Na sexta-feira (16/10) o músico gaúcho Felipe Puperi conhecido nacionalmente por seu trabalho ao lado da Wannabe Jalva lança o álbum de estreia do Tagua Tagua, Inteiro Metade, via Natura Musical e Costa Futuro. Após dois EPs lançados com o projeto, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), ele apresenta o álbum Inteiro Metade.

“É um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. A caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”, conta Felipe

João Lauro Fonte foi o responsável pelos lyric videos dos singles revelados antes do disco, bem como as capas dos mesmos: “Inteiro Metade, “Mesmo Lugar, “4am e “Só Pra Ver“. Assim como a lindíssima capa do álbum que traz muitas cores para representar as experimentações do registro que será lançado oficialmente na sexta-feira (16/10).

O Lançamento Atravessa o Oceano Atlântico

Inteiro Metade, o debut do Tagua Tagua, está sendo lançado no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Desafio que empolga bastante Felipe como lerão em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos.

 “A música de Tagua Tagua explora diversos terrenos. Está em contato com a tradição da música popular brasileira, surgem peças de Jorge Ben, Gilberto Gil e samba tradicional, mas, ao mesmo tempo, se projeta fortemente no futuro, exibindo sons atuais e universais.

Essa facilidade de conciliar a diversidade em um trabalho total e consistente, acho cativante. Tagua Tagua contribui com toda essa riqueza para o selo e “Mesmo Lugar” é um exemplo muito representativo da vastidão de seu universo sonoro”, comenta  Sebastian Ruiz-Tagle, chileno radicado em Barcelona (ES) que dirige o selo Costa Futuro

Já nos EUA a estratégia foi lançar de maneira independente com a ajuda de profissionais de Booking e assessoria de imprensa. Vale lembrar que o músico já se apresentou no Brasil Summerfest, em NY, e teve o single “Peixe Voador” na trilha do FIFA 2020, jogo da EA Sports. Entre os planos para 2021, o músico quer expandir ainda mais os contatos no velho continente.

 “Quero conhecer mais de perto os artistas de Portugal, pensar em possíveis parcerias, estreitar ainda mais os laços entre o Brasil e a Europa. Tenho certeza que será um período bem importante na trajetória do Tagua Tagua, afirma Puperi


Tagua Tagua por Thiago Picolli

Felipe Puperi (Tagua Tagua) – Foto Por: Thiago Picolli


Tagua Tagua Inteiro Metade

Ouvir Inteiro Metade é como se fosse um grande passeio, por memórias, camadas, imagens, recortes, frequências e descobertas. Os singles já mostravam um pouco de como poderia soar mas ouvir ele inteiro faz tudo se conectar de uma forma que a experiência se ressignifique.

A vida passa feito um filme ao som do sopro em “Mesmo Lugar” que abre alas para mostrar o caminho do disco e o recado. É como ler a sinopse de um livro antes de se levar pelas aventuras que se misturam com o nossa inconsciente. Um soul reflexivo que a cada faixa vai sendo destilado e se mistura a novas frequências com um a liberdade latente. “Só Pra Ver” parece fazer as pazes com as saudades de outrora, mesmo que esse sentimento teime por não desgarrar, uma hora se esvai.

Os sonhos aparecem nas camadas e beats eletrônicos da magnética “4AM” que traz o sentimento de nostalgia mais uma vez à tona para falar sobre uma paixão avassaladora. “2016” vem na sequência e fala sobre o longo, e doloroso, processo de cura, de aceitar as mudanças e os novos cenários. “Bolha” vem como uma wrecking ball, em um soul mais introspectivo onde reflete sobre temas maduros como se perceber no mundo.

A Queda e o Voo

“Até Cair” traz a melancolia e na sequência vem a intensa, e marcante, “Inteiro Metade” como o próprio Felipe conta: “essa música representa bem o sentimento do álbum todo. Como o disco é quase uma linha do tempo dos momentos e reflexões desse processo, ela acaba sendo o ponto de intersecção entre a linha da saudade (na melancolia da letra) e a linha da aceitação (no arranjo fluido, leve, que indica o progresso). A música, de certa forma, exalta que não tem como passar por isso sem ser inteiro num dia e metade no outro”.

Com samples e abusando do experimentalismo “Sopro” mostra uma interessante forma de criar fora da curva dentro do disco que prova como pode dizer muito com pouco. Liberto, “Do Mundo” traz para os holofotes pela última vez a melancolia mas por uma perspectiva que já mira para o amanhã como anteriormente no disco já dá sinais que é o caminho que quer percorrer. No amanhã do Tagua Tagua não existem mais fronteiras para voar.

Entrevista: Tagua Tagua

Conversamos com o Felipe Puperi para saber mais sobre os voos e planos do Tagua Tagua e entender mais nuances de Inteiro Metade.

Como é para você observar o momento do lançamento do disco do ponto de vista do momento da carreira. É feito ver um filme ver os tempos de Wannabe Jalva, depois o EP e agora ver o disco nascer com o apoio da Natura? Aliás em relação ao registro anterior nesse você explora uma variedade de gêneros musicais diversa, como foi juntar tudo isso?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “É interessante pensar em toda a trajetória até finalmente lançar um disco completo. Com Wannabe Jalva fizemos dois EP’s, como Tagua Tagua eu também já lancei dois EP’s e vários singles (praticamente um disco), mas agora senti que precisava dar esse passo de criar algo mais completo, uma obra com início, meio e fim. Acredito que foi o tempo natural de acontecer, apesar de ser quase três anos depois do primeiro lançamento. E, sim, passa um filme na cabeça imaginar todo esse percurso até aqui.

