RANCORE retorna após 15 anos com novo álbum BRIO e revela bastidores da nova fase

Rancore lança novo álbum BRIO após 15 anos. Banda detalha bastidores do retorno, processo criativo e nova fase em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos.

Após um retorno inesperado, a banda RANCORE lança seu quarto álbum de estúdio, BRIO, pela Balaclava Records. Em uma entrevista exclusiva ao Hits Perdidos, o vocalista Teco Martins detalha os bastidores do reencontro, os primeiros shows após hiato, o processo de gravação do novo disco — o primeiro em 15 anos — e a nova fase da banda no cenário independente.

A nova fase do RANCORE conta com a formação de Teco (vocal), Candinho Uba (guitarra), Gustavo Teixeira (guitarra), Rodrigo Caggegi (baixo) e Ale Iafelice (bateria), com produção assinada por Guilherme Chiappetta e mixagem por Daniel Pampuri.

A banda voltou em 2023 para apenas um show de reencontro, mas a afinidade e energia foi tão intensa que esse show virou uma mini tour, que virou uma turnê longa e agora um disco novo”, revela o vocalista.

No campo das temáticas abordadas ao longo do disco, as letras flertam com opostos complementares, com a dualidade da existência, frio/calor, vida/morte, céu/chão. O TAO, a Física (tanto a Quântica quanto a do Caos), Hermes Trismegisto e Mestre Irineu também estão presentes como influências. Temas sensíveis como a luta pela sobrevivência e a paternidade/maternidade nesse mundo tão violento também aparecem.

Entre as referências sonoras, o pós-punk de nomes como The Fall, Feelies e Suburban Lawns, assim como o shoegaze e o punk paulista oitentista se misturam as influências distintas de cada integrante, como Teco complementa ao longo do papo.

Na conversa, o músico também aborda a mistura de gêneros que marca o álbum BRIO, seus projetos paralelos, a rotina no interior e a relação íntima com suas composições, reforçando o amadurecimento artístico do RANCORE neste retorno.

“Por um tempo, tive certeza de que o RANCORE nunca mais voltaria, mas ainda bem que eu estava enganado. Voltamos com mais entusiasmo. Os shows estão cada vez mais catárticos e esse disco, sem dúvidas, é nosso melhor trabalho em questão de composições e arranjos.

A sonoridade evoluiu demais em relação a tudo que fizemos antes. Esse álbum é a consagração da total devoção à música que envolve a banda. Não tivemos medo de soar ‘esquisitos’ ou fora dos padrões do mercado, só buscamos ser verdadeiros com nossa essência, e trazer profundidade em nossa arte”, pontuou Teco logo após o anúncio do primeiro single.


Rancore com formação completa — Teco Martins, Candinho Uba, Gustavo Teixeira, Rodrigo Caggegi e Ale Iafelice — em foto promocional da nova fase da banda - Rancore novo álbum BRIO
RANCORE em foto promocional com a formação: Teco Martins (vocal), Candinho Uba e Gustavo Teixeira (guitarras), Rodrigo Caggegi (baixo) e Ale Iafelice (bateria) – Foto por: Tauana Sofia

Eu vi você falando em vários veículos que você achava que o Rancore nunca voltaria. E por parte do público eu acho que a vontade era o contrário, né? O público pedia muito a volta da banda. E vocês finalmente voltaram fazendo dois shows no Oxigênio Festival de 2023, depois saíram em turnê. Como foi esse retorno?

Teco Martins: “A banda acabou quando eu vim morar aqui, na roça, e eu já estou aqui há mais de 10 anos. E eu tinha a certeza absoluta que o Rancore nunca mais ia voltar. A gente acabou de uma maneira super amigável. Nunca brigamos. Somos amigos da época de escola, né?

E quando acabou, cada um queria fazer outras coisas da vida, o Candinho (Henrique Uba, guitarrista) foi morar na Alemanha, o Gulão (Gustavo Teixeira, guitarrista) foi morar nos Estados Unidos. O Alê (Alexandre Iafelice, baterista) foi tocar bateria em outros projetos e eu fui fazer um monte de coisa, entre elas a agrofloresta, né?

