[Premiere] Navegando pelas ondas da Vaporwave, Dedé Santaklaus discute o tédio das redes sociais em “HAHAHA”

Em um mundo onde tudo se cria e se consome de maneira acelerada as vezes nosso cérebro fica próximo de entrar em colapso. Alguns conseguem transformar essa “piração” ou nível elevado de stress em arte.

Já o músico mineiro Dedé Santaklaus tira isso de letra. Sendo conhecido pela viagem psicodélica de seu projeto Absinto Muito ele resolveu exorcizar seus demônios dessa vez através de outro estilo musical. Claro que também de uma forma muito debochada como podemos ver no teaser lançado na semana passada.



Tudo do cotidiano em sua arte é motivo para ser analisado. Da timeline do facebook, passando por desenhos animados, ansiedade, tragos de cigarro aos “memes”. Ele remonta todas essas “mediocridades” do dia a dia em versos para tirar onda.

Seu estilo é de certa forma anárquico afinal de contas ele não tem compromisso a soar com uma fórmula. Ele busca referências no trap, vaporwave, música brasileira, triphop chillwave, dream pop e pop psicodélico. Tudo junto e misturado.

Não é a primeira vez que a música eletrônica se funde para criar algo novo. No fim da década de 80 grupos como Underworld, The Chemical Brothers, Orbital e The Prodigy faziam o mesmo. O próprio triphop veio em seguida com Tricky, Air, Massive Attack, Portishead e tantos outros.

Não precisamos também ir tão longe para ver a relevância dessa mistura “louca”. Artistas como FKA Twigs, The Internet, Flying Lotus, SIA, London Grammar e tantos outros fazem experimentações absorvendo todo esse legado que a música eletrônica foi adquirindo com suas experimentações.


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Dedé Santaklaus lança hoje seu primeiro álbum solo. – Foto: Divulgação

Em épocas onde vemos artistas como Karol Conka criando letras em cima de assuntos tendência nas redes sociais o caminho que Dedé escolheu foi o oposto: subverter. Ele faz um recorte dos “memes”, “menes”, gírias e expressões do “rolê” e transforma isso em letra. Sim, para mim isso é anárquico pois ele não se preocupa em agradar ou se enquadrar numa linha séria. Acho que sério é um termo que nem cabe nessa resenha, e talvez esse seja o brilho de suas composições: entender essa geração internet.

Eu consigo até imaginar uma capa de um single com o meme do Mac Demarco ou uma montagem tosca “paint revival” que se adequaria na proposta estética do projeto. De qualquer forma o nome do lançamento diz muito “HAHAHA”. Este que está saindo pelo selo paraibano FIASCO RECORDS.


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Dedé delira sobre os aspectos intangíveis da sua vida, sendo, assim, tornando audível aquilo que não é palpável.  – Foto: Divulgação

O deboche vai muito além do que estamos esperando, por exemplo a faixa que abre “Finim” propõe tirar sarro com toda a geração que copia e cola os pedais e fórmula do Tame Impala e esquece de adicionar conteúdo em sua letra. Só para “chapar”.

Isso é Punk Rock para mim: dizer o que todo mundo sabe, quer falar mas que se segura. Ela continua ainda com um misto de trap com sobreposições de samples e uma letra sobre se manter “chapado”. Fazendo analogia a raposinha sapeca e sua erva. 4:20 on the clock!

Você provavelmente conhece o meme do “Miga Sua Loka”. Agora imagina o que isso deu na mão de Dedé Santaklaus? Isso mesmo! Algo como “Michael Douglas” do João Brasil. Só que ele busca referência no funk/soul assim como Giorgio Moroder para seus beats, isso mesclado a samples de percussão e solos de guitarra. Ou seja subverteu o Discovery do Daft Punk.


MIGA


Num sobrou nem para a Chun Lee, personagem do Street Fighter. Ela ganhou uma canção com seu nome que fala sobre aquele “pega”, o famoso D2. Nessa faixa ele assina o feat com O PALA, Rept1liano. O que para mim poderia ser uma bela de uma uma tiração de onda mas ele contou com a parceria dos amigos Diogo Henrix (Absinto Muito), Vítor Gabriel e Pedro Enes. O lance da disco e da chillwave aparece como referência neste som que arrisca por mais uma vez por guitarras e samples “robóticos”.

