25 discos nacionais fora do hype do segundo semestre (2025)
Discos fora do Hype para conhecer lançados no segundo semestre (2025)
Fim de ano por aqui e provavelmente você se deparou com várias listas de Melhores do Ano (como a ótima do Toca UOL). Nada contra essas listas, pois são importantes para ajudar com que artistas independentes tenham cada vez mais circulação… mas e os discos de artistas emergentes fora do hype deste radar?
Aqueles de artistas que tem potencial, mas que por estarem em uma fase inicial da carreira ou não terem os holofotes da mídia, acabam passando um pouco distantes. Seja por desconhecimento dos curadores, seja por não contemplar o background de quem a faz, seja por não ter um apoio promocional de grandes gravadoras ou distribuidoras. E tudo certo, mas nem por isso merecem ser esquecidos. Pensando nisso, no ano passado decidimos fazer a lista de discos fora do hype lançados nessa segunda metade do ano como uma brincadeira.
Totalmente experimental, já que foi a primeira vez que faço por aqui, então sugestões e críticas sempre serão bem-vindas. Se servir para você orelhar e ampliar seu repertório de artistas, ou até mesmo dar uma chance para aquele artista que você já conhece, mas não deu tanta moral na primeira audição, sinto que já consegui alguma coisa.
Como curiosidade, ao todo foram ouvidos até aqui 280 discos e 70 EPs, todos nacionais. Claro que gostei de muitos mais, mas pelo critério de estar fora do hype, limitei a elencar eles sob esse conceito. Outros do segundo semestre que gostei muito, mas que os artistas já gozam de certo prestígio de popularidade, estão na nossa aguardada lista de Melhores Discos Nacionais (2025).
Confira a lista de Melhores Discos Nacionais (2025)
Confira a lista Fora do Hype do primeiro semestre
25 Discos fora do Hype lançados no segundo semestre (2025)
Ao todo, a lista com discos fora do hype conta com 20 álbuns e 5 EPs, sim, decidi não excluir esses trabalhos. Essa lista também não terá ordem de importância, por isso ela foi feita na ordem alfabética. Vamos lá!
Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro Handycam
O encontro entre Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro já vinha ganhando forma nos últimos anos e agora conhecemos o trabalho criado em parceria. NOVA ERA/OHAYO SARAVÁ chega pelos selos RISCO (Brasil) e Cuca Monga (Portugal) com direito à banda com o baixista Marcelo Cabral (Metá Metá, Elza Soares, Criolo) e do baterista Biel Basile (O Terno).
O próprio resgate das Handycams e o apelo analógico de sair das redes para viver e construir suas próprias memórias da juventude: acaba servindo como fio condutor da narrativa do disco que soma as estéticas dos dois projetos encabeçados pelos artistas com características que vão do cru do violão a delicadeza de elementos pontuais, ambiências e que reverenciam a pluralidade da música brasileira. Esse lado nu, sem medo de perder o rumo e construir algo novo, é que faz da exposição algo genuíno. Entre São Paulo e Salvador, eles somam as referências para criar algo novo, feito uma intersecção dos que se dispõem a se encontrar pelo caminho. De jovens artistas da nova música brasileira que não veem limites para onde pode ainda ir.
É possível ver experimentações e uma densidade no campo político-social com realidades que estão próximas, mas nem sempre entram de forma tão explícita nas composições em suas bandas. Temas que extrapolam o calor das redes e que entram na derme da realidade enfrentada por nós no espectro coletivo.
Do desconhecimento às descobertas, das intermitências à curiosidade, do vulnerável ao subjetivo da vida, o disco recai como uma leitura de um diário de um jovem adulto tentando traduzir uma série de sentimentos que se transmutam e ganham novas significâncias temporais a cada nova vivência destravada. Daquelas que nem sempre as lentes, sejam elas analógicas ou digitais, conseguem registrar. O caos e a fúria de viver tudo à flor da pele… esquecendo de apertar o REC ou tentando performar para as redes em troca de likes.
Entre o lúdico, o visceral e a ingenuidade indo de encontro com a aspereza do amadurecer, o álbum serve como um abraço coletivo a quem se arrisca a viver tudo de peito aberto, independente das consequências. Da mesa com cadeira de plástico do bar a tardes analisando filmes de Glauber Rocha, vivendo as primeiras paixões e querendo mudar a realidade vil em seu entorno, essa dinâmica ganha até mesmo um tom nostálgico de quem já é adulto há algum tempo, mas, ao mesmo tempo, encapsulou memórias de tempos mais simples.
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Contando Bicicletas Aprendi o Truque
Os cariocas da Contando Bicicletas voltam com álbum de inéditas após 8 anos. O sucessor de Se Quer Aventuras (2018), Aprendi o Truque, traz consigo as cicatrizes do tempo, entre uma pandemia, ressignificações, pesquisa, aperfeiçoamento, mudanças, fortalecimento de relações e amadurecimento. O disco tem a produção de Patrick Laplan (Gabriel Ventura, Duda Beat) e reúne ao todo 9 faixas.
“Colocar esse disco no mundo foi resultado de muita perseverança, mas é principalmente uma prova da amizade verdadeira e profunda entre nós. Teria sido muito fácil a gente se afastar e deixar as outras partes de nossas vidas tomarem a frente, mas a gente ama tanto fazer música junto que criamos o espaço para fazer isso sempre que possível”, reflete Mateus, guitarrista e saxofonista.
“Não Me Faz Bem”, primeiro single a ser apresentado, e segunda faixa no disco, tem linhas, e camadas, oníricas que contrastam com a frustração e descontrole presentes em seus versos. Feito um joguete da natureza que músicos tantas vezes exploram com destreza. Mesmo sendo composta ainda em 2019, eles jamais imaginariam que ela pudesse refletir justamente o terrível momento compartilhado pela humanidade nos anos seguintes, o que a deixa marcante e o ciclo do seu lançamento, singular.
“Doce Até Demais” é um reflexo de tudo isso, como o desafogo faz parte do processo, entre as descobertas e redescobertas que a vida nos permite. Reflexões e letras que expõe dilemas sobre como lidar com a liberdade e o descompasso do cotidiano transparecem no mar de emoções que o disco atravessa. Essas quedas e reviravoltas que a vida dá aparecem, por exemplo, em “Vai Ser Sempre Assim” que fica entre as melodias trabalhadas do math rock e a beleza solar do power pop.
“Os temas das canções vão desde esse desejo por proximidade e amizade até outros desafios do início da vida adulta, com a conclusão de que se soltar e abraçar a vida vale a pena, além do reconhecimento de que com todos os altos e baixos da vida estamos em constante construção, na dupla catártica de conclusão”, comentam os integrantes a respeito das composições.
Linhas de sopro ajudam a amplificar a tensão e tom melodramático da sua narrativa que em certos momentos vai pro modo desplugado. É justamente na simplicidade do minimalismo que conduz o ouvinte a se atentar para a profundidade das letras.
Com riqueza de arranjos, entre grooves, timbres e dedilhados que flertam com o universo do rock alternativo, aliado a uma aura cancioneira, referências do indie e da música brasileira transparecem ao longo da obra. Algo que grupos como Los Hermanos também compartilham em sua essência.
“Outra Vez”, segundo single a ser oficialmente lançado, é uma ótima faixa para encerrá-lo justamente por condensar mensagem, proposta artística, linguagem e a densidade dos detalhes que compõem seu instrumental. Definitivamente, um disco para se ouvir em dias nublados, quando se busca por esperança sem que para isso tenha que tirar os pés do chão.
