Praticamente um ano depois do lançamento do Crux (Balaclava Records), álbum que acabou estrelando nossa lista de Melhores Álbuns Nacionais de 2019, Apeles lança um novo single. Eduardo Praça, conhecido por seu trabalho ao lado das bandas Ludovic e Quarto Negro, experimenta em “Tudo Que Te Move” voltar as suas raízes e gravar no formato banda.

Acompanhado pelo baixista Guilherme Almeida (Pitty), João Inácio “Jojô” da Silva (Filipe Catto, Tagua Tagua), nas guitarras, e tendo a mixagem de Roberto Kramer (Gab Ferreira, RØKR), o trabalho já mostra um leque maior de possibilidades criativas.

A literatura, o cinema e outras artes continuam presentes dentro da estética do seu trabalho que também ganha novas referências tanto de artistas que vem despontando nos últimos anos como também de clássicos. Nomes de novidades como Cleaners From Venus, U.S. Girls, e veteranos como Guilherme Arantes e Arthur Russell, aparecem em suas playlists.

Aliás na pandemia além de compor, Eduardo tem criado novos hobbys entre eles a Meia-Noite FM. Uma playlist onde ele traz descobertas e sons que tem feito a cabeça. Segundo ele “a playlist é atualizada semanalmente com 10 músicas e toda semana um artista convidado estampa a capa”. O que deixa a brincadeira ainda mais interativa.


Apeles - Photo: Ana_Pupulin

ApelesFoto Por: Ana Pupulin


Apeles “Tudo Que Te Move”

Ainda sem planos de um novo disco, o músico acumula em sua carreira solo já dois registros de estúdio: Rio do Tempo (2017) e Crux (2019); ambos lançados pelo selo paulistano. Como estratégia, Apeles planeja lançar singles soltos em um ano todo atípico.

Aliás lançar um material tão seguido do disco era algo que não estava em seus planos. 2020, a principio, era um ano de colheita onde Eduardo Praça iria realizar turnês para promover seu último disco….mas devido as circunstâncias: os planos foram mudados.

Música & Poesia

São coisa da vida mas em “Tudo Que Te Move” o músico mostra uma outra faceta dentro do seu trabalho como compositor. A faixa que é mais otimista, e acolhedora, tem como inspirações o livro O Casamento do Céu e do Inferno (1793) de William Blake.

Uma frase do livro me pegou muito, “Um cadáver não vinga suas injúrias.”, enquanto eu vejo tantas atrocidades acontecendo e a quantidade de pessoas que não terão a oportunidade de se restabelecer no futuro, assim, a letra “Tudo Que Te Move” soa até como um pedido para que as pessoas aguentem firme nesse momento da maneira que lhe for possível.”, conta Apeles em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos  



Trazendo à tona situações, e sentimentos, que vivemos com intensidade durante o isolamento social, o músico apresenta na canção versos em português e em inglês em um som com uma sonoridade que transita entre o avant pop, a psicodelia e o post punk.

O arrependimento, as vontades e reflexões acabam ganhando capítulos e narrativas diferentes cabendo ao ouvinte passear por suas próprias memórias e conflitos internos. Mas em geral a mensagem é otimista e olha para frente.

Da mesma forma sorrateira que a canção chega, ela se esvai feito o último trem de uma estação. Talvez seja por conta dos ares de Berlim que Eduardo costuma carregar em suas composições.

Entrevista: Apeles

Conversamos com o Eduardo Praça, Apeles, para saber mais sobre o novo single, pandemia, literatura, produção e até mesmo sua playlist semanal.

Primeiro gostaria que contasse como tem passado esse período de pandemia e isolamento. Como tem sido para você criar, colocar as coisas em ordem e manter a sanidade? Aliás, você também tem desenvolvido uma playlist interessante atualizada esporadicamente, conte mais sobre esse novo “hobby”.

Eduardo Praça (Apeles): “Olha, tive vários altos e baixos, imagino que assim como a maioria das pessoas, especialmente no entretenimento. Apesar de toda a complexidade e frustrações do momento, consegui embalar um bom período de criatividade e produtividade.

Olhando por um lado otimista, o isolamento social me permitiu organizar e colocar em prática muitas coisas legais que antes não havia conseguido.

Meia-Noite FM

A Meia-Noite FM é uma delas. Sempre gostei de enviar música e curadoria, então desenvolvi a playlist de uma forma que pudesse compartilhar as músicas que amo com mais gente, de uma forma um pouco mais contínua.

A parte FM do nome é por que ainda sou um apaixonado por rádio e sempre sonhei em mexer com algo parecido, como o Iggy Pop faz na BBC 6 por exemplo, quem sabe em breve!

A playlist é atualizada semanalmente com 10 músicas e toda semana um artista convidado estampa a capa. Tem sido uma boa união de atividade uma prazerosa com algo que tem realmente funcionado em termos de divulgação!”


 


Aliás foi logo no começo do período de reclusão que gravou o single “Tudo que te move”, inclusive você está lançando o material exatamente um ano depois disso, tem alguma superstição ou estratégia atrelada a isso?

