Quem entrou em 2020 tendo grandes planos provavelmente tomou um tombo daqueles. E não é para menos, já completamos 4 meses de Quarentena (para os mais persistentes) e ela parece estar ainda longe do fim. Fato é que todo mundo sentiu o peso em algum momento. Alguns entraram confiantes como se fosse um período de aprendizado, de auto-conhecimento e até mesmo sabático do lifestyle acelerado…só que foram várias ondas que foram e voltaram….feito a ressaca do mar. Betina também passou por um processo parecido.

Com planos de lançar seu terceiro álbum, e empolgada confeccionando suas novas canções, Betina começou o ano a todo vapor com direito a parcerias e lapidando singles. Só que chegou a pandemia e bom: o mundo virou de ponta cabeça.

Não bastasse ainda temos que lidar com terraplanistas no poder, virar piada internacional no combate ao COVID-19 e reviver o dia do 7×1 todo dia (aliás no dia 08/07 fez 6 anos). Só que até o caos pode virar arte. No caso da Betina virou “Onda Errada” parceria com Dinho Almeida, do Boogarins.

“É uma onda muito errada pensar que em pleno 2020 estamos debatendo terraplanismo na esfera governamental”, afirma Betina


Betina Onda Errada Dinho Almeida Boogarins

Betina aproveitou a Quarentena para aprender novas programas e o videoclipe é o resultados dos experimentos em 3D. – Foto: Autorretrato


Betina “Onda Errada”

O delírio negacionista por si só é uma tremenda “Onda Errada”. O terraplanismo e as políticas sociais do (des)governo são uma “Onda Errada”. São dias onde são raros os momentos para ter uma Buena Onda.

Mas geralmente na música momentos tensos ou equivocados geram boas canções críticas regadas a ironia e sarcasmo. Esse é o caso deste single composto e produzido por Betina com ajuda de Dinho Almeida (Boogarins) e Diogo Valentino (Betina/Supercordas).

“A gente estava terminando uma composição e eu falei para ele que tinha essa letra sobre terra-planistas e negacionistas. Tinha o refrão pronto, mais alguns pedaços e ele super animou de participar. Fez um beat na drum machine, botou as guitarras e terminamos a letra. A gente teve uma troca muito boa, entendo o que ele quer dizer e ele super me entende – acabou fluindo”, conta Betina sobre a parceria com Dinho Almeida

O Videoclipe

Ela também aceitou o desafio de produzir os visuais da faixa usando técnicas que aprendeu ao longo de um curso.

Aliás, ele é formada em artes gráficas, então softwares de animação e de 3D, fazem parte do seu cotidiano. Durante o período de isolamento ela resolveu aplicar os seus conhecimentos e aprimorar a técnica, o resultado foi o divertido vídeo para “Onda Errada”.

A letra é sutil, brinca com efeitos, beats, sopros e mixagem. A “Onda Errada” do terraplanismo, negacionismo e loucura acabam ganhando contornos e misturas entre a psicodelia e o vaporwave, entre delírios, a espera pela queda e o cosmos.



Colagens, brincadeiras com o lettering, cores vivas, estética vaporwave e o estilo zine ganham as telas do lyric video produzido pela própria artista.

Entrevista: Betina

Conversamos com a Betina para saber como está sobrevivendo na Quarentena, quais os planos e para saber mais detalhes sobre a parceria.

Primeiro de tudo “Quanta Onda Errada” tem batido em 2020, hein? Como tem se sentido em relação a tudo isso que tem acontecido? Tem conseguido focar nos trabalhos? Para você tem sido um momento para acelerar ou para desacelerar criativamente?

Betina: “Muita onda errada! A gente não poderia imaginar tanta, na real. Eu tenho me sentido atordoada como a maioria das pessoas.

O processo do meu terceiro disco foi interrompido e fiquei meio sem norte, o que me fez a princípio ficar paralisada sem cabeça pra nada, numa ressaca profunda. Mas aí eu lembrei que toda essa criatividade e necessidade de expressão do ser humano é ferramenta essencial para lidar com o mundo.

E resolvi aprender algo novo, experimentar, sem muita pressão canalizei essa frustração para produção desse vídeo. a idéia era “aprende algo novo, se ficar bom você usa”. Então eu vivi os dois momentos, o de desaceleração/paralisação e o de canalização que me possibilitou e tem possibilitado produzir muita coisa.”

Como foi o surgimento da canção, a parceria e o processo construção?

Betina: “Essa música já era um rascunho desde que a idéia terraplanista chegou na esfera política, mas eu vinha trabalhando um disco mais íntimo e pessoal. Foi um empurrão do Diogo Valentino que me perguntou se eu não ia escrever nenhuma música política no disco novo, o que me fez realizar que não da pra ficar quieta. Nós estamos vivendo esse momento histórico e a memória social é composta de canções (livros, quadros, filmes) que se posicionam e auxiliam na compreensão desses eventos, durante e depois que eles passam. Já tinha o refrão e algumas linhas esboçadas.

O Dinho colou aqui em casa (antes da quarentena) e a gente já tava trabalhando numa outra música, mas eu achei que ele podia colaborar super para essa música, que tinha uma energia ali que combinava com a dele e ele super topou. Criou um beat na “calculadora” dele e eu adorei essa vibe e assim foi, colocou umas guitarras, Diogo tocou o baixo, chamei o Rafa Penna pra uma linha de trompete e eu coloquei programação/samples para finalizar. Alejandra fechou bonito com a mix e master.”


Betina Onda Errada

BetinaFoto: Autorretrato


Como vê a coincidência de num espaço de uma semana você e a Fernanda Takai lançarem canções ironizando o terraplanismo e a atuação do presidente?

Betina: “Eu acho ótimo, é isso! Temos que falar sobre a aberração que estamos vivendo. Não dá pra só rir (porque é cômico) e deixar pra lá, achar que vai passar. É preciso se posicionar, dar risada e também viver o luto.

Luto pelo negacionismo científico que nos deixa tão a mercê desses homens de má fé. Luto pelo fracasso das construções sociais que nos trouxeram até aqui. Fazer música nesse sentindo é criar essa memória social e registrar “o que pensamos”. Essa história vai ser contada no futuro e os registros são fundamentais.”

Conta um pouco para gente como foi a experiência de criar o próprio lyric vídeo em 3D.

Betina: “Foi muito divertido. Basicamente eu usei algumas aulas e técnicas que vi online pra criar. Então foi como um projeto de final de curso, só que sem data ou tempo pra acabar.

Lembro que numas dessas aulas que estava assistindo o professor disse: “Escolhe algo que te empolgue pra fazer, assim tudo vai ficar mais fácil.”

E foi isso, eu tava tão na pira de aplicar tudo aquilo que foi leve apesar de todo trabalho envolvido. Além do mais eu adoro um software, trabalho com Illustrator e Photoshop faz muito tempo e também estou mais íntima do Logic (que é de áudio). É engraçado ver a conversa de usabilidade que eles tem entre si, parece que um é extensão do outro. O 3D é o mais difícil deles, eu usei umas técnicas mais simples e já foi bem difícil mas pretendo me aprofundar mais pros próximos trabalhos.”

A ideia é lançar um disco? Como tem repensado a divulgação do trabalho agora que o online mais do que nunca fundamental?

Betina: “A ideia principal agora é não me cobrar muito. Então tem sim várias músicas que compõem o disco, em várias etapas de finalização, mas eu tô deixando rolar, fazendo as coisas devagar sem por data, nem rótulo. Afinal não me parece muito sensato tentar ditar como as coisas vão ser em tempos como o que vivemos.

Mas com certeza vem mais coisa por ai. Sobre o online, eu honestamente não sei o que vai ser, acho que estamos todos tateando ainda quais serão os rumos daqui pra frente. Vejo muita gente criativa criando conteúdos maravilhosos e tenho me inspirado e me espelhado nessas pessoas.”

Ficha técnica:

Betina: Voz e programação
Dinho Almeida: Guitarra e beat
Diogo Valentino: Contra-baixo
Rafael Penna: Trompete
Letra: Betina e Dinho
Produção: Betina
Co-produção: Diogo Valentino
Mix e Master: Alejandra Luciani
Vídeo 3D: Betina
Produção Executiva: Felipe Matheus Lima