No dia 15 de junho o terceiro álbum de estúdio dos Titãs, Cabeça Dinossauro, completará 35 anos de seu lançamento. Sendo um dos discos mais icônicos do rock brasileiro, o registro foi produzido por Liminha – gravado entre março e abril de 1986 no Estúdio nas Nuvens – e lançado pela gravadora Warner Music.

O sucesso e identificação do público foi imediato e em dezembro de 1986 veio o disco de ouro. O baterista Charles Gavin considera que o momento turbolento vivido tanto pela banda como pelo país foram influências diretas ao resultado alcançado. Ele define o clima como de desilusão, um cenário de distopia.

“Chegamos ao disco com raiva do mercado, da gravadora, de todo mundo”, relembra Gavin

O momento do Brasil era caótico, um ano após o fim da ditadura, a transição para a democracia ainda estava acontecendo seguido da morte de Tancredo Neves. Com problemas internos e queixas a gravadora, pela frustração da compreensão do disco antecessor, Televisão (1985), o Co-Produtor Pena Schmidt definiu como: “Era o momento da verdade. Os Titãs tinham crises entre se entregar a perfeição fonográfica ou à afirmação da rebeldia. Ali o resultado se equilibra faixa a faixa.”.

Como ingrediente extra, o grupo paulistano tinha o desejo de emular em estúdio a energia que eles acreditavam ter nos palcos.


Titãs Cabeça Dinossauro

Brasil – São Paulo (SP) – 10/12/86 – Titãs. – Foto Por: Juvenal Pereira/AE
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Curiosidades sobre o Cabeça Dinossauro

A capa foi baseada em um esboço do Leonardo da Vinci, intitulado A expressão de um homem urrando, um outro desenho do pintor Cabeça Grotesca – foi para a contracapa do disco. Como curiosidade fica pelo fato dos dois acetatos vierem diretamente do Museu do Louvre, trazidos por um amigo do pai do Sérgio Britto (Almino Monteiro Álvares Afonso). Foi também uma das primeiras capas do rock brasileiro a não envolverem a foto do artista.

Sérgio contou em 2006 que “as primeiras 30.000 cópias do disco foram feitas em papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade do André Midani, então presidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação atendendo a quase tudo o que pedíamos.”

Tony apostou uma garrafa de whisky com Branco Mello afirmando que o disco não venderia 100 mil cópias. Ele perdeu a aposta e antes do seu aniversário eles alcançaram a marca de 250 mil cópias vendidas. Em 2016, nos 30 anos, com o relançamento, o disco alcançou a marca de 700 mil cópias vendidas.

“Este disco, com certeza, se não é o melhor, é um dos melhores que fizemos. Só comparável a Õ Blésq Blom e Jesus não Tem Dentes no País dos Banguelas. Apesar disso não me atrevo a apontar nenhuma banda que pareça ter sido diretamente influenciada por ele”, contou Sérgio em um artigo para a Rolling Stone em 2016.

Para comemorar os 30 anos do Cabeça Dinossauro foram lançados um livro de contos inspirados nas faixas (Cada um por sí e Deus contra todos Editora Tinta Negra por André Tartarini  com contos de Letícia Novaes, Juliana Frank e Renato Lemos) e uma peça inspirada no álbum (Cabeça por Felipe Vidal).


Cabeça Dinossauro Titãs Capa estilizada Máscara Covid-19

Capa Mascarada por Altemir Eleutério da Luz Júnio para ver outras clique aqui.


…..35 anos depois Cabeça Dinossauro é Assustadoramente Atual

Chega até a ser assustador, para não falar distópico, o álbum dos Titãs ser tão atual 35 anos depois do seu lançamento. Embora a crise política e social ser algo recorrente na história brasileira, e vivermos em um período marcado pela ascensão de grupos com ideologia extremista – e flerte com o autoritarismo; a gestão de Bolsonaro, o descaso com a cultura, a falta de suporte à educação, o pouco caso com a saúde pública, escancarado em uma pandemia que não parece ter fim, e com a qualidade de vida, se elucidam ao longo das 13 faixas compostas ainda na metade da década de 80.

A faixa de abertura,”Cabeça Dinossauro”, com letra simples, quase tribal e estética punk, soa como o ecoar das trevas chegando, algo similar ao clima tenso das eleições presidenciáveis de 2018.