Eduardo Praça (Apeles): “Quando foi anunciada a quarentena, tive a oportunidade de ir para o interior de São Paulo focar em material novo. Durante um mês pré-produzi 10 faixas que agora estou escolhendo uma faixa por vez para trabalhar, “Tudo Que Te Move” é a primeira que escolhi junto com a Balaclava Records.

O Single sai (hoje) dia 7 de agosto. Crux, meu último álbum saiu exatamente 1 ano atrás, dia 9 de agosto de 2019. Sinceramente, não estava nos planos ainda lançar material inédito. Quando a pandemia aconteceu estávamos com 13 shows marcados entre a Europa e o Brasil, iríamos pela primeira vez para o centro-oeste e o nordeste, não sei se haveria tempo hábil para focar em material novo, mas de toda forma aconteceu e estou bem feliz com o resultado!”

A canção tem uma energia mais otimista em relação a vida. Foi uma forma de abraçar o ouvinte durante este momento onde temos que buscar forças para seguir em frente? Conte mais sobre a composição, referências e como tem sido mesclar referências modernas a clássicos.

Eduardo Praça (Apeles): “Sem dúvidas ela tem uma aura mais otimista. Quando comecei a brincar com a pré-produção dela, a idéia era ter algo mais upbeat mesmo, que fosse capaz de dar um ar mais feliz para as pessoas mas sem perder a essência das minhas músicas.

Acho que o Guilherme Arantes consegue transitar muito nessa linha entre o otimismo em seus arranjos mas sempre com certa intensidade por trás das letras e estou muito feliz com as primeiras reações das pessoas que estão ouvindo o single, além de ser importantíssimo pra tatear em outros formatos e sonoridades com a minha música, isso no fim, é o que me move!”

Aliás você pôde colaborar com diversos artistas com diferentes backgrounds como enxerga a soma do processo coletivo de concepção? O que chamou a atenção no trabalho de cada um e como enxerga o resultado? Pretende realizar mais collabs daqui para frente?

Eduardo Praça (Apeles): “Isso foi uma grande alegria e uma grande ironia. Sempre produzi minhas coisas sozinho antes de levar pro estúdio, e depois de Crux, eu havia prometido que voltaria para o estúdio pra gravar com a banda completa ao vivo. Então veio a pandemia e voltei ao velho formato.

De toda forma, foi uma alegria, todos os músicos já colaboraram comigo ou com a minha antiga banda, Quarto Negro, então foi um diálogo fácil e prazeroso. Estamos já pré-produzindo mais algumas faixas com a formação fixa da banda e também com convidados, para lançar esse ano e pelo o que vemos nos noticiários, continuarei colaborando cada um de suas casas.”

Assim como o Jair você também tem todo um cuidado especial na parte lírica das canções sempre trazendo referências de outros tipos de arte. No caso desta faixa foi o William Blake e o livro O Casamento do Céu e do Inferno. Conte mais sobre como as reflexões que o livro e outros universos te inspiraram no single.

Eduardo Praça (Apeles): “De fato, a parte lírica é parte fundamental e importantíssima do processo, além de ser de longe a parte que mais me toma tempo e energia durante as produções. Eu cresci e me entendi como músico durante todos os anos que estive com o Ludovic, e conviver com o Jair Naves, que pra mim é o melhor letrista do país, além de me inspirar sempre foi um exemplo como letrista e artista.

O livro do Blake me inspirou muito nesses tempos por que as analogias e provérbios são extremamente atuais. Me peguei pensando em como o ser humano é cíclico e tudo que estamos vivendo já foi experienciado em diversas gerações.

Uma frase do livro me pegou muito, “Um cadáver não vinga suas injúrias.”, enquanto eu vejo tantas atrocidades acontecendo e a quantidade de pessoas que não terão a oportunidade de se restabelecer no futuro, assim, a letra “Tudo Que Te Move” soa até como um pedido para que as pessoas aguentem firme nesse momento da maneira que lhe for possível.”

Quais os planos após o lançamento? Pretende lançar um novo álbum? Como observa que seja a melhor maneira de trabalhar o lançamento digitalmente?

Eduardo Praça (Apeles): “Estamos tateando ainda os planos, nos reinventando como artistas e profissionais da música, assim como todo mundo. Inicialmente faremos alguns singles em 2020, mas não descarto a produção de um novo álbum no ano que vem.

É importante a pessoa entender qual tipo de exposição funciona pra ela digitalmente e seguir isso fielmente.

Acho que compartilhar um pouco do seu mundo, com conteúdo que as pessoas se identifiquem e possam interagir ainda é a melhor forma de se promover digitalmente. Sei que existem muitas fórmulas para se obter sucesso com a distribuição de um artista digitalmente, mas acima de tudo você precisa ser honesto consigo mesmo e valorizar as pessoas que te seguem e te dão suporte, que no meu caso são as pessoas mais carinhosas possíveis.

No mais, agradeço mais uma vez o espaço e não posso deixar de parabenizar o trabalho impecável e dedicado de sempre! Obrigado Rafa e Hits Perdidos :)”