Pedro Carneiro está prestes de lançar seu novo disco com o projeto Vovô Bebê e hoje nos traz um belo de um aperitivo. O aquecimento vem com “Êxodo” uma faixa que dialoga sobre um problema um tanto quanto moderno: a necessidade de se desconectar das redes. O exercício de migrar da realidade virtual para o mundo real.

Distopia moderna e uma necessidade inerente a um tempo onde, por exemplo, é impossível almoçar ou ter uma reunião sem ser importunado por notificações. Onde o olho no olho e a atenção com o outro acabam por sua vez se tornando momentos raros de sobriedade. Porém este é só o background da composição.

O cenário escolhido é o Rio de Janeiro e na faixa ele brinca com isso. Diz querer nadar no mar cheio de cocô (vale lembrar que estudos dizem que a maioria das praias cariocas é imprópria para o banho). Afirma querer sentir o cheiro da vida, correr risco de morte na ciclovia (relembre a tragédia), andar entre seus contemporâneos.

E até mesmo tomar porrada da polícia. Em tempos de repressão, e milicianos no poder, é algo até um tanto comum para quem tem a coragem de colocar seu corpo na reta.

Com bom humor e boas metáforas, “Êxodo” zomba da realidade precária da cidade e promove reflexões de problemas que estão por aí a vários anos.

A Hora do Disco

Após tocar ao vivo com sua nova banda, Pedro decidiu que era hora de gravar o sucessor de Coração Cabeção. O novo disco do Vovô Bebê se chamará Briga de Família e chega nas plataformas digitais dia 11 de fevereiro via selo RISCO.

Este que claro terá a malemolência carioca, o ritmo quebrado, o flerte com uma MPB moderna e irreverente. Que dá espaço para a ironia, abusa das crônicas do cotidiano e reflete os conflitos mundanos de nossos tempos. Até por isso é acertada a parceria com Ana Frango Elétrico (em “Êxodo”).


Vovô Bebê

Vovô BebêFoto: Divulgação


Conversamos com Pedro para entender mais sobre este momento, conexões, parcerias e o conceito do álbum do Vovô BebêBriga de Família. Confira e descubra mais sobre o trabalho que chegará as plataformas de streaming a exatas duas semanas antes do Carnaval.

O Novo Vovô Bebê

“O primeiro show com essa banda, que acabou resultando nesse disco, foi em 2016. Na época da ocupação do MINC no Rio de Janeiro, o Pedro da Audio Rebel me chamou pra fazer um show lá. Eu vinha fazendo shows voz e violão, intimistas, e achei que aquela era uma boa oportunidade pra tentar fazer algo um pouco mais pra frente, mais direto e comunicativo. Então juntei as minhas músicas que de alguma forma tinham essas características, troquei o violão pela guitarra e chamei os amigos pra formar essa banda.

Acabou que a ocupação terminou antes da data do nosso show, mas como já tínhamos levantado os arranjos resolvemos marcar em outros lugares. inclusive o lançamento do meu segundo disco, Coração Cabeção, já foi com eles em janeiro de 2017, no Sérgio Porto.

Fomos desenvolvendo esse repertório até que começamos a gravar no segundo semestre de 2018. Ao contrário dos outros, em que eu toquei quase todos os instrumentos, esse disco é realmente um disco de banda. O som é essencialmente o que a gente faz ao vivo. ”

Briga de Família

“Briga de Família” é a primeira música do disco. Nela, o Vovô leva uma martelada na cabeça  e quem deu foi a mamãe. O disco é um pouco sobre isso, sobre conflitos, por isso levou esse nome. Conflitos particulares e íntimos. É briga mas é família, mas é briga, mas é família. Mas é briga.

Nesse momento em que o conceito de “família” tem sido discutido e usado como forma inclusive de posicionamento e até isolamento social e político, essa foi uma briga que me pareceu importante comprar. É como se o verdadeiro conflito não se desse entre inimigos, mas dentro de nós mesmo e entre aquilo que a gente ama, aquilo que nos é caro, como, supostamente, nossos familiares. E esse assunto ronda o disco inteiro de alguma forma.”

As Participações Especiais

“As participações são muito pontuais. Chamei meus amigos de adolescência Leonardo Musse e Conrado Kempers pra participar da primeira música. Eles tocavam comigo na banda dos cafundós e hoje estamos um pouco longe. Quis trazer um pouco desse conflito pra perto.

A Luiza Brina, minha irmã mineira, traz com sua voz doce em “Jão Mininu” a leveza e sutileza que falta em alguns momentos do disco, em contraponto com a Ana Frango Elétrico, que integra a banda e cumpre, entre outros, um papel de um monstrinho fritado e agulhado. O Luís Capucho é totalmente deslocado de seu universo e aparece como um malandro playboy na faixa “Saparada”. Em geral o disco tem essa característica de coexistência de contrários, uma briga saudável.”

Ouça: Vovô Bebê “Êxodo”



“Êxodo” cria todo um cenário visual e um tom de deboche desde sua introdução. A história vai sendo narrada feito uma fábula urbana com direito a dois narradores. Ana Frango Elétrico e Pedro Dias Carneiro que dão cores – e contornos – a todo esse universo pós-apocalítico tropical de Witzel.

Que reflete uma suposta vontade de migrar da realidade virtual para o que chamamos de “mundo real”, mesmo que as consequências sejam um tanto quanto turvas feito a água do Rio de Janeiro em 2020. O som quebradiço, faz a ponte entre o jazz, o funk e a MPB. Tudo junto e misturado mas sem perder o molejo.