Eu me envolvi com esse movimento de permacultura, de agrofloresta, e comecei a plantar não só onde eu moro, mas em chácaras e fazendas vizinhas, a dar curso de agrofloresta, a vender comida para restaurantes, para consumidores… enfim, comecei a me envolver com esse movimento.

E o Caggegi (Rodrigo Caggegi, baixista)… putz, trampou de tudo: trampou de Uber, de garçom, de chão de fábrica, de roupa, etc. Nesse meio tempo, teve uma filha, né? A Jasmin, e eu sou o padrinho da Jasmin. Então a gente ficou muito próximo. A gente sempre foi muito próximo, mas ele começou a me visitar aqui mais, né? 

E um dia ele veio aqui em casa, até exatamente onde eu estou aqui (nesse cantinho aqui da minha casa), e falou: “Você acha que o Rancore vai voltar? Muita gente me pergunta, né?”. Aí eu falei: “Pô, tenho certeza que não, velho, já foi. Tá tudo bem, foi bem legal aquilo que a gente viveu.”

E ao mesmo tempo, às vezes eu conversava com o Alê, e ele falava: “Pô, eu ainda frequento esse meio do rock, né? Sempre onde eu vou, a galera pede Rancore.” E na minha cabeça, eu morando no meio do mato e bem desligado das redes sociais, né? Eu achava que ninguém, pouca gente lembrava da nossa existência, saca. 

Enfim… uma série de coincidências aconteceram. Como eu já falei em alguns lugares, mas como se fosse uma explosão, um raio assim, e o Rancore voltou, cara. Foi um negócio que em dois dias a gente já tinha 3 shows marcados e todo o tempo antes eu tinha certeza que a banda não ia voltar. Foi um negócio muito rápido, muito forte. E quando voltou, mano, foi uma explosão sensacional, tudo sold out, shows mais insanos do que antes, galera gritando, cantando.

E uma coisa foi sucedendo a outra, né? Desses poucos shows depois virou uma turnê, e a turnê ia ter 7 shows. Foram 33 shows pelo Brasil, grande parte sold out, Lollapalooza, Allianz Park, etc. Uns negócios gigantescos que nunca tinham acontecido.

Aí chegou, o pessoal falou: “Vamos gravar um disco.” Eu fui o último a ingressar, porque eu tenho que admitir: Fazer disco do Rancore não é fácil, não é gostosinho, entende? Mas chegou uma hora que os meninos me convenceram. Eu estava com tanto sangue nos olhos que eu falei: “vamos, vamos fazer acontecer”. E está nascendo, velho. E com certeza é o melhor disco que a gente já fez.”

Brio é o primeiro disco em 15 anos da banda, né? Depois do Seiva… e como foi esse processo, foi diferente de como era antigamente, ou foi, foi uma coisa nova?

Teco Martins: “Cara, foi, foi diferente.

Primeiro, porque eu sou pai. Então assim, eu e todos tivemos projetos que a gente teve que conciliar, né?
Antigamente teve uma fase que a gente só vivia pelo
Rancore, né?

E aí nessa fase, eu tenho dois filhos, eu sou professor de Kung Fu, eu planto agrofloresta, o Alê dá aula, o Gulão tem o projeto de música eletrônica dele. Então, é difícil… Mas ao mesmo tempo não dá para ser pela metade o Rancore, não dá para ser ou fazer mais ou menos, né? É necessária, por parte dos integrantes, uma entrega total.

Até por isso eu fui o mais reticente a tomar essa decisão de fazer o disco, porque eu sabia que seria uma imersão profunda. Então assim, tomei aquela coragem e falei: “vamos fazer acontecer aí”. Então, agora, como é que a gente fez? Eu morando na área rural aqui, os meninos morando em São Paulo, né?

E, vale citar também que o Candinho, que estava morando há 10 anos em Berlim. Com essa volta da banda, ele largou toda a vida dele lá e se jogou pra cá, né? Nesse projeto do Rancore. E ele se entusiasmou muito e falou: “Meu, chega.” Aí largou a profissão, largou amizade e veio para cá, né?

E, enfim… A gente foi fazendo shows em paralelo e os meninos faziam jams em São Paulo. A cada ensaio que eles faziam, eles me mandavam os áudios… e eu começava a estudar, né? Quando tinha umas 3, 4 mais adiantadas, a gente se encontrava num estúdio em área rural que fica em Itupeva, chamado Alvorada Estúdio. Que é muito legal. A gente ficava uns 2, 3 dias lá, 4 dias, às vezes com o produtor Guilherme Chiappetta, que foi o produtor do Liberta e o coprodutor do Seiva, né?

