Não era apenas uma Fita! Oxy rebobina memórias em disco de estreia

“Fita sincera ou fita gravada, fitagem cinematográfica. Fitas que se preparam para simular certo fato, para iludir os ingênuos, mó fita; ação para impressionar; mentira; cena fingida: Aquilo foi fita tua. Te fito, te humanizo. A fita que é laço, tape, ribbon, reverberada. Fitas de passagens, filmes que passam por nós e nos envolvem em uma só tape de 10 faixas. Fissura analógica, submersa, dissonante. Conexões. Mó fita.”

Esta é parte da justificativa para o nome do álbum de estreia da Oxy, Fita. Um fato é que entre nostalgia, efeitos, distorções, beats cirurgicamente bem amarrados e um mergulho na densidade dos sentimentos mais humanos…. a banda brasiliense não tenta inventar o novo. Todavia ressignifica emoções. Feito uma colagem de fitas, memórias e passagens.

Ao meu ver o diálogo é bastante aberto, dialoga com os anos 80 de Cindy Lauper e Depeche Mode, conversa com os modernos Fazerdaze e Beach House e navega na introspecção. Outrora tem uma veia rockeira de Cherry Glazerr aliada a nostalgia do My Bloody Valentine. Tudo isso sem forçar a barra e com uma linguagem bastante aberta ao ouvinte que o inspira a viajar.


CVR2


Cada fita traz um recorte. Cada recorte se expande e cada atmosfera consegue te trazer memórias. Mesmo que não sejam tuas, você se sente a vontade de adentrar a estas passagens e agarrar como se fossem tuas.

A sensibilidade é contagiante e quando você percebe gostaria que aquelas melodias fossem tuas. De certa forma todas aquelas camadas que podem parecer a primeira vista geladas e frias, são coloridas e vibrantes.

É shoegaze mas não se limita a ser “só shoegaze”, por horas é Dream Pop, noutras puro Rock’n’roll com guitarras inflamadas e solos em alto e bom som. Nem a psicodelia escapa do horizonte da banda que não tem medo de flutuar pelas décadas da música pop.

Um disco para nossos tempos, afinal de contas somos tão plurais e ansiosos que acabamos aglutinando várias personalidades e emoções. Somos um pouco do fogo como somos também um pouco da água que vem apagar toda essa inquietação. Nos contradizemos e reverberamos toda essa energia e pressão do dia-a-dia. E a música é uma boa maneira de exalar isso e tirar este “peso” das costas.

No quesito sonoridade Fita também se alinha com o momento tenso e de uma necessária reflexão. Não é um disco de protesto mas reverbera trechos que servem como uma mão sendo estendida para te dizer: “vai ficar tudo bem, você não está sozinho, o mundo que está a beira de um colapso”.

Vemos tanta gente partindo mais cedo por conta de depressão, e de se ver longe de alcançar as cobranças e expectativas dos outros, que muitas vezes deixamos de ver todo o bom que plantamos – e como fazemos as pessoas que nos amam felizes.

Avicii, Kate Spade, Anthony Bourdain e tantos outros que superaram estas barreiras de serem “profissionalmente competentes e bem sucedidos” tiram suas vidas muitas vezes porque o mundo vai muito além destas expectativas. Somos humanos e trabalho é apenas mais uma parte de nossos dias. Ou deveria ser.

A real é que discos como Fita vem para nos dizer mensagens poderosas como esta. Precisamos cuidar da nossa alma, aproveitar os bons momentos, elogiar o que merece e valorizar a companhia de quem te quer bem. Temos que correr atrás dos nossos sonhos sim, mas de maneira equilibrada e cuidando do nosso bem estar.

Oxy – Fita (06/06/2018)

O álbum assim como o disco da Bike é um lançamento do novíssimo selo Quadrado Mágico. O registro foi gravado – e produzido – de maneira caseira pelo também guitarrista da banda, Blandu Correia. Ele que em 2015 iniciou o projeto ao lado de Sara Cândido (Vocal, produção, composição).

Atualmente a banda também conta com Lucas Eduardo Pereira (Guitarra), Thiago Neves (Baixo, synth) e Marcelo Vasconcelos (Bateria).

Em março de 2017 veio o primeiro EP, Oxy EP (Ouça no Spotify), com apenas quatro canções mas que já chamou a atenção bastante pelas referências de bandas contemporâneas como Diiv, Tops, Sunflower Bean, Beach House e Cherry Glazerr.

O registro foi gravado ainda em duo mas já com a participação de amigos. Logo depois para dar força para as apresentações ao vivo: os outros 3 membros foram adicionados a banda.

