atenção como merecia.

Um disco que pode ser ouvido daqui uma década sem perder sua força motriz, sua sensibilidade assumidamente pop e com foco na experiência do ouvinte. Diferencial esse que conseguimos justamente observar em discos clássicos que o material se espelha. Tudo isso de forma que converse com as elucidações e horizontes sonoros que o artista almeja trazer para a órbita da obra.

Em um mundo contemporâneo marcado pelo afastamento da hiperconectividade e raso das relações, Lou olha para dentro para descobrir respostas para dilemas que vão muito mais a fundo do que apenas escolher temáticas e criar uma narrativa linear. São fragmentos do cotidiano, entre seus momentos de esperança, destempero, quebra de padrões, entre alívios cômicos e reaproximação dos corpos no plano metafísico. Até por isso, os desejos, contradições e as tentativas de reconexão se vêm tão fortes no horizonte.

Sua linguagem acessível, visceral e adocicadamente pop, deixa toda essa experiência de vulnerabilidade ainda mais tangível para quem vive neste grande planeta azul. O fator não-linear se confunde com nossas próprias memórias que muitas vezes não contemplam uma timeline reta e que em nossa mente ressoam como uma série de eventos que nos levaram até aqui. Tudo junto e misturado, feito as memórias que fazemos pelo caminho do que chamamos de vida.

Flau Flau Íntimo Oriental

A paraibana Flau Flau lançou recentemente seu álbum de estreia, Íntimo Oriental, com produção de Paulo Emmery (Letrux, Jards Macalé) e participação de Dinho Almeida, dos Boogarins. Um lançamento do selo do estúdio DoSol. O título, um jogo de palavras com o “Extremo Oriental” de sua cidade natal, reflete a natureza introspectiva do álbum, segundo material enviado à imprensa.

Entre as referências citadas pela artista estão nomes bastante distintos como Tame Impala, a conterrânea Cátia de França e Marina Lima. Assim como Warpaint, Boogarins e Blonde Redhead, o pop radiofônico, das Spice Girls e do Rouge, também entram no emaranhado que traz a brasilidade de nomes como O Grande Encontro e Adriana Calcanhotto, dentro do mesmo escopo plural e expansivo que se propõe.

“Falo dos meus relacionamentos nas letras e sou lésbica, simples assim. Ser sapatão me dá uma liberdade de transitar entre o masculino e o feminino, de ser roqueira sem depender de um homem cis pra dizer o que devo gostar nesse mundo. Eu pego o que acho bom e transformo em meu”, revela a artista sobre a natureza e perspectiva das suas composições.

Todos esses universos que a obra contempla faz do pop psicodélico que produz repleto de confissões, entre reverbs e uma pista de dança intimista que não vê limites para a sua abstração. O disco, de fato, te convida para a imersão desde seu primeiro acorde criando texturas e um universo particular para comunicar tudo que o move, tanto no campo da mensagem como nos territórios sonoros que abrange.

Ao mesmo tempo que olha para o que vem de fora, são nos detalhes que vemos o quanto no entorno pop oitentista de Marina Lima o disco orbita. Algo que fica mais explícito em “Meu Todo Azul” que faz uma justa homenagem ao clássico Fullgás (1984). Até mesmo o fenômeno do “Jomo” (“Joy Of Missing Out” – prazer de ficar de fora), fenômeno recente que se opõe ao fomo (Fear Of Missing Out – FOMO – medo de ficar de fora), ganha uma música só para ele. Com camadas de sintetizadores, atmosfera dançante e vocais melódicos feitos para dançar sozinho no seu quarto sem abrir mão das luzes neon das festas.

As compressões de “Free To” também desafogam o lado mais experimental texturizado do álbum. O que deixa tudo mais eletronicamente interessante com sobreposições de camadas e timbres delirantes. Esses ecos e curvas sonoras ao mesmo tempo que de natureza pop, ganham glitches e texturas que fazem com que o ouvinte navegue nesse oceano em “Lua Cheia, Cachorro Doido”.

Essa narrativa delirante ganha mais cores em “Amor ou Delírio” que automaticamente pelo título nos remete a “Amor Delirio” da paulistana Papisa. “Bye Bye”, já na parte final da obra, tem feat de Dinho Almeida, dos Boogarins, com direito a texturas delirantes, pop cintilante e intensidade nos ecos e cantos dos artistas que se sobrepõem em meio ao mar revolto de grande viagem psicodélica. Essa natureza experimental delirante desemboca na pungente com acordes que nos remetem ao som de uma cítara indiana na expressiva, misteriosa, ritualística e deliciosa “Johnny People” que fecha o álbum de forma grandiosa.

Playlist: Indie Neon BR

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