[Premiere] Ansiedade, tensão e rotina são postos em xeque no 2° álbum do Danger City

Trabalho. Labuta. Rotina. Receber ordens, lidar com a expectativas, frustrações, repetição e (muita) correria. Até onde todo o conjunto da obra satisfaz um ser humano?

Por mais “para frentex” com “mimos”, mesa de sinuca no meio da agência, open cerveja de sexta-feira e tantas “regalias” que as agências de publicidade (e empresas mais modernas optam) no fim do dia é trabalho.

Tem chefe cobrando por resultado e muitas vezes podando alguém que na teoria está sendo pago para ser um “criativo”. Ou como as empresas costumam dizer “com espírito de Vanguarda”, “inovador” e com “mindset brilhante”.

Só que o cérebro de uma pessoa criativa não desliga porque um chefe ou um supervisor quer. Toda a frustração acaba tendo que ser dissipada para algum lugar e quando o dito cujo tem uma guitarra na mão – e repertório de sobra – vira arte.


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Pedro Gesualdi. – Foto: Divulgação

Por outro lado também existe outro tipo de frustração. E essa vai no sentido das pequenas cenas de rock de São Paulo. Em alguns casos pode parecer “cool” soar como despretensioso, lo-fi, viajante, desconectado, com pouca preocupação estética – ao menos da boca para fora – e muitas vezes diminuindo ou menosprezando o próprio trabalho. Porque afinal “era para ter ficado com essa cara meio anos 90, desleixo e Rock”. Só que até onde você compra um trabalho que se sabota tanto?

Esses são alguns questionamentos do segundo disco do Danger City. Projeto do Pedro Gesualdi que vai justamente na contramão deste discurso do conceito a sua entrega. Afinal de contas, os grandes discos de rock nunca foram “sem pretensão” e quando quiseram soar sujos – e tiveram certo sucesso mercadológico – foram muito bem produzidos.

Já tendo passado por bandas como Japanese Bondage (que se reúne eventualmente), Hipopótamo, DERCY ele criou o Danger City justamente para suprir sua necessidade de dominar o processo criativo e fazer isso a sua maneira. Algo um tanto quanto Dave Grohl pós-Nirvana.

Em seu primeiro registro, Everything is a Menace in Danger City, você sente facilmente uma grande influência de Queens of The Stone Age e para quem só conhece esse trabalho irá levar um susto ao ver a evolução musical e os universos que converge no novo disco.


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Danger City durante as gravações no Estúdio Aurora. – Foto: Divulgação

Por mais que na teoria seja um projeto solo, Pedro sempre esteve cercado de amigos em ambos registros e até nisso Anticore! irá surpreender ao ouvinte. Pretensioso por natureza, o novo registro conta conta com 20 participações de integrantes de mais de 30 bandas. E não para por aí: Foram mais de 70 horas de preparativos e gravações ao longo de 7 meses e 18 sessões no Estúdio Aurora, em São Paulo.

“Acho que a gente quis negar essa despretensão oficial do rock independente. Daí a ideia de chamar todo o pessoal pra montar uma coisa grande, ambiciosa. É por isso que o disco tem tantas vozes, perspectivas “, conta Gesualdi

O lançamento também serve como uma requintada despedida já que Pedro está de malas prontas para começar uma nova vida na cidade do Porto (Portugal). Mas ele reitera que o disco é necessário para fechar um ciclo.

Até por isso ele planejou nos últimos meses uma série de três shows em São Paulo como uma grande despedida de seus amigos com shows de lançamento em locais como o Estúdio Aurora (03/08 – com Murilos São Polêmicos), a tradicional Casa do Mancha (19/8 – com Cat Vids) e Associação Cultural Cecília (07/09 – com convidados à definir).

Além de ter convocado um grande time de colaboradores para o álbum e ter brincado em entrevista para o Hits Perdidos – que irá ao ar em menos de 2 semanas na Mutante Radio – que é um projeto entre outras palavras “Megalomaníaco de Baixo Custo”.

Gesualdi flerta com uma imensidão de estilos e ao invés de citar referências ele optar por listar discos que o inspiraram na hora de compor. Vale lembrar que o repertório do Pedro é bastante abrangente visto que ele também acumula a função de pesquisador musical.

São eles: Jesus of Cool (Nick Lowe), Band on the Run (Paul McCartney & Wings), Blonde (Frank Ocean), Spirit of Apollo (N.A.S.A), Revolver (Walter Franco), além claro de Queens Of The Stone Age, John Fruscinante, anos 90 e 00.

Danger City – Anticore! (03/08/2018)

A base das canções foi gravada ao vivo com Gutemberg Almeida (Zefirina Bomba, Orange Disaster) na bateria e Carlos Eduardo Freitas (Combover, Orange Disaster, Dercy) no baixo. Depois, sob a supervisão de Aecio de Souza (Cat Vids, Bloodbuzz) foram convocados uma mega time de convidados.

Dentre eles: Helena Henneman (Quarteta), Katiane Romero (Quarteta), Camis Fank (Quarteta), Sabrina Homrich (Quarterta), Renato Joseph (Emicaeli), Julia Abrão (Bloodbuzz), Gabriel Muchon (Poltergat), Jairo Fajer (Sheila Cretina / Autoramas), Gustavo McNair (Cãimbra) Rafael Garga (Moxine / Fino e a Corja / Leela / Eduardo et L’Amour) Ricardo Cruz (Wasabi / JAM Project), Fernando Salomão, Geo (GEO) Murilo Fonseca, JC Magalhães (Orange Disaster) e Vinícius Chagas (Saxofone).

