ABCYÇWÖK é um planeta perdido da galáxia Adrofukat, de onde foram mandados alienígenas pra induzir a gente a fazer um trabalho que ia ser absolutamente inexpressivo no planeta Terra. Depois de 300 anos as pessoas iam descobrir que o que a gente fez era pra melhorar a humanidade. Mas como a humanidade acabou, não adiantou nada.

É desta forma que André Abujamra (Os Mulheres Negras, Karnak) define o projeto intergalático realizado em parceria com o amigo de longa data, John Ulhoa, que entre outros projetos, e produções, é conhecido nacionalmente por sua trajetória ao lado do Pato Fu que completou em Setembro 28 anos de estrada.

Inclusive a trajetória dos dois vai de encontro justamente pela banda. Eles se conheceram durante a Premiação do VMB, da saudosa – e eterna – MTV Brasil, e em 1996 Abujamra produziu o disco Tem Mas Acabou, disco que além da clássica “Pinga”, conta com “Capetão 66.6 FM (Big Devil 66.6 FM) – parceria entre John e Abu.


ABCYÇWÖK - John Ulhoa André Abujamra

ABCYÇWÖK, John Ulhoa e Andre Abujamra.


ABCYÇWÖK: O Disco

O disco da ABCYÇWÖK como eles mesmos comentam levou 15 anos e uma semana para ficar pronto. Com a vida agitada, entre diversos projetos, muitas vezes além da música, o registro foi se modelando aos poucos e também contou com diversas pausas. O elo de tudo isso a internet e as possibilidades que estar conectado nos permite.

Claro que a velocidade da internet de 2005, nem se compara com a de 2020, e a Quarentena acabou se tornando como combustível para a ignição da nave com destino a ABCYÇWÖK fosse ativada.

O projeto de nome impronunciável, e que segundo os mesmos não terá apresentação ao vivo devido a toda sua complexidade, reserva também uma dinâmica toda própria entre troca de arranjos e mixagens, revezamento e muita liberdade.

Esta que faz com que o processo seja tão divertido quanto seu resultado final. O expandir de horizontes que permitiu com que eles buscassem diversas possibilidades e novos caminhos que até então não haviam explorado antes.

“Um de nós mandava um canal para o outro, que devolvia dois, e o primeiro então gravava o terceiro, e daí por diante… Quando já tínhamos trilhas suficientes, a gente mixava o som, e partíamos pra próxima música. A tônica era “a primeira ideia que te vier à cabeça”, conta Abujamra em relação a dinâmica de desenvolvimento do ABCYÇWÖK

As Idas e Vindas

Nos primeiros dois anos o projeto se desenrolou até que de forma fluida mas com o tempo….

“Ficamos fazendo isso por uns dois anos, e saiu um monte de som legal e besta, besta e legal. Num certo momento, perdidos em uma discussão sobre quem deveria mandar o próximo canal, fomos parando. De tempos em tempos a gente se lembrava e dizia um pro outro “e o nosso disco?””, relembra Abujamra

Então veio a Pandemia

“Em meio à pandemia de 2020, decidimos que era a hora de terminarmos essa empreitada. Tínhamos 6 faixas, e em uma semana produzimos mais 5, pelo mesmo método, mas acelerado agora por uma internet banda larga muito mais eficiente do que na década anterior.”, celebra André

O álbum ABCYÇWÖK já está disponível em todas as plataformas digitais e mostra como o imaginário e o experimental se cruzam em meio a universos criativos e com poucos freios, embora mesmo com toda essa aura, ainda é pop e divertido ver ambos continuando a criar novos caminhos. Um lançamento ROTOMUSIC.

ABCYÇWÖK “Sweet Moog Of Mine”

Nesta segunda-feira (14/09), o ABCYÇWÖK lança o videoclipe para “Sweet Moog Of Mine” em Premiere no Hits Perdidos. E talvez a escolha de lançar pelo Hits Perdidos nunca tenha feito tanto sentido em relação a um projeto, não é mesmo?

João R. foi o responsável pela direção de um vídeo que explora naves espaciais, ficção, cinema de outros tempo e projeta o som de uma forma que o audiovisual complementa a experiência para alguns abstrata, e para outros, genial.

