Melhores Álbuns Nacionais de 2020

2020 é a terceira vez nos dedicamos a fazer listas de Melhores Álbuns do Ano no Hits Perdidos. Não será a única do site, além desta com escolhas do editor teremos também individuais dos colaboradores. A ideia é essa mesma trazer diversos pontos de vista e novas dicas para quem acompanha o Hits Perdidos.

A ideia não é polemizar ou dizer que um disco é pior por não estar na lista. Muito pelo contrário, estas listas tem a intenção de recapitular o que rolou por aí – e não foi pouca coisa.

Por aqui, por exemplo, foram mais de 120 discos resenhados ao longo do ano. De estilos diferentes, com histórias peculiares, discursos e uma musicalidade que mostra um pouco sobre para onde a música brasileira está caminhando.

Listas são polêmicas por si só e no ano passado reunimos um time de jornalistas e formadores de opinião para dar seus pitacos sobre a confecção destas (Confira Aqui).

Melhores Álbuns Nacionais de 2020

Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2018 (Confira a Lista).
Lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2019 (Confira a Lista).

A lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2020 reflete um ano totalmente atípico e de muita dificuldade tanto para a classe artística como para a humanidade. Um ano marcado por uma pandemia e o distanciamento social fez com que a artes e outras formas de expressão fossem essenciais para trazer conforto, esperança e entreter.

Nossa lista passeia por ritmos como instrumental, MPB, Rock, Eletrônico, Alternativo, Experimental, Hip Hop, Pop e Reggae. Sem regras estabelecidas muitas vezes um crossover de estilos é visível.


Melhores Álbuns Nacionais de 2020 - Lista


50) Alfamor Onça



Com participações especiais de nomes como Mateus Aleluia e Bruno Capinan que também aparecem em nossa lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2020, a gaúcha Paola Alfamor lançou seu debut Onça via YB Music. As 7 vidas dos felinas acabam sendo o centro do álbum que passeia pelo reggae, MPB, Dub, Cúmbia, Ijexá e pop.

O disco traz consigo temáticas sobre o feminino, o onírico, o esoterismo e a ancestralidade. Produzido por Saulo Duarte e com participações, além dos supracitados, de nomes como Mãeana, Gabi Guedes, Arthur Briganti, Camila Costa e a dupla argentina Perotá Chingó.

49) Sick O Sonho e a Escada



Uma banda em momento de transição. Feito o encontro entre rios, o desenvolvimento da sonoridade e perspectivas com o rumo do projeto vem sempre acompanhado das vivências. Entre turnês, ensaios, shows, convivência e muita pesquisa de campo. Com a Sick não foi muito diferente e depois de lançar Para Uso Recreativo (2017), pela Sinewave Label, a banda apresenta sua nova fase.

O Sonho e a Escada (Quadrado Mágico, 2020) ainda carrega elementos de post-rock, emo e math rock mas já traz nas nuances, e espirais, influências diretas e indiretas de outras estéticas musicais. Afinal, o tempo deu quilometragem e experiência para o grupo que neste período se apresentou em festivais como Picnik, Mineiro Beat, Bananada, Timbre e Locomotiva.

Conexões estas que possibilitaram e ajudaram a pavimentar novos degraus da escada que se formaria. Quando falamos sobre construção, falamos disso. Algo que passa pela estética, sonoridade, desenvolvimento de conexões, leitura do mercado e estabelecimento de parcerias nos mais diversos âmbitos.

Recomendado para fãs de: Post-Rock, Math Rock, Instrumental.

Leia a Resenha Completa + Entrevista Exclusiva

48) FLORA A Emocionante Fraqueza dos Fortes



Dona de um dos discos mais belos de 2020 do estado do Alagoas Flora Uchoa apresentou nesse estranho ano o delicado e intenso A Emocionante Fraqueza dos Fortes (Lab 344). Aliás a produção é do Wado que também aparecerá em nossa lista e mostra o encontro entre a sutileza e pop.

O disco ainda conta com uma emocionante releitura de “Sua Estupidez”, colaboração entre Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Se superação foi uma das palavras mais necessárias de 2020, o registro acaba nos ajudando a mostras caminhos para superar obstáculos e percalços da vida.

47) Academia da Berlinda Descompondo o Silêncio



A Academia da Berlinda nasceu em 2004 e até o momento possui quatro álbuns – Academia da Berlinda (2007) e Olindance (2011), Nada sem ela (2016) e Descompondo o Silêncio (2020).

As inspirações passam por Olinda (PE), pelo amor e também pelo cotidiano. Entre influências pernambucanas e afro-caribenhas, a banda dá o ritmo à emoção. No campo das referências musicais o grupo traz para o caldeirão o frevo, coco, maracatu, cavalo marinho, ciranda, forró, cúmbia, afrobeat e carimbó. 

Confira Faixa a Faixa

46) Ousel Ousel



Um pássaro selvagem dá origem ao nome da banda Ousel, de Goiás, que lançou seu álbum debut em 2020. Gélido e passeando pelas ondas de gêneros como post-rock, shoegaze, noise rock, spoken word e dream pop, o disco aborda temáticas como a vulneariabilidade, insegurança e mares profundos do nosso inconsciente. Recomendado para fãs de Slowdive, Pale Saints e RIDE.

45) Tiganá Santana Vida-Código



O quarto álbum de estúdio do cantor, compositor, instrumentista e produtor musical baiano saiu ainda em fevereiro. Instrumentos eletrônicos aliada a percussão dão uma nova roupagem para a discografia do músico.

A sutileza dos instrumentos, intercâmbios de experiências dentro do campo da produção, experimentação e parcerias, além da mistura do português com o francês são marcantes dentro da obra multicultural. O registro conta com participações de nomes como Arany Santana (mãe de Tiganá e uma dos fundadoras do Bloco Ilê Ayê), e Alzira E.

44) Ricardo Richaid Travesseiro Feliz



O álbum de estreia do carioca que é sobrinho-neto de Carmem Miranda, Ricardo Richaid, conta com participações de nomes como Ana Frango Elétrico, José Ibarra e Marcos Suzano.

A mistura é que dá o tom do registro que em seu caldeirão mistura jazz, rock, MPB, psicodelia…o que ele denomina carinhosamente como “tropicalismo industrial”. O resultado final é bem viajante; o disco vai crescendo a cada audição conforme você vai se sentindo mais a vontade com sua estética e universo imagético bastante expansivo. A instrumentação e o experimentalismo vai envolvendo o ouvinte aos poucos em uma viagem por paisagens bastantes distintas.

O músico além de executar os instrumentos ainda assina a produção e direção do álbum gravado entre 2018 e 2019 na capital fluminense.

43) Bruno Capinan Leão Alado Sem Juba



O sexto álbum do baiano Bruno Capinan chegou já no apagar das luzes de 2020 mas nem por isso passou batido em nossa lista. Com participação de Moreno Veloso o álbum foi gravado entre Toronto (CAN), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Paris (FRA) e Lisboa (PT).

A produção é coletiva e assinada pelo músico ao lado de Bem Gil, Bruno Di Lullo, Diogo Strausz, Gustavo Ruiz e Ubunto. Entre participações especial o álbum reúne músicos como Domenico Lancellotti e Rafael Rocha.

Paixões, decepções, melancolia, perdas, violência, escuridão, calma e melodias chiclete acabam reverberando ao longo da obra que conta com pouco menos de 30 minutos de duração. Um disco que merece ser ouvido com bons headphones.

42) Yamasasi Colorblind



O quarteto de surf punk Yamasasi (saiba mais), de Piracicaba (SP), transforma suas angústias e medos da vida adulta em um disco recheado de distorções, baixo no talo e boas melodias. Diverte mesmo falando de decepções, isolamento, despedidas e fracassos.Se você cresceu ouvindo a trilha de Tony Hawk’s Pro Skater, gosta de punk rock ou acha o máximo Pixies…esta banda é para você. Pode vir tranquilo pela sombra que a viagem promete. Lembrando que é verão então não esqueça de beber muita água.

Confira a Resenha completa no Hits Perdidos

41) Mari Blue Entre



Em setembro a mineira Mari Blue lançou seu quarto álbum de estúdio, Entre. Nas composições ela tem a parceria de Mário Wamser, Puppi, João Bernardo e Roberto Callado). Mari além de ser responsável pelo processo criativo do álbum, e cantar, ainda assina a produção musical, direção artística, gravação, mixagem e a execussão da maior parte dos instrumentos.

Gravado durante a pandemia, o disco carrega a angústia, vulnerabilidade e traz consigo as inspirações femininas presentes em sua vida. “As Pessoas Não Querem o Que Elas Pedem” é um dos pontos altos do disco que também conta com a participação de Luciane Dom, em “Entre (Acapella)”, e de João Cantiber, em “Penso, Logo Invento”.

“Entre é um convite para entrar num universo infinito que muitas vezes atordoa, mas que aqui quero apresentar com leveza, é um convite para sermos mais criativos e menos dogmáticos, legisladores e não somente juízes. “Entre” é o espaço onde moram as possibilidades, entre eu e tudo que pode existir, onde tudo se cria. Entre!”, comenta Mari Blue.

40) SD9 40˚.40



O álbum de estreia do rapper SD9 do bairro de Bonsucesso no Rio de Janeiro chamou a atenção não só no Brasil mas como fora do país. O cotidiano do subúrbio, claro, é a diretriz do lançamento que explora as vivências e beats envolventes.

Considerado o primeiro álbum de Grime do RJ o instrumental de Lj, diniBoy DIIGO, Chediak, Vhoor, Rennan Guerra e Og; além de participações especiais de D r o p e, LEALL, VND, N.I.N.A.

39) Resp 2X



Ouvir esse disco é feito uma viagem de trem, a cada estação a mixtape entra em uma diferente rotação e fluxo. Seja no assunto que aborda, como pela colagem que elabora. Ela bate em diferentes frequências. A conversa ganha desdobramentos, passando íntimo, pelas relações interpessoais e pelo cotidiano.

O Jazz, o coral, o folk, o hip hop, o rock, o sing-a-long e a música eletrônica acabam entrando na engenharia feito os episódios de uma série com começo, meio e fim. Daquelas que a cada vez que você assiste tenta observar por outro ângulo.

Com a vibe hora caótica, ora chill, as diferentes vivências e experimentação são condensadas. Assim como os questionamentos que extrapolam a auto-crítica e individualidade, por mais que estes também sejam pilares dentro sua parte lírica.

Urbano, acizentado, caótico e abrangente, ele dialoga com os “corres” das principais metrópoles e capitais brasileiras sob um ponto de vista de outsider. As participações trazem novas estéticas e visões para a obra, deixando se levar pela corrente dos bailes da vida.

Com uma liberdade e sem medo pelo que vai encontrar pelo caminho. Como artista ele sabe roubar como diz o livro de Austin Kleon, deixa claro em suas entrelinhas, com direito até mesmo a citações de outros artistas e referências da cultura pop; entre arranjos, timbres e sonoridades.

As Experimentações de Resp

“Em 2020, pré-COVID, testei as faias ao vivo antes da finalização, e isso mudou bastante coisa. Surgiu “Nova Lua”, que é uma versão alternativa e mais lenta de uma track chamada “Lua”; e também “Relaxx”, quando conheci o Deni aleatoriamente numa festa da Casaluzdelfuego.

Katze e Vic entraram pra somar ainda mais nessa fase final. Ambas conheço a alguns anos e já tivemos banda, selo, clipes e altos roles junto. Com a Katze fui batera no álbum El Rapto da Cora e na Shower Curtain toco bateria nos shows.

Meu instrumento é a bateria, por isso boto beat em tudo. É difícil pra mim sentir uma track que não tem um ritmo forte. O som que eu tento fazer é beats do Kanye (West) encontram a vibe do King Krule. Piro muito nas colagens lo-fi do Standing on the Corner e Earl Sweatshirt. Mas na hora de cantar só consigo focar no que é daqui, então tenho aulas com Gil, Taiguara, Yung Buda e NiLL, pra citar os mais mais.

Tive que cortar muita (muita) coisa pra montar o 2x, porque acho que hoje só faz sentido a ideia curta e direta. Se o trampo do artista é roubar o tempo das pessoas, to trabalhando numa época de crise de tempo.

10 faixas e menos de 30 minutos, músicas de 2 minutos, só isso vira. Muita coisa ficou de fora e assim já tem uma mixtape quase pronta, que imagino pro início de 2021, com muito mais samples, um pouco de post-hardcore e mais participações.”, conta Lorenzo

Leia mais em Resenha + Entrevista Exclusiva para o Hits Perdidos

38) Marcos Valle Cinzento



O álbum foi lançado nos primeiros dias de 2020 mas nem por isso foi esquecido. De certa forma adianta em sua temática a angústia que marcou o ano, o registro discorre sobre a saudade, memórias, sensações e a passagem do tempo. Com groove e passeando por ritmos como Funk, Soul e o Samba. Kassin, Bem Gil, Emicida e Moreno Veloso colaboram ao longo do disco.

37) Bivolt Bivolt



Em março a rapper Bivolt lançou seu álbum de estreia com direção de Nave e misturando R&B, dancehall, jazz, trap e hip hop. Xênia França participa da faixa “Nome e Sobrenome”, a dupla Tasha & Tracie participa em “Murda Murda”, Jé Santiago participa de “Tipo Giroflex”, Lucas Boombeat (Quebrada Queer) participa em “Hipnose” e “Freestyle” conta com Dada Yute e Tropkillaz.

36) Luvbites Loud Fast Soul



Se você já leu Mate-Me Por Favor, Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain (1996); acompanhou a evolução da Pop Art e artística do período dos 60 aos 80 talvez entenda mais a estética, narrativa e proposta de resgate do álbum.

A faixa “Youthquake“, cujo nome se refere ao termo que foi criado por Diana Vreeland, quando ela estava a frente da edição da Vogue Americana, cargo que ocupou de 1963 a 1971. A canção inclusive abre o registro e tem como temática as inquietações da alma.

O nome do álbum faz referência ao tema da brevidade da vida e do espírito jovem, e é também uma homenagem a soul music e ao artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe, um dos melhores amigos de Patti Smith, cuja história foi contada no livro Só Garotos.

Até mesmo o cinema cult acaba entrando em cena e colore os nuances e ambientações ao longo do álbum. Mas a música do sul e centro oeste dos EUA também ganha suspiros em seus traços que caminham pelo soul, blues, gospel, folk e funk. É da emoção e dor desses estilos que as passagens da vida acabam ganhando capítulos a parte ao longo da jornada dos paraenses. São 23 minutos entre delírios, sentimentos à flor da pele e reflexão.

Leia Resenha + Entrevista no Hits Perdidos

35) Mateus Fazeno Rock Rolê Nas Ruínas



Mateus Fazeno Rock, de Fortaleza (CE), em Rolê Na Ruínas, faz um dos discos mais necessários para o momento em que estamos vivendo no Brasil. Abordando temáticas que passam pelo campo da realidade social, exclusão, violência e discriminação, ele denuncia situações vivenciadas no dia-a-dia das comunidades de todo o país.

Um rock que funde o pop radiofônico, funk carioca e referências como Nirvana, O  Rappa e Silverchair através de uma linguagem simples, eficiente e direta. É punk em sua essência tanto na atitude, como na produção e na mensagem importantíssima que quer passar.

34) Valciãn Calixto Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível



O trabalho que Valciãn Calixto (leia entrevista) desenvolve em prol da cultura tem o poder de conectar, diminuir distâncias geográficas, mobilizar mas principalmente transformar. O músico natural de Teresina, no Piauí, busca a cada lançamento mostrar como a superação, parcerias e tudo que o acerca pode correr junto aos seus sonhos. Esse espírito de coletividade, perseverança e independência que o ajuda a construir a sua própria jornada.

Depois de lançar Foda! (2016), e apresentar para o Brasil o seu axé punk, além de colher os frutos da sua caminhada ainda participou do tributo ao Pato Fu (O Mundo Ainda Não Está Pronto), da Coletânea Afroindie e lançou alguns singles, um deles, inclusive homenageando Jair Naves.

A preparação para o lançamento do seu segundo álbum, Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível, se iniciou ainda em abril, no começo da pandemia, com o single “Deus é Bom (O Tempo Todo)”; um pagodão com influência de Psirico lançado em parceria com o baiano Jotaerre.

A mistura do que é o Brasil transparece em “Nya Akoma” que carrega ritmos latinos e traz elementos da cultura africana. A canção participação especial do rapper carioca Jeza da Pedra que mostra sua versatilidade para cantar em outros estilos.

O disco foi gravado no Calistúdio, mixado e masterizado no Zadok Estúdio, em Teresina, por Elimar Cunha. O registro ainda conta com parcerias de Julia Barth (Os Replicantes), Juliana D Passos, percussão de Marciano Calixto em “Deus É Bom (O Tempo Todo)” e o baixo de Marlúcio Calixto em “Ensinamentos da Preta Velha Vovó Maria Conga”, ambos irmãos de Valciãn.

Leia mais em Entrevista Exclusiva para o Hits Perdidos

33) Tarda Futuro



A Tarda não é apenas uma banda e sim também um projeto audiovisual. Fotografia, música, cinema e poesia se convergem no horizonte. Inclusive o álbum de estreia, Futuro, funde mantras, discursos políticos, spoken word, tecnologia e nas vozes das escritoras Hilda Hilst e Clarice Lispector. Algo que já podia ser observado tanto na belíssima capa como também no videoclipe para “Breath”, a banda mineira também conta com integrantes que vivem em São Paulo.

Na formação a Tarda conta com Julia Baumfeld (Bateria), Paola Rodrigues (Voz, sintetizador), Sara Não Tem Nome (Voz, guitarra), Victor Galvão (Baixo) e Randolpho Lamonier (Criações visuais da banda).

O inconsciente, os deslocamentos emocionais e cognitivos, a dinâmica das relações humanas, os conflitos, as discodâncias, as fragilidades e os fluxos de informação acabam sendo temas abordados ao longo da obra que apesar do nome fala sobre o presente. Já no campo da sonoridade etérea o som do grupo passeia por gêneros musicais como post-rock, shoegaze e dream pop.