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TEST + DEAFKIDS Sem Esperanças
Duas bandas do cenário de música extrema que mais gostamos fizeram um disco em parceria, e claro, isso não ia passar batido.
O álbum colaborativo do TEST e DEAFKIDS, SEM ESPERANÇAS, além de ser disponibilizado no Bandcamp, também está sendo lançado em vinil pela Rapid Eye Records (Alemanha), All Music Matters (Brasil) e em CD pela Cospe Fogo (Brasil). Por aqui, inclusive, Carlo Bruno Montalvão realizou uma entrevista às vésperas dos shows no SESC Avenida Paulista (leia).
Ruídos, texturas, ambiências, experimentalismo e intensidade. É o que a junção entre noise, death metal, industrial, punk e outros ritmos permitem nesse projeto.
O encontro entre o tribal e o moderno, o brutal e a cadência, o urgente e o visceral, que faz com que a experiência sonora seja bastante interessante para quem gosta de sonoridades além da superfície. “Cegueira” e “Dança Insana” irão agradar fãs de projetos como Cavalera Conspiracy e The Prodigy.
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Lorena Moura Mata-Leão
Com produção de Paulo Emmery e co-produção de Antonio Fischer-Band, a carioca Lorena Moura apresenta seu álbum de estreia, Mata-Leão, via Cavaca Records. O material conta com letras assinadas pelo poeta, compositor e historiador da arte Luca Fustagno.
Entre referências literárias da obra estão autoras como Adília Lopes e Hilda Hilst, entre grandes nomes da música brasileira como Guinga, Hyldon, Angela Ro Ro, Evinha e Rita Lee, e contemporâneos como Ana Frango Elétrico, Bruno Berle e Dora Morelenbaum.
“Mata-leão é uma técnica de estrangulamento das artes marciais, mas aqui o relacionamos ao ditado popular que prescreve “matar um leão por dia”, ou seja, superar desafios hercúleos diariamente. Em Mata-Leão, o álbum, os desafios são os dias em si. Dias com cara de fim dos dias, que confrontam os personagens das músicas e a própria voz que os canta”, explicam, juntos, Lorena e Luca.
Os mistérios, os acasos, a hipérbole da vida, entre momentos de melancolia, escape, sedução e intensidade, se diluem nos versos ao longo da obra que destila emoções, entre melodias serenas e apelo pop. Entre a calmaria, a plenitude, às luzes da noite e o ritmo desvairado de quem vive e não deixa de destilar seus sentimentos, o disco tem momentos de contemplação, entre pianos, vocais sussurados e ambiências para falar sobre toda a intensidade do que vem de dentro. Um exemplo disso vive na contemplação de canções mais densas, como, por exemplo, na execução da confessional “Elise”.
Não é um disco linear. Assim como a vida, deixa esses aclives, suspiros e emoções, para serem sentidas entre frequências leves, ambiências, contemplação e o ruído de um rádio antigo sendo tocado em uma tarde qualquer de uma segunda-feira. Os desejos e referências a Rita Lee aparecem de cara em faixas como “Perigo”.
Esse lado confessional e abertamente apaixonado ganha acordes de nylon e sopros em frequências mais baixas, como é o caso de “Tripulação/Eu”. Ouvir tomando um café enquanto tenta fugir um pouco da rotina, entre um disco da Marisa Monte e um da saudosa Gal Costa, é uma boa forma de apreciar a obra da jovem artista.
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Sessa Pequena Vertigem de Amor
Às vezes precisamos desacelerar e poder comparecer a uma audição de disco em meio ao ritmo desenfreado de uma cidade como São Paulo ainda é dos privilégios de quem escreve sobre música pode usufruir. Esse tipo de experiência onde temos contato com o artista e seu entorno muitas vezes quebra aquele distanciamento entre escuta externa e obra.
E poder ver Sessa comentando sobre o que o moveu neste momento que abrange Pequena Vertigem de Amor fez toda a diferença. Se o disco anterior falava sobre desejo carnal e suas diversas possibilidades, esse novo material nos guia para as transformações e mudanças na rotina de que a experiência ser pai presente implica.
Esse lado sereno revela um processo que faz com que, quando ele coloca a tinta da caneta no papel para escrever, entenda o peso e a importância de colocar em palavras todo esse novo fôlego que serve como combustível para viver. Tendo em vista toda responsabilidade e afeto que agora o acerca, e o motiva, em ser cada vez um ser humano melhor. A forma de expressar pela música como extensão do seu papel no mundo. Sua poesia é direta, sintetiza o disco em vários momentos em estrofes em que diz abertamente que “viver vale a pena” e que independente dos percalços das “pedras pelo caminho” tudo tem seu propósito.
O disco tem seus mistérios, acasos, encontros musicais e versatilidade. Talvez, permitir-se vivenciar esse sossego também transborde em você durante uma escuta mais atenta. Não é por acaso que “Revolução Interior”, talvez das mais marcantes, e escolhida para encerrar o disco, tenha ambiências e sensações tão intensas como se voltássemos para onde tudo começou. Entre o infinito do universo, retratado em sua capa, como nestas pequenas revoluções solares que temos ao longo desta grande viagem intergalática que chamamos de vida.
Pequena Vertigem de Amor faz com que nos desconectemos por alguns instantes da velocidade, e superficialidade, do cotidiano e nos convida a brindar nossas pequenas e grandes transformações… que são muitas vezes silenciosas e resultados de longos processos. Seja ele de interiorização através da meditação ou necessidade de mudança de rotação. Cada momento exigindo naturalmente uma frequência diferente feito um disco de vinil.
“As músicas são um misto de crônicas pessoais e meditações silenciosas sobre a vida diante das mudanças, de vivenciar algo tão grande que você percebe a insignificância do seu tamanho no espaço e tempo. Pela primeira vez eu vi a música ocupar um lugar menos central na minha vida”, comenta o artista sobre a amplitude da obra e o momento de vida.
Sessa revela que inspirações e influências do soul que vão de Shuggie Otis a Roy Ayers e Sly Stone passando por Erasmo Carlos, Tim Maia e Hyldon. Sambas antigos, bossa nova, jazz entre outras referências já exploradas em seus registros anteriores, claro, ainda se fazem presentes em sua paleta sonora. O terceiro álbum de estúdio, lançado pelo selo estadunidense Mexican Summer, foi gravado em fita magnética no Estúdio Cosmo, fundado junto com Biel Basile (O Terno).
“Tenho uma teoria que a música que você se apaixona quando é adolescente marca a sua alma para sempre. Eu escutava pilhas e pilhas de discos clássicos de soul de 45 polegadas e uma hora percebi que não seria aquele tipo de músico “funky”, então decidi assumir o meu jeito torto de tocar junto ao que é inerente à minha criação e estudos em música brasileira”, conta o artista.
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ana paia Continuar
Dos lançamentos mais aguardados nos últimos anos por quem acompanha o segmento de bedroom pop e lo-fi indie rock nacional, ana paia, de Sorocaba (SP), apresenta seu álbum de estreia, Continuar. O lançamento acontece nesta quinta (16), mas, para dar um gostinho do que esperar do disco — que estará disponível nas plataformas —, trazemos de antemão nossas primeiras impressões.
Semanas atrás, o single “5h da Manhã” teve sua versão acústica divulgada previamente no canal de YouTube da artista. Na época, o quarteto contou que teve influência do emo dos anos 2000 e citou artistas como Jimmy Eat World, Pitty e clássicos dos anos 90, como Nirvana e Sunny Day Real Estate, como referências diretas. Reflexiva, a canção com estética lo-fi e três minutos de duração carrega o tom desesperado de quem busca pela reconciliação e tem medo de se distanciar ainda mais.
