O amadurecimento do revival do Post-Punk e como isso se relaciona com nossos tempos

 O amadurecimento do revival do Post-Punk e como isso se relaciona com nossos tempos

Shame

Depois do declínio de popularidade no começo dos anos 00 o revival do post-punk voltou para o underground onde foram aos poucos surgindo grupos como Savages, Iceage, Photomartyr, Preocuppations, Parquet Courts, Holograms, Girl Band, Bambara, Algiers, Ought, Moaning, Eagulls que foram fomentando o terreno para a volta aos holofotes do gênero tão inventivo e cheio de sub-divisões originalmente desenvolvido na virada dos anos 70 para os 80.

Fato é que observar a guinada com o público e despertar de interesse da mídia é algo que não fica somente no campo da música e que se relaciona com o mundo em que vivemos. Do comportamento de reação a política e acontecimentos nos entornos de uma classe média oprimida por governos e entidades com valores conservadores.

É impossível você observar as letras de bandas como IDLES, Shame, Fat White Family, Fontaines D.C. e não ver temáticas que envolvam a xenofobia, injustiça social, sexismo, totalitarismo e consciência social. Vivemos um momento delicado das mais diversas democracias e na europa temos o fortalecimento das questões políticas num público jovem como é o caso dos eco-ativistas (chamados de “Greens”).

Fato é que cada grupo acaba lidando com as temáticas com maior ou menor intensidade mas é impossível desassociar a aproximação e esquecer sobre a política e a revolta das ruas em um momento onde líderes como Trump, Erdogan, Viktor Orbán, Bolsonaro, Boris Johnson, Jaroslaw Kaczynski, Benjamin Netanyahu e Rodrigo Duterte detém o poder.

De certa forma esse momento de conservadorismo que teve muita força durante os anos 80 com líderes como Margaret Thatcher, Ronald Regan e ditaduras, e de tempos difíceis para a classe média, acabam influenciando grupos do punk rock ao post-punk a irem para a linha de frente expressar seu descontentamento por medidas públicas pouco populares. A música e a estética acabou marcando uma época e de certa forma o cenário atual acaba tendo suas similaridades.

São tempos duros onde o obscurismo se contrasta com as lutas por direitos civis, trazendo a tona a desigualdade social, a luta por direitos iguais para todos, reconhecimento e emancipação dos corpos. Sem esquecer temas como a sanidade mental e o poder de transformação social através do coletivo, um dos pilares da democracia.

No meio disso tudo temos ainda a ascenção de governos que tomam decisões autoritárias, guerras em diversos cantos do planeta e a convulsão social. Entre fake news e milícias virtuais, a era do ódio demanda uma resposta e muitas vezes a arte é uma das formas de expressar o descontentamento.

O amadurecimento do revival do Post-Punk

Nos últimos meses tivemos por exemplo o lançamento do disco do IDLES, Ultra Mono (leia mais), que passa por temas como inclusão, lutas de classe, desigualdade de gênero, nacionalismo, comunidade, e masculinidade tóxica.

Já o Shame trouxe no novo disco, lançado no dia 15/01, o sentimento de desesperança, crise de identidade, lidar com a solidão, encarar desafios e dificuldades e mostra um amadurecimento em relação as temáticas do primeiro disco, assim como um grupo que tem mais arsenal de soluções e referências dentro do post-punk; uma hora mais pesado e em outra mais cadenciado; fruto da parceria com o produtor James Ford, conhecido por seu trabalho ao lado dos Arctic Monkeys, que traz referências que vão do Parquet Courts aos lendários Talking Heads.

Shame Post-Punk
ShameFoto: Divulgação

Da mesma geração o Fontaines D.C. talvez tenha ido para um dos caminhos mais ambiciosos, além de desconstruir a sonoridade, e escolhas, do primeiro disco eles trouxeram para o primeiro plano a desconstrução do herói para fugir de estigmas e fórmulas. Fazendo um segundo disco potente e mostrando como o amadurecimento dessa geração acaba por sua vez se relacionando com o momento raivoso do mundo.

Ao mesmo tempo a geração ainda conta com artistas que fazem uma autocrítica ao contexto em que estão inseridos como é o caso do Viagra Boys, da Suécia, que traz o lado bad boy e uma mistura sonora que vai de Stooges a Gang Of Four, passando pelo jazz, em seu novo disco e traz histórias próprias sem ligação com movimentos e políticas – sendo até mesmo polêmicos.

O momento ainda conta com o duo eletropunk com referências de hip hop e post-punk Sleaford Mods que através de sua estética minimalista, e corrosiva, traz letras que colocam o dedo na ferida de preocupações da classe trabalhadora, mostrando um outro lado dos anos 80 com direito a flertes com outros estilos como o Black Metal e o Mod (lá dos anos 60).

O mais interessante do revival em si está sendo justamente ver como muitas vezes fórmulas e estéticas estão sendo superadas e como os discursos e as causas tem ganho força seja através de bandas instrumentais guitarrísticas como black midi. A nova safra revival e não necessariamente (somente) post-punk ainda conta com nomes como Black Country New Road e Goat Girl.

Pós-Punk no Brasil

No Brasil temos bandas como In Venus, Nietts, WRY, Herzegovina entre outras que trazem referências estéticas tanto do post-punk nacional (Mercenárias, Akira S. & As Garotas Que Erram, Vzyadoq Moe, Patife Band, Smack, Picassos Falsos, Fellini, Legião Urbana) e internacional de outrora – e do momento atual, assim como referências políticas de situações do nosso cotidiano em sociedade.

Já estamos curiosos para os próximos passos mas ver a maioria das bandas conseguindo superar a maldição do segundo (ou terceiro disco) continuando na linha de frente mostra como a música é necessária para a transformação que queremos para o mundo. Agora nos resta é observar o desenvolvimento e comportamento do público quando a volta dos shows presenciais for algo possível.

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Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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1 Comment

  • Eu acho um retrocesso, desculpe. 20 anos seguidos dessa emulação dos anos 80. Chega bixo.

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