Quando pude conversar com o Haroldo Bontempo na época do lançamento do disco do Mineiros da Lua entre as referências apareciam nomes como Clube da Esquina e até mesmo a bossa nova. Algo que no trabalho do grupo de Belo Horizonte aparece como influência indireta já que a combustão da jam band nos conduz para um outro tipo de viagem astral.

Mas aí que em março, naqueles dias loucos do começo da pandemia, o jovem músico lançou seu debut solo, Músicas para Travessia. O nome, claro, nos remete diretamente a “Travessia” de Milton Nascimento.

A canção do mestre Bituca em parceria com Fernando Brant está presente em seu primeiro álbum solo de mesmo nome e conquistou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1967 realizado no Maracanazinho.

“Não existia na música brasileira nada parecido, no vasto cancioneiro brasileiro, não existia algo como “Travessia”. Não era bossa-nova, não era samba-canção, era uma canção super original, sem precedentes, de um cara chamado Milton Nascimento.”, relembrou o compositor e músico Lô Borges no aniversário de 50 anos da canção

Haroldo Bontempo Músicas para Travessia

53 anos depois ela continua a inspirar músicos como Haroldo Bontempo que graças ao amigo Artur Quintanilha, da Sentinela Discos, que pode conhecer durante uma viagem para um show em São Paulo, ganhou a luz do dia.

São 14 faixas, e um pouco menos de meia hora de duração, o que faz delas leves feito um passeio, ou melhor dizendo, Travessia. De acontecimentos do cotidiano, bom humor, poesia, experimentação, melodias metrificadas e ginga, o disco se desenrola com direito a parcerias. Algo que o músico comenta que gostou muito de experimentar neste projeto.


Haroldo Bontempo

Haroldo Bontempo também é integrante dos Mineiros da LuaFoto: Divulgação


“Virgem”

Em “Virgem”, por exemplo, Haroldo Bontempo faz a voz principal e violão, Arthur Melo faz o backing vocal e toca bongô, Pedro Theodoro (Arthur Melo e ex-Young Lights) toca shaker e charjcha (unha de lhama) e Lucca Noacco (Invisível, solo) toca o teclado Rhodes.

Segundo o músico a faixa “relata uma aventura amorosa, um encontro despojado nas íngremes ruas do bairro Serra, em Belo Horizonte, que culminou em cansaço ao amanhecer.”

Para a arte brilhar nas telas o mineiro convidou Lucca Albuquerque, músico e artista visual, para desenvolver uma animação de alguma faixa do disco. Ele acabou optando por esta canção e a solução que encontrou foi fazer tudo a mão. Animado analógicamente o vídeo consegue contar a história da canção de uma forma divertida e interativa. Até mesmo a verve psicodélica do disco de Bontempo acaba transparecendo nas curvas lisérgicas dos seus desenhos.

“..contei a historia por trás da letra, umas semanas depois ele chegou com o clipe. Fez tudo a mão! Fotografando os frames todos. Ele pegou a história da letra e passou por uma lente psicodélica, que é a praia dele. Fiquei encantado, tem várias referências da letra e da pra dar uma viajada até no que eu senti ao viver aquilo!”, diz Haroldo Bontempo em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos



Entrevista: Haroldo Bontempo

Pude conhecer seu trabalho através dos Mineiros da Lua mas você mesmo jovem produz música já a um bom tempo com diversas referências diferentes ao longo dos seus trabalhos. Conte um pouco mais sobre as suas referências e a proposta musical que quis incorporar neste projeto solo?

Haroldo Bontempo: “Gosto de acumular bastante referência, até porque gosto de muita coisa dentro da música. Com muita referência da pra se virar em qualquer contexto… Nos Mineiros da Lua uso coisas mais energéticas e tudo.

No projeto solo valorizo as coisas íntimas, as músicas que faço em casa, de madrugada, pra mim. Ai vêm as referências que gosto de ouvir sozinho, mpbs tristes, instrumentais brasileiros, samba. Tenho gostado pra explorar mais o violão, e guiar com ele a composição, é um ótimo estudo!”

Vejo que seus trabalhos também têm um aspecto bastante colaborativo como a parceria com o Arthur Melo, que acontece também nesta faixa que ganha clipe, e o trabalho com a Sentinela Disco. Conte mais sobre esses desdobramentos, parcerias e como isso foi se desenhando.

Haroldo Bontempo: “Virgem” foi algo muito espontâneo, ela já nasceu com o Arthur do lado, tocando bongô. As demais colaborações vieram de ideias de arranjo e de uma vontade de pegar emprestado o talento dos meus amigos.

Foi bem legal abrir as composições pro pessoal enriquecer e as tornar mais universais. Quero continuar fazendo parcerias, explorarando mais, sendo mais plural.

A Sentinela Discos é o projeto do Artur Quintanilha, que conheci no primeiro show do Arthur Melo em SP, de cara a gente se deu bem. Mostrei minhas músicas pra ele, que gostou muito e me incentivou demais, se não fosse pelo incentivo dele eu nem teria gravado o disco.”

O clipe é uma criação assinada por Lucca Albuquerque, conte mais sobre o brainstorm, técnica, processo de criação e narrativa que quiseram construir para que se relacionasse com a temática da faixa.

Haroldo Bontempo: “Lucca é um grande amigo meu, acompanhei ele começando a fazer vídeos e de cara gostei muito. Um dia virei pra ele e falei que queria que fizesse um clipe pra mim, dei total liberdade, ate pra escolher a música!

Ele escolheu “virgem”, ai eu contei a história por trás da letra, umas semanas depois ele chegou com o clipe. Fez tudo a mão! Fotografando os frames todos. Ele pegou a história da letra e passou por uma lente psicodélica, que é a praia dele. Fiquei encantado, tem várias referências da letra e da pra dar uma viajada até no que eu senti ao viver aquilo!”

Muito se fala sobre a ótima nova geração de músicos de Minas Gerais. Uma cena que abraça diversos estilos, propostas e discursos mas que só cresce a nível nacional a cada ano. Como você observa isso e o que de bom destacaria para os leitores?

Haroldo Bontempo: “Realmente BH tá um caldeirão. Dei uma sorte danada de entrar logo quando começou essa efervescência. O pessoal do rap ganhou muita notoriedade também, e tão botando muita gente pra cima, bem bonito ver isso.

Gente de cenas passadas se juntando com gente nova, todo mundo se movimentando. To curtindo muito a GINGE, um projeto de pop rock triste com shoegaze, lembro do Nando me falar disso tem anos, fiquei bem surpreso!”

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