Danger City é praticamente a entidade musical que orbita o artista Pedro Gesualdi. Inventivo, ele desde o Japanese Bondage (que se reúne eventualmente), Hipopótamo e DERCY tem ousado na hora de experimentar novos desafios. No Anticore! (saiba mais), seu segundo álbum, ele mostrou mais uma vez a versatilidade e explosão em um disco repleto de experimentações, parcerias e rock.

Mas muita coisa tem mudado. Para começar sua casa. Desde 2018 o músico reside em Portugal. Onde pode estar em contato com outra cultura, experimentado uma nova forma encarar a vida e porque não dizer: ressignificar sua visão de mundo, e consequentemente, sua arte. 

A nova fase do Danger City

Recentemente o músico está matriculado em um curso de engenharia de som onde é provocado constantemente com exercícios práticos, o que somado ao seu maior contato com gêneros como o Hip Hop, tem criado novas texturas que definitivamente têm mudado sua forma de observar seu projeto.

Lembro que em até uma conversa cheguei a questionar se seria melhor assinar como outro projeto, e de fato, a pergunta não era tão besta. Mas basta observar um caso similar que é o de Kiko Dinucci, onde em um disco é super punk e experimental, e no seguinte migra para a MPB, violão e impressiona justamente por se experimental…só que de outra forma.

E talvez ambos estejam certos. Afinal se mudamos tanto como pessoas ao longo da vida, e abandonamos certezas, porque com a arte teria que obrigatoriamente ser diferente?

Durante a Quarentena ele decidiu transformar uma música experimental criada como exercício de uma aula no curso em um videoclipe. Segundo ele, “a classe toda gravou os sons, mas cada um fez sua própria música a partir dos samples criados”.

“Primeiro, foram gravados samples e loops em estúdio durante um projeto acadêmico. A partir desses sons, criei digitalmente a música inspirada nas angústias da quarentena, ou a “saga da espera que vai te matar”.”, brinca Pedro Gesualdi


Danger City - Pedro Gesualdi (1)

Danger City – Foto: Divulgação


A Cereja do Bolo (da Quarentena)

Se nesta Quarentena todo mundo tem feito seu pão artesanal, ou seu primeiro bolo, ou até mesmo cupcake, Pedro decidiu experimentar também. Com ajuda do amigo, e artista visual, Rafael Roncato que também é fotógrafo e editor, idealizou um videoclipe bastante criativo.

Eles pediram para que seus seguidores no Instagram enviassem vídeos de suas atividades durante o isolamento. Foram recebidos mais de 50 vídeos e, com essas imagens, foi criado um mosaico de sentimentos e histórias pessoais na América do Sul e na Europa.

Entre elas aparecem membros de diversas bandas de São Paulo, amigos e até mesmo algumas integrantes do projeto de DJ’s Cavaleiras do Apocalipse.

O clipe foi lançado oficialmente ontem através do IGTV e hoje nas principais plataformas de streaming via Aurora Discos.



O videoclipe é bastante divertido por si só. Brinca com os sons, com o tédio, com a forma de abstrair de toda a tensão. Traz o noticiário, o passatempo, as festinhas online em que a Pugliesi não é convidada, o sono, os filtros de instagram, as lives.

Além dos stickers, os vídeos o Átila, as barbearias em casa, as playlists no Spotify, os tutoriais de maquiagem, os cigarros, as maratonas no Netflix, as gravações de quarentena. Também tem espaço para a Yoga Online, horas de Videogames, louça eterna na pia, máscaras, cachorros e litros de álcool gel.

Já a faixa brinca com samples, tem espaço para paródia de “Besame mucho”, um pouco de batidão e texturas lo-fi. Todo o universo da pandemia e o humor sarcástico do Pedro acabam entrando como elementos da construção.

Conta mais sobre o curso, a experimentação e de certa forma a maneira que escolheu para apresentar esta nova fase do Danger City ainda mais aberta a novos estilos de produção e misturas…

Danger City: “Estou fazendo esse curso de produção para aprender algumas coisas mais técnicas que ainda não tinha tido tanto contato durante esse tempo que eu venho tocando. Uma das coisas mais interessantes (e que eu mais queria) é a possibilidade de produzir música sozinho, no meu computador.

Essa tema em especial começou num projeto de uma das aulas, em que nós fomos ao estúdio, gravamos vários tipos de sons melódicos e ruídos e, a partir deles, montar uma música. Toda ela foi feita com esses sons, fora a voz e a guitarra no final. Gostei muito do resultado e quis levar adiante…”

Como a linguagem do hip hop e os discos que tem escutado acabaram te inspirando a trazer novos caminhos para o projeto?

Danger City: “Acho que hoje o hip hop é a forma mais conectada com as possibilidades da música de ser moderna e inovadora, então me inspiro muito nas coisas que eles fazem, embora eu não seja exatamente o cara mais hip hop do mundo.

Gosto muito desse fluxo de trabalho a partir de samples e ressignificações/retrabalhos de ideias que já foram concebidas antes. Um cara que eu admiro muito, pq consegue partir disso e ir além é o Tyler, the Creator. Atualmente, é o maior artista que temos (na minha humilde opinião, claro).”

O videoclipe é muito divertido e contou com a colaboração de diversos amigos que também estão em casa e passando por momentos bastantes parecidos em decorrência ao momento em que o mundo tem passado.

Conte mais sobre o processo de prospecção, criação, edição e suas primeiras impressões quando viu o vídeo pronto.

Danger City: “Pois é, foi uma ideia quase simultânea que eu e o Rafael Roncato tivemos. O Rafael é um amigo de infância meu e também um fotógrafo talentosíssimo, com alguns trabalhos bem fodas que o pessoal já deve ter visto por aí.

Conversando, ele me perguntou se eu tinha algum material pra gente fazer algo juntos nessa quarentena e surgiu essa ideia do clipe. Daí pedimos pro pessoal enviar seus vídeos e vieram várias pérolas – tanto no sentido do entretenimento/graça e também no sentido de se identificar.

Foi muito bom poder fazer um trampo colaborativo desses mesmo durante o isolamento. Fiquei muito feliz e agradecido ao pessoal por isso.”

Depois deste lançamento o que podemos esperar do futuro do Danger City?

Danger City: “Acho que, quando o curso terminar, agora em julho, vou ter material para um EP. Não cravo porque ainda falta finalizar algumas músicas, mas a ideia é mostrar pro mundo essa fase de experimentação e descoberta. Depois, queria me estabelecer mais aqui na cena de Portugal e voltar a tocar ao vivo. Um disco mais tradicional, com banda, também é algo que eu quero de novo.”

Danger City “Quarentena no Norte”