Em meio a momento político conturbado: Giallos lança manifesto sonoro

Hoje vamos falar de uma banda que vem fazendo história no cenário do ABC. Eles que nos últimos dias lançaram seu segundo disco, o polêmico e muito pontual, Amor Só de Mãe (2016). Sim, o assunto em pauta do dia é o Senhor segundo álbum do Giallos.

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Giallos bebe das mais diferentes fontes da história da música sem preconceitos, respira a política nacional e dá seu recado

Mas antes vamos conhecer um pouco sobre o conjunto de Santo André – SP. O grupo possuí membros que tocam em bandas emblemáticas da região como o Otis Trio e o Projetonave, além de já terem até integrado grupos de Rap. O primeiro bebe das fontes do jazz e do blues, já o projetonave é uma viagem sem volta como o próprio nome já diz. Tudo isso ajuda a explicar um pouco o que é o Giallos. A quebra das amarras com o preconceito e o elitismo de gêneros musicais.

A banda é composta por Claudio Cox (vocal, theremin, cassiotonefuzz), Flavio Lazzarin (Bateria e responsável pelas artes da banda) e Luiz Eduardo Galvão (Guitarra).

O trio inclusive no livro de Yuri Hermuche, Rcknrll, afirma que repudia quando tentam rotulá-los de Jazz-Punk, acreditam que isso reduz muito o que o som da banda representa e que o jamais fariam jazz propriamente dito por ser algo demasiadamente elitista. Afinal de contas a magia do som do grupo está na diversidade e sua evolução musical.

Inclusive a banda não encontra parceria em apenas bandas que tenham a ver com o som deles, no livro eles comentam como tocam e tem amizade com grupos como Travelling Wave e participam de festivais que em teoria não seriam o normal tocarem: como festivais de Grindcore e Metal. Talvez essa seja uma das coisas mais legais da banda, conseguir agradar o fã de música lo-fi experimental a alguém mais bruto. Afinal de contas música é isso: a união de pessoas através da arte (ou ao menos deveria ser).

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Os filmes de terror são fonte de inspiração tanto no nome da banda quanto no primeiro disco, Contra! (2013)

Cinema

Após as primeiras composições da banda, surgiu a necessidade de um nome. E com a mesma rapidez Claudio Cox logo sugeriu:

” – Meu, o que vocês acham de chamar a banda de Giallos?
Na real, essa palavra nem existe, veio do italiano, onde o certo seria “Gialli”, que veio de contos de terror e suspense, encapados em livros amarelos. De assassinatos, suspense, meio noir, aí os filmes eles eram inspirados de alguma forma nesses contos, Giallo tinham capas amarelas, e aí esta linha de filmes também herdou o nome, Giallos” (Hermuche, Yuri. Rcknrll (2015) – Cap. Giallos, páginas 537/538)

E claro que isso da influência do cinema ia refletir no primeiro disco do grupo, ¡Contra! (2013).

“O primeiro disco é um filme. É tudo amarrado. A gente deu direcionada. Cada letra tem uns personagens, é quase um álbum conceitual, porque a gente entrou muito nessa coisa de filme. Eu, que estava escrevendo ali, entrei muito nessa onda, parece que cada música é um mini roteiro.” Cox em relato para o livro (Hermuche, Yuri. Rcknrll (2015) – Cap. Giallos, página 549)

“Agora ultimamente estou escrevendo as letras antes das músicas. No começo da banda era só depois. Agora eu meio que eu tenho uma ideia, vou lá e coloco alguma coisa. Acontece de eu pegar a música e vou dando uma…vou encaixando um assunto… às vezes eu tenho uma frase solta… Eu sempre faço isso, às vezes tenho uma frase, guardo e aí depois uso… As letras… começou como ficção flertando com a realidade…também ap própria vivência dele, como em “1973”. Mistura com um cunho social… o começo era mais explotation. O primeiro disco todas são assim.

Hoje eu sinto  bem mais uma coisa bem chão. Antes eu tinha uma aura fantasia, de ficção, violência. Hoje as novas letras nenhuma trás tanto… agora é mais realidade.” Cox em relato para o livro (Hermuche, Yuri.  Rcknrll (2015) – Cap. Giallos, página 549)

Aliás, o Giallos também já participou do projeto Converse Rubber Tracks onde teve o prazer de gravar no estúdio de Jean Donabella (Ex-Sepultura) que ao entender a proposta da banda – que insistiu em gravar tudo ao vivo RAW – falou:

“Puta velho…. isso daí parece Jimi Hendrix com a fase maluca do Coltrane”.