O lado bom é que é um filme bem colorido, cheio de momentos mágicos e inspiradores. Quanto aos arranjos e sonoridade das coisas, eu sou esse cara que tá sempre caçando coisas novas que ainda não fiz, então acaba que minhas músicas vão pra vários lados diferentes.”

Não pude deixar de reparar na teatralidade da narrativa do disco que passa por várias emoções, reflexões e a aceitação. De certa forma esse disco para você soa como um divisor de águas para o que você almeja como artista? Como foi sintetizar tantos conflitos e expectativas? O que o Felipe de hoje diria para o Felipe do passado?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “O disco veio da necessidade de falar sobre ressignificação, mesmo sem eu saber disso inicialmente. Da ideia de que uma pessoa que antes era seu par “romântico”, possa se tornar seu par pra eternidade de outra forma.

Não é um processo fácil, passa por todos tipos de sentimento e tentei levar isso pro disco. Não creio que soe como um divisor de águas exatamente, eu sempre me dôo bastante pras músicas. Fui bem honesto comigo, despejei ali muitos dos meus sentimentos e acho que a verdade que tem nele é o que me deixa mais satisfeito.

Também acabei escrevendo de forma mais direta dessa vez, sendo um pouco menos metafórico. O Felipe de hoje diz pro Felipe do passado pra curtir a vibe e aproveitar mais os momentos (que são tantos e tão incríveis) e se preocupar menos com tudo que tá rolando na volta.”

Sentiu que após gravar o disco, mediante a todos os temas que encostou, exorcizou de certa forma alguns fantasmas e inseguranças?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “Mesmo que inconscientemente isso acontece. A música sempre acaba vindo como uma terapia pra mim, eu despejo ali e pronto, bora pras próximas experiências. Amo que as pessoas conectam com isso e serve pra elas também superarem coisas, momentos, sentirem, sonharem.

Mas vejo mais como um processo natural meu do que uma tentativa de curar e exorcizar coisas. A gente passa pelas coisas na vida e se expressa, se comunica. Uns conversam com amigos, uns escrevem suas notas privadas, outros escrevem livros, poemas, uns pensam apenas, eu faço músicas.”

O álbum também permite uma imersão sonora com várias paredes e camadas de som, quais foram as principais referências estéticas na sonoridade? Aliás, ainda temos essa capa linda, conte mais sobre o conceito e desenvolvimento, o criador ainda se envolveu nos lyric vídeos, a ideia era a convergência e explorar uma narrativa transmidiática?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “Como eu mencionei antes, gosto de pisar nos terrenos que ainda não pisei, então, procuro sonoramente sempre algumas soluções que virem novas chaves. Esse disco acabou ficando um lance que as pessoas tem chamado de neo soul / psicodélico / indie pop / dreaming – e nem sei por quê.

Eu não gosto de categorizar música, é o que me deu na telha fazer e veio assim. Escuto muitas coisas, porém, o soul tá sempre bem presente na minha vida. Shuggie Otis, Marvin Gaye, Al Green, Tim Maia, Bobby Womack, Sharon Jones, Charles Bradley. Só que não me interessa tentar refazer nada disso, saca? Eu quero é fazer algo novo, então, misturo tudo num liqüidificador com outra imensidão de coisas que gosto e acabo criando minhas próprias sonoridades.

A capa do disco tem muito de retratar a mistura de sentimentos que é o processo de ressignificar alguém importante na vida. Traz toda essa confusão de sentimentos. Eu vejo ela eufórica e leve, mas também pesada, profunda. Cores sóbrias e vibrantes, uma grande mistura conceitos, tempos, épocas. Os singles todos foram recortes da capa e contra capa do vinil, e cada recorte retratou muito bem o mood da respectiva música. Vejo o lance visual como extensão da experiência toda, afinal a visão, tal qual audição, é mais um sentido maravilhoso que temos pra nos conectar com o sentimento.”

“Peixe Voador”, faixa anterior ao disco, acabou entrando na trilha de FIFA 2020, imagino que deva ter jogado o jogo ao longo da vida e também sabe do impacto das trilhas sonoras em quem joga. Como foi a recepção do público? Foi algo imediato? Aproximou novos públicos em lugares que não imaginava?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “Foi legal esse lance do jogo, era algo que eu não esperava e acabou acontecendo. Abriu portas sim, principalmente as de chegar até pessoas que hoje me ajudam a levar o barco e promover a música do outro lado do oceano. Sobre a questão do público gringo é algo que está sendo construído aos pouquinhos, não é um processo rápido e o Tagua Tagua ainda tá num estágio bem inicial. Tem que circular um tanto lá pra que isso seja uma realidade.”

Aliás você está promovendo o disco em três frentes, no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, imagino que seja uma experiência em tanto. Como foi orquestrar as estratégias e entender o comportamento dos diferentes públicos? Bom ainda tem o fator pandemia que acredito que fez dosar o lançamentos dos singles e clipes, chegou a pensar em ações especiais para captar a atenção?

Felipe Puperi (Tagua Tagua): “É uma loucura total isso de lançar o disco nesses territórios todos ao mesmo tempo. É uma galera trabalhando junto pra fazer acontecer, tem gente vendendo shows, vendendo as músicas, gente promovendo, assessoria de imprensa, manager, produtores, uma doidera total. Mas eu gosto, me vejo como um artista em movimento, curto essa ideia de poder rodar com a música pra além do Brasil, rodar o mundo todo, porque encaro a música como uma linguagem universal.

Cada vez mais tenho certeza de que as melodias têm um poder tremendo de criar emoção e conectar. A pandemia empacou tudo, o plano era já estar girando nesse ano e acabou ficando tudo pra 2021. Com isso diluímos o lançamento todo em singles mais espaçados, o que achei legal também, pois familiarizou todo mundo com o disco.

Valeuu!”