“AA UU” traz consigo a ironia da rotina, de viver no automático, feito o mecanismo de controle aos quais os trabalhadores estão subjulgados dentro da lógica capitalista. Se trouxermos para 2021, o contexto do fenômeno da uberização do trabalho (e consequentemente do aumento da informalidade), onde o trabalhador não possuí direitos, junto as consequências da reforma da previdência, mostram como cada vez mais vivemos para trabalhar e não o contrário.

Estado Laico?

“Igreja” gerou discórdia desde sua concepção, não sendo unanimidade entre os integrantes. Punk por natureza, a canção foi escrita por Nando Reis (que é ateu) mas Arnaldo Antunes não queria gravá-la e chegou a deixar o palco em algumas ocasiões em que ela foi executada ao vivo; já Paulo Miklos se ôpos à inclusão da faixa no álbum mas mudou de ideia após executá-la nos shows.

No nosso contexto atual os conflitos religiosos estão à todo vapor, entre discussões do estado ser não ou laico, a até mesmo, veja bem, de liberar cultos mesmo durante uma pandemia onde no momento morrem 4 mil pessoas por dia.

A repressão policial marcada em “Polícia” tem uma história toda a parte que Tony Bellotto afirmou na época do lançamento que seria “ingenuidade” achar que um país não precisa de polícia para combater assaltantes, ladrões e assassinos, mas que acreditava não precisar de polícia na sua vida no momento em que foi preso por porte de heroína – episódio que inspirou a faixa.

De fato a canção virou um hino contra o abuso de autoridade e como a instituição ainda conta com traços da época do disco. Ela, por sua vez, não deixa de ser atual mesmo que sua origem tenha sido por este episódio tão particular.

“Estado Violência” foi composta originalmente para a antiga banda de Gavin, o Ira!. Nando Reis ajudou a estruturar a canção que foi inspirada, assim como “Polícia”, na prisão dos dois colegas de banda, mais especificamente pelo poder de que o estado dispõe para “julgar o que você faz na sua casa, com o seu corpo.”

No contexto atual a não legalização de drogas como a maconha (já realidade em diversos países ao redor do mundo) e a criminalização do aborto (recentemente legalizado na Argentina) ainda são tabus e o controle do estado sobre o corpo do cidadão, por sua vez, ainda é uma realidade.

A loucura de “A Face do Destruidor” se dá desde sua feitura. Os vocais, por exemplo, foram gravados “em um fôlego só” em cima da base tocada de trás para frente. Segundo Sérgio “quando gravamos tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira”. Em um país onde tudo parece estar sendo feito ao contrário, ela parece ser mais atual do que nunca.

A Desigualdade 3.0

“Porrada” foi escrita por Arnaldo Antunes e Sérgio Britto sobre um contexto que o brasileiro conhece bem, a desigualdade de um país marcado pelo favorecimento de certos grupos e perseguição de outros.

O famoso toma lá da cá do centrão, o conservadorismo em sua essência e os privilégios das oligarquias (detentoras do poder na sociedade) infelizmente ainda se fazem presentes no dia-a-dia dos tabloides.

Se traduzindo no benefício a empresários, lobbys e a impunidade dos chamados “crimes do colarinho branco” que ilustram bem o cotidiano da supremacia de uma política sem pudores, e, consequentemente, uma hierarquia baseada em privilégios.

“Medalhinhas para o Presidente, condecorações aos veteranos, bonificações para os bancários, congratulações para os banqueiros”, a atualidade se expressa nos versos 35 anos depois. 

Basta ver o desmatamento que o agronegócio e os madeireiros produzem na Amazônia, e como isso, somado à péssima gestão de Ricardo Salles tem manchado o Brasil no exterior, e consequentemente, prejudicado além da imagem, a fauna e a flora – contribuindo diretamente para o fenômeno do aquecimento global. Prejudicando também de tabela o investimento estrangeiro e a economia do país.

Consequentemente se materializando na perseguição aos povos indígenas e quilombolas, marca do (des)governo Bolsonaro. Além do domínio das milícias em diversas cidades do país como uma espécie de “governo paralelo” e aparelhamento do estado. Exemplos atuais de denúncias que a canção já apontava em 86 (o favorecimento de certos grupos mediante a perseguição de outros).

A falta de equilíbrio e no parecer das contas também se dá na péssima gestão da economia. Um exemplo é o investimento (inútil) em tanques de guerra com valor superfaturado, regalias para o exército, quando a prioridade deveria ser lutar pela melhora do acesso a educação e investimentos em saúde e ciência. Mas em um país onde (ainda) precisamos aplaudir quem fala o óbvio fica difícil enxergar um futuro próspero.

