O EP Taxidermia é resultado do trabalho colaborativo e experimental da jovem compositora e produtora musical baiana Jadsa aliada ao músico e produtor musical João Milet Meirelles, mais reconhecido por sua atuação na aclamada banda BaianaSystem.

A proposta do disco surgiu em julho de 2019 enquanto gravavam no Red Bull Studios, em São Paulo, as músicas do álbum Olho de Vidro, primeiro álbum de Jadsa (ainda há ser lançado em 2020 com apoio do Natura Musical) e que também conta com a produção musical de João.

Jadsa Baianasystem

Jadsa e João Meirelles (BaianaSystem) no estúdio. – Foto Por: Tiago Lima

Jadsa e João Meirelles Taxidermia (2020)

Após a captação de grande parte do material no estúdio, o trabalho foi sendo finalizado nas casas de cada co-criador, à distância, devido a pandemia de COVID-19, abrindo espaço para a colaboração de outros artistas – como Jessica Caitano (PE), que contribuiu com seu rap/repente em “Secante Caju”, Caio Terra, que toca baixo com Jadsa, Pedro Bienemann na guitarra e coro e, Bruno Abdala na co-produção da faixa “Xirê”.

O disco conta com 4 faixais de uma poética bem pessoal da letrista Jadsa, mas trans-criada e enriquecida pelas colaborações dos seus companheiros.

De canções que soaram descoladas da concepção do primeiro disco que estava sendo gravado,  construiu-se um recorte experimental dessas canções e puderam ter uma nova oportunidade de criar conjuntamente.

A Obra é repleta de texturas eletrônicas, vocais, ritmos envolventes com lindos efeitos e estranhamentos sonoros. As letras seguem a identidade de composição de Jadsa com jogos de palavras, concretismo musical e exploração de suas sonoridades, desconstruindo sentidos e renovando-os, misturando estilos e timbres, propondo pausas dramáticas e momentos instigantes.


Capa EP Taxidermia Jadsa João Meireles (BaianaSystem) 2020

Capa EP Taxidermia / Concepção coletiva


POP CURIOSO

Sem se prender ao seu tempo, a dupla também também não se enquadra em gêneros musicais pré-definidos e brincam que o estilo do EP é “pop curioso”.

“Minha pretensão é promover a sensação de uma novidade muito familiar. Próximo e surpreendente. Pensando num som que é pop e não é uma repetição. Eu gosto de fazer música que ainda não ouvi, ou seja, inventar a música que quero ouvir.”, comenta João.

Sobre as participações, Jadsa acrescenta:

“Fizemos os convites e as pessoas voltavam com uma parada pesada. Não precisa ser a mesma referência, só precisa estar conectado. As músicas conectaram a gente de novo. E o Taxidermia é isso: você lança sem esperar, mas chega uma coisa diferente e que te toca”.

Sobre o termo TAXIDERMIA e o EP:

“Taxidermia” é uma prática que remonta às sociedades antigas da Grécia e do Egito, onde acreditava-se que empalhar animais era uma maneira de conservar-lhes a vida.

Já no EP, a ideia é que a arte em si permaneça viva, e que soe contemporânea sem deixar de respeitar a ancestralidade – conceito traduzido na estética das músicas. E durante a quarentena isso foi re-significado já que, especialmente no isolamento social, a arte é uma plataforma que contribui para a nossa permanência e para a conservação da saúde mental e espiritual.

Entrevista: Jadsa e João Meirelles

Incomodo na categorização de gêneros musicais da atualidade e a prateleira contemporânea:

Jadsa: “Todos os processos de registro musical pedem que a gente relacione a um gênero. Minha frustração vem daí, e pelo menos como eu componho, vou agrupando os retalhos. Designar um gênero musical a uma música tá fora de moda.”

João: “Quando fazemos música, em especial esse trabalho, vamos com espirito livre, vamos pra onde a música nos guia. Isso carrega nossas referências de maneira profunda, não necessariamente direta. Nossas referências são muitas. Muita diversidade na formação musical. Sinto que em muitos casos, nos sons brasileiros, a música vem assim: cheia de camadas, referências, misturas de gêneros. Acho isso muito rico.

Quando chega a hora de dar nome para o que está fazendo, a sensação é que os nomes dos gêneros, no geral, parece que querem confinar aquela obra complexa numa gaveta específica. O que é difícil pra gente. O TAXIDERMIA é pop, é música brasileira, é um monte de coisas.

É mais sobre as diversas pesquisas que estão dentro do som, do que a gaveta em que devemos ou não encaixar. Daí a dificuldade. Então pop curioso. O pop carrega por natureza essa diversidade. É mais uma abordagem sonora do que um gênero específico. E curioso porque tem todas essas camadas envolvidas.”