Agora, na audição completa do material, o quebra-cabeças parece se completar. É justamente essa “linguagem frágil de quarto” de artistas como Soccer Mommy, beabadoobee, Snail Mail, Japanese Breakfast, Jay Som, Alex G, aliada às referências da cena emo/shoegaze nacional de grupos como eliminadorzinho, Lupe de Lupe e gorduratrans, que faz tudo convergir no material — que, ao todo, reúne 13 faixas.
Continuar ainda conta com a participação de Vitor Brauer em “Interlúdio do Vitor” — artista que agrega com seu spoken word, fazendo uma reflexão sobre o ser jovem e ter sonhos, do “ser alguém” ao ser amado. Já Gabri Elliot, da eliminadorzinho, participa de “Brutal”, faixa que transita entre o desalento e o arrastar dos dias, com foco em guitarras noventistas.
A mistura entre o onírico do dream pop, o desespero confessional do emo, a fragilidade do lo-fi e a busca por melodias que ficam na cabeça — no melhor estilo diário pessoal — é o que direciona a construção do disco. Entre inseguranças, dores, memórias, busca por novos caminhos, acordes melódicos e sobreposições de violões e guitarras com distorção, amadurecer acaba sendo o elo que une sua narrativa de descobertas e aprendizados.
A faixa “Crescer”, por si só, funciona como uma espécie de fio condutor que sintetiza a mensagem central. Tudo isso sem se esconder atrás de um personagem, o que deixa tudo mais vivido e fácil de se identificar. O resultado também reflete a trajetória do projeto, que se iniciou como carreira solo de Ana e, ao longo do tempo, se tornou uma banda.
“É sobre sentir, errar, amar e seguir em frente. O álbum é um convite à reflexão, mostrando que, mesmo em momentos de dor e confusão, a vida continua. Este lançamento representa não só resistência, mas também uma reafirmação de um espaço onde sentimentos se transformam em som”, reflete a artista paulista.
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Trabalhos Espaciais Manuais Ponto de Curva
Representando a cena de música instrumental porto-alegrense, Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) enfim apresenta seu primeiro álbum de estúdio, Ponto de Curva.
Produzido por Duda Raupp, o material reúne colaborações com Di Melo e Lívia Nery na faixa “Prazerá”, além de Saskia em “Miragem de Iara pt. 2”.
Bastante inventivo e cruzando fronteiras dos gêneros musicais, seu andamento vai conectando brasis com a potência criativa de um disco que foi sendo desenhado ao longo dos anos.
Entre as misturas vemos o groove, o soul e o funk, se emaranhando a ritmos como hip-hop, baião, jongo e afrobeat, de maneira orgânica.
Um disco que convida o ouvinte a adentrar um universo bastante plural, com metais, batidas, melodias e progressões que carregam uma mensagem político-social transgressora mesmo sem a necessidade de utilizar sequer uma palavra. Suas ambiências ganham curvas gerando imagens no horizonte, que parecem carregar consigo a mensagem sobre a necessidade de um país de dimensões continentais, muitas histórias e muita cultura, que ainda precisa realizar o exercício de se conhecer. Essa narrativa bastante afetuosa, generosa e quase transcendental carrega consigo a potência e entrosamento implacável entre os músicos.
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Muñoz Twins
O power duo composto pelos irmãos Mauro e Samuel Fontoura, que assina seus projetos como Muñoz, goianos que residem em Florianópolis (SC), tem seu som calcado por uma fusão de stoner rock com influências que vão do blues ao psicodélico.
Seis anos após o lançamento de Nekomata (2019), eles retornam com Twins, material que reúne 8 músicas e 36 minutos de duração.
Neste trabalho, a psicodelia se faz presente, sua raiz black-sabbathiana, também, mas agora ganha o adendo do garage rock de nomes de peso como Ty Segall, Oh Sees, White Fence e Jay Reatard.
Entre as temáticas retratadas ao longo do disco, o surrealismo, a introspecção, o sarcasmo se dividem entre os temas abordados como o ego, o sonho, a insanidade, o tempo e a solidão. Até por isso, o retorno às raízes é algo apontado.
“Talvez seja o álbum mais fácil de ouvir que já fizemos. O álbum traduz a fase nostálgica que a banda está passando. Voltamos a ouvir referências antigas para criá-lo. Buscamos destacar a dualidade e irmandade da banda tanto na capa, quanto na sonoridade. Músicas mais diretas e expressivas, mostrando nosso entrosamento que vem desde a infância.
Estávamos com saudade de tocar rock’n’roll. Durante a pandemia nosso foco na música mudou bastante. Focamos em outros projetos muito diferentes do Muñoz e isso durou alguns anos. Por um lado, foi muito bom para iniciarmos esse álbum com a cabeça limpa e entendermos melhor o que estamos buscando como banda”, revela Mauro Fontoura.
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azul azul azul azul
Fazia um bom tempo que não ouvia falar da azul azul que lá em 2019 lançou o interessante EP Formas de Voltar Para Casa. Uma pandemia e muita coisa depois chega a vez de conhecermos o álbum de estreia do quinteto alagoano.
“As canções deste disco surgiram logo na sequência do primeiro EP, com uma pré-produção feita em 2020 e que depois, entre 2024 e 2025, deu lugar a uma gravação completamente nova.
E isso aconteceu porque a gente mudou de ideia nesse período, entramos em contato com referências estéticas diversas e daí foi fazendo sentido abrir mão dessa pré, sabe? Decidimos embarcar numa gravação totalmente nova e do zero e isso foi vital para o disco tomar a identidade sonora que apresentamos agora”, explica Mateus.
Ao todo o material reúne oito faixas em composições que se dividem entre Mateus Magalhães, Igor Cavalcante, João Gomes e Mateus Borges (Cães de Prata) que tem como tema central a ideia da juventude.
“Outra coisa que a gente mantém viva no álbum é a verve da literatura, que pautou muito o EP e segue aqui também. É algo que interessa toda a banda e que estará sempre presente em nossos trabalhos”, revela o vocalista.
Das canções mais solares, a mudança de referências é perceptível, eles revelam que o norte passa por gêneros musicais como shoegaze, dream pop e pós-punk. O que de certa forma gera mais diálogo e referências com a cena de rock alternativo brasileira, mas sem perder o apresso pelas texturas e identidade do grupo de Maceió. Essa verve poética, fez com que as narrativas também tivessem um crescimento ao longo das suas oito faixas que exploram vivências inerentes a esta fase marcada pelas descobertas e experimentações.
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eliminadorzinho eternamente
Quatro anos após Rock Jr., disco que colocou o trio no radar até mesmo da APCA, eliminadorzinho parece ter feito a sua “rockepopeia” no segundo álbum de estúdio, eternamente.
É bem verdade que a guinada para o punk e seus gêneros correlatos no disco anterior foi o grande acerto. Agora eles resolveram dobrar a aposta.
Aquele grito juvenil e coração apaixonado, continuam intactos, só que mais amadurecidos no quesito pesquisa musical e no desenvolvimento das suas múltiplas narrativas.
Política, questões de gênero, amor platônico, experiências sexuais, o fervor da timeline, e melodramas da vida adulta ganham versos divertidos e ironias ao longo da sua construção.
Ouso dizer que esse é o disco que tem parte 1 e parte 2 como um álbum produzido em outros tempos. Mas sem aquele conceito de Lado A e Lado B, e muito mais no conceito de álbum duplo. Tudo isso, devido às soluções sonoras, narrativas e duração das faixas. O material lançado pela Cavaca Records conta ao todo com 58 minutos de duração.
O ecoar de referências como Pavement, Hüsker Dü, The Replacements e até mesmo do post-punk de grupos como Gang Of Four e Siouxsie and the Banshees, aparece como uma continuação do sentimentalismo à flor da pele. Não é à toa que os ecos do emo de garagem do fim dos anos 90 que grupos aqui chamados de “rock triste” incorporaram em sua sonoridade também ganham lastro nesta jornada.
eternamente ainda tem seus momentos contemplativos que se revezam com a explosão. Esse é o caso, por exemplo, de baladas feitas para cantar junto como “Blondie (menina do cabelo amarelo)” e “Não me deixe no almoxarifado” – com letra de amor um tanto quanto ramoníaca – que em seu trecho final uma micro versão para “Dear Prudence”, dos Beatles, mas no estilo da versão do Siouxsie and the Banshees.
A distorção, o shoegaze aliados ao punk rock mais melódico dos Descendents e a psicodelia dos Doors, também aparecem ao longo da audição em “Vaivém”. Se fôssemos enquadrar o disco em um gênero, talvez o mais próximo seria o college rock.
Gênero musical dos anos 80, como uma tag comercial, categorizada por críticos para descrever aquela onda de bandas que bombavam em rádios de universidades, mas que não tinham espaço nas FMs. Geração que tinha nomes como R.E.M., Hüsker Dü, The Replacements, Pixies, entre outras. Bandas essas que competiam entre si para ver quem ia ser a maior banda em um mercado em que já na época tinha seus escolhidos. Garotos que gostavam de punk rock, rock’n’roll, country, entre outras coisas e não ficavam muito à vontade com essas prateleiras. Um mundo pré-Nirvana que foi uma consequência natural a todo esse movimento underground.
Mas voltando ao disco, momentos de melancolia, extravasar, questionamentos, olhar para dentro, experimentação e contemplação também se fazem presentes. “Sopa e Café”, por exemplo, soa como um grito de desesperado no escuro. “Você vai me escutar”, por exemplo, tem um baixo tão grave, de Stoner Rock, mas o drama de grupos emos de garagem como Latterman e com o espírito sujo, juvenil e insolente do Hüsker Dü.
Talvez o maior aceno para a cena musical alternativa atual brasileira está na despretensiosa e lo-fi “Alguma hora você vai tirar a roupa do varal”. Com uma dose de humor para falar sobre as dificuldades inerentes ao dia a dia de um casal médio vivendo às margens das garras do capitalismo. Uma reflexão sobre as mazelas do sonho médio e suas armadilhas da rotina. O recalcular da rota aparece na sequência com “Tá Legal/Se Lembra” feito um pedido de desculpas escrito num guardanapo após uma discussão.
Dizem que manter seu espírito jovem é o segredo para manter uma banda por tanto tempo e o manifesto, “Chap chap chuap pop”, é daqueles que mostra isso em sua essência. A faixa, inclusive, tem talvez as linhas mais interessantes de guitarra, daquelas que vai levantar o público quando tocada ao vivo, como se fosse por alguns instantes um Space Rock, mas sem deixar de ser punk.
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Memórias de Ontem Translúcido
Por aqui também aparece o álbum de estreia do trio mineiro Memórias de Ontem. Gabriel Campos (voz e guitarras), Alice Eskinazi (bateria) e Camila Nolasco (baixo), compõe a formação, e o debut, Translúcido, reúne ainda participações especiais de nomes da cena mineira, como João Carvalho (El Toro Fuerte), Clara Bicho, irmã de Gabriel, e Clara Borges (Paira), além da paulista, Marília Jonas (Jonabug).
“As músicas são sobre situações de desconforto em vários aspectos da vida, mas no final das contas procurando tirar algo de bom disso. Em geral, é sobre ser sincero consigo mesmo. Eu não sou uma pessoa muito vocal. Não acho que sou tímido, mas sou reservado. As músicas são um espaço pra eu buscar ser sincero comigo mesmo, porque com os outros eu já sou. Tem coisas que eu escrevo que eu nunca falaria numa fala normal.”, reflete Gabriel Campos.
O material vai beber em diferentes fontes, desde o bedroom pop, passando pelo rock alternativo, shoegaze, e até mesmo o rock psicodélico mais pesado, como na estridente, “Aroma”. Guitarras que parecem cantaroladas, no melhor estilo Pavement, transparecem na melódica, e sem medo de soar pop, faixa título que tem a participação de Clara Bicho. “Cortando Mato”, vai beber justamente de ritmos mais psicodélicos e da nossa música brasileira, o que a deixa estruturalmente interessante… quebrando tempos e dando toda a dramaticidade que lhe é exigida.
Já no campo das letras, um eu-lírico mais introspectivo, feito um narrador onisciente, aparece em cena. Até por isso, o título recai bem. É desse desconforto, de quem vive, somatiza, reflete e muitas vezes se vê sem onde extravasar aquelas palavras… que o conforto na música parece servir como uma porta esperando para ser aberta.
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throe Silver Blue
Com referências densas que passeiam pelo metal, shoegaze, post-rock, space rock, drone metal e ambient, o throe é o resultado dos integrantes do Huey, Vina (guitarra, programação e baixo) e Vellozo (baixo), com a Lōtico, Juliana Fernandes (bateria) e Guix (guitarra). Silver Blue é o sucessor de Throematism (2021) e está sendo lançado pelos selos Burning London Records e Deathtime Records.
O material enviado à imprensa sugere que fãs de grupos como Godspeed You! Black Emperor, Jesu, Isis, Nadja e Have a Nice Life irão compreender as texturas, estética e densidade emocional apresentada ao longo do registro que cria ambiências, trabalha timbres e possui narrativa cinematográfica.
O sentimento de desesperança, tons escuros e não linearidade da faixa título se contrapõe com a plasticidade da canção de ninar heavy metal, “Rêve” (sonhar em francês). São justamente as curvas sonoras e intensidade que fazem da dinâmica do disco interessante e ótima para quem gosta de pesquisar por timbres.
O post-rock e o space rock aparecem no retrovisor da imagética, “Birds”, que em suas linhas de guitarra etéreas conduzem o ouvinte em uma jornada de reflexão e temperança. Em “Giz”, o ambient e o drone metal vão de encontro, criando texturas que vão da tensão à calmaria. Sua progressão, por si, vai nos guiando de forma lenta e ao longo do seu andamento são adicionadas camadas de shoegaze que transformam a beleza dos acordes granulados em uma odisseia sensorial.
O registro foi gravado no Gotan Studio, em São Paulo, e mixado e masterizado por David Menezes (Ratos de Porão, Sérgio Sampaio, Bufo Borealis) no estúdio Rolo de Lata 77.
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Alulu Paranhos Põe Esperança Nisso
A cantora carioca Alulu Paranhos lançou seu álbum de estreia, Põe Esperança nisso, percorrendo ritmos como forró, reggae e MPB, o que lhe rendeu até mesmo elogios por Caetano e Gil.
O material, inclusive, foi produzido por Mahmundi. Neste registro ela ainda teve como parcerias de composição artistas como Ava Rocha e Iara Rennó. “Ainda é Verão”, tem parceria com o alagoano Bruno Berle, já “Para Declarar Minha Saudade”, tem parceria com o português Tiago Nacarato.
Em entrevista para o Correio Braziliense, ela comentou mais sobre suas influências: “Como uma boa geração Z, acho que em um dia consigo ouvir mais de seis estilos musicais facilmente, gosto muito de música brasileira em geral!
A galera da Tropicália, com certeza, marca grande parte da minha influência identitária por toda a liberdade junto com Arlindo Cruz, Novos Baianos, Ludmilla, Ivete Sangalo, Pabllo Vittar, Vanessa da Mata, Marisa Monte, Dominguinhos e atualmente Marília Mendonça que tem todo o meu coração.
A nova galera da música brasileira, como Liniker, Bruno Berle e Marina Sena me inspiram muito também, estou sempre ouvindo as novas canções e álbuns que são lançados. Essas são minhas referências, mas isso não quer dizer que faço música igual a eles, inclusive sempre fui péssima de imitação.”
O resultado é bastante pop e tropical, um disco fácil de ouvir e absorver.
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Karnak MESOZÓIKO
Nem sempre o storytelling nos faz mergulhar tanto na história por trás de um disco. O novo do Karnak é daqueles que sua urgência está justamente… na sua resiliência. A primeira fita-demo, confeccionada pelos integrantes há 33 anos, enfim ganha a luz do dia.
Entre as inspirações, segundo André Abujamra, está justamente a saga de George Lucas, Star Wars, que esperou o melhor momento para disponibilizar o primeiro filme. O mundo da ficção se interliga pela narrativa construída no material que é resultado de uma autoficção com detalhes dessa história, de uma fita encontrada em meio à demolição do prédio onde morava um primo do André, na Alemanha.
Tudo começou quando André fez intercâmbio nos Estados Unidos em 1982. Juntando uns trocados cortando grama, ele comprou seu primeiro gravador de quatro canais chamado Tascam Portal One. A partir disso, o músico fez a demo que futuramente integraria os materiais da banda.
“Alguns anos depois, André foi pra Düsseldorf, visitar o seu primo Hans, que tinha uma banda de world music chamada Sgring, Sgring. A banda era formada por três gaitas de fole (Não!!!)… Quatro gaitas de fole, duas sanfonas e uma bateria. Ele achou muito louca aquela banda.
Na casa de Hans, havia uma gaita de fole sobrando. André, curioso, começou a estudar, mas nunca conseguiu tocar direito aquele instrumento. André tinha planos de continuar a viagem de trem para Stuttgart e depois pra Bremen. Ele pediu para o primo se podia levar a gaita de fole emprestada para continuar praticando.
– Acho que você pode levar, na volta você devolve, disse Hans.
Detalhe: nessa viagem à casa do primo, André levou a tal fita demo do Karnak que havia começado a compor em seu Tascam e acabou esquecendo numa gaveta no quarto onde ficara hospedado.
Ele pensou… quando devolvesse a gaita de fole pro Hans, pegava a fita de volta.
Só que na viagem para Stuttgart aconteceu um pequeno imprevisto!
Imprevisto não, uma cagada!
Uma cagada não, uma tragédia!
O trem que o André estava foi assaltado e roubaram a gaita de fole do Hans… e era uma gaita muito cara.
Então o André, em vez de voltar pra Düsseldorf, ligou pro primo e contou que havia sido roubado.
O Hans ficou muito puto e confiscou a fita k7 de André.
Nunca mais André ouviu essas primeiras músicas do Karnak porque o K7 ficou como refém com o Hans.
O André voltou triste para o Brasil, pensando em um dia ter a fita de volta.
PAUSA. FOWARD
Pula para o ano de 2024.
PLAY…
André Abujamra estava trabalhando numa trilha sonora de cinema de um filme de vampiro.
O diretor desse filme tinha uma gaita de fole que ganhou quando ainda era menino. Quando foi no escritório do diretor, André viu o instrumento num canto da sala e contou sua triste história ao diretor.
Ele entendeu a gravidade da situação e muito gentilmente deu a gaita de presente ao André.
André então rapidamente “devolveu” a gaita ao primo Hans na intenção de reaver a fita demo do Karnak
Quando Hans recebeu a gaita de fole ficou surpreso e emocionado, mas a antiga casa onde morou em Düsseldorf estava sendo demolida para dar lugar a um moderno edifício.
Hans correu vasculhar os destroços e por um milagre, encontrou a velha fita K7 numa caçamba no meio do entulho.
Hoje, com o advento da tecnologia, conseguimos reformar essa raridade semi-destruída e juntar os dois canais (o normal e ao contrário). Conseguimos recuperar as primeiras músicas do Karnak.”
Em nossa audição foi possível notar todo tom experimental de quem se diverte com uma variedade de estilos e vestígios ricos do pop oitentista. Estética essa que dialoga com a inventividade de grupos como DEVO e o universo sem freios de artistas contemporâneos da música brasileira como Arnaldo Antunes e John Ulhoa. O último, parceiro de Abujamra no divertidíssimo ABCYÇWÖK (leia entrevista).
Os sopros presentes, unidos à poética e aos arranjos criativos deixam a narrativa ainda mais envolvente. “Quero Beijar Você”, por exemplo, evoca melodias divertidas como as dos Beach Boys, mas sem perder a aura dançante e narrativa lúdica. O rock é inclusive um estilo que entra no emaranhado com guitarras de estilos como hard rock e blues – o que pela crítica foi chamado de AOR (Álbum-Oriented Rock).
Outro detalhe a se atentar é a capa repleta de brinquedos, algo que nos remete justamente a esse espírito de revisitar o passado dando aquele refresh. São canções que podem ilustrar dias mundanos e analógicos de um cidadão comum, e por essa razão, lembram tempos diferentes.
Um exemplo disso é a astuta “Só Tenho Bip”. Tecnologia obsoleta na qual muitos que estão lendo nem devem saber do que se trata. A orquestra de sopros que os acompanha ao longo do disco, uma hora nos leva para o jazz e outrora para o ska, forró e a música oriental. Tudo isso fruto da vasta pesquisa por sonoridades que se expande ao longo da discografia do Abu.
Toda a história da Tascam de 4 canais, ele conta na faixa que fecha, “Escombros Revelados”, com direito a narrador de filme, o que fecha o conceito de disco de forma divertida.
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shaun shaun
Discos ajudam a finalizar ciclos, muitos deles resultados de processos longos. Ainda mais quando um septeto com referências tão complexas se encontram.
Esse é o caso da shaun, de Porto Alegre, em que seus integrantes se reúnem desde 2019 com múltiplas referências que vão do rock britânico mais psicodélico e pós-punk reverberante; o reggae e o rock gaúcho. Universo que vai de nomes como Stones Roses, Júpiter Maçã, The Specials, De Falla, Ultramen, Primal Scream e The 13th Floor Elevators.
Como nem tudo é uma linha reta, mudanças pelo caminho aconteceram, o que moldou o projeto.
Na formação atual eles contam com Eduardo Comerlato (guitarra), Eliéser Lemes (bateria), Joana Luna (percussão e voz), João Carneiro (voz e guitarra), John Vitto (guitarra e voz), Lucas Juswiak (baixo) e Samuel Kirst (teclas e voz). Com produção de John Vitto e mixagem e masterização de Mário Arruda, o álbum reúne nove faixas inéditas, com lançamento pela Frase Records.
A produção e composição do disco aconteceu com a entrada do John no grupo.
“Esse encontro surgiu quando a shaun precisava de um guitarrista e eu lembrei que seguia o John no Instagram e via que ele postava umas coisas de The Clash, The Specials, Oasis… só coisas que são referências afu pra Shaun. Aí um dia mandei mensagem e convidei ele pra trocar uma ideia e ver se ele não queria ser o guitarrista da banda. A partir disso (e como a banda tava parada, sem tocar, em standby), veio a ideia de tentar começar a gravar um som… e aí foi tudo acontecendo naturalmente e veio o disco”, conta João.
