Os fantasmas do passado atravessaram o Rio do Tempo, mas foram exorcizados em Crux, segundo álbum de Eduardo Praça sob seu pseudônimo Apeles.

Eduardo alia o refinado ao confessional. Expurga seus sentimentos e poesia através dos rumos que a vida lhe reservou. Expressa sua mudança de ótica sobre o mundano, reflete o momento de aprendizado no exterior; e como tudo isso acabou afetando seu lugar no mundo.

Maduro e com uma carreira construída no underground paulistano entre Ludovic, banda que entrou aos 16, e o ótimo Quarto Negro, ele revela a cada disco uma nova face.

Se o anterior era mais otimista, neste ele embarca em lembranças mais traumáticas para dar luz a sua essência rebelde. Apresenta seu novo mundo através da poesia e preza pelos mínimos detalhes. Feito um espelho, ele abre um portal e expõe seus sentimentos mais profundos.


Apeles

Apeles. – Foto Por: Rodrigo Bueno


A Poesia da Vida

A poesia se confundindo com a vida mais uma vez. Feito Shakespeare, feito Bowie. Subverte justamente por trazer o choque entre o peso e a calmaria com uma produção impecável e cheia de entrega.

Ele mesmo conta que para o trabalho teve o cuidado em trazer para a produção artifícios de artistas atemporais. Une a melancolia de Jobim e Cohen à Ana Cristina César, a ambiência sonora de Vangelis à nostalgia da Disco Music.

Mas faz deste o tom de sua própria valsa. Atravessa suas emoções feito pequenas confissões como na já clássica “A Alegria dos Dias Dorme no Calor dos Teus Braços”.

Ele experimenta, deixa se levar pelas correntezas mas é quando mostra a inquietude que cresce como artista. Com ricos elementos e instrumentos, a beleza transcende em seu tempo e espaço.

Entrega

O músico assina a produção do registro que saiu nas plataformas digitais no dia 06/08 via Balaclava Records. Seu cuidado é tão detalhista que impressiona até mesmo o ouvinte mais relapso.

Ele tem o primor de criar através de suas camadas, imagens. Feito uma tempestade de emoções compartilhadas. Se conecta e desconecta para traduzir em versos, o exercício de sua própria reconstrução.

“Pele”, por exemplo tem um cuidado estético que não deixa nada a desejar para clássicos da música inglesa. É um brinde a quem cresceu ouvindo clássicos como Spiritualized e Ride.

O disco vira a chave a cada uma de suas 8 faixas. Se preocupando em trazer um pouco de si a cada pedaço mas sem querer se fechar em formulas (ou caixas). É um registro de vanguarda, que conversa com um mundo em colapso mas de uma forma bela e genuína. Como podemos ouvir na magnética, “Crux”.

Do que seria vida sem estes altos e baixos?

Por isso conversamos com o músico para entender mais sobre o momento e produção. Foi um papo agradável que é uma honra compartilhar com vocês.

Como está essa nova fase em carreira solo, agora lançando seu segundo disco, Crux?

Eduardo Praça: “Estou me sentindo muito bem com o lançamento do álbum, apesar da demanda triplicada de trabalho.

Acho que por ter as decisões técnicas e criativas concentradas em uma só pessoa, a quantidade de energia exigida é enorme, mas proporcionalmente frutífera e prazerosa.

Cada passo pra dar vida ao álbum foi bem exaustivo, dei tudo de mim nesse processo, então agora receber o carinho de pessoas que enxergam o trabalho sendo feito é muito emocionante.”

A faixa de abertura “Deságua” tem uma letra angustiante e pessoal, como no trecho: “Vivo baseado no passado, remoendo meu futuro, as custas de tanta vaidade”.

Haveria alguma relação com seu último projeto que chegou ao fim, Quarto Negro?

Eduardo Praça: “De forma um pouco inconsciente, mas acredito que sim. Fazer parte do Quarto Negro durante quase 7 anos de atividades ininterruptas tiveram um peso enorme na minha pessoa e no meu crescimento como artista, acho natural que essa trajetória fosse relatada no álbum.

Ao mesmo tempo, Crux é um disco que busquei romper com algumas amarras e a maioria das letras do álbum retratam esse desprendimento, de olhar pra si e seguir em frente.