E a gente evoluía, buscava fazer o esqueleto das músicas, que é pelo menos ter a bateria e baixo ali com começo, meio e fim. Gravava bateria e baixo ao vivo e depois começava a fazer a parte de guitarra e voz, entendeu? Então ele foi se construindo em etapas, assim, meio urbano em São Paulo e meio rural em Itupeva.

E aí depois ele foi para a mixagem com o Daniel Pampuri lá em Los Angeles, o Marcelinho Ferraz ajudou ele também. O Daniel mora em Hollywood lá, né? E ele está lá há bastante tempo e ele trampa com Beyoncé, com Post Malone… Ele tinha acabado de ganhar o Grammy mundial e falou que ficou sabendo que o Rancore tinha voltado e falou: “Pô, é um sonho da minha vida fazer um disco do Rancore.”

E independente do financeiro — porque a gente nunca teria o dinheiro em dólares para pagar o que a Beyoncé paga, né? — mas ele falou: “Não, independente da grana, eu quero fazer esse disco.” Então ele produziu… começou só a mixar, mas acabou produzindo junto com o Chiappetta, né? Porque ele se entregou tanto ao processo e a gente teve dois produtores do mais alto calibre. E que acreditam muito no projeto.

Tanto para o Chiappetta quanto para o Daniel Pampuri importou tanto quanto nós cinco da banda. Então foi um processo mágico que eu não esperava que ia acontecer. E com certeza resultou no nosso melhor disco. A gente está muito entusiasmado, fomos minuciosos com cada detalhe e não subestimamos o nosso público.

Em nenhum momento a gente… “ah, vamos fazer uma coisa mais fácil para a galera entender” ou “pega um pouco mais leve aí na mixagem das guitarras”… não, cara. A gente fez isso com o que a gente acredita, que a gente confia, que… que faz nosso coração bater mais forte, sabe? Não teve nenhuma música por assim dizer: “coloca essa música só para completar o disco, porque essa não é tão boa quanto as outras.”

Todas as músicas nos representam. E para a gente chegar nisso, Pedro… imagina, são cinco pessoas muito diferentes, com influências musicais muito diferentes. Então é o que eu falei no começo: não foi gostosinho, entendeu? Teve muito embate, né? Respeitoso, lógico, mas embate de: “pô, eu não gostei disso.” “Pô, mas eu amo isso.” “Não, mas eu não gostei.”

E aí até a gente chegar na intersecção dos cinco… foi assim, é muito sangue, história e lágrimas, como se diz, né? Mas nós estamos muito felizes com o resultado e muito entusiasmados para compartilhar com o povo.

Lançando a primeira música, “Eu Quero Viver”, está uma recepção melhor do que a gente esperava, né? Muitas portas se abrindo com o nosso público, que é o mais importante. É uma recepção muito calorosa. Normalmente, quando a gente lança um som assim, sempre tem uma galera que fala: “Pô, eu esperava mais” — é normal essa recepção — e nenhuma pessoa falou isso. Eu fiquei até impressionado com isso.

Assim, está todo pessoal: “caramba, tá melhor do que antes”, “Rancore não decepciona”, enfim… E para além da nossa bolha. Muita gente também comentando, às vezes pessoas que olhavam o Rancore com um certo… ah, não é nem preconceito, né? Com um conceito, não gostava tanto… a gente falando: “pô, cara, não esperava que a banda ia fazer um negócio tão legal assim.”

E tem muito mais para vir, irmão. Esse aí, “Eu Quero Viver”, foi só a introdução aí, porque tem umas bombas aí que o pessoal vai ficar em choque.”

Eu gostei muito de “Eu Quero Viver” também, é uma música que fala muito sobre essa vontade de estar vivo, né? Em meio a uma realidade hostil… e é um tema bem Rancore, tem bem a carinha de vocês também, mas é uma roupagem bem mais moderna. Que direção musical vocês estavam procurando?

Teco Martins: “Nossa, é aí que tá, né, cara? É até complexa essa pergunta que você faz, porque são muitas, né?