“As letras falam de relações, deslocamentos e frustrações cotidianas, mas também de leveza, humor e resistência”, revela a banda.
Falar que o disco aproxima Porto Alegre de Manchester, ou até mesmo Londres, seria algo muito simplista da minha parte. Até porque conhecendo a trajetória, essa ponte aérea invisível é o que está mais próximo dos primeiros dias da banda.
A conexão atemporal aconteceu muitas vezes na música brasileira, seja com Os Mutantes ou com Jupiter Apple. O que eles fazem mesmo é criar conexões com o cotidiano a partir da admiração pelo universo inerante a todas essas bandas. Assim como o reggae ganha mais força no material, seja pelo fascínio pelo The Clash, que já reverenciava The Specials, Junior Murvin e Toots and the Maytals, ou o Ultramen, que percorreu esse mesmo caminho inventivo, e punk, em terras gaúchas, sem perder a sua identidade brasileira.
São músicas com refrães marcados, atmosferas que cresce e um universo sonoro de quem chama o ouvinte para mais perto sob a perspectiva de quem quer apresentar outros universos além da música. Entre o cansaço da rotina, à contracorrente da resistência, a vontade de mudar o mundo e melhorar o convívio no que chamamos de planeta Terra… suas canções partem de um lugar de escuta e acolhimento.
Ironias e o senso de humor acabam entrando como um mecanismo de suavizar as mazelas e desafios enfrentados ao longo desta jornada. Assim como as quebras rítmicas, riffs swingados e pianos que parecem saltar. Entre teclados que parecem sair de clássicos dos anos 80, um rap surge no horizonte com espírito beatnik, como na astuta “Anjos & Demônios”.
Por diversas vezes, o disco te convida a baixar a guarda. Como se o protagonista tivesse te chamando para bailar, entre socos e quedas no ringue, retrata as batalhas diárias, suas consequências e vontade de dar a resposta à altura. O cinema e a cultura pop continuam presentes na narrativa, “Vivienne Westwood” é a prova disso. Entre a memória da icônica estilista inglesa, a química dos romances, a perspectiva viva dos dramas da vida e seus acasos. As soluções sonoras ao longo da narrativa vão da rispidez do punk, a complacência do reggae, o espírito rock’n’roll, as névoas do pós-punk e o lirismo (involuntário) da vida.
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BAGUM Coração; Batalha; Superação
BAGUM, de Salvador (BA), é daqueles grupos instrumentais que a cada lançamento nos surpreende justamente pelos universos, colaborações e sonoridades que expandem a cada novo lançamento. Projetos como esse que justificam a existência do Hits Perdidos.
Em Coração; Batalha; Celebração conseguimos ver como esse espírito de vanguarda e de colagens sonoras ganha ainda mais lastro…
Neste novo material encontramos participações especiais de Boogarins, em um remix, VANDAL, Fiteck, Jorge Dubman (Ifá) e Paulo DK (Deekapz), o que mostra como eles buscam diálogo com estéticas diferentes e olhares igualmente singulares. Espírito colaborativo esse que deixa o caldo ainda mais generoso.
As baterias foram gravadas no Estúdio Rockambole (SP), enquanto os demais instrumentos, synths e vozes foram registrados em Salvador, nos estúdios Carmo 44 (de Luca Bori e Davide Bori, Vivendo do Ócio), Cremenow Studio (Tiago Simões) e em gravações caseiras. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Pedro Leonelli, também guitarrista da banda. Os visuais e capas foram desenvolvidos por Alice Paste, baiana que reside em São Paulo atualmente. O lançamento foi feito pelo Selo Portal, de Luca Bori (Vivendo do Ócio, Jardim Soma) e Davide Bori (Vivendo do Ócio).
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Facada Truculence
Com 22 anos de estrada, seis discos de estúdio, o Facada (leia entrevista) é um dos principais nomes do grindcore brasileiro.
O quarteto de Fortaleza (CE) formado por James (baixo e vocal), Danyel (guitarra), Vicente (bateria) e Ari (guitarra — overseas) lança Truculence pelos selos Läja Records e Black Hole Productions.
Durante a produção do álbum, o quarteto lançou o split Em sintonia com o fim do mundo, com a também banda de grindcore ROT, de São Paulo. Com 12 músicas e pouco mais de 15 minutos, o material tem previsão de ganhar versão em vinil no começo de 2026.
A experiência da audição é justamente combater todo teor reacionário dos nossos tempos, com direito a peso, letras politizadas e referências que passam por estilos como o crossover, grindcore, crust e hardcore, eles não pedem passagem e vão para cima feito um rolo compressor.
O disco foi gravado entre 2024 e 2025 no VTM Studio e VOID Studio com produção de Vanessa Almeida e Vicente Ferreira – o último assina a mixagem e a masterização.
“Por que Truculence e não Truculência? Porque quisemos dessa forma. Essa é a resposta quando se fala deste disco. Em um cenário em que as coisas raramente funcionam como deveriam, em que a educação e a decência são tratadas de maneira totalmente oposta e mesmo assim acha-se conveniente e normal esse abuso, em que pessoas usam da boa vontade das outras para se aproveitar, quando qualquer tentativa de diálogo é recebida com mentira e total desprezo pelo que se diz, temos mesmo que aceitar com condescendência?
Quando se usa o falso como método de propagação e o discurso ideológico para impor uma verdade que está longe de ser absoluta, temos mesmo que baixar a cabeça e tratar como se fôssemos um mero joguete de quem intima?
Talvez seja mais fácil aceitar e compreender tal comportamento, mas a que custo, já que a postura do outro lado é desprezivelmente ilimitada. Entender tem consequências. A verdade é entrelinha e chega desse papinho de tentar explicar ou remediar uma conversa inútil.
Quando as palavras não resolvem, a atrocidade toma forma pra resolver. Se não quer entender de um jeito, entende de outro. Sem escolhas. Veem-se as costas pra falsidade, a burrice e a conduta vil.
Cansados de sermos os razoáveis em todo esse processo, deliberamos que nossa tratativa será cruel: impelir, vindicar, forçar por meio da ignorância, agredir como forma de educação.
Ferocidade sem ver nem pra quê, mas com propósito. Podemos, sim, desprezar mentiras e desgostar de imbecilidades
faladas e convicções impostas. Enquanto muitos seguem usando essa retórica indigna e escusa de todas as maneiras, agora é a hora de agir com truculence. Afinal, paz demais não conforta.”, aponta a banda no manifesto do álbum.
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mulato Criatura
Após uma série de reavaliações sobre processos pessoais e relação com a cultura brasileira, Matheus Antonio optou por rebatizar seu projeto como mulato.
Criatura é a prova de como seu processo de busca por referências e por estabelecer diálogos mais amplos em termos estéticos transparece.
Além do mergulho dos anos 1990 e 2000, já presentes na sua caminhada até aqui, agora ele incorpora influências do soul setentista, do jazz e da bossa nova.
Um maior diálogo com as ruas e origens também serve como elemento capital dentro dessa jornada, como ele mesmo revela. Conhecido por sua capacidade de produção e de participar de todos os processos, o material contou com colaborações pontuais de Pedro Millecco na bateria, baixistas e arranjadores convidados, cada um adicionando camadas à visão inicial.
“Foi um mergulho na minha natureza e na selvageria do meu inconsciente, nesse lugar da primeira infância, sem tantos filtros. Esse disco fala de sobrevivência. Todo mundo é um pouco dessa criatura que vai ter que atravessar o caos, a violência, encontrar o próprio caminho. E eu acho que esse trabalho é sobre persistir acreditando, ainda que nem tudo seja tão favorável e justo”, explica o artista natural de Jandira (SP).
Essa busca por se mostrar sem filtros sua verdade aparece de forma explícita em verso de “Tatuagem de Cobra” (“Toco o céu como 2pac / E regresso cada vez mais verdadeiro”) feito um renascimento, como ele mesmo elucida. O caos urbano dá seu cartão de visitas logo na faixa de abertura (“Bizarro!!!”) com referências que vão desde o barulho do metrô, colagens sonoras, beats do hip-hop, distorções e grooves com todo o espírito de artistas como Run-DMC, com uma roupagem moderna em sua estrutura.
“Desenho Cego” é daquelas canções quase cinematográficas, não apenas no sentido de criar imagens mas também em expandir referências e narrativas. Ele mesmo revela ter misturado acordes de jazz, bossa nova com psicodelia, guitarras flutuantes e reverência ao soul dos anos 70.
“A letra é baseada no conceito de efeito borboleta a partir das escolhas que fazemos, e que se refletem na imprevisibilidade da vida: lagartas tentando desabrochar, escolhas no escuro, desenhando cego um futuro que não se controla”, revela Matheus sobre a faixa que completa: “Materializa musicalmente a ideia de ser mulato – representada numa música de influências negras de diversas diásporas e as ramificações globais do rock alternativo”.
A loucura que causa até doenças em nosso psicológico da hiperconectividade, aliás, um dos temas que mais tem gerado canções nos últimos anos, ganha um alento em “Azaleia”. Nela, em outras palavras, ele procura além de alertar os danos provenientes do hábito, estabelecer uma relação de empatia com quem se vê entediado… mas que ao mesmo tempo tem dificuldade em estabelecer conexões offline. O veneno amargo dos nossos tempos.
Transformação, sobrevivência e transformação, feito uma borboleta, é o que o músico estabelece em “Criatura”, faixa título. Os dilemas, dores e quebras de certezas inerentes ao crescimento e pequenas mortes que ficam pelo caminho nesse processo ganham uma canção para chamar de sua. As camadas sonoras, entre a viola caipira, loops e tom sereno mostram como o processo de amadurecer nem sempre é silencioso. Viver como um ato de resistência e se transformar como o de sobrevivência.
Esta é apenas algumas das reflexões que sua poética pode nos transmitir. Sua longa duração contribui para que você embarque nessa jornada ao seu lado. Seja lá o que você estiver passando em sua jornada pessoal, ouvir atentamente pode gerar uma reflexão importante e ressoar como um sopro de esperança.
Lembro quando ouvi “Punks”, parceria do mulato com Hugo Noguchi, tem alguns anos e naquele momento foi uma das canções do indie daquele momento que mais tinha gerado reflexão. Sua estrutura harmônica era de fato à frente do tempo e talvez por isso nesse momento de renascimento artístico ela ser resgatada faça todo sentido. A quebra brusca do uso dos samples de Duda do Marapé e do MC Magrão contribui para a dinâmica da narrativa escolhida com uma rara sensibilidade. Ver ela voltar às plataformas e com o peso de significado que tem para ele deixam tudo ainda mais denso.
“Essa canção fala sobre o deslocamento e a alienação na vida urbana, partindo dos recortes dos dois artistas participantes, mulato em relação a diáspora africana e Hugo Noguchi em relação a imigração amarela”, revela Matheus.
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Ana Spalter Coisas Vêm e Vão
Ana Spalter, cantora, compositora e multi-instrumentista, é das gratas surpresas da nova música brasileira.
O álbum de estreia, Coisas Vêm e Vão, chega com a produção de Betão Aguiar (Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Gilberto Gil), e tem participações especiais de artistas como Francisca Barreto, Fernanda Ouro e Luiza Villa.
“Passo muito do meu tempo refletindo, pensando nas relações entre nós e a natureza, nós e o tempo, nós e os outros, nós e nós mesmos. Nada mais verdadeiro do que deixar registrado no álbum um pouco desses atravessamentos que vivo”, comenta no texto de apresentação do disco à imprensa.
Com leveza, explorando ambiências, aprendizados, o disco olha pelo retrovisor com direito a arranjos delicados e reflexões sobre o amadurecer.
Sua voz calma dirige o ouvinte durante sua caminhada em um disco fácil de ouvir e com DNA moderno, mas sem deixar de reverenciar a música brasileira, da bossa ao choro.
Alegorias essas aparecem, por exemplo, nos vocais sussurrados de “Acrobata”, já o samba reluz em “Bobagem” e “Quintal”. A sobreposição de vocais é o destaque de “Privilégio Meu” que vai do blues ao pop/rock. O canto e o coral aparecem em sua introdução que curiosamente vem quase no fim do disco… está que serve como uma ponte para a densa faixa título que reverencia a caminhada até aqui e fecha o disco numa leveza mais jazz.
Um disco que sabiamente se guia pela potência da voz de Ana.
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Fellini Dance no Meu Quarto

Apesar do nome, não confunda com a clássica banda de pós-punk dos anos 80. Fellini é o projeto solo da artista Andressa Fellini, conhecida por integrar o trio folk paulistano Corcel e o projeto eletrônico Baru Baru.
O EP de estreia como artista solo faz um mergulho por estilos que ganharam lastro na década de 80 como new wave, eletrônica, synthpop e dance punk. Ao todo o material reúne quatro faixas que encaixam perfeitamente na nossa editoria Indie Neon BR. Essa atmosfera de canções que saíram do íntimo do quarto, ganha frequências de uma pista nada convencional, com direito a programações, sintetizadores e onde ela narra sua própria história de superação.
“Perco o Ar” foi composta ainda no violão em 2021 e, segundo, Andressa ficou guardada por anos. “Enquanto eu mesma precisava respirar, amadurecer e me encontrar. Foram quatro anos de medo, mergulho em referências, tentativas, silêncios e coragem até me sentir pronta para expor algo que eu considero tão íntimo”, relembra.
“Não Dá”, segundo single a ser revelado, segundo a artista, foi composto ainda em 2020.
“Na época, eu ainda fumava um cigarro atrás do outro. A letra fala sobre desejo, insistência, sobre o poder que a gente entrega na mão do outro. O vício e o desejo são velhos conhecidos. Ambos insistem. Ambos sequestram nossos corpos. Do cigarro, eu larguei.”, comentou Andressa durante o lançamento da faixa.
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afterhourless No Friends at Dusk
afterhourless, projeto solo do Rafael Panke (ruído/mm, Delta Cockers, Lonely Nerds’ Songbox) lançou o EP No Friends at Dusk pelo novo selo curitibano Spleen Teen em parceria com o selo inglês Shore Dive Records.
O músico que já colaborou com Marina Gasolina e Rose & Me, assina letras, composições, toca e grava todos os instrumentos, além de cuidar da produção e da mixagem.
afterhourless faz um retorno às suas origens musicais e explora bastante as melodias e guitarras mais lisérgicas. Fãs de selos como midsummer madness não vão ficar desapontados.
Bastante atmosférico, No Friends at Dusk preza pelas camadas e ambiências. Entre a nostalgia, os aclives, o plano dos sonhos e distorções que flertam com o universo das guitar bands e da densidade do pós-punk. O single que abre, “Coriolis, Centrifugal Love”, vai agradar com certeza fãs de grupos como Swervedriver, The Stone Roses e My Bloody Valentine.