As intervenções, vem das salas de comando, através frequências invadidas por extraterrestres e um imaginário Sci-Fi instigante. Assim como o processo, a falha das máquinas faz parte do cálculo na saga dos nossos heróis que não impõe limites para a experiência.

As conexões, os botões, as retransmissões, o errático, o pós-apocalíptico e a realidade paralela se chocam feito encontros interestelares de mentes pulsantes, anárquicas e prolíferas. A linha do tempo entre a corrida espacial e o presente também se choca dando forças para um imaginário fantástico que vai muito além dos limites da metafísica. Viagem, ou não, você escolhe mas permita-se entrar em órbita desta nave.



Entrevista: André Abujamra e John Ulhoa, ABCYÇWÖK

Conversamos com a dupla para saber mais sobre o universo incrível do ABCYÇWÖK e suas experimentações de outra galáxia.

Claro que o papo mergulha em temas densos, nostalgia e processo de criação. O amigo Fabio Shiraga contribuiu em algumas das perguntas, fica o agradecimento.

Vocês se conheceram durante o VMB, uma premiação de um canal de TV que foi importantíssimo na disseminação da música brasileira, e que foi um norte tanto para uma nova geração descobrir música, e suas diferentes formas de expressão, como também para os artistas terem uma boa difusão dos seus trabalhos.

Receber o prêmio de banda revelação no VMB, como foi o caso do Pato Fu, dava uma alavancada na banda. Como veem que isso acontece hoje onde temos vários tentáculos na internet para disseminar mas nenhum com a potência e impulsividade que aquela plataforma tinha?

Abujamra: “Realmente nos anos 90 a MTV ajudou a lançar muita gente nova e legal. O Pato Fu ganhou banda revelação e sempre tocavam os clipes deles. A minha banda Karnak também chegou a ganhar prêmio de banda revelação no VMB e deu uma impulsionada. Seja como for, acredito que sempre será difícil começar a conquistar um espaço. No meu caso, sei que vou trilhar uma estrada longa e sinuosa me divertindo com minhas loucuras. Sou músico, compositor, trilheiro, ator, produtor, diretor. Não tenho o perfil de artista que faz hits e fica conhecido por conta disso.”

John: “Acho que todo músico que tenta uma carreira quer viver da sua arte, não ter um outro emprego, né? Esse objetivo tinha uns caminhos mais óbvios na época do VMB. Lançar um disco por uma gravadora, tocar no rádio, na MTV. Fazer muitos shows. Se profissionalizar, enfim. Acho que isso é mais difícil hoje em dia pra artistas novos. É mais fácil gravar em casa, se auto promover, ter uma quantidade legal de seguidores, se divertir com a interação nas redes…

Mas transformar isso numa profissão me parece mais complicado. Cada um parece tentar um caminho original, e mesmo trabalhos muito bem produzidos têm que concorrer com o sucesso de memes instantâneos feitos com orçamento zero.”

Considero o encontro musical de vocês como algo além de ímpar, interessantíssimo. Muito por conta da trajetória de ambos como produtores e que sempre apostaram em caminhos não óbvios, e bastante desafiadores, ao longo das trajetórias no campo das artes. Vocês brincam que foram 15 anos e uma semana de processo, mas como funcionou o processo criativo deste encontro?

Abujamra: “É um processo de juntar dois malucos e tirar a mão do freio. É primeiro se divertir com o trabalho, sem pensar num direcionamento. Começamos lá atrás, acho que 2005 (O John deve lembrar melhor que eu) e com a pandemia, todo mundo de quarentena em casa, veio a ideia de terminar o projeto. Cada um dava um pitaco numa parte. 50/50, inclusive no nome. Assim nasceu AbcyÇwÖk.”

John: “15 anos e uma semana descreve bem o processo. Em 2005 começamos a fazer essas músicas de modo totalmente despretensioso, aproveitando a tecnologia dos estúdios caseiros e a internet que permitia a troca de arquivos de áudio. Eu mandava um canal, o André devolvia dois, eu acrescentava mais um e daí por diante. Quando tinha bastante som, eu mixava.