Por exemplo, eu… por mais que eu tenha ido morar na roça aqui, eu nunca parei de fazer música, né? Eu lancei uns 10 discos ao longo… preciso contar depois… mas eu fiz muita música para ritual, porque a minha família é envolvida com isso, né?

Então, eh… bom… eu gosto muito da música africana, né? Então coisas raiz do candomblé, da umbanda… eu gosto muito dos hinários do Santo Daime… eu gosto muito de música gospel, não essa música gospel mais famosa assim que tem no Brasil, mas assim, o “corinho de fogo” pentecostal e igreja dos negros americanos — eu piro nisso, saca? Isso falando desse lado mais “daimista”, né?

Mas pô, eu ouço muita música clássica aqui, muita música árabe, muita música surf… isso é o meu lado aqui, né?

Aí o Candinho, ele foi pra Berlim lá, ele ficou estudando música experimental bizarra… a gente chama — mano, o bagulho não tem pé nem cabeça — mas ele fica até bravo que eu falo isso aí… mas é um bagulho muito doido, bagulho só… que você fala: “mano, que é isso, velho?” — ele ama.

E ele fez um duo com a Yu Ching Huang, menina muito talentosa de Taiwan, chamado Aemong… o Candinho fez turnê na Ásia, fez turnê na Europa… e aí, em paralelo a isso, o Gulão foi pra música eletrônica, né? Ele ficou todo esse tempo estudando música eletrônica. E o Alê, ele se embrenhou no punk, no punk mais 77.

Então assim, mano… é muita coisa, tá ligado? O Rancore é isso que é mágico, assim, porque a gente bebe de muitas fontes. E por causa desse nome, né — que é o nome que a gente colocou na época da escola, totalmente imprudentes — a galera se refere muito ao Rancore como Hardcore, né? Até porque a gente começou no Hardcore.

Mas assim, isso é limitar a musicalidade da banda, né? Porque já é tanta mistura, é tanta coisa… que até o pessoal mais purista do Hardcore não gosta tanto da banda. Fala: “pô, esses caras não são tão Hardcore assim”, né? Por mais que a gente ame Hardcore — eu amo Hardcore em todas as vertentes — mas assim, já é uma mistureba gigantesca, né velho? É muita, muita coisa.

E também, eu acredito que a música influencia muito, mas as vivências influenciam mais ainda, né velho? Então, por exemplo, “Eu Quero Viver”, que é essa música que a gente lançou… cara, eu escrevi a letra numa fila de UTI, o padrinho do meu filho tinha sofrido um acidente de moto. A gente ficou sabendo aqui na roça dessa situação, eu peguei o carro, fui com a esposa dele lá pra UTI, né? Só que a gente não podia entrar.

A gente não podia entrar até meio-dia. Então a gente ficou… estava maior frio, e a gente ficou naquela angústia, porque a gente não sabia se ele estava vivo ou não. E eu estava com a pré desse som… e como eu ia ter que passar 10 horas na fila ali, eu comecei a ouvir… e naquele monte de sentimento, eu acabei escrevendo esse grito pela vida: eu quero viver.

É simples, mas é complexo, né? Hoje, “Eu quero viver”… você dá esse grito assim, é uma escolha, é muito intenso quando você vai cavando o significado dessa música. 

E em outro exemplo, “A Nascente”, que é o segundo single, eu falo: “eu ouvi seu coração bater, pulsei no seu ritmo e dancei pela madrugada até a Aurora raiar”. Quando a minha esposa estava grávida, a gente foi naqueles testes de ultrassom, né? E aí começou a tocar o coração porque eles botam o microfone assim… fica tum tum tum tum, né?

E aí o meu filho mais velho, que é o Samuel, ele começou a dançar ouvindo o pulsar do coração da Aurora. Essa cena me comoveu muito, ele dançando com o barulho do pulso do coração.

Eu sou muito feliz que esse disco existe. Eu acho que o Rancore merecia um disco desse. Porque mesmo Liberta e Seiva — são clássicos, cara — eu não acho que eles soem como nós gostaríamos… nas composições eles sim representaram a banda… mas na gravação do fonograma, eu não acho que eles representam tanto.