O uso pontual dos sintetizadores ajudam a estabelecer a densidade e sentimentalismo que Rafael queria trazer para o EP de pouco mais de 17 minutos de duração. Um exemplo disso é “The Route to Andromeda” que tem toda aquela frequência mais baixa típica das canções para ninar e cria ao longo do seu horizonte paisagens imagéticas. Sobreposições e vocais no melhor estilo Bob Mould aparecem em faixas com foco na lead guitar, como na auspiciosa e espacial “Unused Space”.
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Moon Pics Softcore
Daquelas despedidas em grandíssimo estilo, Moon Pics, projeto de Adriano Caiado, apresentou já no apagar das luzes de 2025 o EP Softcore pelo midsummer madness.
Após 8 anos, o projeto chega ao fim com 3 faixas inéditas que deixaram a gente com gostinho de quero mais.
“Nosso último disco foi há três anos, e, ao longo dos processos de composição e gravação, minha sensação mudou um pouco em relação à música.
Eu era novo quando começamos e tinha tantas coisas pra dizer, mas agora eu sinto, de uma forma boa e plena, que disse tudo e vivi tudo na música. E que sorte que pude viver isso, ainda por cima acompanhado de alguns dos meus amigos mais queridos como colegas de banda
Eu valorizo os pontos finais, acho importante saber a hora de encerrar um ciclo na arte e, a partir disso, encontrar novas formas de se expressar e de viver”, comentou o músico durante o lançamento.
As três músicas que compôem Softcore foram gravadas ao longo dos últimos dois anos enquanto as letras só surgiram meses antes do lançamento, entre as temáticas o curto compacto passa por temas como amor, fragilidade e impermanência. Fãs de Slowdive e todos grupos que vieram após com certeza não demorarão muitos segundos para entender o caminho escolhido na sonoridade escolhida para contar sua história.
É na beleza dos detalhes, entre o silêncio dos pensamentos altos e a distorção que a faixa título cresce de forma plástica. “Luv”, por sua vez, é atmosférica e fãs de Protomartyr vão se encantar justamente por sua cadência e imersão. Já , “The Abyss Pt. 2”, é uma espécie de despedida melancólica com apenas um minuto de duração… daqueles tchaus difíceis de suportar.
d.silvestre O que as mulheres querem
Natural de Rondônia e radicado em São Paulo, Douglas Silvestre, que assina seus projetos como d.silvestre, tem sido um nome relevante do funk paulista com apenas 21 anos. Ele lançou o disco O que as mulheres querem pelo selo Submundo 808.
“Eu ficava nessa de fazer funk, fazer funk, mas comecei a entrar num processo de desconstrução. Queria fazer um som novo. Tem muita música no mundo, muita coisa para ouvir, criar, misturar.
Comecei a pensar: e se eu só fizer música? Música com a minha cara. Algo do meu jeito. Estou nesse processo.
Estou me caçando nesse processo. E desse lugar saiu este álbum”, revelou na época do lançamento ao portal G1.
Funk tamborzão, espírito provocador recheado de grooves, erotismo e misturas com gêneros como techno/house/Rustie/ PC Music/big room fazem parte do caldo do som produzido pelo DJ.
Relevo Espacial 2080
Formada por Antonio Dal Bó (Adriana Calcanhotto, Kassin) e Julio Santa Cecília (DJ Guaraná Jesus, teamr2r, Parque da São), a dupla Relevo Espacial lançou seu novo EP 2080 em outubro através do selo carioca 40% Foda/Maneiríssimo.
Repleto de colagens sonoras, ao longo das suas seis faixas e pouco mais de 20 minutos de duração, o material faz uma verdadeira viagem eletrônica por diferentes lugares, com aquela atmosfera meio boogie, misturando deep house, drum and bass, soul, funk e o que estiver no horizonte.
“Em um mundo fantasioso que deu voltas tantas vezes, como você faz ele ficar mais maravilhoso? Você adiciona um valor simbólico, porque dar o dobro de volta só deixaria todo mundo tonto.
A dupla incrível Relevo Espacial aumenta em 1000 o mundo que eles criaram em 1080 (2024), exatamente um ano atrás. Adicionando todas as porcentagens que o 40% sempre quis e ofereceu. Quase como se completasse aquilo que faltava para os 100 e multiplica-se por 10.
Pra não ficarmos na matemática: ouve esses acordes? Ouve esse baixo? É o som que eu queria ouvir. Se antes estávamos mais concentrados na aterrissagem, agora podemos nos ouvir e nos movimentar com mais certeza.
Sim, são curtas, mas por que você precisaria de mais? São cenários, não são canções. Ouve esse solo, cara, nem os pioneiros dos romplers viriam com isso. O céu não é o suficiente, você já passou dele há muito tempo”, comentou Guerrinha (Dorgas, Séculos Apaixonados, Repetente 2008 entre mil outros projetos) no material enviado à imprensa.
Juia dois trabalhos
O álbum de estreia da Juia é daqueles que não tivemos tempo para ouvir em meio ao fechamento de fim de ano por aqui. Mas quando pudemos ouvir, foi daqueles que sentimos que quem nos acompanha e curte um som que passeia por gêneros como indie pop, punk rock, shoegaze e psicodelia iria adorar se aventurar.
Entre os discos que ouviram durante o período, os músicos comentam que deram play em obras de artistas como Masayoshi Takanaka, Os Mutantes, Marcos Valle, Gal Costa e Unknown Mortal Orchestra.
Ao todo o álbum conta com 12 faixas e 42 minutos de duração, algo que ressaltamos que é interessante em anos em que discos de 22/25 minutos parecem fazer parte do cotidiano movido pelos algoritmos.
Como curiosidade, na formação, a banda paranaense Juia, conta com o carioca Matheus Who, velho conhecido de quem acompanha o Hits Perdidos.
Por aqui, comentamos sobre o single que antecedeu o material completo, “Dr. Renato Aragão”, que segundo os próprios “dialoga com bandas como Crumb, Tame Impala e a estética colorida das composições de Marcos Valle e Sophia Chablau E Uma Enorme Perda de Tempo“.
A homenagem ao humorista, que não é tão bem-visto assim fora das telas por seu comportamento que exala superioridade e desprezo pelas pessoas que lhe servem, serviu como inspiração indireta. Segundo a vocalista Julia, ela surgiu num momento de liberdade radical. Durante um momento de descontração, ela misturou dois universos: o sentimento de amor por seu namorado Diogo (também guitarrista solo na banda), que tem como apelido “Didi”, e o humorista dos Trapalhões conhecido por sua soberba.
“Essa música nasceu pra ser tocada ao vivo. Quando percebemos que ela sempre quebrava o gelo nos shows, ficou claro que precisava ser um single antes do disco”, conta Matheus Who, guitarrista da banda.
O resultado disso é bastante divertido, entre as ondas psicodélicas, surrealismo, explosão de sentimentos à flor da pele, reclames do plin plin, teclas que saltam e frases em português que se misturam ao inglês… sua natureza livre ganha asas feito uma música lo-fi antiga do Mac DeMarco. Seu encerramento para lá de Badgá, feito a sinfonia do apocalipse, deixa tudo ainda mais flutuante e com vontade de dar o play novamente. Como diria Gabriel Thomaz, crocante!
Um disco para explorar camadas e estar preparado para o novo, mesmo nesse fim de ano cansativo. Por conta do seu lançamento que aconteceu no dia 4/12, acabou ficando de fora das principais listas que ainda se importam com a música indie subterrânea. Dê o play sem medo!