Um álbum que Paula Coraline define: “Futuro é o único arranjo sonoro possível para os tempos de anormalidade enfrentados atualmente, capaz de embalar os melhores devaneios, sejam eles brilhantes ou opacos.”

Confira Faixa a Faixa escrito pela banda com exclusividade para o Hits Perdidos

32) O Nó Resquícios Cromáticos



Foi lançado aos 45 do segundo tempo de 2020 é bem verdade mas nem por isso passou batido em nossa lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2020. Lançado no dia 04/12 o álbum tem como inspirações a passagem do tempo, o sophisti-pop oitentista e na obra do pintor David Hockney.

Como referências eles ainda citam grupos como Fleetwood Mac, Dorgas e Haruomi Hosono. Memórias, luz, colagens, escuridão, sonhos, espelhos e neblinas reverberam como temáticas do álbum que chama bastante a atenção pela estética e tem tudo para agradar a fãs de Viratempo. O interessante é observar a transição sonora e estética em relação ao primeiro EP, algo que se reflete também nos videoclipes apresentados para promover o trabalho até o momento.

31) Julico iké maré



Um voo solo é sempre uma experiência diferente e Julico, vocalista e guitarrista do The Baggios, foi de mansinho tateando e aos poucos apresentou live sessions e singles. A essência do sergipano transparece, multiritmico a psicodelia, o baião, desert blues e música funk ganham novos contornos em seu caldeirão que ganha o caldo com direito a uma série de participações especiais como a de Sandyalê.

Na temática o autoconhecimento, o espírito animal e os dilemas a respeito da nossa existência transparecem ao longo do álbum que conta com 13 faixas. Parece todo audacioso escrevendo assim mas para quem acompanha a carreira do The Baggios de perto sabe que é um processo natural, intenso e bastante verdadeiro.

“Minha necessidade com a música foi justamente fazer algo mais segmentado neste sentido, com um conceito amarrado das temáticas e das texturas. As músicas se complementam”, comenta Julico.

“Todo Dia É Santo (feat. Curumin)”, com percussão que se une as teclas para falar sobre as pedras no sapato, o karma e as lutas do dia-a-dia, “Nuvens Negras”, um clamor por tempos melhores que parece até antever os incêndios na floresta amazônica, “São Cristóvão Via Niger (feat. Sandyalê)”, uma espécie de dub forasteiro, e “Eu São / Curtis Says”, foram os singles apresentados antes do lançamento e já davam um pouco a ideia do caminho do disco.

O Espírito livre e a maturidade musical de Julico

Pesquisador nato, as parcerias potencializaram horizontes complementares ao seu repertório. “Ikê Maré” motiva a lutar pelos sonhos independente das dificuldades que aparecerem pelo caminho em um caldeirão bluseiro e alto astral. O soul e as guitarras setentistas aparecem em coalizão em “Aonde Viemos Parar” e ainda tem vocais que complementam a experiência quase espiritual com direito a trocadilhos sagazes.

Aliás a política aparece ao longo de todo o disco mas sempre com alguma tirada ou duplo sentido, característica da música brasileira de outrora que muitas vezes faz falta. Um álbum de um guitar man que não tem medo de ousar, reconhecer origens e domina a arte de criar ambiências, texturas e imagens. “Pelejamor” é um dos pontos altos do disco e consegue fazer uma mistura rica entre baião, soul e seu espírito livre.

Não se limita, não se prende, dialoga através do choro da guitarra onde consegue desafogar suas reflexões. Aliás, a capa nesse sentido é perfeita, Julico desafoga para se encontrar e quem sabe poder encorajar os outros a fazer o mesmo.

30) Tantão e os Fita Piorou



Depois de Drama (2019) Carlos Antônio Mattos, o Tantão, mostra como tudo pode piorar em um disco tão apocalíptico quanto 2020. Aliás o lado experimental, eletrônico, noise e industrial continua a reverberar em Piorou (QTV).

Música torta inteligente cheia de camadas e de possibilidades sonoras como glitches, samples, sintetizadores, poemas e a boca servindo muitas vezes como instrumento. Violento, visceral e com uma carga emocional forte de quem se vê pressionado mas não conseguindo visualizar a luz no fim do túnel.

29) DEAFKIDS & PETBRICK Deafbrick



O disco colaborativo do DEAFKIDS com o duo londrino Petbrick, formado por Wayne Adams (Big Lad, Death Pedals) e Iggor Cavalera (Sepultura, Soulwax, Cavalera Conspiracy), deu o que falar. Potente, irreverente, caótico, industrial, punk, noise, cibernético e barulhento. O trabalho na percussão, inclusive, é um dos grandes destaques da obra que traz consigo um paredão de guitarras e ruídos.

28) Guilherme Held Corpo nós



Com direito a participações de Filipe Catto, Rubel, Tulipa Ruiz, Criolo, Juliana Perdigão, Romulo Fróes, Ná Ozzetti, Péricles Cavalcanti, Juçara Marçal, Thalma de Freitas, Maria Gadú, Marcelo Pretto, Ney Sigma, Iara Rennó e Mariana Aydar, o guitarrista Guilherme Held apresenta em seu debut um dos grandes discos de 2020.

Timbres, boas melodias, harmonias, solos de guitarra e participações dão o tom da obra que tem pés na tropicália. O instrumental “Sorongo”, inclusive, conta com arranjos do maestro Leiteres Leite. Um disco para apreciar com calma, afinal, são 17 faixas que compõe e neste aspecto vai total na contramão da era do consumo atual.

27) Giovanna Moraes Direto da Gringa



Um disco divertido e irreverente é Direto da Gringa marcado pelo experimentalismo e do pop, com bons timbres e mostrando a potência vocálica de Giovanna Moraes. As referências distintas fazem com que o álbum uma hora soe rock, outra jazz e outra passeie para a MPB (principalmente de grandes cantoras e intérpretes brasileiras). Até por isso no fim do ano saiu a versão Rockin’ Gringa com uma proposta mais rock’n’roll em formato de live session.

26) Marcelo D2 Assim Tocam os MEUS TAMBORES



Em tempos de fórmulas buscando algoritmos e a pandemia deixando todo mundo em casa Marcelo D2 resolveu inovar e gravar um disco conceitual, e bastante experimental, repleto de participações especiais via Twitch. Foram mais de 150 horas de lives na plataforma até chegar no resultado final, contando com participação dos fãs, chamados de “crias”, diversos samples marcantes da música brasileira e intervenções.

Participa um time de peso formado por Anelis Assumpção, Baco Exú do Blues, BK’, Criolo – que narra o mito Bakongo da criação do tambor escrito pelo historiador Luiz Antônio Simas – Da Lua, Djonga, Don L, Eduardo Santana, Helio Bentes, Ivan Conti “Mamão”, João Parahyba, Jorge du Peixe, Juçara Marçal, Kassin, Kiko Dinucci, Luiza Machado, Nobru, Ogi, Rodrigo Tavares, Rogê, Russo Passapusso, Sain e Thiago França.

Nave, DJ Nuts, Kamau, Dr. Drumah, Barba Negra e Tropkillaz assinam a produção dos beats. Quem assina a masterização é Jonathan Maia. Já a mixagem do álbum fica por conta do amigo de longa data – e vencedor de dois Grammys Latino – Mario Caldato Jr.

25) Macaco Bong Delta Tron



Sem avisar ninguém, como de praxe, no dia 23/09 o Macaco Bong lançou o disco Delta Tron. Como o mesmo nome diz as viagens por paisagens de um futuro pós-apocalíptico se fazem presentes e a mistura é sua base de sustentação. Diferente de tudo que o músico já experimentou, ele provoca misturando blues, eletrônica, funk, colagens e beats do hip hop, drum & bass, trip hop, space rock com sua tradicional guitarra que parece flutuar na sua mão.

O que se mantém é o caráter orgânico da sua concepção e experimentação. Cada faixa aparenta vir de uma cena de um filme com a temática e explora uma solução diferente, sua unidade está mesmo é na liberdade que tem para ir para a próxima track.

A Experiência

Imersivo, potente, sem amarras, o som cyborgizado mostra o futuro que nos espera se não fizermos nada para alterá-lo. Em algumas o futuro parece que já chegou, como é o caso das provocações no nome das faixas: “Oito Centavos de Direito Autoral”, “Dez dólares de streaming”. Se você ler o nome das faixas na sequência chegará ao seguinte questionamento: “Na ponta do ideal toda obra rende algo, oito centavos de direito autoral, dez dólares de streaming. A internet bloqueia tudo. Sabem tudo o que você faz. Faz parte do cash, no total são alguns centavos de lucro e poucos levam isso a sério”. Chegamos no 1984 da era digital?

Vale lembrar que recentemente, inclusive, o Macaco Bong removeu alguns discos das plataformas digitais.

24) Sepultura Quadra



O Sepultura lançou em 2020 seu décimo quinto álbum de estúdio logo no começo do ano. Conceitual por si só o disco gravado na Suécia, e produzido por Jens Bogren (Opeth, Arch Enemy, Angra), é baseado na numerologia, sua inspiração veio do livro Quadrivium (2010), e em sua construção conta com diversos elementos inusitados dentro da discografia da banda como relata Andreas Kisser.