A banda ao ouvir isso, como está relatado no livro de Yuri ficou mais do que emocionada, levou como um mega elogio. Não é para menos também, ser comparados aos mestres é sempre uma verdadeira emoção.

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O disco foi lançado pelo selo de Lê Almeira (Transfusão Noise Records – RJ) e pela Zumbidor Records (SP) tendo sido gravado e produzido no Escritório. Pelo próprio Lê Almeida e João Casaes (que também fez a masterização). A arte da capa foi feita por: Flávio Lazzarin.

O viés político na banda é uma espécie de força motriz, porque além do rock no ABC ter um tom político muito forte, em sua militância, Cox citou no livro que estava terminando a faculdade de história. E respirando esse momento turbolento de nosso país: isso age como combustível somado ao fogo.

O mesmo caminho que Doutor MAO (Tem doutorado em História), mais conhecido pelo seu trabalho no Garotos Podres e agora de projeto novo, O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, seguiu.

“Agora os fatos cotidianos estão bem nas letras. O momento político e social que a gente vem vivendo. Umas notícias. Bem delicado.

Você acaba observando… estou estudando história….”Anjos Negros” e “Eles” são influenciados por isso…”Eles” foi escrita naquelas manifestações de 2013, bem nessa onda, dali que começou essa onda conservadora… a letra é justamente sobre isso. Ficou assim… eles e nós. Quem está fazendo protesto era vândalo… tem todo esse lance de diferença social, de achar que pobre é vagabundo… a meritocracia e o caralho… então “Eles” é sarcástica…”Eles são foda… nós somos cuzões vagabundos”, essa é a onda da letra… a gente vinha brincando com isso para caralho… a gente usa esse mote… “também vagabundo, você não estudou né mano…” e ficou muito isso nos ensaios…

Dentro do primeiro disco é muito carregado também… “1973” fala de autoritarismo, de controle, “Santo Diesel” fale de religião, de venda de placebos… era uma droga… El Santo é um lutador mexicano, famoso nos sessente e setenta, ele era o Batman do México… um lutador mexicano, um super-herói. Aí eu inventei uma estorinha de que aquilo era era tipo uma droga, uma droga do futuro, o petróleo já era absoleto, havia outras fontes de energia, então os rebeldes foram lá e pegaram o petróleo e começaram a fazer a nova droga, e o rolê era todo meio Blade Runner, você não sabe quem é android e quem é humano, é por isso é que é para motores e corações, qualquer um podia usar. A ideia era do lance do consumo religioso, uma questão totalmente atual. E toda música desse disco tem mais carga cinematográfica”  Cox em outro trecho do livro Rcknrll

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Amor Só de Mãe (2016) promete e cumpre: coloca o dedo na ferida e denuncia os problemas sociais

Se a situação era calamitosa em 2015 quando Yuri fez a entrevista no incrível livro Rcknrll (compre aqui) e o tom era de extrema preocupação com os rumos de nosso país e o crescimento do conservadorismo facista com doses de cunho religioso e lotado de ignorância e preconceitos. Imagine o que passa na cabeça dos integrantes nos últimos dias depois da baixaria e falta de noção sobre seus atos e consequências que repercutiram na câmera dos deputados em Brasília.

É muito triste, ver o país caminhando para trevas que custou tanto para sair, luta atrás de luta. Se a esperança em 2013 tinha se renovado, o gigante que realmente acordou foi o do conservadorismo e retrocesso. O patriarcado e machismo de mãos dadas aos preconceitos parecem apenas ganharem força. A moralidade e tal “da guerra contra a corrupção” trazem de volta fantasmas do passado, a invocação de torturadores e o papel de protagonismo de seres repugnantes.

Desabafo desse editor à parte, o disco vem numa boa hora. Reflete o cenário de explosão e de valores invertidos em que estamos vivendo. É preciso ser muito punk para enfrentar tudo isso e nada melhor de ouvir a palavra de pessoas que sabem muito bem o significado da palavra resistência.

Amor Só de Mãe (2016) é um verdadeiro tapa na cara da família tradicional brasileira, põe o ponto nos ís e surge como uma fênix na beira de um precipício que se tornou nossa democracia.

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O trio que lançou o disco no último dia 15/4 em show com a participação de Lê Almeida no 74 Club (Santo André / SP) tem shows programados até Julho (ver no fim da matéria)

O casamento entre o pedal de fuzz, o theremin e um cassiotone dão o tom de fúria ao disco, a sensação de destruição e controle, o que se potencializa com letras poderosas, de coragem, braveza e que de certa forma falam com o coração.

“Açougue” abre o trabalho, é um punk rock perturbado, pesado cheio de fuzz e confusão sonora. Um jazz feito de maneira punk, bem de verdade como eles mesmos citam no rcknrll sobre a vivência no estilo. Os homens de nossa sociedade são comparados a carne fresca, e mostra o terror sofrido pela classe operária. O sofrimento do dia a dia e a fúria. Tudo isso num lo-fi cru e ultassonoro.

“Eles” que acabou entrando no novo trabalho, Cox contou a história debochada um pouco acima no texto de quem seria: nós e eles. A onda de conservadorismo estuprando mentes, companheiros. As distorções dos pedais e muito fuzz evocam uma energia cósmica singular no som. Se percebe que o trabalho passou na mão de Lê Almeida no melhor dos sentidos.

A contestadora “Amor Só de Mãe” faixa-título e primeiro single lançado, é um atestado de que somos ludibriados o tempo todo pelo sistema religioso machista, o da salvação em troca de sangue, poder e dinheiro, nos fazendo esquecer que amor verdadeiro só tem uma fonte.

É o horror da inversão de valores, algo condenável assim como os valores da tradição, família e propriedade. A crítica vai a aquelas pequenas igrejas, grandes negócios. O congresso tá cheio deles até com bancada não é mesmo?

O papel da mulher para esse núcleo da sociedade é limitado, ela não tem direito ao diálogo e não é vista como um ser pensante. Uma realidade bastante infeliz. Aplausos a banda por conseguir transmitir tudo isso numa canção.

“Eu era um Lobisomem adolescente”, tem uma levada The Cramps, oh yeah baby! Um lance que costumamos ver nas bandas de garagem/country/rockabilly. A atmosfera é ímpar e fica impossível não ouvir mais de uma vez. Aliás a faixa conta com a participação da guitarra noise de Lê Almeida, quebrando tudo. Um hit perdido do disco.

A letra fala sobre a falta de limites de jovens garotos que acham comum praticas como a de abuso sexual. Afinal de contas, para o personagem da canção, a figura feminina existe apenas para lhe dar prazer.

A música cresce e fica apocalíptica em seu final, cheio de fritação nos pedais. A música vai te provocando, te cansando e no fim deixa entender dois desfechos: ou ele mata a tal da “namoradinha adolescente”, ou ele leva um pé na bunda. Prefiro pensar na segunda opção, mas em um país recheado de machismo, muitas histórias terminam daquela forma grotesta: a chacina.

“Dança Macabra” fecha o lado A do LP. Imagina quem é a vítima com a pedrada da vez? Ele mesmo, o extremismo religioso como fonte de ódio, caos e destruição. O sentimento de intolerância, impunidade, violência desenfreada culminando em finais nada felizes.

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“Memento Mori” é a primeira canção do lado B do disco. Mas antes de analisar a faixa, vamos entender o que significa a expressão:

Memento mori é uma expressão latina que significa algo como “Lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer”.

A faixa já começa com um jazz D.I.Y. repleto de distorção com acordes alá punk rock. A bateria se destaca pelo tempo preciso e a maneira com que ela conduz a canção. Ela é cheia de quebradas em seu tempo, é incrível. Me lembrou um pouco a levada que o grupo The Cravats utiliza esse recurso de seu Jazz.

O tom de desespero está ali desde o primeiro segundo de canção. O medo de morrer parece que perturba a mente da personagem, que tem um cunho religioso forte. As guerras religiosas, os sacrifício que fazemos em troca de migalhas de pão. A desvalorização de nossa existência e passagem por este plano. Vivendo à margem da sociedade, sendo esfaquiado pelo sistema e seus poderosos líderes. Indo em  direção do abate feito a tal da carne fresca citada no começo do disco.