Eu acho que até por uma culpa nossa, e não de quem gravou. Mas eles ficaram um pouco mais pop do que o Rancore é, sabe? E eu sentia que, por mais que eu estava de boa que a banda tinha acabado, eu sentia que faltava um disco que representasse a nossa essência mesmo, saca?

E esse disco representa.

Então mesmo o Daniel Pampuri sendo o pica das galáxias, que ganhou Grammy com a Beyoncé… teve hora que a gente falou: “mano, essa mixagem não é a que a gente quer não, velho… bota essa guitarra mais na cara…” A gente já estava mais seguro, sabendo o que a gente queria, né? Pra mostrar o Rancore.”

Eu achei muito massa isso que você falou do produtor querer participar do disco, independente de dinheiro, independente de qualquer coisa… porque é realmente uma coisa que eu sinto do Rancore, que é essa coisa de comunidade mesmo, né? A banda tem um público muito apaixonado e cresceu muito no boca a boca.

Teco Martins: “É muito forte isso, cara. A gente sempre teve uma relação muito próxima com o nosso público, né? Então tem muita gente que começou indo no show do Rancore e hoje em dia frequenta a minha casa aqui toda semana — e amigos de verdade assim, né?

A gente sempre foi essa banda que procurou uma proximidade do público, saca? E então a gente gosta de conhecer as pessoas ao longo dessas turnês que a gente fez na volta. Muitas vezes eu fiquei no merch porque eu queria ficar — tinha gente que se oferecia para ficar, mas eu queria ficar para saber as pessoas quem são, né?

E muitas pessoas acabam nos contando histórias: “pô, tal música me ajudou em tal momento”, “pô, o Rancore representa tal coisa pra mim”… e aquilo nos inspira, velho. Aquilo nos dá mais força, mais vontade de cantar com mais vontade, assim.

Então mais vontade de tocar com mais vontade, né? Mas é isso aí, é isso mesmo, cara.

E essa volta está sendo incrível porque além dessa galera das antigas que a gente está acompanhando e vendo crescer, tem uma geração nova chegando com muita disposição. O Rancore nunca teve tanta criança, cara, no público, velho. Hoje em dia, todo show tem umas crianças assim… e cantando mesmo! Umas crianças punk rock.

Então, tem uma nova geração chegando, e isso é mágico pra gente, irmão — essa conexão é sensacional.”

Vocês entraram para o casting da Balaclava Records nessa turnê de retorno e agora o disco novo será lançado por eles. E como foi que essa parceria surgiu?

Teco Martins: “A Balaclava já trabalhava com o Gustavo, o Gulão, no projeto Nuven. E eles já tinham sinalizado a vontade de trabalhar com a gente antes dessa volta, né? Eles, quando eu ainda achava que a banda não ia voltar, já falavam: “mas se voltar chama a gente”.

E a gente também é muito amigo dos membros do Terno Rei, que são nossos amigos de escola — fizemos terceiro colegial com o Loobas e o Greg

Então, começou como um namorico e agora a gente está aprofundando, né? Lançando esse disco novo. Os meninos estão vindo com muita disposição, eles acreditam muito no nosso projeto. É um selo que é famoso por ser de música indie, né? Mas eu acho que tem uma certa comunicação conosco. O Rancore, para o povo do hardcore, é indie; para o povo do indie, é hardcore. Acho que a gente consegue transitar nesses dois universos bem assim.

O público da Balaclava tem recebido a gente muito bem, de braços abertos. E a equipe do selo também trabalha muito bem, é muito profissional. Agora que a gente vai lançar mesmo o nosso disco juntos eles estão comprando a nossa briga também. É muito bom isso.

A gente teve outras propostas para lançar esse disco, mas a gente decidiu lançar com a Balaclava mesmo. Estamos felizes, tem muita coisa boa vindo.”

Em 2026 o primeiro disco da banda, Yoga, Stress e Cafeína, completa 20 anos. Como que você observa a cena independente hoje, em comparação com 20 anos atrás — seja no hardcore ou no indie?

Teco Martins: “Nossa, tanta coisa mudou, né? Porque eu acho que as redes sociais também mudaram muito rápido, né?

Quando a banda parou, o Instagram ainda nem tinha bombado. A gente tinha um cara que tinha feito Instagram pra gente — a gente nem tinha senha. Até hoje o Instagram antigo do Rancore a gente nem conseguiu recuperar, porque a gente nem usava, né?