O disco tem como pilares as quatro artes liberais: cosmologia, geometria, matemática e música. Até por isso ele é subdividido em quatro partes cada uma com três faixas. Passeando pelo Thrash Metal, percussão da era do Roots (1995), progressivo e contando também com faixas mais melódicas. Um álbum em que o vocalista Derrick Green parece se sentir bem mais a vontade em relação aos anteriores.

23) Negro Leo Desejo de Lacrar



“Lacrar, na verdade, é o que nos resta”: Assim fala Negro Leo sobre seu novo disco, Desejo de Lacrar, lançado no dia 17 de julho. Mas ao contrário do que parece, o cantor, compositor e instrumentista não o diz em tom de fracasso – tampouco quer pegar carona nessa moda.

Criada pela comunidade LGBTQIA+ com a intenção de argumentar de maneira incontestável, sem brechas para críticas ou defeitos, a gíria tornou-se tema do nono álbum do artista maranhense radicado no Rio de Janeiro. A obra mostra, mais do que nunca, o quanto Leo é um artista inventivo, questionador e até mesmo divertido.

Lançado pelos selos ybmusic e QTV Label, Desejo de Lacrar continua uma pesquisa sonora baseada em experimentos de timbres e texturas psicodélicas iniciadas nos álbuns Água Batizada (2016) e Action Lekking (2017).

Ele busca retratar o “discurso e representação do lacre” que surgiu a partir do crescimento dos movimentos de direita durante os protestos de 2013 e que “acabou resultando numa mudança de mentalidade mais abrangente que veio a dar no golpe e na ascensão do ultraliberalismo-escravocrata, que basicamente se comunica através do logos lacrador”, observa o músico no release.

O disco expõe o tema através de faixas como a melodiosa “Tudo foi Feito pra Gente Lacrar”, a frenética “Absolutíssimo Lacrador” e a lúdica “Dança Erradassa”.

Desejo de Lacrar conta com direção artística de Negro Leo, produção musical de Sergio Machado, mixagem e masterização de Nick Graham Smith e participações de Fábio Sá, Chicão, Lello Bezerra e Everton Santos.

Confira Entrevista Exclusiva com Negro Leo no Hits Perdidos

22) Djonga Histórias da Minha Área



O rapper mineiro Djonga lançou seu quarto álbum, Histórias da Minha Área. O registro sucede Ladrão (2019), O Menino Que Queria Ser Deus (2018) e Heresia (2017).

Ele não quebra a sua tradição já que sempre lança seus álbuns no dia 13/03, feito uma surperstição. O registro é o mais pessoal lançado até o momento segundo o músico que tratou de levar a realidade dos subúrbios do país. Ele deixa claro isso em sua fala.

“Quando eu conto a história da minha área, acho que conto a história de todas as áreas do Brasil que se parecem com de onde eu vim…vocês sabem do que eu to falando, pelo menos quem veio de lá sabe do que eu to falando, quem não cresceu preso dentro de casa vai entender o que eu to falando, só não é garantia que vão gostar do que eu to falando.”, relembra Djonga sobre a temática do disco

21) Obinrin Trio Origem



Foram quatro anos de preparação. 4 anos de ensaiar, testar, sentir e transpirar. Praticamente o tempo de preparo para uma olimpíada ou até mesmo uma copa do mundo. Mas a Obinrin Trio soube sentir, soube deixar o tempo trabalhar ao seu favor e optou por não pular nenhuma etapa desta longa jornada.

Sempre com muito carinho, conectividade com os fãs e fazendo do dia-a-dia seu maior aprendizado. Corta para Março de 2020. O mundo passando por mudanças profundas, cada um em sua casa tendo que conviver com novos hábitos e uma nova rotina.

Se tudo está confuso e parece incerto, porque não nos conectar através do que nos move? São as paixões, dores, batalhas internas e lutas coletivas que nos fazem mais fortes; e únicos neste universo. Sentimentos que musicalizados nos passam sensações e nos despertam para as coisas que realmente importam.

Feito uma peça de teatro, Origem, debut da Obinrin Trio, tem um pouco de tudo. Tem dores, romances, realidade social, lutas, verdades e um trabalho feito a muitas mãos. A sonoridade traz um Brasil que luta para existir. Um Brasil que transborda e precisa ser amplificado.

O título do álbum não poderia ser mais autobiográfico como conta Lana Lopes.

“Esse disco canta da nossa origem, não à toa, o nome. Essas são músicas que nos acompanharam desde o início do nosso projeto enquanto trio. E nosso maior desafio, até agora, foi o de  transformá-las em algo eterno, gravado…um registro de tudo que passamos, aprendemos, vivemos em dez faixas.

Acho que ainda não entendi o que tô sentindo com tudo isso. Mas com certeza é gostoso, ter a certeza que fizemos o nosso melhor, na intenção de retribuir à todes que cruzaram e cruzarão nossos caminhos.”

A Produção e o Processo Colaborativo

Além de Lana completam o trio, Elis Menezes e a irmã Raíssa Lopes. A produção musical é assinada por Iran Ribas, Juliana Strassacapa e Rafael Gomes da Silva. A mixagem é de Iran e a masterização de Gabriel Penteado; Rafael Posnik também contribuiu na engenharia de som.

As gravações foram realizadas com recursos gerados via uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e em parceria com o estúdio Veredas.

O registro ainda conta com participações de Eva Figueiredo, Marina Beraldo, Lari Eva, Josyara, Jadsa, Kiko Dinucci, Catarina Rossi, Fê Koppe, Domi Vieira, Rafael Gomes, Lena Papini, Bia Ferreira, Nã MaranhãoDessa Brandão.

Confira a resenha completa no Hits Perdidos

20) Vovô Bebê Briga de Família



Por falta de um disco Vovô Bebê lançou dois discos ao longo do ano de 2020. Briga de Família (RISCO) no começo do ano e Lixas Vários Tipos agora em dezembro (produzido durante a quarentena). Aliás “Êxodo”, primeiro single do disco, tivemos a honra de fazer a Premiere, a faixa conta com a participação da Ana Frango Elétrico também parceira de composições do músico.

Com pluralidade ritmica a MPB torta que bebe do samba, do rock psicodélico, do jazz e do experimental em seu andamento, é repleta de elementos como o sopro, efeitos e intercâmbio com diversos artistas da cena independente carioca; o que abre alas para uma jornada pautada na poesia. Bastante inventivo e atmosférico, o disco prende a atenção com muita fritação e conta com backin vocals pontuais.

Confira a matéria no Hits Perdidos

19) Tatá Aeroplano Delírios Líricos



Tatá Aeroplano fez um disco bastante solar e com a atmosfera do isolamento no campo mas bem antes disso virar moda, diga-se de passagem. O sexto disco reflete em temas como a solidão, memórias, saudade, política, desilusões, cotidiano em ondas psicodélicas que também flertam com a MPB. A faixa “Alucinações” é o grande destaque.

18) Bruno Schiavo A Vida Só Começou



Foi no começo de 2020 que Bruno Schiavo lançou A Vida Só Começou (Rock It!), seu primeiro disco solo. Vale lembrar que “Tem Certeza?” da Ana Frango Elétrico é uma parceria dele com a artista carioca. Além das faixas autorais o registro conta com canções de André Camarero e Felipe Kouznetz e do poeta Tazio Zambi.

Com espírito garageiro o disco diverte com doses de bom humor e levada powerpop. Assobiável, chiclete, com letras do cotidiano, psicodélico e com referências que vão da vanguarda paulistana, passeando entre a MPB e o rock. Um disco leve para um ano tenso.

17) Carabobina Carabobina



O Carabobina fez um dos discos de 2020 que você não sabia que precisava ouvir até apertar o play. Minimalista, torto, derretido, pulsante e explorando diferentes frequências, o álbum de estreia lançado via OAR Recordings é um experimento que ganha forma fazendo um elo entre o alternativo e o pop.

Daqueles que você pode ter uma experiência ao ouvir na caixa de som e uma (completamente) diferente ao escutar com os dois fones de ouvido. Reverberante, refrescante e estranhamente delicioso.

O projeto Eletrônico Noise Pop é o fruto da união de duas mentes pulsantes, a engenheira de som venezuelana, Alejandra Luciani, e o goiano Raphael Vaz Costa, o Fefel, dos Boogarins.

O Orgânico do Carabobina

O orgânico se alinha ao tecnológico, e ao futurismo, com muita liberdade e respeitando o espaço criativo alheio como já foi relatado em entrevistas anteriores. O disco do Carabobina ao mesmo tempo que não é linear: te convida para uma viagem espiritual (e psicodélica) através das sensações.

Nele o casal que se conheceu em 2017 em um show mostra a sua química também no estúdio e constrói suas próprias narrativas com a ajuda de ferramentas como o Ableton.

O aspecto lo-fi também ganha o tempero da produção ter sido realizada de forma caseira. Pautado nos sintetizadores, melodias e experimentações na mixagem, de certa forma ele traz consigo aquele espírito das bandas e projetos do MySpace de outrora, olá Washed Out, quem lembra?

Confira o faixa a faixa exclusivo sobre a produção feito pela Alejandra

16) Mahmundi Mundo Novo



Em seu álbum mais pop lançado ainda em maio Mahmundi além de cantar também assina a produção e direção. Da alegria a melancolia o álbum acabou abraçando o ouvinte durante o mês mais pesado – até então – da pandemia.

