Em noite instrumental Dercy e Macaco Bong fazem shows eletrizantes

Sexta-feira noite, São Paulo, chuva, muito calor e pós expediente. A receita perfeita para esvaziar todos eventos e todos trocarem os bares e shows por Netflix e ventilador, não é mesmo? A resposta é não quando temos pessoas realmente interessadas em assistir uma banda pela primeira vez.

Muito mais do que isso, ver uma banda pela primeira vez, viajar pelo caos sonoro consagrado de outra em um ambiente entre amigos entre um trago e uma cerveja gelada. É esta experiência que o Estúdio Aurora proporciona. Não isso não é um texto publi, é um relato sincero de quem pôde presenciar mais de 4 noites no estúdio de Pinheiros.

Os shows mais recentes que pude curtir foram o do Poltergat com o Combover, praticamente antecipando o lançamento do disco para os mais íntimos, e mais recentemente ainda a apresentação do Japanese Bondage – que voltava aos palcos após 3 anos parado – ao lado do Comodoro.

Muito se fala em cena. O que acredito mesmo é que existem sim vários grupos de amigos, ou se preferir usar o termo: pequenas cenas. Muito diversas, algumas bandas da mesma cena não necessariamente possuem as mesmas influências ou linguagem ao se comunicar, mas o elo e o brilho nos olhos de ver cada um dos presentes prestando a atenção em cada detalhe que faz com que de fato exista uma cena.

Talvez alguns estúdios como o Aurora e o Freak consigam sim de certa forma movimentar uma cena. Por mais pequena que seja perto do mainstream, consegue fazer com que de rolê a rolê mais pessoas queiram voltar e estender mais algumas horas do dia para prestigiar algum artista ou até mesmo um amigo.

Não estou nem sendo utópico de falar que é um inicio de algo que vai crescer em níveis de lotar grandes casas, porém uma cultura vai se criando. E acredito que esse sentimento acontece em pequenos redutos ao redor do país.

A internet ao mesmo tempo que faz nos fechar numa bolha social, também consegue amplificar um evento aqui outro acolá. Um festival de médio porte com uma projeção por exemplo que em outros tempos seria comentado apenas meses depois através de uma carta ou viagem.

Mas voltando a noite de sexta-feira (03/03) o que podíamos ver mesmo eram integrantes de diversas bandas, jornalistas, selos e amigos. Que independente de estarem com uma função ou outra – dentro do contexto que estão inseridos – só queriam um momento de jogar conversa fora e presenciar bons shows.

Pode parecer óbvio mas aqueles likes de internet, chuva de links, e tapinha nas costas de nada valem se os shows estão vazios ou o fã não vê a banda crescer ou encolher no palco. Era dia de ver o show de estreia da recém formada Dercy ao lado do experiente e icônico Macaco Bong.

Marcado para às 22 horas cheguei um pouco antes. O que foi ótimo pois pude conversar com a Alinne (Readymades), Steve (Moblins), Felipe Maddu (Guitar Talks) este último que não só faz somente uma senhora agenda para o fim de semana semanalmente como comparece ao menos em 3 eventos, algo a se elogiar. Um cutucão a muitos que escrevem sobre som e a última vez que estiveram em um show independente foi em… 2013.

Além disso pude conversar com o sempre bem humorado Gabriel (Poltergat), Elson e Lucas (do selo Sinewave) e ver outros rostos conhecidos do cenário alternativo como Jairo (Sheila Cretina Autoramas) e Stanislaw Tchaick (Water Rats Deb and The Mentals).

Para citar alguns, mas o interessante era isto: a maior parte dos presentes tinha alguma ligação com a música. O que me deixou animado, pois canso de ver bandas que vão, tocam e nem para prestigiar o show da banda que divide a noite. É complicado, mas acredito que esses puxões de orelha que fazem com que a semente seja plantada.

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Dercy se apresenta pela primeira vez ao público. A mascote claro se faz presente na bateria.

Já se passava 22 horas quando subia ao palco a banda Dercy. Você deve estar se perguntando mas que raios é Dercy?  É nesse ponto que o jogo vira. Dercy é uma banda recém formada com membros de ótimas bandas do underground paulistano. Arrisco dizer que é um super group – nas devidas proporções – de São Paulo.

O quarteto instrumental é formado por Theo Portalet (Hangovers / Dolphins on Drugs), Pedro Gesualdi (Japanese Bondage / Danger City), Carlos Eduardo Freitas (Bloodbuzz / Combover / Orange Disaster) e Caio Casemiro (Sheila Cretina / Câimbra / Tokyo Savannah). Ufa é tanta banda para citar mas tudo certo.

O EP de estreia do quarteto foi gravado na mesma sala onde ocorreu a apresentação. Como eles mesmos comentam no meio do show “é até estranho estar tocando com público estas músicas quando antes apenas tocamos para três pessoas”. O responsável pela gravina foi Billy Comodoro, este que assinou a mixagem e masterização do Blanka do Poltergat entre outros trabalhos.

