Ganwalk aposta em música interativa e transforma ouvintes em diretores de videoclipe
Ganwalk é comandado por Armando Custodio, um programador goiano que, após se aventurar ao lado do projeto Furta Flor, decidiu nos últimos anos desenvolver um projeto solo. Com liberdade artística, ele aproveita cada novo single que lança para introduzir uma nova solução tecnológica para combater a insanidade da lógica dos algoritmos ao longo na divulgação. Em “Calma”, disponibilizado no começo de abril, ele desenvolveu um site onde o ouvinte pode interagir em tempo real com a canção (confira).
Já em “Satisfaz/Acredito”, disponibilizado no feriado do Dia do Trabalhador, o músico foi além e desenvolveu uma ferramenta interativa em seu site onde quem escuta a música também assume a direção visual. O público, através do mesmo site, pode gerar o próprio videoclipe manipulando uma tecnologia que converte imagens em texto ASCII — estética onipresente nos primórdios da internet. O sistema oferece parâmetros controláveis e a opção de usar sua câmera ou subir seu próprio vídeo, garantindo um visual único a cada nova configuração.
Sobre essa relação intrínseca entre suas frentes profissionais, ele comenta que isso acontece até mesmo por acidente:
“Tudo que foi passando na minha mão ao longo da vida eu acabei dando um jeito – mesmo que às vezes não intencional – de transformar isso em arte. Quando comecei a me aprofundar em webdesign e programação vi uma brecha pra fazer algo diferente, algo que ainda não existia do jeito que eu imaginava, então acabei me aprofundando nessa intersecção de arte e tecnologia”, revela Armando.
Já na parte musical, a identidade do projeto também atua com a mesma liberdade criativa, tendo como premissa uma sonoridade de natureza psicodélica, de grupos como Boogarins e os conterrâneos da Dezert Horse, que também já pôde desenvolver um site em parceria, ao mesmo tempo em que mescla gêneros como trip-hop, música brasileira, breakbeats e rock alternativo. Ele mesmo revela que artistas como Stereolab, Grizzly Bear, Gorillaz e Milton Nascimento fazem parte das influências diretas e indiretas (em “Calma”).

Ganwalk: Entre a metalinguagem e a programação
Esse misto de linguagens se articula na experimentação de soluções digitais, consolidando uma identidade que dialoga com esse universo. Armando trata de assinar quase todas as pontas do projeto, assumindo o front e o backend, em “Satisfaz/Acredito”, por exemplo, assina a composição, toca todos os instrumentos, manipula os samples e comanda a pré-produção — deixando apenas a mixagem e masterização a cargo de Matheus Carneiro.
É interessante como entre os dois singles apresentados neste ano, o cruzamento entre o orgânico e o digital é bastante equilibrado e a sensação que passa é que, mesmo estando cronicamente online, a pausa para a abstração e para sair da linha de produção do dia é mais do que necessária e se faz, por sua vez, urgente. Entre esse elo e essa dicotomia, sua arte se complementa com liberdade e autonomia para mudar de direção.
“Calma” vai do incômodo ao relaxar logo em sua introdução, como se estivéssemos adentrando em outro plano; isso se dá pela escolha das ambiências, elementos, percussões e acordes que nos parecem guiar mata adentro. Essa natureza que serve quase como um mantra guia a jornada, entre fios de nylon, o silêncio que estrutura a faixa e uma entrega ao viver. A faixa tem violões adicionais de Kiron Marques e percussões de Jean Ramos.
Já “Satisfaz/Acredito” mantém a identidade de sobreposições sonoras, mas adiciona elementos de trip-hop ao longo da sua jornada psicodélica ancestral. A temática da calma x agitação também reaparece ao explorar essa dualidade, a faixa conecta o espírito de abstração desta nova fase. O que evidencia que o interativo não se restringe apenas na obra digital, mas também se manifesta nas apresentações.
“Eu percebi que o que faz eu “me bancar” como artista é a minha percepção de que: tudo que foi passando na minha mão ao longo da vida eu acabei dando um jeito – mesmo que às vezes não intencional – de transformar isso em arte. É sempre um movimento de tentar fazer algo autoral com as ferramentas que eu tenho ao alcance das mãos. Quando comecei a me aprofundar em webdesign e programação vi uma brecha pra fazer algo diferente, algo que ainda não existia do jeito que eu imaginava, então eu acabei me aprofundando nessa intersecção de arte e tecnologia”, comenta o goiano.
E você, até onde vai essa experiência?
Teste a ferramenta, crie seu próprio vídeo e veja como “Satisfaz/Acredito” funciona na prática clicando aqui.