A gente pegou a época de MySpace, de Fotolog e depois do Facebook. O Facebook era o principal, assim. Hoje em dia o Facebook morreu, né, cara?

Então… hoje em dia tem TikTok, você tem que ficar gerando conteúdo toda hora. Às vezes tem banda que é super bombada nas redes sociais, mas não leva ninguém pro show. Às vezes tem banda que não tem nenhum seguidor no Instagram e lota o show.

É muito louco, cara — mudou tudo, mudou muito.

Mas assim, musicalmente, eu acho que tem muita coisa boa e interessante acontecendo. Sinto que o Brasil está numa fase muito boa, muita música boa nascendo toda hora. Eu sinto que tem uma produção de conteúdo intensa e muitos artistas que me chamam atenção — talvez até mais do que antes, talvez até mais do que antigamente.

Eu acho que antes tínhamos menos acesso a estúdios. Hoje em dia tem gente que grava em casa e lança o projeto — e é bom pra caramba. Antigamente, antes do Rancore parar, você tinha que ir no estúdio, passar por todo o processo de mixagem, envolver uma equipe gigantesca — o que é muito legal, mas também fazia a produtividade ser menor. Hoje em dia, com essa coisa das redes sociais, conteúdo infinito, geração diária… também tem muita gente conseguindo mais autonomia para gravar, isso é bom.

Então eu sinto que está num momento de efervescência cultural muito forte. E eu fico feliz que o hardcore também consiga interagir com essa dinâmica, né? Mesmo nós sendo uns velhos cringe aqui, a gente consegue dialogar com esse pessoal. Porque tem muita gente dessas bandas novas que fala: “pô, o Rancore foi uma inspiração pra gente”.

E às vezes tem banda que a gente olha e pensa “pô, esses caras devem achar que a gente é um bando de velho que não sabe nada”… e o cara fala: “pô, Rancore… eu fui no show tal”.

Então é muito legal, depois desse momento eremita meu, estar voltando e dialogando tanto com os amigos antigos quanto com a nova geração.”

Tem uma pergunta que a gente gosta de fazer aqui no Hits Perdidos, inspirado pelo nome do site. Nós gostamos de dar luz para bandas que achamos que não foram tão grandes quanto mereciam. Tem alguma que vem na sua cabeça quando você escuta isso?

Teco Martins: “Tem, tem algumas aqui. 

Pensando no Brasil, tem uma banda punk chamada Os Excluídos, que eu gostava bastante. Também o Flicts — por mais que muita gente conheça, eu acho que são meio “perdidos” aí. Tem o Blind Pigs. Muita gente conhece, né? Mas eu acho que muito mais gente poderia conhecer. É uma história maravilhosa, assim, né, cara? E o Olho Seco, pensando no punkzão mesmo, que eu curtia pra cacete, que eu voltei a ouvir pra fazer esse disco.

O Cólera é mega conhecido, mas tem umas pedradas que — além do que todo mundo já conhece — tem outros discos deles que valem muito a pena ouvir.

Enfim, tem muita banda aí… E eu estou sempre pesquisando. Agora eu estou numa onda meio de música do deserto do Saaramúsica surf… estou curtindo muito. Tem uma lista… aí já é hit perdido mesmo porque eu nem sei o nome desses caras, mas acho que vale a pena pesquisar, né? Tirar um tempo assim, abrir a cabeça e ouvir novas coisas.

Muitas vezes a gente fica estacionado, né? Tem uma tendência da gente se apegar a alguns álbuns da nossa juventude e ficar ouvindo aquilo de novo e de novo. Lógico que vale a pena, mas é importante estar sempre aberto a ouvir coisas novas, estilos musicais novos — mesmo que sejam coisas velhas e estilos antigos, mas que você não conhecia.”

Para encerrar, queria que você fizesse um teaser do disco. Por que escutar Brio, do Rancore, agora em 2026??

Teco Martins: “O Rancore tem uma história muito bonita, que estava morta, que tinha acabado e meio que a gente voltou do Reino dos Mortos. E tem um porquê, não foi à toa. Todo mundo tem outras profissões, todo mundo tem outras maneiras de viver profissionalmente. Então, não é uma escolha, por assim dizer, um caça-níquel, tá ligado. É um bagulho que é real mesmo, velho, é verdade.