“Tô Cansado” sintetiza o sentimento do que é ser brasileiro em meio a um cenário onde a pobreza aumenta na mesma proporção que a inflação quebra recordes e se traduz na cesta básica.

O auxílio emergencial (cada vez menor) não servindo para apagar o incêndio e as consequências na economia mediante a uma falta de gestão centralizada na pandemia de um governo negacionista – que não foi atrás das vacinas enquanto ainda era tempo.

É a miséria voltando a ser realidade do país. Ligar a TV ou acessar os principais veículos na internet, se deparar com fake news no whatsapp e tentar vislumbrar uma saída no fim do túnel…é um exercício que deixa até mesmo o mais paciente: exausto.

Bichos Escrotos no Poder

Embora na época a canção “Bichos Escrotos” tenha em sua concepção da banda tentando fugir de padrões e esteriótipos estéticos, musicais e morais, o simbolismo da guinada do governo com valores conservadores e cheio de fatores que lembram os tempos sombrios da repressão.

Com direito a exaltação de torturadores, comemoração do (des)aniversário do golpe de 64 e a luta para apagar da história a memória dos perseguidos pelo período do regime militar. É a volta de quem nunca deveria ter vindo.

Os dilemas da família tradicional brasileira se fazem presentes em “Família”, da TV aos desafios de convivência. Num contexto atual, as discussões no grupo de Whatsapp de família e a quebra de reuniões em detrimento de fagulhas políticas (já presentes nos tempos pré-pandemia) se aplicam aos nossos dias.

O capitalismo acima de tudo se faz presente em “Homem Primata” que já naquela época falava sobre as desigualdades presentes na “selva de pedra”, a natureza obscura do sistema. O real a cada vez à preço de banana, em tempos de um dólar a quase 6 reais, fazem com que “Dívidas” pareça ainda mais atual. Entre contas à pagar, recibos, impostos, a “diversão”, e os luxos, ficam para escanteio.

A natureza selvagem de “O Quê?”, e sua cacofonia, foram responsáveis por novos caminhos estéticos dentro da carreira dos Titãs dentro do pop que guinaram a trajetória dos três discos após o Cabeça Dinossauro como disse Pena Schmidt em 2016. Um disco que chega a 35 anos com méritos, e um legado que impressiona, mas que infelizmente muitas das suas letras parecem refletir o Brasil de 2021.

Coletânea: O Pulso Ainda Pulsa

Os blogs Hits Perdidos e Crush em Hi-Fi lançaram no dia 1/08/2016 a coletânea virtual “O Pulso Ainda Pulsa”, um tributo com 32 artistas independentes fazendo versões, covers e reconstruções de músicas de uma das maiores bandas que o rock brasileiro já ouviu: os Titãs.

“Uma das bandas mais camaleônicas de sua geração, o octeto permeou sua carreira indo de canções de amor à duras pauladas políticas, do punk à MPB, do experimentalismo ao rock puro. E, afinal, 30 anos depois do lançamento do clássico disco Cabeça Dinossauro, um verdadeiro divisor de águas na música nacional, o rock brasileiro continua vivo. O Pulso Ainda Pulsa.

O projeto é uma homenagem à obra de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Charles Gavin, Sérgio BrittoBranco Mello, Nando Reis e Paulo Miklos. Nas faixas, o grupo paulistano é reverenciado em versões que vão do bluegrass ao electro, passando pelo folk, punk, hard rock e experimentalismo. O pulso ainda pulsa abaixo dos radares da grande mídia musical.”, dizia o release no ano de seu lançamento que coincidiu com os 30 anos do Cabeça Dinossauro


Érika Martins Tributo Titãs Sérgio Britto Cabeça Dinossauro


O tributo conta com a participação 33 artistas e bandas: Abacates Valvuldos, Aletrix, All Acaso, BBGG, Camila Garófalo, Cigana, Color For Shane, Danger City, Der Baum, FingerFingerrr, Giallos, Gomalakka, Horror Deluxe, JéfMoblins, Mundo Alto, Nãda, Não Há Mais Volta (com participação do Badauí, vocalista do CPM22), Paula CavalciukPedroluts, Penhasco, Porno Massacre, Ruca Souza, SETI, Sky Down, Subburbia, Subcelebs, The Bombers, Thrills And The Chase, The Hangovern, O Bardo e o Banjo, Ostra Brains e Videocassetes. Cada uma fez a produção de sua faixa de forma independente e mais detalhes sobre cada gravação estão disponíveis no site.

Ouça aqui o tributo O Pulso Ainda Pulsa: