“Lacrar, na verdade, é o que nos resta”: Assim fala Negro Leo sobre seu novo disco, Desejo de Lacrar, lançado no dia 17 de julho. Mas ao contrário do que parece, o cantor, compositor e instrumentista não o diz em tom de fracasso – tampouco quer pegar carona nessa moda.

Criada pela comunidade LGBTQIA+ com a intenção de argumentar de maneira incontestável, sem brechas para críticas ou defeitos, a gíria tornou-se tema do nono álbum do artista maranhense radicado no Rio de Janeiro. A obra mostra, mais do que nunca, o quanto Leo é um artista inventivo, questionador e até mesmo divertido.

Lançado pelos selos ybmusic e QTV Label, Desejo de Lacrar continua uma pesquisa sonora baseada em experimentos de timbres e texturas psicodélicas iniciadas nos álbuns Água Batizada (2016) e Action Lekking (2017), este último eleito um dos discos do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte e pelo crítico Peter Margasak, do Chicago Reader.


Negro Leo por Igor Marques

Negro LeoFoto Por: Igor Marques


Negro Leo Desejo de Lacrar

Ele busca retratar o “discurso e representação do lacre” que surgiu a partir do crescimento dos movimentos de direita durante os protestos de 2013 e que “acabou resultando numa mudança de mentalidade mais abrangente que veio a dar no golpe e na ascensão do ultraliberalismo-escravocrata, que basicamente se comunica através do logos lacrador”, observa o músico no release.

O disco expõe o tema através de faixas como a melodiosa “Tudo foi Feito pra Gente Lacrar”, a frenética “Absolutíssimo Lacrador” e a lúdica “Dança Erradassa”.

Desejo de Lacrar conta com direção artística de Negro Leo, produção musical de Sergio Machado, mixagem e masterização de Nick Graham Smith e participações de Fábio Sá, Chicão, Lello Bezerra e Everton Santos.

Entrevista: Negro Leo

Numa conversa com o cantor por e-mail, falamos sobre o que é o desejo de lacrar, a cultura do cancelamento, a capa e seus significados, o processo de composição do disco e o rótulo que lhe dão de artista experimental. Confira!

Lacração e Cancelamento

Para Leo, esse desejo de lacrar tem a ver com o sentimento de revolta gerado pela sensação de ameaça. “É pulsão de vida. É ela que mobiliza a revolta. A revolta surge de circunstâncias que ameaçam a vida. E estamos sob ameaça.” Quando perguntado sobre uma cultura que também surgiu virtualmente e que está em alta, a cultura do cancelamento, Leo foi sucinto e certeiro: “É apenas a fraqueza do lacre.”

Capa

A foto de capa do álbum, de Rafael Meliga, mostra Michael, um paramilitar/guerrilheiro – um personagem de ambivalência proposital, tal qual o sentido geral de lacre que o disco apresenta – no meio de uma floresta. Mas, segundo o artista, para além de uma imagem, a foto “É uma possibilidade. Um lance de dados.

Uma chance ao azar, afinal, em política, só existe um horizonte, distópico: tomar o poder, por mais ingênuo que isso nos pareça.” A programação visual é de Lucas Pires, que criou o letreiro do disco em forma de ouroboros, que, segundo o artista, segue o raciocínio de que não dá para voltar atrás e não é possível que não haja guerra.


Negro Leo - Desejo de Lacrar

Capa Desejo de Lacrar


Processo de composição

Levando em conta que cada disco do Negro Leo tem um processo criativo diferente, perguntei-lhe sobre o processo de feitura do Desejo de Lacrar:

“Sergio Machado pensou em tudo, eu apenas dei umas orientações gerais, como eu gostaria que soasse, por exemplo, a mixagem de Nick Smith tá cheia de referências nossas, as cordas, que Fabio Sá começou, foi pilha minha, o piano abafado, o Juno também, enfim, ideias muito gerais. O fato é que Serginho realmente teve uma importância fundamental na sonoridade do disco.”

Vanguarda?

O site Tenho Mais Discos que Amigos afirmou que Desejo de Lacrar resgata elementos da Tropicália. Além disso, a crítica especializada considera Negro Leo um dos maiores representantes da atual música de vanguarda, sendo ele frequentemente comparado a nomes como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Por isso, fiz uma provocação a Leo: Perguntei se ele mesmo se considerava de vanguarda.

“Eu acho isso tudo engraçado. Claro que eu posso facilmente estar subsumido nesse quadro de referências com os trabalhos que tenho apresentado até aqui, portanto não é algo que me causa desconforto, por outro lado, acho triste o pessoal não procurar um quadro de referências mais próximo do seu tempo. Outro dia alguém escreveu que minhas referências estão mais próximas de mim do que a tradição e daí citava o pessoal com o qual eu cresci na música, Eduardo Manso, Ava Rocha, Lucas Pires, Renato Godoy, etc.”

Negro Leo pode ser experimental, mas também pode ser pop. Visa romper com a tradição sem deixar de ser acessível. Recentemente, Leo declarou que nessa quarentena tem composto muitas músicas em formato canção, e quando perguntado se é possível haver um próximo disco composto por canções, o artista respondeu, mostrando que é capaz de ser um dos artistas mais versáteis de sua geração: “Talvez.”

Ouça Negro Leo no Spotify