Em três faixas ela atua como intérprete (“No Coração da Escuridão”, de Didi e de Jorge Mautner, “Convívio” de Paulo Nazaré, e “Vai”, de Heliodoro). Já o hit “Nova TV” que ganhou um clipe incrível de quarentena é uma composição em parceria com Castello Branco, ele também assina parceria em “Nós de Fronte”; e Felipe Lau em “Sem Medo”.

Em entrevista para o jornalista Pedro Antunes Mahmundi relata que “Nova TV” veio de um texto de Castello publicado no instagram sobre o hype criado em torno do disco Jesus Is King, de Kanye West. É na leveza e no conforto que o disco cresce a cada ouvida. Uma aula de pop com boas doses de guitarra.

15) Wado A Beleza que Deriva do Mundo Mas a Ele Escapa



2020 começou e aos poucos Wado foi revelando singles que fariam parte do seu novo trabalho, A Beleza que Deriva do Mundo, mas a Ele Escapa (LAB 344), que celebra seus 20 anos de carreira. O músico apostou em realizar um disco em que busca mostrar sua forma de criar, e co-criar, de maneiro coletiva, ou como ele mesmo disso: com a sua turma.

“Aprendi isso de misturar com o saudoso Carlos Eduardo Miranda, ele, lá no início da minha carreira me perguntava: “Wado, quem é tua turma?”. Hoje, sou feliz de dizer que minha turma tá nos meus discos, tenho a alegria de partilhar. Esse disco seria menor não fossem essas pessoas, sou fã dos músicos, dos compositores.”,relembra Wado citando um dos maiores ícones da música brasileira que nos deixou há dois anos e meio

Esse ano que começou todo diferente devido a pandemia acabou mudando um pouco o cronograma do disco, que saiu em Outubro, mas ele acabou conseguindo um alcance inédito dentro da sua carreira.

“Acho esse disco lindo, ele tem uma popularidade inédita na minha carreira, vide os plays de streaming dos singles (mais de 300k em 4 faixas num curto período de tempo). Alagoas agora tem uma cena instigante e forte, adorei ter parte dela no meu disco, sorte a minha. Adorei misturar os velhos amigos daqui e do Brasil a eles, é saudável pra todos nós.”, celebra Wado

As Parcerias

E são muitos encontros que o disco traz, entre eles amigos de longa data para cantar com ele, como Zeca BaleiroLucas Santtana, Otto e Zé Manoel, além de Kassin no baixo e lap steel em “Tempo Vago”. No disco o catarinense promove um grande encontro da música de Maceió, cidade onde reside há décadas e da qual faz parte da cena, unindo artistas de sua geração (Cris Braun, Júnior Almeida) com a nova geração alagoana, como LoreB, Yo Soy Toño e Felipe De Vas.

Nas composições colabora com: MOMO. e Thiago Silva (da banda Sorriso Maroto), entre novos parceiros, como Igor Peixoto (baixista que o acompanha no estúdio e nos shows, também da banda Morfina) e os cantores FLORAe Felipe De Vas – ambos que já tiveram discos produzidos por Wado.

A Beleza que Deriva do Mundo…

Como elemento surpresa Wado optou por em suas doze faixas não ter nenhum elemento de percussão. O que deixou o registro bastante minimalista trazendo soluções através timbres acústicos, com synths e elementos eletrônicos. Se nossos tempos são pesados ele responde com ternura em um disco delicado, coletivo, plural e com o espírito de união marcando presença. Wado, inclusive, em algumas canções abre mão dos vocais principais para mostrar a força dos novos talentos locais.

O novo disco contará com faixas curtas que se resolvem rápido, não demoram para chegar no ponto mais alto e a mensagem acaba sendo a parte mais importante entre delicadas melodias e personalidade dos participantes.

Embora ele fale sobre o hoje, ele conta com metáforas e situações em constante transformações e ressignificâncias em nossa sociedade, até por isso, ele provavelmente será um disco que você ouvirá hoje e sentirá algo e talvez depois de alguns anos ele converse contigo de outra forma.

….mas a Ele Escapa

O mundo está doente nas mais diversas esferas, entre retrocessos e pandemia, o universo pede por transformação e de deixar a mentalidade do passado para trás faz parte do processo. Esses choques afetam todo o entorno onde muitos, ainda, se recusam a olhar para frente. Algo que vive em nossa sociedade, acaba se traduzindo nas manchetes dos jornais e influi no nosso dia-a-dia.

O disco por sua vez chega como uma resposta a esses tempos, ele combate esse pensamento e tem como armas a poesia, a doçura, a elegância e a perspicácia. O registro se transforma a cada audição e talvez isso que o faça tão belo, tão intenso e tão simbólico no meio de tudo isso.

Confira Entrevista Exclusiva com o Wado

14) Pessoas Estranhas Pessoas Estranhas



Talking Heads, Nação Zumbi, King Crimson, DFABetty Davis, nomes de heróis da Motown e da música brasileira são referências que vocês irão encontrar no disco do Pessoas Estranhas mas talvez abreviar o caldeirão a isso seja até mesmo um pouco injusto pois o encontro proporciona muito mais. Assim como a arte do improviso.

Talvez esse choque que seja a grande graça, ter boas referências mas sem perder o brilho do autoral e a chance ao erro do improviso. Tudo calculado.

“É um convite pra escutar nossas aventuras pelo mundo do som. Cada música segue um caminho diferente”, conta Stephan – vocalista e guitarrista.

Tanto é que a mistura transforma eles como “Banda de música”, como diz Guilherme – vocalista e baixista.

Recentemente até perguntei para um artista qual era a de inventar rótulos para o som, porque as vezes, eles podem ser um tanto quanto pitorescos, a resposta foi ótima: não entrar numa caixinha descartável como “nova mpb” ou “indie rock”. Mas no caso do Pessoas tem muito mais a ver com os choques e provocações artísticas que vão além da estética da banda, propriamente dito. É um discurso quase conceitual com aquele espírito Television de ser, se é que você me entende.

A Produção e Referências Estéticas

Entre os temas ao longo das sua 8 faixas eles existe homenagem pro cachorro (um salve para o Rubens idolatrado nos shows), crítica política (saiba mais), declaração de amor, solidão e personificações surrealistas são alguns dos temas. O que faz dele um disco contemporâneo e conectado com o momento de nós como sociedade.

“A linha é tênue pra ficar desconexo, mas de alguma forma o disco tem uma cara. Tivemos uma ajuda muito boa de Rodrigo Coelho”, conta Stephan.

Rodrigo assinou a Mixagem e Felipe Charret a masterização. Já a engenharia de som ficou por conta de Nico Paoliello / Bruno Bruni. O disco é um lançamento Cavaca Records.

“O disco é cheio de ruído, a gente curte muito. É aquela sensação de não entender direito o que cada instrumento está tocando”, completa Guilherme.

Eles se juntaram no Carnaval para gravar em 4 dias. “Foi ótimo gravar no feriado, celulares apitando menos, mais sossego pra gente focar”, diz Stephan. 

A Experiência

Bastou apertar o play para ser teletransportado para alguns shows que pude assistir do Pessoas Estranhas. “Rubens” que homenageia o cachorro já era xodó das apresentações e até mesmo conta com dancinhas que vocês poderão assistir quando shows foram possíveis.

Em sua versão “REC, valendo” os teclados criam um diálogo ainda mais limpo com as linhas de baixo mas a tensão continua no ar e o aspecto da mixagem de deixar soando ao vivo contribuiu bastante neste momento onde não podemos estar ali frente a frente. Embora na gravação as camadas fiquem ainda mais evidentes. De certa forma ela ficou ainda mais intimista e enxuta.

“Rasteira” traz consigo o suspense, referências setentistas, quebras e mostra um pouco das nossas epifanias, dilemas e conflitos dos relacionamentos entre terráqueos. “Intro” tem um gás e frequências que mostram como o universo de referências além de diverso, é livre e até mesmo canibal. Dos fliperamas as Boogie Nights, tem tudo ali e mais um pouco….se sua imaginação permitir.

“19” brinca não só com sua estrutura mas também com a sua letra, ela traz consigo uma angústia, o lado dark mas ao mesmo tempo uma vontade de se deixar levar pelas ondas psicodélicas (e até mesmo parece chamar para uma rodinha no fumódromo, se é que você me entende).

A Reta Final e seus Aclives

“Não Tem Como Não Gostar”, “funk rock inspirado em Tim Maia com um desabafo literal sobre estruturas de poder de bancos e igrejas”. Sua densidade e mensagem em convergência, um espírito rebelde que chama para si para denunciar as fraudes, falhas, caminhos mais curtos e buracos do nosso (querido) Sistema.

“Musga” é um dos pontos altos dentro da quebra de paradigmas e experimentações do álbum do Pessoas Estranhas. É como sentar no banco do carro do GTA e se deixar levar pela música, e pequenos delitos, enquanto mudam a estação da rádio sem avisar.

