A Drápula é o tipo de banda que até quando tenta se alinhar ao Zeitgeist baixo astral do momento…consegue produzir algo divertido, jovial e dançante. Talvez porque o que mais precisemos no momento seja mesmo esse abraço mesmo que à distância.

O processo inclusive foi realizado com a ajuda da tecnologia. A música só foi possível graças aos smarthphones, já o clipe graças a internet, e claro, a experiência audiovisual dos integrantes que trabalham em produtoras.

Dirigido por Pinx o vídeo foi gravado através de chamadas com Vini, Cris e Duane, no melhor estilo reunião no zoom. A veia cômica do grupo que costuma trazer referências da cultura pop, do retrô-oitentista aos mesmo, transparece no clipe que apresenta uma nova personagem, a fofa Drapulinha (design de Geórgia Ayrosa).

Já a arte dos cenários foi trabalhada em conjunto com o que se tinha à disposição, assim como a fotografia. Assim exercitando o lado do it yourself do grupo formado em Niterói, no Rio de Janeiro.

O novo single “Comer Frutas” também marca a entrada do tecladista Cris na Drápula. Uma curiosidade é que agora 3/4 da banda também integra a banda que acompanha o músico Matheus Who. Além disso, é o primeiro single a ser lançado via o selo Primata Records.


Drápula - Comer Frutas

DrápulaFoto: Montagem de Quarentena


Drápula “Comer Frutas”

O lado da pesquisa por referências antigas e modernas sempre marcou os lançamentos da Drápula e isso parece que não vai mudar tão cedo. A vaporwave e a psicodelia já se faziam presentes nos lançamentos anteriores e agora eles decidiram fazer um mash-up de gerações de uma forma bastante divertida e com direito a tons pastéis psicodélicos.

Além de incorporarem ainda mais os sintetizadores, eles foram atrás de revistar Los Hermanos, ouvir o novo disco dos Strokes, tirar poeira dos LPs da Rita Lee e viajar na leveza indie do Mac DeMarco e companhia. Sem esquecer, claro, de uma das maiores influencias dos fluminenses, o The Growlers.

O resultado dessa salada é “Comer Frutas”, uma música feita na Quarentena, sobre a Quarentena, mas com o lado debochado e serelepe que tem marcado até então a trajetória da Drápula.

Os teclados inclusive tem algo de Guilherme Arantes, guitarras pops com a energia do Lulu Santos e vocais lentos para dar a energia do desacelerar do momento. Tudo isso ainda brincando com a bossa em seu final e não deixando de entreter quem está em casa. E talvez seja tudo que você precise hoje: rock jovem, com swing e alto astral.



Entrevista: Drápula

Conversamos com o Drápula para saber mais sobre o que eles tem aprontado nesta Quarentena que está sendo fértil para elaborar e desenvolver projetos.

Diversas bandas neste período de isolamento social tem produzido materiais, entre gravações e videoclipes, a distância. Como tem funcionado para vocês essa dinâmica? Já era algo que tinham experimentado antes? 

PINX: Foi só nessa situação de isolamento que conseguimos realmente nos mobilizar à distância para produzir um som. Mas em “Comer Frutas” isso se fez necessário. O que eu fiz foi produzir uma demo básica sozinho e a partir dela os outros três foram construindo suas performances. Mas sempre discutindo referências, um metendo o bedelho no que o outro fez. 

Foi uma experiência interessante, que vai se repetir algumas vezes ainda, mas mal posso esperar pra estar os quatro juntos tocando. Pela primeira vez inclusive. Esse lançamento também marca a chegada do nosso bróder Cris, que também toca na Vulppe e na banda do Matheus Who (essa também com Duane e Vini). 

DUANE: Às vezes essa gravação à distância era feita com alguma demo, só para que o resto da banda tivesse uma noção de como a música estava soando naquele momento. Mas como a gente sempre podia se encontrar e tocar as músicas presencialmente, não era algo muito comum. Particularmente pra mim, precisar gravar coisas em casa foi um grande salto, pois eu não tinha um bom setup de gravação. Precisei comprar equipamentos e aprender a usar alguns softwares. Porém a independência que isso me deu foi importantíssima e me ajudou a poder contribuir 100% com o trabalho das bandas que participo.

A Experiência

CRIS: Foi a primeira vez que fizemos algo desse tipo e foi uma experiência muito louca. O Pinx atuou como diretor do clipe, nos ajudou a montar os cenários, posicionar as luzes e esteve sempre “presente” durante as gravações. No final das contas também colocamos individualmente alguns elementos criativos e chegamos em um resultado bem a cara da banda, dá pra ver que foi um processo muito divertido pra todos nós.

VINI: Pra mim, que atuo em vários projetos, é interessante ver como cada banda se adapta à interação e produção à distância. O mais instigante é ver de fato a nossa vida no computador, internet, vídeo-chamadas, memes e redes sociais como uma extensão da mente e personalidade. A música captura justamente esse período, essa pausa e adaptação do dia a dia e o que a gente tem feito pra não pirar. 

Por um lado foi uma quebra de expectativa, porque a gente escolheu dar uma segurada no álbum de estreia. A gente quer fazer um estardalhaço, vários clipes, shows e principalmente gravar e produzir junto como se deve. Por outro foi uma oportunidade de rever o que é a Drápula, de trabalhar nossa estética e exercitar música sem as amarras de um projeto de conjunto de músicas, o que costuma ser um trabalho mais complexo.