Em entrevista para o Hits Perdidos durante a Premiere do single “Pink Socks, eles citam ter como influências bandas como Fazerdaze, Land of Talk, Winter, TOPS, Men I Trust, Alvvays, Melody’s Echo Chamber, Castlebeat e Beach Fossils.

As letras de Fita foram escritas por Sara Cândido e a produção executiva é assinada por Miguel Galvão aka Ogunda-O.



A proposta de Fita é também visual e isso pode ser notado através do encarte do registro e fotos de divulgação captadas pelas lentes de Enzo Correia. Quando falo em o som conversar com o atual momento da música mundial, não me refiro apenas ao exterior mas também com outras bandas do cenário independente nacional.

Alguns exemplos eles até citam como influências como é o caso do Boogarins, Bike, El Toro Fuerte, Marrakesh, Frabin e Cora. Mas eu também citaria que dialoga com RØKR (PE), SETI (SP), Dolphinkids (SP), Lava Divers (MG), Firefriend (SP), Justine Never Knew The Rules (SP), Miêta (MG), WRY (SP), Juna (RS), Supervão (RS), Chimi Churris (RS), Loomer (RS) e outras tantas que você pode conferir aqui.

Dando o Play na Fita!

A introdução – “Intro” – nos deixa claro de que estamos adentrando em um território leve e sensorial, o mundo dos sonhos. É através da leveza dos acordes delicados e da percussão calma que a banda vai conduzindo o ouvinte para estabelecer o diálogo. Tamanha sensibilidade se destila nos versos que te trazem para mais perto.

Eu gosto deste ar que chega de mansinho e vai se tornando apocalíptico feito um dream pop que cruza com o post-rock. Algo meio Björk flertando com Sigur Rós e neo-psicodelia.

Inclusive é muito legal ver que no meio desta imersão ainda tem espaço para lampejos do rock setentista. Tudo muito flutuante e pensado, feito um sonho que chega devagar e vai tomando conta. Entre as trevas, escuridão e o pavor da calmaria.

“Realdaze” já tem camadas mais trabalhadas que mistura o lado virtuoso do Dinosaur Jr. com ondas mais robóticas do eletropop de grupos como Goldfrapp. Mas que ao mesmo tempo tem aquele espírito pop do post-punk oitentista e ares da cozinha dream pop. O nome parece até fazer uma homenagem a uma das influências do conjunto, a banda Fazerdaze. Ouvi e quis voltar para re-ouvir o disco da Der Baum.

“Pink Socks” começa com o barulho do rebobinar de uma Fita, como não poderia deixar de ser. A canção mistura elementos de Dream Pop, Shoegaze, glo-fi, Sinthypop e conta com vocais delicados embalados por sintetizadores vibrantes.

Ela é imersiva e vai embalando o ouvinte aos poucos. Irá agradar fácil a fãs de Depeche Mode, S.E.T.I., Fazerdaze, Dum Dum Girls, Melody’s Echo Chamber e até mesmo Björk. Ao mesmo tempo que a faixa te leva para um sonho distante, ela te puxa para a pista de dança e te deixa reflexivo.

É como ouvir um som do Happy Mondays e permitir-se ser sugado por um buraco negro. Você sente a necessidade de sentir cada nota reverberar pelo ambiente que estiver, feito uma droga alucinógena. Talvez por isso que ela seja hipnotizante feito os chicletudos – e cativantes – hits dos norte-americanos do Cherry Glazerrr.

O curioso é que a energia cósmica de “Pink Socks” além do shoegaze conversa com o post-punk britânico e até mesmo a (massacrada) New Wave. Fãs de New Order vão tranquilamente adicionar a música em uma playlist.

São pouco mais de 5 minutos de canção e dependendo de como ouvir pode ter uma good ou bad trip. Então nada de misturar a faixa com álcool se for ouvir longe das pistas de dança, hein?. Que fita, amigos, que fita!

Caramba eu quando ouvi “Carriage” fui literalmente sugado para o túnel do tempo. Voltei para um tempo onde Cindy Lauper, Nina Hagen e Kate Bush lideravam as paradas de sucesso. Que nostalgia e que delícia de canção, daquelas que a tempos não ouvia.

A típica música que se tocasse em uma rádio estrangeira eu dificilmente diria que foi feita por uma banda brasileira. Falei nomes do pop mas isso está presente nos vocais de Sara e na levada oitentista da bateria e seus acordes. Sabe aquela canção que encaixa na trilha sonora de séries como Stranger Things? Este é o ponto. Ouça e se deixe levar.

Se a última trouxe o lado mais pop, a próxima vai pro lado mais dark da década de 80 mas sem deixar de ser dançante. Então junta os pés e vem delirar com “TV Show”. Pois tem espaço para guitarras mais cruas e estridentes do punk rock ao mesmo tempo que conta com vocais mais delicados. Essa aqui para o fãs de Mac Demarco, Pixies e Real Estate vai servir como uma flechada no peito.