Uma epopeia que eles até mesmo explicam em partes. Na letra a personificação do mar, ressentido com o destrato da humanidade, transparece de uma forma toda própria.  “Ele se vinga cuspindo todo o plástico de volta pra terra”, conta Ste. Gui completa: “E a única coisa que pode nos salvar é a ‘musga’”. Magistral? Uma pergunta que Musga responde em seu instrumental.

“Elamilê” traz um arsenal de timbres, frequências quase robóticas, tem um ar de romance e entra as inspirações tem o som do DFA. Daquelas para fazer os passinhos enquanto troca olhares na noite adentro.

Quem fecha é “567” de uma forma anárquica, coesa, pulsante, reverberante, magnética e até mesmo refrescante (dependendo do seu ponto de vista). Uma good trip celestial feito o subir de uma montanha, entre superar obstáculos e cruzar novas fronteiras.

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13) Thiago Nassif Mente



Uma mente em rotação…em busca por novas frequências e experimentações. O novo álbum do Thiago Nassifironiza até mesmo o conceito de tentar se encaixar para agradar um público. Na sombra ainda tem a fase de Berlim de Bowie, a produção do icônico Arto Lindsey, diversas colaborações, um magnetismo e um espírito sem amarras de uma mente pulsante.

Passeia por estilos da mesma forma que apresenta cenários e perspectivas. Tem política, tem drama, tem contornos, experimentalismo e uma mistura interessante que vem para agregar. Ritmos como o No-Wave, Música Eletrônica, Tropicalismo, Jazz e Rock, Funk Carioca e a Bossa Nova acabam se fazendo presentes em seu quarto álbum, Mente.

O cartão de visitas para o novo disco foi o videoclipe para o single “Soar Estranho” em que teve a companhia de amigos como o cinegrafista Geraldine Paztor, Jonas Sá, o guitarrista Pedro Sá (e seu filho, Nino) e a cantora Luiza Casé.

O disco foi lançado pelo selo inglês Gearboxdigitalmente e também em LP e CD. Já a faixa contou com Vinicius Cantuária (O Terço, Bill Frisell, John Zorn) na bateria e Ricardo Dias Gomes (Kill Shaman, Caetano Veloso) no Minimoog. O disco ainda conta com a participação de Ana Frango Elétrico.

O Disco

A pós-verdade de um Brasil que navega em Trevas onde ser otimista é um desafio diário, escancara de maneira plástica estes caminhos tortos que essa estrada foi nos levando. Ele também não tem muitos problemas em lidar com a facilidade de trocar de idiomas e mistura faixas em inglês e em português. De São Paulo, ele vive já tem algum tempo na capital carioca.

Sobre a escolha do título o músico até brinca:

“Eu escolhi esse nome principalmente pois o português é a única língua que conecta duas possibilidades semânticas: pensando e mentindo. E também porque agora estamos vivendo em uma era da pós-verdade política, onde o Brasil no momento está no topo das paradas neste movimento.”, conta Thiago Nassif

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12) Zé Manoel Do Meu Coração Nu



O cantor, compositor e pianista pernambucano, Zé Manoel, lançou seu terceiro álbum de estúdio em 2020, Do Meu Coração Nu (Core Port). Em sua companhia ele contou com o irmão do produtor do álbum, Antonio Carlos Tatau, o trompetista Joatan Nascimento, e Luisão Pereira (baixo, guitarra e programação).

O conceito do álbum é recontar a história do povo negro, e por isso discorre ao longo da obra sobre ancestralidade africana. Um dos discos mais marcantes do ano conta com belíssimos arranjos.

11) ÀIYÉ Gratitrevas



Após o fim da Ventre, Larissa Conforto passou por um grande processo de autodescoberta pessoal que envolveu mudanças de ares e até mesmo de país. Ela se mudou para a capital portuguesa ainda no ano passado mas, claro, já tinha composições no bolso.

Durante uma turnê com Vitor Brauer (Lupe de Lupe), ela tomou coragem e começou a compor músicas que de certa forma foram o embrião do que mais tarde viria a se tornar ÀIYÉ.

O debut  é o resultado do que chama em entrevista exclusiva, de vida. A imersão na Umbanda, a mudança de país, a parceria e estudo dos instrumentos e sua conectividade com parcerias dão luz a Gratitrevas, que mesmo em tempo de trevas, se mostra cintilante. Podendo até mesmo iluminar a caverna do “Mito” (de Platão).

O EP foi lançado pelo selo paulista Balaclava Records e tem como a espiritualidade e a energia vital dos recomeços, seus pontos de partida.

O lançamento mergulha de cabeça na espiritualidade e serve como um despertar em um momento onde as trevas parecem ter assumido o controle do planeta. Uma oportunidade para repensar como agir em meio a tantos absurdos e adversidades enfrentadas todos os dias.

No EP Larissa Conforto exorciza traumas e traz luz em meio as trevas. De forma ritmada, misturando uma diversidade de estilos, acasos, encontros e poesia. Ela traz para dentro do lançamento vivências, transformações, memórias, desconforto e aprendizados.

Os tambores entram em cena, assim como a necessidade de se conectar com crenças, seja na umbanda como na ufologia. Ela se emancipa das certezas e viaja em direção de uma nova forma de enxergar seus passos.

O EP foi gravado entre Brasil e Portugal e reúne espiritualidade, rituais, ritmos de resistência, saudades da avó, David Lynch e confissões em um universo solitário. É na solitude, e imersão, que ela aos poucos foi descobrindo a identidade que teria seu novo projeto.

*OBS: Por contar com 8 faixas entrou na nossa lista de álbuns mesmo sendo um EP.

Confira faixa a faixa exclusivo com comentários da própria Larissa Conforto

10) WRY Noites Infinitas



Noites Infinitas começou a ser composto a partir de 2017, com algumas coisas que vieram um pouco antes. Todo o material foi ensaiado no próprio estúdio da banda, Deaf Haus, onde foram feitos os arranjos e aconteceu a gravação. Podendo realizar o processo com tempo, uma oportunidade que muitas bandas não têm, o aperfeiçoamento se reflete na maturidade da entrega final.

A produção é assinada por Mario Bross, já a mixagem e masterização foram feitas por João Antunes entre janeiro e março de 2020. Quando me perguntam sobre o que faz um disco ser bom uma das minhas respostas é: refletir o tempo e conectar-se com o ouvinte. Algo que vai muito além do gosto ou preferência musical, algo importante como arte.

Esperar um disco com toda essa carga, e contexto, ser solar seria um erro. Assim como enquadrá-lo como gélido e pessimista.

A Viagem no Tempo

A luta de resistir e querer seguir em frente acaba transparecendo no single “Travel” que abre Noites Infinitas. Aliás Mario nos revela que após os 4 anos de hiato da banda, logo na volta aos ensaios, a energia do encontro com os companheiros fez com que ele se sentisse rejuvenescido. E talvez esse seja um dos maiores motivos do porquê materializar isso em uma música.

Aceitar-se como diferente, continuar seguindo na direção dos seus sonhos apesar dos inúmeros obstáculos, e não ver o tempo passar, são sentimentos transcendem tanto no single como na filosofia da banda.

A música é rápida e conta com um pouco mais de 2:30 de duração. Entre guitarras altas, distorções, vocais melódicos e reverbs, o single flerta com os estilos que foram incorporados pelo WRY ao longo da sua trajetória como o post-punk e a nostalgia das chamadas “guitar bands”. “Travel” é visceral e se despe para se libertar das intangíveis amarras do tempo.

A Ressaca

Parece ter uma grande névoa no horizonte para falar sobre o futuro em “Tumultos, Barulho e Confusão”, e a sensação de ressaca é iminente.

Niilista por natureza, a canção busca forças para seguir em frente após o golpe. Com direito a paredes de guitarras ásperas (com pedal que faz ela soar como synths), arco e metáforas acertadas para mostrar o clima de confusão. Entre longas, e dolorosas, batalhas e a busca iminente pela sonhada liberdade. Por mais poética que ela pareça no presente momento.

“Morreu a Esperança” é fundamental dentro do trabalho e ajuda a guiar o ouvinte dentro da narrativa. É a mais politizada e deixa claro o contexto do Bolsonaro e a onda de ódio representada em sua imagem.

Ela vem com riffs soltos para dar a tensão, mostrar o descontentamento e a amargura. O rock oitentista, do Dream Pop ao post-punk transparece com intensidade, raiva e o espírito rebelde. Uma canção que encantará a fãs de The Cure, The Drums, The Vaccines, The Clash, Cólera Plebe Rude.

Os Conflitos

“I Feel Invisible” ainda duvida do que está acontecendo ao seu redor de uma forma plástica e nostalgica como é ouvir um disco do Spiritualized, inclusive com arranjos que poderiam ter a assinatura de Jason Pierce. A metáfora com o carnaval para simbolizar a vontade de fugir, e esconder as emoções, ganham uma dramaticidade e um espírito de vanguarda que marcou a carreira de bandas como R.E.M..

O destempero e a energia das bandas dos anos 90, como The Breeders e Second Come, reverbera em “Man In The Mirror” que parece revistar o espírito do álbum National Indie Hits (2008). Olhar para si e se ver perdido entre não conseguir enxergar a luz no fim do túnel e a busca incansável pelo equilíbrio. Vive a amargura de dias mais soturnos mas não joga a toalha.