O trabalho foi gravado no ano passado e vai ser lançado em breve então, calma. Porém podemos adiantar um pouco através das impressões que tive ao vê-los ao vivo. Pude conversar com o Pedro Gesualdi um pouco antes do show que disse: “vai ter cerca de 20 minutos, temos poucas canções”. Dito e feito mas nem por isso a intensidade e energia foram desprezadas.

O som da Dercy soa como uma frigideira em chamas. É rápido, matemático, um tanto quanto experimental. As influências são diversas, na bateria por exemplo temos tempos quebrados e sólidos do jazz sem perder a vitalidade do punk rock presente nos projetos de Caio como o Sheila Cretina.

O duelo de guitarras é algo interessante pois tem a fritação do stoner somada a psicodelia e o peso do metal. É tudo muito intenso, você fica até perdido para qual instrumento ou músico observar. Feito uma jam pesada a caixa do bumbo não é perdoada e as guitarras flutuam em meio a duelos.

As canções pelos apelidos que puderam dar também são um tanto quanto interessantes e cômicos, um belo exemplo disso é a faixa que fechou a primeira parte do show: “Matinho da Vila”.

Sim, após essa eletrizante e curta apresentação, tivemos o show do Macaco Bong porém após a meia-noite quando muitos já tinham se retirado do Estúdio, a surpresa: tivemos mais 20 minutos de curtição. A banda mais “solta” permitiu mais grooves e explosão. O suficiente para que aguardemos o EP com certa empolgação.

Acredito que toda essa mistura sonora agradará facilmente a fãs do cultuado grupo Bad Bad Not Good que volta ao país no começo de maio, ou seja, abre o olho pois vem material de primeira. Mas isso é papo para outro post.

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Macaco Bong durante a apresentação que aconteceu na noite da última sexta-feira (03) no Estúdio Aurora (Pinheiros – São Paulo)

Chegava a hora do Macaco Bong. Uma banda experiente, desde 2004 na ativa e com muito para ensinar para as novas gerações. Um show que todos deveriam assistir mais de uma vez para conseguir captar todo conceito disruptivo e transgressor. É ótimo poder 13 anos depois ver os caras na ativa e mais do que isso: se divertindo no palco.

Certas coisas creio que não tem preço. O trio atualmente formado por Bruno Kayapy (Guitarra / Baixo), Daniel Fumega (Bateria) e Daniel Hortides (Baixo) começou a apresentação já por volta das 23 horas com uma intensidade forte. Com uma espécie de Mandolin (?), Kayapy já chegou colocando velocidade e magnetismo no palco.

Trajando uma camiseta da excelente banda The Baggios o som assim como dos sergipanos passa por camadas sonoras que de certa forma também tem o apelo do regional na panela de influências, o que é ótimo. Os discos de ambas bandas que saíram em 2016 são verdadeiras aulas, e foi dessa forma que começou o show do Macaco.

O entrosamento se dá nos detalhes, entre uma risada e um sinal entre as músicas. O repertório se dividiu entre canções autorais e versões de Nirvana. Vale lembrar que muito disso se deve pois recentemente eles se apresentaram no Pico do Macaco – que aliás vocês precisam conhecer e frequentar – apenas tocando sons da banda grunge de Seattle.

Entre uma linha de baixo “pegada” de Hortides e a bateria comendo solto, Kayapy deixa o instrumento de lado e afina sua guitarra. Com o adendo da guitarra que lembrou muito o estilo Jeff Beck de tocar, as versões ganharam peso e devaneios. As linhas criativas de bateria se destacam e se diferenciam das originais da canção, o que faz o show crescer em volume.

Aparentemente já cansados perante a intensidade do show, eles avisam que estão perto de encerrar a apresentação. O público claro: pede mais. É a hora de usar e abusar do recurso dos pedais, deixar o baixo comandando enquanto a bateria cadencia em menor velocidade. Desta maneira podemos ver as técnicas e o perfil de jam do grupo.

Com vários efeitos fantasmagóricos alá Wilco, METZ e Shellac, o noise ganha espaço na parte final do show, o que só mostra a versatilidade e competência do trio que ainda deixa muitas bandas comendo poeira.

Algo a se ressaltar foi o que Kayapy disse quase no fim do show: “Que alegria ver que aqui todo mundo de certa forma está envolvido com a música de uma maneira ou outra. Quero acreditar que estamos plantando uma semente, não para nós, mas para quem ainda virá”.

É desta forma que gostaria de encerrar a resenha: com essa reflexão. Algo está acontecendo, há 3 anos atrás eu não tinha a mesma percepção. Via uma ou outra banda caminhando sozinha num breu que lembrava tempos sombrios.

Bom, tempos sombrios politicamente com certeza estamos vivendo, porém através da música parece ter uma luz no fim do túnel. A esperança se renova a cada evento como este, o que temos é que cobrar maior união das bandas para que shows como estes se repitam e se propaguem.


UPDATE (Segunda-feira, 12:28)

Está oficialmente no Spotify o primeiro single da história da Dercy, “Matinho da Vila”.


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