“Reality” parece ter sua órbita própria no mundo dos sonhos, como seus próprios versos nos dizem. Mas nem por isso é óbvia pois tem arranjos que trazem influências distintas, do rock’n’roll do Jimi Hendrix e Led Zeppelin ao lado mais experimental e progressivo de grupos como o Mogwai. Ela te consome e te suga até você se tornar apenas restos de poeira espacial.

Os sintetizadores viram protagonistas em “Fairytale” que flerta com synth pop e é uma das faixas mais confessionais do álbum. Ela traz dor ao mesmo tempo que busca por empatia. Se você curtir muito Phantogram provavelmente vai gostar da densidade da faixa que te abraça e diz “tudo vai ficar bem”. Até arrisco dizer que ela tem potencial de agradar até mesmo fãs de Florence and The Machine, ou seja tem aura pop.

Já “Trying” muda de frequência e funciona dentro do disco como uma balada açucarada. Com elementos de powerpop / dream pop, ela ao mesmo tempo flerta com as pistas de dança. Com aquele levada dos inferninhos góticos dos anos 80, com muita força nos vocais e expansão tridimensional. Consigo até imaginar luzes mais frias enquanto a banda realiza a performance.

A hora de aguçar os sentidos é justamente em “6th Sense” que ao meu ver conversa com bandas modernas como Silversun Pickups e Winter. Ela que de maneira interessante sabe intercalar momentos altos e baixos para assim trazer distintas energias. Uma música com a temática do sexto sentido, e todo seu ar místico, merecia mesmo uma energia imersiva e um tom enigmático.

Com uma frequência e uma levada Daft Punk, “80’s”, vem para sintetizar espírito do disco. Quem também faz bom uso disso no Brasil é a Aldo, The Band, e mostra como aquele universo futurista e imaginário de como seriam os “anos 2000” ainda vive no imaginário criativo das bandas.

Por mais que ainda não vivamos em uma era de carros voadores, robôs e casas no espaço sideral. Com a mesma frequência imersiva do começo do disco, despertamos para o mundo real após o estralar do fim da fita.


Oxy - Fita (capa final)


O primeiro álbum da Oxy de Brasília (DF) viaja por diferentes frequências para nos mostrar o quanto estamos conectados e interligados com o universo a nossa volta. É um disco sensorial, sentimental e reverberante.

Sem pretensão de soar original ou revolucionário, o registro faz um passeio por distintos universos. Do Dream Pop ao New Wave, passando pelo rock psicodélico e estendendo o tapete para as pistas de dança. Com diferentes narrativas ao longo das 10 “fitas”, ele busca viajar pelos sentimentos mais profundos e confissões. Tudo isso através de melodias que flutuam entre o pop e o alternativo. Um bom disco para ouvir enquanto lê um artigo sobre o mundo pós-apocalíptico, pois o universo futurista dos anos 80 tem espaço dentro de sua narrativa.

A banda também é atração confirmada no Festival Picnik que acontece em Brasília (DF) no fim de semana do dia 23 e 24 de junho.


PIC


O line-up foi divulgado no começo da semana em matéria realizada pelo jornalista Pedro Antunes para o Estadão e impressiona pela mescla de novos nomes com outros que já vem se destacando nos últimos anos. Vale a pena ida a Brasília!

Tulipa Ruiz (SP) | Curumin (SP) | Anelis Assumpção (SP) | Garotas Suecas (SP) | BIKE (SP) | Joe Silhueta (DF) | RAKTA (SP) | PAPISA (SP) |Mescalines (SP) | Young Lights (MG) | Marrakesh ʘ (PR) | SUPERVÃO (RS) . André Sampaio (SP) |Leo (DF) | meu amigo tigre (DF) | Oxy (DF) |Cachimbó (DF) | Banda Augusta (DF) | Palamar(DF)

PicniK *Festival*
Arte – Moda – Música – Dia – Bazar – Festa – Sorrisos – Comidinhas – De graça
Data: 23 e 24 de junho de 2018 (sábado e domingo)
Local: Torre de TV
Horário: das 13h às 22h
Acesso gratuito
Classificação indicativa livre

Obs: a partir das 16h será necessária a doação de 1kg de alimento ou 1 livro ou 1 agasalho para acessar perímetro do evento (Instituições beneficiadas = Abrace e Ler Liberta)


Playlist no Spotify

Ouça e Siga a Playlist com 92 bandas brasileiras do independente que passeiam pelo universo da OXY.

Siga o Hits Perdidos no Spotify!


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