Fizemos umas 3 músicas, depois foi rareando, os dois trabalhando muito com outras coisas, de vez em quando retomávamos, mas às vezes um não sabia onde tinha parado, quem tava devendo o próximo canal… Nesse período acabamos fazendo 5 músicas. E de tempos em tempos a gente se perguntava “e aí, vamos continuar o disco?”. Até que com a pandemia e mais tempo em casa resolvemos terminar o disco. Mas aí a tecnologia e a internet já estavam bem melhores, e em uma semana fizemos mais 6 músicas.”

Abujamra viaja o mundo atrás de novas sonoridades, o Karnak conta com vários músicos e já teve até um cachorro, o John tem o apoio de 128 japs, e de repente (como se 15 anos passassem voando, né?) só vocês dois. Vocês consideram o ABCYÇWÖK hermético e por isso feito somente pela dupla?

Abujamra: “Hermético não. Interplanetário sim. Numa nave espacial não cabe muita gente.”

John: “Acho que eu e o Abu juntos poderíamos produzir qualquer tipo de som, com mais ou menos músicos, a gente tem bagagem pra isso. O ABCYÇWÖK é um modo operacional, um dos modos operacionais em que podemos transitar. Um canal, mais um canal, mais um, ideias instantâneas, sem filtro, e um acabamento envernizado e brilhoso pra deixar aquilo legal. Acho que algumas pessoas vão achar hermético, e outras vão achar divertido. Na minha opinião, as que acham hermético estão erradas, e as que acham divertido estão certas.”

Como acreditam que a internet e seu tempo bem diferente da rotina acelerada de um estúdio contribuiu para que novas ideias fossem surgindo?  O projeto, claro, não se restringe a música e abraça um universo que mistura ficção, audiovisual e outros elementos….vocês chegaram a imaginar como seria a vida neste planeta todo misterioso?

Abujamra: “AbcyÇwÖk é uma ficção em si. Nem sei se saberia fazer um show da banda num palco. Na questão do tempo, lógico que a internet colaborou muito, pois nesse planeta AbcyÇwÖkiano o tempo é dividido por 1.000 kartz a cada volta do sol. Logo, é  uma vida muito misteriosa e surreal.”

John: “É um projeto que só existe em função da internet, claro. Mas não imaginei nada, só fui fazendo.”

2020 também é um ano onde nosso sentimento em relação a humanidade e o futuro foi mais uma vez testado em diversas situações. Como observam tudo isso e como essa explosão de sentimentos durante a quarentena acabou afetando vocês? Como veem a dificuldade em produzir cultura em tempos como estes?

Abujamra: “Nessa quarentena descobri algo muito importante pra mim. Aprender a viver na incompatibilidade. Se vim para este planeta, no meio dessa pandemia, neste mesmo tempo espaço de um Bolsonaro qualquer é porque deve ter algum motivo. Então sei que somos totalmente incompatíveis, mas vamos ter que aprender a viver essa realidade e superá-la. A dificuldade não é só produzir cultura, é saber que tem gente que ainda acredita que a terra é plana.”

John: “O que mais me preocupa é a situação das pessoas do setor cultural. Sem fonte de renda por causa da pandemia, e vendo a cultura sendo tratada com absoluto desprezo, senão como inimiga, por pessoas com alto grau de influência nas instituições importantes para a manutenção desses empregos.

Sei que esse processo de desmonte vai acabar sendo revertido, que a gente sempre dá um jeito, mas nesse momento é duro ver artistas e técnicos vivendo de vaquinhas enquanto tapados (dos grandes) exibem orgulhosamante sua ignorância sobre o setor cultural.”

Ouvindo o disco nota-se similaridades com algo já usado, em menor intensidade, no Pato Fu ou no Karnak. Vocês dois já produziram/produzem hits, canções com uma pegada pop maravilhosa, mas é o experimentalismo que mais atrai vocês quando estão no estúdio?

Abujamra: “Eu adoro experimentar novas ideias. Sei lá, uma orquestra de cordas misturada com gaita de folê, agogô e vozes da Mongólia. É uma coisa muito natural no meu processo de criação ser dessa maneira. Se isso um dia gerar um hit, ótimo.”

John: “Pra mim o experimentalismo é um tempero sempre presente. É um viés em todo início de gravação, de arranjo. Mesmo que o resultado final não transpareça, acho que é o que garante alguma originalidade a um som, a tentativa de não acomodação nos clichês.”