O flerte com a música eletrônica já aparece em “Morreu a Esperança” mas em “Uma Pessoa Comum” fica ainda mais evidente. Estar preso em círculos e lidando com a polarização da sociedade, nos mais diversos assuntos, e esferas, se evidencia em sua letra que estende a mão ao invés de entrar em conflito. Com direito a riffs que me deram vontade de ouvir Stone Roses na sequência.

Morreu (mesmo) a Esperança?

Os conflitos transparecem ao longo da sua narrativa, sim, e mostram como muitas vezes podemos estar a beira de um ataque de nervos e imerso em pensamentos niilistas…mas é um disco sobre compreender a sobrecarga do momento e juntar forças para além de demonstrar qual lado da história está. Noites Infinitas prepara as trincheiras para o combate.

Os versos de “Absoluta Incerteza”, que tem percussão que até me lembra um pouco algo que o Primal Scream faria, deixa isso claro, e a aura do U2 e RIDE, em “Weapon In My Hand”, mostram como a esperança resiste mesmo com o espírito ainda combalido. A tríade da esperança se complementa com “I Can Change” com acordes que combinam a leveza do My Bloody Valentine e referências do belo Dream Pop em uma faixa que parece falar sobre o sonho por tempos melhores e narra o levantar da cabeça.

As frequências passeiam por mares profundos em “Desculpe-me Por Ser Assim” que irá encantar a fãs de The Cure, reavalia planos e mesmo fechando o disco com vibrações mais baixas….vislumbra no horizonte dias melhores.

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9) Tagua Tagua Inteiro Metade



No TOP 9 da lista com os Melhores Álbuns Nacionais de 2020 aparece o músico gaúcho Felipe Puperi conhecido nacionalmente por seu trabalho ao lado da Wannabe Jalva lança o álbum de estreia do Tagua Tagua, Inteiro Metade, via Natura Musical e Costa Futuro. Após dois EPs lançados com o projeto, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), ele apresentou o debut.

“É um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. A caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”, conta Felipe

Ouvir Inteiro Metade é como se fosse um grande passeio, por memórias, camadas, imagens, recortes, frequências e descobertas. Os singles já mostravam um pouco de como poderia soar mas ouvir ele inteiro faz tudo se conectar de uma forma que a experiência se ressignifique.

A vida passa feito um filme ao som do sopro em “Mesmo Lugar” que abre alas para mostrar o caminho do disco e o recado. É como ler a sinopse de um livro antes de se levar pelas aventuras que se misturam com o nossa inconsciente. Um soul reflexivo que a cada faixa vai sendo destilado e se mistura a novas frequências com um a liberdade latente. “Só Pra Ver” parece fazer as pazes com as saudades de outrora, mesmo que esse sentimento teime por não desgarrar, uma hora se esvai.

Os sonhos aparecem nas camadas e beats eletrônicos da magnética “4AM” que traz o sentimento de nostalgia mais uma vez à tona para falar sobre uma paixão avassaladora. “2016” vem na sequência e fala sobre o longo, e doloroso, processo de cura, de aceitar as mudanças e os novos cenários. “Bolha” vem como uma wrecking ball, em um soul mais introspectivo onde reflete sobre temas maduros como se perceber no mundo.

A Queda e o Voo

“Até Cair” traz a melancolia e na sequência vem a intensa, e marcante, “Inteiro Metade” como o próprio Felipe conta: “essa música representa bem o sentimento do álbum todo. Como o disco é quase uma linha do tempo dos momentos e reflexões desse processo, ela acaba sendo o ponto de intersecção entre a linha da saudade (na melancolia da letra) e a linha da aceitação (no arranjo fluido, leve, que indica o progresso). A música, de certa forma, exalta que não tem como passar por isso sem ser inteiro num dia e metade no outro”.

Com samples e abusando do experimentalismo “Sopro” mostra uma interessante forma de criar fora da curva dentro do disco que prova como pode dizer muito com pouco. Liberto, “Do Mundo” traz para os holofotes pela última vez a melancolia mas por uma perspectiva que já mira para o amanhã como anteriormente no disco já dá sinais que é o caminho que quer percorrer. No amanhã do Tagua Tagua não existem mais fronteiras para voar.

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8) Letrux Aos Prantos



Na sexta-feira 13/03 Letícia Novaes, a Letrux, lançou seu segundo álbum. O lançamento conta com 13 músicas via Natura Musical.

Desde Letrux em Noite de Climão muita coisa aconteceu. O elogiado álbum ganhou uma ótima discografia para acompanhar e por aqui apareceu constantemente nos destaques entre os Melhores Clipes em nosso listão mensal.

No campo musical o registro passeia pelas décadas  70, 80 e 90. A dance music, o rock, o blues e a música latina se colidem em seu próprio universo emotivo, confessional e à flor da pelo. A novidade é que desta vez o álbum conta além do português, com letras em espanhol e inglês.

Entre a participações especiais do novo álbum de Letrux estão as cantoras Liniker em “Sente o Drama” (Letícia Novaes e Thiago Vivas) e Lovefoxx (Cansei de Ser Sexy), em “Fora da Foda” (Arthur Braganti, Letícia Novaes, Lourenço Vasconcellos e Thiago Rebello). E o saxofonista Lucas de Paiva é o músico convidado em “El día que no me quieras” (Arthur Braganti e Letícia Novaes).

Entre as coautorias ela faz parceria com Lucas Vasconcellos, ex-Letuce, em “Esse Filme que Passou Foi Bom”, e mais outra com o músico e compositor Thiago Vivas, em “Sente o Drama”. Além da composição assinada a seis mãos, “Contanto Até Que”, composta com Duda Brack e a atriz Keli Freitas.

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7) Pedro Pastoriz Pingue-Pongue com o Abismo



O músico gaúcho Pedro Pastoriz lançou em Julho seu terceiro disco em carreira solo, Pingue-Pongue com o Abismo (RISCO, 2020).

O registro que contou com o apoio dos fãs em um bem sucedida campanha de financiamento coletivo é o fruto da parceria com os produtores e músicos Arthur Decloedt (Música de Selvagem) e Charles Tixier (Luiza Lian). A gravação e engenharia de som (mixagem e masterização) foram executadas no Estúdio Canoa e ficaram sobre a responsabilidade de Gui Jesus Toledo.

No disco Pedro Pastoriz além de cantar ainda toca violão, guitarra e assina todas as composições com exceção de “Faroeste Dançante”, feita em parceria com Fausto Fawcett e “Lydia Réplica”, em parceria com Lydia Del Picchia.

Sua banda base conta com Charles Tixier (MPC, Sintetizadores, programações e percussões), Arthur Decloedt (Contrabaixo elétrico e acústico, sintetizadores e cordas midi); e ainda tem a participação do parceiro de Mustache e Os Apaches, Tomas Oliveira tocando taças em “Fricção”. Já a capa foi confeccionada pela designer Talita Hoffman que já assinou as artes de discos lançados por artistas como O Terno, Mustache e os Apaches, SessaMari Romano. Alexandre Matias assina a direção artística.

O Nome do disco do Pedro Pastoriz

O nome niilista do disco, inclusive foi extraído do poema “Uivo” (1956) de Allen Ginsberg (1926-1997), no qual ele cita o termo em referência ao poeta Carl Solomon (1929-1993), muso inspirador de sua escrita.

O trecho e imagem grudou no inconsciente de Pastoriz desde que leu em sua adolescência (“Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo”). Até por isso o disco mostra diferentes facetas e passagens ao longo da sua narrativa.

Assim como a série Too Old To Die Young (Amazon Prime) onde quem assiste é desafiado a assistir ela em qualquer ordem podendo assim escolher qual o seu final.

A ideia da série incomoda quem está acostumado com o tradicional começo meio e fim das coisas e até dizem que ela veio do futuro; e tem como inspirações a forma como consumimos o Youtube onde não necessariamente vemos um vídeo inteiro no mesmo dia.

O que deixa ambas as obras ainda mais interessantes sob o ponto de visto tanto artístico como do espectador. Fica a dica para você que estiver lendo assistir também.

Os Cenários e as Fotografias do Disco

O disco apresenta colagens do dia-a-dia dentro de um imaginário poético onde relatos e vivências se transformam, feito arte em constante movimento. São 14 faixas mas nem por isso se arrasta, muito pelo contrário, suas texturas, reclames e baladas dão uma tônica toda diferente para o álbum que vai além da experiência convencional de ouvir um disco.

Se na quarentena nossa velocidade de consumo mudou, esse formato te encoraja a ouvir um pouco a cada vez e voltar. Seja para ouvir as composições mais íntimas como também para se divertir com as vinhetas e reclames. Entre a melancolia e o bom humos os altos e baixos tornam-se alicerces do disco.

O Play

A abertura do disco vem logo com dois singles lançados previamente “Dolores” e “Fricção”. Sintetizadores e bateria eletrônica abrem alas para o caminho traçado. São faixas que transitam por paisagens nostálgicas, seja da praia como de memórias de um romance.