A quarta faixa é a que mais gostei durante a primeira audição. Ela é dançante, leve e traz uma “good vibes”. A progressão é interessante e te joga direto na pista de dança. Tem seu momento chillwave e sua queda de downtempo mas segura nas pontas. Seu nome é “Cê é Linda”.

O nome mais faça você mesmo de canção está na seguinte, “Essa música, eu fiz ela no meu quarto”. Ela tem beats tropicais e viaja pelas ondas do glo-fi, tem samples no melhor estilo Primal Scream, ou melhor dizendo…não faltam batuques. Se tem o “hino da maconha” essa seria “O hino do ecstasy”.

Lá para seu sétimo minuto Dedé manda a real sobre o seu som: “Essa música eu fiz ela no meu quarto. O programa que eu usei para fazer ela é pirata. Todos os sintetizadores são piratas. A bateria é low bit que eu baixei de internet. E a guitarra foi gravada enfiada no PC direto e todos os efeitos são para programa.”


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Cheio de sintetizadores fake, guitarra plugada direto no PC e programas de computador Dedé construiu 8 faixas cheias de deboche. – Foto: Divulgação

A sexta faixa e já rumando para o fim do disco é “Descendo (ninguém gosta de música lenta)” que fala literalmente sobre o tédio. Muito dele causado pela mediocridade das relações sociais e seu distanciamento virtual.

Aquele momento que poderiam estar juntos mas ficam em casa com a postura torta numa cadeira ou no sofá acompanhando notificações de facebook. Automaticamente seu tempo vai sendo sugado like após like.

É a faixa que mais faz mais transições, abusa do autotune e do downtempo. Tudo isso para expressar a sensação de angústia que é ver o tempo passando lentamente com besteiras. Vitória Pós-Humana? Ou melhor dizendo, derrota.

Chegamos a “Elba Ramalho”, essa que parece ter vindo de um vídeo remixado no autotune. Lembram do “Hide Your Kids, Hide Your Wife” que bombou lá em 2010, pois é depois desse muitos vídeos tiveram o mesmo efeito sendo usado (até cansar). Só que a canção de Dedé capta memes mais novos como “Eu já te matei mais de 150 na minha cabeça”, “Elba Ramalho é mais foda que eu e vocês”, “Quando eu passo eu sei que cêis comenta”.

A faixa ainda conta com rimas de Sara Guedes que é acompanhada de batidas triphop. Ela que versa livre sobre a situação dos memes. Até os tiros de “Paper Planes” da M.I.A. são sampleados.

Para fechar o disco Dedé optou por “Amorará”. Esta que é instrumental alá Underworld e caminha pelo house, trap e triphop. É como uma introdução só que no final do disco. Feito seu cigarro, o disco se esvai.


Dedé CAPA


O músico mineiro Dedé Santaklaus com o lançamento de seu primeiro disco, HAHAHA, prova que é possível se divertir e se aproveitar de contextos em meio a uma timeline cheia de desgraça, memes, banalidades e tédio. Ele mostra tudo isso de uma maneira bem louca e D.I.Y.

Uma estrofe a se destacar da obra é justamente quando ele fala sobre o projeto ao fim de um som: “Essa música eu fiz ela no meu quarto. O programa que eu usei para fazer ela é pirata. Todos os sintetizadores são piratas. A bateria é low bit que eu baixei de internet. E a guitarra foi gravada enfiada no PC direto e todos os efeitos são para programa.”

A piração viaja por ritmos como trap, música brasileira, triphop, vaporwave, glo-fi e tantos outros. Tem espaço para autotune, tem espaço para sample e até para experimentações de beatmakers convidados e rimas de Sara Guedes. Não leve a sério este disco apenas se divirta e coloque para tocar durante um rolê quando seus amigos já estiverem “no grau”. Recomendado para fãs de Xuxa, Kelly Key, Bonde do Rolê e Psirico. Ou foda-se, dá logo o play!


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