“Baobá Blues” como o próprio nome diz é um blues, o lado mais raw do punk rock. Um blues chorado, um jazz torturoso, cheio de dor, caos e ódio. A batalha pela lucidez, a busca por não se tornar o insano que sempre criticou. O adendo do theremin no fim da canção cria toda uma atmosfera ímpar e a sensação de o cérebro em frangalhos.

” Foda-se, nós precisamos nos manter limpídos,
mesmo que tudo isso seja uma loucura,
sem arrependimentos (x2)
Deixem as crianças com seus pais,
Deixem as crianças vivas,
Deixem o rocknroll” Baobá Blues

“Movimento” é talvez a mais punk do disco. Mensagem direta. Frases fortes como:
“Você pode ser o movimento, mesmo que você não acredite. O movimento é incolar, está no ar… o movimento contra o capital, o movimento já foi o rock’n’roll, aterriza, aterroriza”. E parece citar Nietzsche no trecho: “Você está morto e nem percebeu, baby”.

Toda essa patada no meio de um verdadeiro arsenal sonoro, a música vai se auto-implodindo conforme vai se aproximando ao final. Como se um grande muro que separa as camadas da sociedade fosse extinguido. Pois é, em tempos onde vemos um muro ser erguido em Brasília para proteger políticos de protestos populares. A pontualidade do disco é um fato indiscutível.

A opressão travestida de democracia mostra suas garras nas mais diversas faixas. O pobre e os movimentos sociais sendo as maiores vítimas de toda essa onda de ódio e destruição que quando não encontramos nas letras, encontramos no choro dos instrumentos se amontoando nas camadas do som.

A fúria do conservadorismo se opõe na mesma intensidade. Se alguns erroneamente tratam a política como o fla-flu, esse sentimento de raiva e ódio, é também incorporado nos acordes pesados e nas transgressões.

“Pombo Bomba” desconstrói as guerras santas. A morte do mito dos cordeirinhos de Deus, o apocalípse das crenças sem freio. O “nós” versus os que pensam diferente. A guerra civil que nosso país se transformou e todos os monstros que tem saído deste armário chamado conservadorismo. O fundamentalismo. É uma música sobre o caos, sobre o revanchismo, sobre todo esse ódio sem fim. Explosiva, papo reto, em fluxo intenso.

“Sindrome de Estocolmo” é a canção que fecha o disco. Cita ninguém mesmo que George Orwell e seu incrível e mal interpretado por muitos, “1984”. A crítica ao totalitarismo, lançado em “1948”, Orwell teve a sacada de inverter os números. Porém em nossa história já pudemos infelizmente ver o avanço de ditaduras sangrentas mundo afora.

Na faixa a ironia é marca presente e justifica essa alusão ao totalitarismo através de trechos como: “ela me protege…controla todos os meus passos”.

A crônica entre o totalitarismo e a síndrome de estocolmo de se apaixonar por seu sequestrador, é perfeita. Comparação muito feliz em tempos onde algumas camadas da sociedade desejam a volta da temida ditadura. E a cada discurso de ódio nessa direção, cada torturado na ditadura brasileira: sente um calafrio na espinha.

O disco mostra uma mistura de evolução e experimentação. A banda ousa em várias partes e tem um discurso reto, punk, e libertador. As letras de Cox são acima da média, a bateria tem seus momentos de brilho, o fuzz pega pesado e o clima de tensão é perceptível. Agora toma logo vergonha na cara e vá ver um show dos caras.

Datas dos próximos shows:

23/4: Zapata (SP) – com La Carne e Duo Mutual
29/4: Hotel Bar (SP) – com Luvbugs (RJ)
30/4: Red Light (Santo André) – com Otis Trio, Projetonave, Nalesso & Fundação
06/5: Associação Cultural Cecília (SP) – com Vermes do Limbo
18/6: Tendal da Lapa (SP) – Dia da Música
14/7: Centro Cultural São Paulo (SP) – com Lê Almeida
29/7: Gambalaia (Santo André) – com Lenin

gia

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Ouça o álbum Amor de Mãe (2016)

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