Após lançar o EP Taxidermia Vol. 1 ao lado de João Milet Meirelles (BaianaSystem) a ansiedade pelo disco que sairia em breve pela Natura Musical e Balaclava Records só aumentou e na última sexta-feira (26) todas as expectativas foram confirmadas: Olho de Vidro, álbum de estreia de Jadsa, já pode ser considerado um dos Melhores Álbuns Nacionais de 2021.

Pelo fato do disco ser um trabalho de construção entre 2018 e 2019 podemos ver o cuidado nos arranjos e frequências ao longo das suas 14 faixas. Com direito a referências a Bahia, e sua rica música, mas também com homenagens a vanguarda paulista, o álbum de Jadsa consegue mesclar diversos ritmos, múltiplas camadas sonoras e participações especiais muito bem desenvolvidas.

Jadsa recria o seu pop do seu jeito e não tem medo de soar rock, MPB, incorporar o reggae ou ir beber nas frequências do samba.

“Depois que escutei Itamar virou uma chavinha na minha cabeça e abriu possibilidades. A música, a imagem e a energia dele, para mim, formam uma presença que é quase uma entidade. Foi por meio do som dele que conheci a maior parte das pessoas em São Paulo”, conta Jadsa

“Penso no ‘Olho de Vidro’ como uma resistência. Quando se fala em música baiana, geralmente a primeira coisa que vem à mente é o axé e o pagode. A Bahia também é feita de roqueiros – muitos saíram daqui, inclusive.

Quero mostrar este lado alternativo e subversivo baiano. Não em oposição a nenhum ritmo, mas uma coligação do rock com axé e dizer que a Bahia tem tudo isso”, complementa Jadsa, baiana que vive em São Paulo

As Participações de Olho de Vidro

Com produção musical de João Meirelles (BaianaSystem, Infusão), “Olho de Vidro” traz, além das participações de Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci (ambos em “Raio de Sol”), e Luiza Lian (em “Lian”), a presença das cantoras e compositoras Josyara e Raíssa Lopes (Obinrin Trio); da tecladista Aline Falcão, do violoncelista Filipe Massumi e do baterista Sérgio Machado.

Da banda base, gravaram com Jadsa o baixista Caio Terra, a baterista Bianca Predieri, as cantoras Marcelle e Marina Melo e o percussionista Filipe Castro.

O disco foi gravado em 2019 no Red Bull Studios por Funai Costa (mixagem e masterização) e Alejandra Luciani (engenharia de som) e tem produção executiva da empresa baiana Giro Planejamento Cultural em parceria com Rafaela Piccin.


Cantora baiana Jadsa lança disco pela Natura Musical - Foto Por João Milet Meirelles

JadsaFoto Por: João Milet Meirelles


Faixa a faixa de “Olho de Vidro” por Jadsa

1 – Mergulho

“Mergulho é uma das músicas mais intimistas do “Olho de Vidro”, que escolhi para abrir o disco, como um convite a mergulhar na obra. Eu tento desenhar uma miragem, o mar, tento levar as pessoas para Salvador e lembrar como é essa sensação na pele.”

2 – Sem Edição

“Nessa faixa eu canto sobre sentir intensamente, fala muito de sensações. é um apelo a ter as pessoas perto de mim, ver as coisas como elas são, em cores vivas, com cheiros e sabores, o toque. Calor! Os arranjos de voz são de Marcelle, Marina Melo e Raíssa Spada (Obinrin Trio).”

3 – Já Ri

“Já Ri” eu compus em Salvador, em 2017. É uma metáfora, de abrir o jornal e levar um susto. Já ri e já chorei são reações muito nítidas de algumas notícias que a gente vai recebendo ao longo da vida e que podem se encaixar nos dias atuais.”

4 – Raio de Sol (feat. Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci)

“Essa música é como uma miragem, uma crônica apaixonada. Tem basicamente dois momentos: o samba, que é o que a gente mais escuta quando está na praia, e sem fugir do meu lado literal roqueiro.

Nisso o power trio casou muito bem, porque os arranjos foram feitos dentro do estúdio. Da mesma maneira, a ideia da voz de Ana só se deu quando ela chegou no estúdio e ensaiamos, assim como a guitarra de Kiko. Chamei ele e Ana porque os dois têm brilho suficiente para iluminar essa faixa, então eles literalmente são os raios – Ana com uma voz que brilha, vibra e corta, e Kiko como uma rajada violenta, ultravioleta, mais voltado para o noize.”

5 – Olho de Vidro

“Olho de Vidro é o que explica um pouco mais da minha sensação, das músicas dentro de mim, do que eu penso, da minha cabeça. É bem embaralhado, a gente fala bastante do eco, das cores, de algumas cenas. Invento cores, inclusive: marrom-vermelho-rouge-sangue é uma cor. Cor de castanho-poço-hipnotizante.

São cores que eu criei e que eu tento trazer as pessoas pra dentro desse universo. O castanho por exemplo tem vários tons, e o meu, na minha música, naquele momento, era cor de castanho-poço-hipnotizante. Mas tão importante quanto a letra é a parte sonora da faixa, os instrumentos que foram gravados, e por isso a gente colocou um fragmento de “Nego Dito”, de Itamar Assumpção, no meio.”