“Deságua”, assim como “Reflexo Turvo” e “Crux”, são faixas que retratam isso de maneiro bem leal aos meus sentimentos.”


Apeles - Rodrigo Bueno

Eduardo Praça – Foto Por: Rodrigo Bueno


Tenho a sensação que Crux é um disco mais confessional que Rio do Tempo. Como aconteceu a produção desse novo disco para você?

Eduardo Praça: “Sem dúvidas. Rio do Tempo foi escrito em um período muito mais extrovertido da minha pessoa, feito praticamente na noite ou na pós-noite, muito mais impulsivo e espontâneo.

Já o novo álbum tardou muito mais para ser completado desde o começo das composições até o dia do lançamento.

Passei por muitas coisas que mudaram um pouco minha visão de mundo nos últimos anos, uma mudança de país por certo período.

Foi um período de muita auto-reflexão, da necessidade de me reinventar e buscar força nas raízes mais profundas. Logo, é um disco de fato muito pessoal e sincero, feito no ápice da minha intimidade.”

É verdade que Reflexo Turvo era originalmente uma demo do Ludovic?

Eduardo Praça: “De uma maneira informal, sim. Estava tentando escrever material novo para mostrar ao pessoal da banda na época e gravei essa música de forma bem rápida em 2015 mais ou menos.

Durante o processo de composição de Crux, comecei a revistar uma série de demos pois gravo muita coisa em casa, ao ouvir ela, me apaixonei pela ideia de colocar no repertório do disco na mesma hora.

Ela tem uma estética totalmente diferente do resto álbum, é uma espécie de quebra no meio do repertório e fiz questão de preservar o instrumental da demo, nada foi regravado, apenas as vozes.”

Você também é integrante da lendária banda do underground paulistano Ludovic. Como foi esse reencontro com Jair Naves, shows de reunião e a produção de uma nova faixa após 13 anos? Existem planos de um novo disco ou shows?

Eduardo Praça:

O Ludovic é um capítulo de importância gigantesca na minha carreira. Entrei para a banda quando tinha 16 anos e foi a maior escola que eu poderia frequentar.

Apesar do hiato, nossa relação, não apenas com o Jair, quanto ao Zeek, sempre foi excelente, somos amigos e a vontade tocar e fazer música sempre existiu.

Atualmente a logística para a banda se reunir é pra lá de complexa mas é de comum acordo a vontade de produzir novas músicas. Espero que em breve!”


Apeles - CCSP


Falando em shows, haverá turnê de divulgação do Crux?

A ideia para esse álbum é fazer o máximo de shows que nos permitirem. Faz um longo período desde que estive na estrada, seja com o Ludovic ou o Quarto Negro, e não vejo a hora de materializar o álbum e encontrar todos vocês pessoalmente.

As primeiras datas da turnê são:
4.9 – São Paulo
21.9 – Sorocaba
27.9 – Curitiba
5.10 – Belo Horizonte
12.10 – Rio de Janeiro

Seus dois discos solo são tão bem produzidos e arranjados quanto seus trabalhos anteriores, quais são suas principais referências na hora de gravar um disco?

Eduardo Praça: “Esse é um elogio que me deixa emocionado. Produzir meus próprios álbuns é uma empreitada das mais corajosas que já enfrentei, passar pelo processo inteiro com o controle absoluto da sua obra, é muito desafiador.

Não existe ninguém pra se escorar além das suas próprias certezas, o que me dá um medo enorme. No fim é bem recompensador e esse disco em especial fiz exclusivamente com minhas vontades, sem nenhum tipo de amarra e restrição técnica ou estética.

Alguns dos meus produtores favoritos são o Brian Eno, Phil Spector e o meu amigo Leonardo Marques, que produziu o meu primeiro álbum.”

Você teria algum recado para os fãs? Quais são os próximos passos para o futuro?

Eduardo Praça: “Um enorme agradecimento a todo mundo que tem escutado e compartilhado o álbum com tanto carinho e atenção. Crux é um álbum que dei absolutamente tudo de mim pra que tomasse vida. Ele não podia ser mais especial, verdadeiro e dedicado.

Nossa prioridade agora é encontrar cada um de vocês pessoalmente e entregar um show tão detalhado quanto o álbum. Nos vemos em breve e obrigado pelo suporte incondicional de todos esses anos.”

Ouça Crux no Spotify