O Rancore é uma banda de verdade, sacou? Independente de você gostar ou não, você não pode negar, mano. São 5 amigos de colégio que quando dois quiseram sair, a banda acabou. Mesmo quando estava no auge, tocando no VMB, fez música no Top 10 MTV, música na Malhação. Se fosse só pelo business, pelo dinheiro, a gente colocava alguém no lugar e seguia o jogo, tá ligado?

Mas a gente resolveu parar a banda porque o Rancore é um bagulho muito de verdade, né? E isso é raro, mano, da gente encontrar na vida. Você encontrar algo realmente… uma relação verdadeira, que a gente não fica de muita politicagem entre nós, sabe? Se a gente não gosta de alguma parada, a gente tem intimidade pra falar que não gosta e a gente se aceita.

Então esse disco é muito resultado de uma história muito verdadeira, de amor entre nós e amor pela música. Porque a gente doou nossa vida para a música. Nós cinco. A gente fez renúncias para viver a música.

Não é pela fama, não é pela grana, não é pela validação social que isso traz — até porque muitas vezes nem traz. Até porque tudo isso é ilusão também. A gente já chegou num ponto que viu que isso não é o que segura nós, velho. O bagulho é amor pela música, doação total pela música.

E é um disco de… como eu posso dizer… eu acredito que o artista é meio que um caça-tesouro, tá ligado? A gente fica procurando acordes, procurando timbres, procurando conexões de palavras, meio que caçando um tesouro que não existe — a gente vai fazer existir.

Então às vezes você fica ali pesquisando, pesquisando… se culpando, se chibatando porque está ruim. Aí um dia você acredita que está bom, se empolga: “meu, tá muito bom”. Aí passa dois dias e você fala: “mano, como eu pude achar que isso estava bom algum dia? Eu sou péssimo, sou uma fraude, sou um impostor”.

Mas não vamos desistir. Vamos tentar mais um pouquinho.

Então, esse disco a gente demorou 2 anos pra fazer. E não é 2 anos tendo férias. Todos os dias da minha vida eu penso nisso. É o disco que ainda não lançou, todos os dias eu penso se a ordem está certa, se tem alguma música que não cabe bem ali.

Até nascer, a gente não para de pensar nisso. Nós cinco. Então tem muita energia concentrada, sabe mano?

E cara, independente de tudo isso, escuta. Escuta a parada. E às vezes ouve 1, 2, 3 vezes, porque é um disco com muitas camadas. Às vezes você vai ouvir pela primeira vez e vai ter um sentimento. Na segunda, já percebe outras coisas. Na terceira, fala “cara, olha essa frase aqui… isso conecta com tal coisa”.

Como eu falei no começo da entrevista, das músicas “Eu Quero Viver” e “A Nascente”, de onde nasceu a inspiração — não é uma coisinha à toa, não é qualquer coisinha, não. O bagulho é profundo, é profundezas abissais do coração do ser humano.

E todas as músicas são assim, tanto poeticamente, liricamente, mas também musicalmente.

Da mesma maneira que eu me entrego na voz e poesia, o Alê se entrega na bateria, o Caggegi no baixo, o Candinho e o Gulão na guitarra. Então é uma imersão profunda, cara. Ouve lá e tomara que vocês gostem. E independente de toda essa profundidade, às vezes a gente só quer ouvir o som e curtir, se divertir.”

A turnê de BRIO

A turnê de BRIO começa no dia 1 de maio, com show gratuito no Tendal da Lapa e segue passando por Americana (9/5 – Obrigado Vida), volta pra capital (17/5 – Carioca Club), vai para Brasília (22/5 – Porão do Rock), Rio de Janeiro (24/5), Santos (30/5), ABC (31/5), Curitiba (20/6) e Goiânia (22/8 – Festival Bananada).

Em breve a banda anuncia novas datas.

“Esse álbum significa uma chance de levarmos nosso som para uma nova geração. Somos uma banda que foi feita para tocar ao vivo, rodar o máximo possível, nosso próprio som é influenciado por esse contexto, e acreditamos que nesse contexto somos tão relevantes quanto poderíamos ser”, comenta Candinho.

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