6 – Mangostão

“Mangostão é uma música de referências captadas nesse meu universo. Cito ÀTTØØXXÁ, Ava Rocha, arrocha, cito a faixa “Secante Caju”, (que está no EP TAXIDERMIA vol.1, projeto meu e de João Meirelles, lançado em julho de 2020). Eu me cito dentro da minha própria música e cito os meus também. E comparo isso com a sensação de provar uma fruta inacreditável de tão cheirosa e gostosa. O riff foda de guitarra é de Raíssa Spada.”

7 – Selva

“É um conselho, e conselho se dá a quem quer. Eu dou um conselho de que você vai nascer, viver, e é necessário viver intensamente, pensar no próximo, socorrer o homem do homem – no sentido de se ajudar -, estar perto e junto, horizontalmente, e morrer com dignidade – porque é certo que vamos morrer um dia. Tem esse ciclo da vida. Selva parece esse ciclo de relação e de comunicação que é super importante. De existir sem limite e sumir.”

8 – Power

“Power, assim como outras músicas do disco, homenageia e celebra ritmos da minha terra, a Bahia (nesse caso, o reggae), mas usando uma linguagem mais roqueira. Power é o poder que a gente sabe que a gente tem. É invocar esse poder, trazê-lo para aqui e agora, como se fosse uma reza. É o poder de caminhar e continuar caminhando.”

9 – A Ginga do Nêgo

“Essa é uma das várias parcerias minhas com Caio Terra, meu baixista, que compusemos em São Paulo. Inclusive, o que veio primeiro foi o arranjo de baixo dele, durante um sonho. Para a letra eu usei um poema meu, aí encaixamos e adaptamos.

Na letra vem uma raiva, uma energia que pode explodir tudo e que depois a gente vai seguir em frente. Homenageio a entidade Exú, porque sinto nele essa força, e escolhi essa música para ser o primeiro do disco single porque Exú é quem abre os caminhos.”

10 – Fora, Marte!

“A faixa é uma batalha de bateria entre uma mulher e um homem (Bianca Predieri, que já toca comigo, e o incrível Sergito Machado). Eu canto a história contando de onde a mulher poderia ter surgido, numa outra teoria além de ter vindo da costela de Adão. E se a mulher viesse do fogo e da lava? A história muda total. Então é uma batalha, pedindo para que marte, para que a energia masculina, saia da frente.”

11 – Run, Baby (feat. Josyara)

“Todo mundo tá falando que é uma música inteligente e eu gosto de colocar isso. Ela fala, no cinismo, de algumas coisas muito delicadas. É bem grosseira também, mas aí vem a guitarra que desenha essa melodia doce, e o violão de Josyara (que também canta) que cabe muito bem no lugar do baixo e faz uma percussão também. Ela conta uma história completa e pede para que essas pessoas que prometem coisas possam liberar o caminho e deixar para quem realmente quer fazer – e faz.”

12 – Nada

“Nada” é um momento de reviravolta, ela vem como um retorno ao próprio disco. Nada representa o “Olho de Vidro” de uma maneira nítida, ela conta muito a história do disco e supõe um breve futuro. “Nada” é tudo.

Convidei Raíssa Spada pra cantar junto porque ela me mostrou dentro da música um universo, assim como Caio Terra, que pediu para que essa música estivesse no disco (eu quase caí na cilada de não incluí-la). Essa faixa para mim é tudo porque eu comecei a estudar outros modos de cantar uma música minha.”

13 – Lian (feat. Luiza Lian)

“Quando cheguei em São Paulo, Luiza tinha lançado há pouco tempo o “Azul Moderno”, disco que ouvi muito, bombou na minha mente, e foi trilha de muitos bons momentos. Luiza me deu muita força na cabeça para estar nessa cidade em 2018, ano em que fui morar por lá. Entrar em contato com a arte dela me deu firmeza, me deu um norte, e decidi fazer uma música para homenageá-la, mesmo antes de conhecê-la.

Quando conheci e ela topou participar de “Lian” foi ainda melhor, especialmente cantando um pedaço de “Mira”.”

14 – Vidrada

“Compus “Vidrada” poucos dias antes de entrar no estúdio, e ela veio com essa função de fechar o disco – não pra encerrar, mas justamente dizer que vai continuar. Tenho um carinho muito grande por ela, porque só tocam artistas baianos.

Eu já sabia que queria um toque que virasse junto, e um baixo que fizesse o chão enquanto a guitarra costura também. A guitarra conversa com o atabaque, o cello conversa com o baixo e a voz conversa sozinha, contando uma narrativa.

“Vidrada” vem com esse refrão bem incisivo, que é “meu olho não vai parar”. Eu faço esse refrão 3 vezes, eu canto 3 versos, e o disco tem muito do número 3. A palavra vidrada tem 3 sílabas que resumem muito o disco, que tem 3 palavras: olho de vidro.”