Fricção” inclusive segundo Pedro Pastoriz: “A intenção é que ela tivesse essa coisa cool francesa, meio Françoise Hardy, um tanto Burt Bacharach. Um ponto alto  são as linhas vertiginosas de baixos, e a Harpa de Vidro Elétrica, instrumento criado e tocado pelo meu parceiro Tomas Oliveira”. Já “Dolores” nasceu de sua primeira visita a baixada santista.

As memórias, o clima de romance e os cenários de situações do imaginário acabam ganhando as telas na cinematográfica “Sessão das Sete”. Com direito a citações de atores, o cenário das ruas do Rio de Janeiro, tons pastéis e o ânimo de um coração feliz por estar podendo vier uma nova história (sem medo de errar). Inclusive é interessante como as canções acabam se interligando até esse momento.

Os sintetizadores ganham maior protagonismo na ensolarada, descritiva e viajada, “Chicletes Replay” que até me lembrou um pouco uma espécie de “Balada do Louco” versão 2.0. Uma faixa de transição é “Lydia Réplica” que se conecta pelo chiclete e por uma percussão tensa ao fundo da prosa.

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6) Taco de Golfe nó sem ponto ii



A Taco de Golfe, de Aracaju (SE), a pouquíssimo tempo lançou oficialmente seu novo álbum. O power trio em Nó sem ponto ii traz para si dilemas da vida moderna que podem ser compreendidos facilmente por qualquer cidadão de uma das grandes cidades brasileiras; o da comunicação.

Muitas vezes este que deveria ser o fio condutor das relações humanas acaba por sua vez se tornando um dos maiores problemas da nossa sociedade. Se ter voz no multidão trata-se de um desafio dos nossos dias, perdoar, compreender e manifestar empatia perante o outro se torna a cada dia um obstáculo.

ntre a rotina, o egoísmo, a competição, a intolerância, o desrespeito, a arrogância e o preconceito. Além disso temos o elemento da velocidade das coisas. Parece que nunca temos tempo para nada ou que temos sempre alguma coisa mais importante para fazer.

Dilemas estes que esfriam as relações e dificultam laços. Estes que nos fazem mais humanos, atenciosos, solidários e proativos. Em tempos onde estamos em casa e forçadamente tendo que repensar como lidamos perante o mundo, o disco instrumental chega para mostrar como podemos quebrar essas barreiras intangíveis e destroçar, de uma vez por todas, estas correntes invisíveis.

Entre as referências em relação ao primeiro disco eles afirmam continuar as mesmas. Ou seja, toeChonDon CaballeroKamasi WashingtonJaco Pastorius, Battles, Sons of Kemet, black midi e Julian Lage. Um leque de sonoridades um tanto interessante que vai do rock, passando pelo math rock, progressivo e desembocando no jazz.

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5) Hot e Oreia Crianças Selvagens



O segundo álbum do Hot e Oreia, Crianças Selvagens, já chega com status de clássico instantâneo. Com direção musical de Daniel Ganjamen, o disco tem o nome inspirado em livro mas que também carrega diretamente o significado do amadurecer. Como eles mesmos disseram na audição do disco: a responsabilidade e as contas chegaram.

Com letras mais maduras, mas sem perder a ironia e o senso de humor, eles abraçam personagens para falar sobre temas como a Quarentena, a política, as falcatruas, a religião e o amor. Os beats também são destaques tendo inúmeras parcerias ao longo do registro como por exemplo, de Coyote Beatz, Vhoor e produção musical de Fantini.

Parcerias também se destacam ao longo do disco que tem faixas de peso como “Juro$”, o hit “Saiu o Sol” e baladas como “Papaya” parceria com Black Alien. Samples também aparecem com direito a Nelson Ned em uma faixa com participação do duo Tropkillaz.

O flerte com a música brasileira é cada vez mais forte em um registro espiritualizado, sarcástico e com direito a até mesmo love songs. Essa versatilidade que mostra como eles estão a cada dia mais prontos para palcos, e desafios, maiores.

O salto é grande em relação ao primeiro disco e eles continuam com o mesmo senso de humor mas parecem ser do tipo que quando entram no estúdio: o papo fica sério. Compromisso esse que faz com que esse disco faça com que esse álbum quebre ainda mais barreiras do que eles já quebraram com o debut.

Eles revelaram durante a audição que as letras estavam demorando para sair mas que em poucos dias trabalhando sob pressão, e com cronograma apertado, a caneta decidiu rabiscar e saíram 6 faixas em uma tacada só. Ou seja, não procurem regras para a criação, apenas, façam.

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4) Mateus Aleluia Olorum



Samba, Afoxé e MPB dão o tom do excelente disco do baiano Mateus Aleluia (Os Tincoãs), Olorum (Selo Sesc), que conta com participações de Metá Metá e Luedji Luna. Olorum, na mitologia iorubá, é a entidade que rege a humanidade e os próprios orixás com poder supremo.

Um disco fluído que carrega a ancestralidade passando pela espiritualidade e os males do mundo. Elementos como batuques, arranjos de violoncello, piano e a participação da moçambicana Lenna Bahule, João Donato e de Thiago França acabam engrandecendo a obra. “Bem-te-vi” e “Samba-oração” são os pontos mais altos.

3) BK’ O Líder em Movimento



Tem discos que já chegam com os dois pés na porta e esse foi o caso do BK’ com O Líder Em Movimento. Traduzindo o calor do momento, seja nas discussões políticas como sociais, ele carrega o espírito do momento e a cada linha aglutina muitos sentimentos e papos retos. Critica o mercado, o modus operandi da sociedade, as armas, o poder, o racismo, o colonialismo e o conservadorismo.

Cita as lutas do dia-a-dia, prega a união, fala sobre recomeços, sonhos, limpezas, reconstruções, abre espaço para falar com delicadeza sobre temas sérios como a ansiedade e a depressão, e pega na ferida através de uma mensagem direta e bem calibrada…mas também tem espaço para falar de amor e empatia.

As referências também não se resumem ao rap e “Porcentos 2”, por exemplo, tem guitarras do blues, “Amor”, traz samples de funk carioca e jazz. “Universo” é um dos grandes destaques do registro, uma faixa que estimula a quem escuta a continuar seguindo em direção dos seus próprios sonhos, valorizando a sua trajetória, origens e a evolução pessoal. Um bom exercício é ouvir tentando descobrir de onde vem os samples que aparecem ao longo do disco, são vários easter eggs.

2) Kiko Dinucci Rastilho



Quem canta é a madeira. Kiko Dinucci, compositor, instrumentista, artista plástico, uma das cabeças do Metá Metá e tantas outras produções como Jards Macalé e Elza Soares, lançou seu novo disco intitulado “Rastilho“.

Inspirado em sambas de roda e cantos de terreiro. O violão se sobrepõe em toda a obra. Todas as vozes e todas as letras. O violão oras agressivo oras lírico soa perfeito e moderno, no compasse necessário que o disco pede. Prova que a sequência de seu primeiro álbum Cortes Curtos (2017) mantém o nível criativo e conceitual, trazendo novas fórmulas ao seu inquieto autor.

Produzido e gravado em um intervalo de dois meses, conta com grandes participações de Juçara Marçal (“Gaba”), Rodrigo Ogi (“Veneno”) e Ava Rocha (“Dadá”), com apoio nas vozes de Dulce Monteiro, Maraísa e Gracinha Menezes. São esses os componentes finais para coesão do disco.

“Vida mansa”, por sua vez é uma canção composta pela dupla José Batista e Norival Reis em 1955 e lançada na voz do cantor Cyro Monteiro. O cinema também acaba ecoando no álbum do artista de alma punk, ele citou em entrevista para Alexandre Matias que até mesmo a trilha de um filme do Glauber Rocha entrou no campo das influências. O músico ainda revelou ter saudades do violão – já que Cortes Curtos (2017) foi gravado no formato power trio.

Rastilho nos apresenta como seria um disco cantado por Baden Powell. Celebra orixás, e contém escritas em iorubá como a estrofe-saudação no single “Olodé” (Olodé, Odé Lonan, Odé Asiwaju).

Faixa a faixa, o disco vai provando que sua grandeza é digna de um afrosambas de nossa geração. Encerra com a faixa-título “Rastilho”, e suas referências ao atual cenário político que vivemos. É o ápice de um dos discos que integrará muitas listas de fim de ano.

1) Luedji Luna Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água



O segundo disco de Luedji Luna, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, é o nosso grande destaque da lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2020. Desde a primeira audição ele bateu forte por aqui. Misturando soul, jazz, MPB e com produção assinada pela artista em conjunto com Kato Change (guitarrista queniano que já trabalhou ao lado de Seun Kuti e Aloe Blacc), o disco trabalha muito bem melodias, versos, minimalismo, batidas e arranjos.

Evocando memórias, celebrando a negritude e falando sobre temas sensíveis ela abre o coração, como na grandiosa “Ain’t I a Woman?” (inspirada por Nina Simone). O registro que ganhou um belo álbum audiovisual para acompanhar com direção de Joyce Prado, vai crescendo a cada audição. O reinventar e trazer uma nova sonoridade faz dele um álbum que comentaremos ao longo dos próximos anos.

PLAYLIST: Os Melhores Álbuns Nacionais de 2020

É claro que uma lista com 50 Melhores Álbuns lançados em 2020 ia contar também com uma playlist no Spotify para você conhecer tudo!

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