Residir na capital paulistana e a influência disso nas produções musicais:

Jadsa: “Cheguei na capital paulista em abril de 2018. Dia 21. Eu já vinha pra cá desde os 18 anos, mas nunca fiquei além do que um mês. Procurei vir para encontrar mais de tudo e gravar um disco roqueiro. Dai que surgiu o POWER 7 (a banda que me acompanha no OLHO DE VIDRO) e o TAXIDERMIA com João Meirelles. Além de “N” referencias que mudaram completamente o meu jeito pensar música. Resumindo, minha carreira atual e a estética está começando a nascer agora.”

João: “No meu caso específico, não moro em São Paulo, mas já morei. Hoje tenho uma relação profunda com a cidade pela frequência que ia antes da pandemia chegar.

Mas é a relação entre artistas, pessoas, públicos e como SP é o centro do capitalismo brasileiro e como isso acaba concentrando a maior parte das produções, pelo menos a projeção delas. E mesmo que a produção ou artista não esteja em SP, acaba circulando por lá. É importante estar em constante troca com a cidade e seus atores que estimula as trocas artísticas.”

Distanciamento social e produção musical. Como tem planejado os lançamentos dos trabalhos sem realizar shows ao vivo?

Jadsa: “A única coisa que sinto falta são os shows. Sobre os trabalhos, lançamentos e saudade estão caminhando numa velocidade mais baixa, claro, mas é importante nesse momento nos darmos o tempo que o mundo precisa. 2020 chegou com novidades e nós vamos responder a altura. O segundo semestre está aí e precisamos mudar.”

João: “O distanciamento social trouxe o aprofundamento em duas atividades que já exercia, só que agora com mais intensidade: dar aulas e compor/produzir no meu Home Studio. Com a falta de shows isso se intensificou e o formato de trabalho ainda é indefinido. Sinto que o importante mesmo é o compartilhamento, a troca, mesmo que em distancia.

Acredito que essa parte ganhou muita amplificação: sinto estar trocando mais informação, referências, trabalhos, com as pessoas. Independente de onde elas estão. Isso tudo sem o fator “se vira aí” com as faltas de show, a forma de viver de arte tem mudado e ainda estamos descobrindo como ou pra onde isso vai.”

Por que lançar no bandcamp? Como você vê o diálogo das plataformas digitais diante das necessidades atuais dos músicos, já que o covid19 impediu os trabalhadores da música de atuar?

Jadsa: “A primeira ideia de lançar no Bandcamp foi de não ser uma plataforma comum. Nós queríamos lançar esse projeto experimental em uma plataforma que tivesse esse contexto. Também se tornou uma maneira de entender como esse som se comporta no mundo de uma maneira mais tranquila. Tudo é um estudo.”

João: “O bandcamp já tinha uma forma de distribuição do valor das vendas muito mais justo do que a maioria das plataformas. Lançar no bandcamp é dizer pro público: “essa é a melhor forma de contribuir com os artistas” por que é uma forma de minimizar os intermediários entre a arte e o público.

Durante a pandemia de COVID-19 o bandcamp está direcionando 100% das vendas para os artistas. Fizemos todo esse trabalho a partir de nossos próprios investimentos, então é importante buscar esse tipo de retorno mais imediato, e educar os consumidores mostrando pro público quais plataformas são mais justas em relação a distribuição da música e repasse aos artistas.”

Ouça: Jadsa e João Meirelles Taxidermia (2020)



Sobre Jadsa

Jadsa é cantora, compositora, guitarrista e diretora musical. Integra o casting do selo Balaclava Records, que lançará seu primeiro disco cheio, Olho de Vidro, com patrocínio da Natura Musical. Lançou o EP Godê (2015), produzido por ela em parceria com o coletivo Tropical Selvagem (formado por João Meirelles e Ronei Jorge).

Sobre João Milet Meirelles

João Milet Meirelles é compositor, produtor musical, performer de música eletrônica ao vivo e fotógrafo. Dedica-se à pesquisa de som e imagem com especial atenção às texturas e timbres e suas relações com o tempo. Desde 2012 produz e se apresenta com BaianaSystem, banda formada em 2009 com forte presença no cenário da nova música brasileira.

Ficha técnica do EP Taxidermia:

Jadsa: produção musical, composição e voz em todas as faixas;
João Meirelles: produção musical, synths, guitarra, mixagem e masterização
Jéssica Caitano: vocal em “Secante Caju”
Bruno Abdala: coprodução musical em “Xirê”
Caio Terra – baixo em “Secante Caju”
Pedro Bienemann – técnico de gravação (home studio); guitarra e coro em “Xirê”
Rafaela Piccin: produção executiva e agenciamento
Balaclava Records: Selo
Jadsa, Rafaela Piccin e João Meirelles: Concepção coletiva da imagem de capa do EP Taxidermia