10 músicas, 30 minutos, Anticore! sem choro nem vela. Sobre o título Gesualdi provoca: “Se hardcore é o ‘caroço’, o murro em ponta de faca, procuramos um caminho igualmente provocador, mas talvez menos cabeça dura.”



Já de cara em sua sonoridade, em “Commuter”, transparecem influências de Nick Cave e Queens of The Stone Age. Muito disso pelo desabafo desde sua primeira estrofe que me lembram os arranjos frios – e secos – do Echo & The Bunnymen aliados ao experimentalismo e tom de voz de Frusciante.

Se essa canção tivesse um videoclipe certamente seria algo como uma animação no estilo “Tempos Modernos” com uma atmosfera ainda mais dark repleta de sombras e fantasmas. A frustração com o mundo corporativo, suas contradições, traumas e expectativas nunca sendo alcançadas (ou valorizadas).

De certa forma a canção consegue transmitir uma sensação de agonia misturada com a vontade de fazer algo para si. Deixando claro que o momento que se sente realizado é quando está fora do ambiente corporativo fazendo seu rock’n’roll.

“Anticore!” mergulha no tom canastrão do rock da virada dos anos 00 mas vai de encontro a esquizofrenia do Pixies e distorções robóticas. A faixa ainda conta com as participações de Julia Abrão e Renato Joseph.

Transgredir, brincar com samples e dar um tom diferente também estão entre as ambições do disco. E “Show Love for the Company” me lembrou justamente quem? Cake e sua genialidade de colocar todo mundo para dançar.

O lado “tropi(caliente)” do país da farra e do carnaval é colocado em contraponto com a rotina extenuante de trabalho. Nos vocais a canção tem a participação das integrantes da Quarteta e de Gabriel Muchon do Poltergat.

“Troublemakin” tem um tom de vanguarda e estranhamento que consagraram Walter Franco, tensão no ar e o estilo mais obscuro do disco Lullabies to Paralyze do QOTSA. Ela te engana pois quando você pensa que o refrão vai crescer ela te golpeia e se esvai.

Já “Freelance Illustrator” faz a ponte entre o rap e o Red Hot Chilli Peppers, muito pelas linhas funkeadas e rimas que Pedro neste registro começa a se aventurar. A questão de não ter tempo (por conta do trabalho), a pressão de ter as expectativas dos outros nos ombros e a frustração de uma geração toda sendo exposta.

De certa forma é uma canção sobre ansiedade – e querer e não poder viver a vida como deseja. A sensação amarga de ver o tempo correr e não aproveitar da maneira que gostaria por conta “dos boletos para pagar que não param de chegar”.

O lado mais caricato da personalidade de Pedro volta a transparecer e embalar em “Coolidge”. A faixa conta com elementos de percussão, trompete, piadas, evoca Don Carlón, Quarteta e muito deboche.

O lado dark dos anos 80 e o violão à lá Nick Lowe reverberam em “Force Majeure”. Com longa introdução – e tempo de  duração – a canção conta com apenas 2 minutos de duração e como ela mesma diz em seus versos: “My world is on fire”. É como aquela cena em Clube da Luta onde estamos de mãos atadas e vemos o mundo explodindo ao fundo.

“Ianuggets” é uma vinheta rápida com sobreposição de ruídos de notícias e barulhos externos que dão uma sensação de sufocamento. A próxima canção leva em seu título o nome de um restaurante francês da capital paulista, “Le Jazz”.

Conversando com o Pedro descobri que foi um dos seus primeiros empregos e isso faz sentido depois que ouvimos a faixa que conta com a participação da santista GEO. O mais curioso é que ela justamente é uma cantora de pop e conseguiu incorporar uma postura rockeira em sua contribuição. Algo a observar também é a progressão esquizofrênica da canção que acaba de forma tão perturba quanto um grindcore. Acho que Arrigo Barnabé ficaria orgulhoso.

Quem tem a missão de fechar o disco é “Consumer”. Nela Pedro desacelera em uma balada que faz homenagem em sua sonoridade ao hibridismo dos Beatles. Seu lado mais solto também me lembra Neil Young com bateria de jazz e ainda tem espaço para um Spoken Word.

Essa fusão que irá causar estranhamento ao ouvinte finaliza o registro da maneira mais apropriada para um disco que discute tanto o tema: trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?


Anticore


Anticore! talvez tenha esse nome mais por não pedir passagem para contar sua história e não ter medo de caminhar a sua maneira do que por ser pesado, hostil ou ameaçador. Esquizofrênico por natureza ele consegue captar toda a essência da paranoia de uma mente já esgotada de ver os anos passarem e muitos padrões se repetirem.

Uma alma que clama por tentar fugir das correntes invisíveis da maneira de como nossa sociedade vive. Onde o trabalho burocrático é endeusado e o trabalho artístico é visto como “hobby”. Pretensioso, o Danger City faz uma fusão de estilos e combina diversas pessoas para mostrar que mesmo sendo na teoria “um projeto de um homem só”: acaba ganhando várias vozes, elementos, lamentos e sinergias.

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