É o primeiro lançamento de vocês na Primata, como vem a entrada no selo e como acha que podem somar? A ideia é um trabalho maior ou trabalhar singles?

VINI: Acho que a grande parada de um selo é somar num movimento junto com a galera que já está lá. Nós somos amigos tanto da produção quanto dos artistas que já estão no casting e nos identificamos com o que o pessoal traz de mensagem e estética. Claro que estar num selo traz todas as vantagens de ter alguém pra ajudar na parte executiva, distribuição e esses corres chatos, mas pessoalmente o que mais me atrai é estar mais próximo de outros artistas e integrar uma cena que você se identifica, fazer parte dos eventos e trocar ideias e experiências, faz você se sentir parte de algo real. Na correria, é fácil se esquecer que música independente é um trampo coletivo e todo mundo tá junto pra se ajudar.

CRIS: A entrada no selo me parece um movimento natural, que ocorreria mais cedo ou mais tarde. O fato de ¾ da banda tocar na banda de apoio do Matheus Who, por exemplo, mostra que essa galera é a nossa galera também. A ideia é fazer uma grande parceria, eu entrei na banda em um momento muito louco e já fui convocado para participar da produção de um álbum, mas com essa loucura da pandemia mudamos um pouco o nosso foco, montamos esse single com o maior carinho e vamos nos planejar para que tudo seja feito da melhor forma possível.

A Crew do Selo

PINX: Todo mundo sendo fã de todo mundo, essa união era questão de tempo. Só tem artista que a gente acha foda: Ambivalente, Matheus Who, João Barreira, Vitor Milagres, dadá Joãozinho. Pra mim o legal é que cada um faz um som muito específico e sob o guarda chuva Primata esses estilos conversam e se completam, me atrevo dizer. Acho que a Drápula nesse grupo acrescenta tanto à diversidade quanto à unidade.

DUANE: Nós já somos muito amigos do pessoal da Primata à algum tempo. Dividimos, durante o segundo semestre de 2019, um espaço no Estúdio Mata em Niterói. Então já estamos vivendo essa dinâmica de produção juntos à algum tempo. A parceria só está sendo oficializada agora, porque só agora temos um material para lançar. Fico muito feliz de estar nesse selo junto com tanta gente talentosa e amiga. 

PINX: Antes do caos desenrolar esse ano, a gente estava produzindo o nosso primeiro álbum e filmando tudo (que acabou virando a série “Ensaio & Lanche” no IGTV). Mas quando eclodiu a pandemia, resolvemos adiar o projeto por tempo indeterminado e resolvemos focar na produção de singles até que exista clima para lançarmos nosso primeiro álbum sarcástico-futurista sem medo de ser feliz.  

A composição é bastante literal mas ao mesmo tempo também carrega um pouco do lado debochado do Drápula. Conte mais sobre os backgrounds tanto da letra como das referências que foram buscar.

PINX: Escrever sobre a atualidade sem soar piegas é difícil à beça. Queria escrever sobre ficar deprê sem ser deprimente. Sobre ficar bem sem ser auto-ajuda. O jeito que eu encontrei de fazer funcionar pra mim foi “anacronizar” a narrativa, fazer com que não fosse só sobre isso aqui que a gente tá vivendo. No final das contas é uma música sobre lidar com a angústia e quando eu me dei conta disso, estava comendo uma tangerina. Assim foi titulada a canção. Fiquei admirando esse design de produto incrível que essa fruta tem e essa experiência me fez me dar conta da importância que os pequenos prazeres têm. A partir daí a música se escreveu praticamente sozinha. 

O corona agora representa essa ansiedade da letra. Mas quando passar, outra coisa vai causar uma outra angústia e acredito que infelizmente a música vai continuar fazendo sentido em outros tempos. Afinal, ainda somos brasileiros. 

DUANE: Em questão de sonoridade, acho que foi uma música fundamental para a definição do atual som da banda. Todas as referências estavam muito claras na nossa cabeça e acho que conseguimos colocar nossas personalidades na música como nunca antes.

As Referências

PINX: A primeira demo que eu fiz para dar início ao processo de produção tinha muito de Los Hermanos. A guitarra com som de Gianinni antiga, o solo gigante de sintetizador que era um aceno a “De Onde Vem A Calma”. A bateria é programação de samples da minha tosquíssima bateria Pearl. Essa é uma demo curiosa. Ela mudava do nada para uma “outra música” como se tivesse trocando o lado da mixtape e entrava um plágio de Strokes. (se quiser ver qual é dessa demo clique aqui)

Mas um cara que a gente foi muito atrás de referências de som é o Mac Demarco, mais especificamente do álbum “Another One”. Também os Strokes, principalmente no disco novo New Abnormal. Os sintetizadores nessa música estão mais na cara que qualquer outra música nossa. Tenho encontrado cada vez mais na Rita Lee uma grande referência de discurso irreverente, engraçado, debochado ao mesmo tempo importante, relevante e único. Mas não só discurso, ela é uma síntese de elementos visuais, musicais e conceituais que se relacionam muito com a Drápula. Muito rosa, muito David Bowie, muito brasileira, muito debochada. Eu amo a Rita Lee.

Uma banda que era muito referência de sonoridade, são os The Growlers com som retrô pop de fita cassete. Mas nem quero falar muito disso porque recentemente rolou uma onda de relatos de assédio da Burger Records, muitos envolvendo membros da banda. Fiquei bem decepcionado e triste. Eu até estou com uma camisa da banda no clipe!!! 🙁

VINI: Pinx mandou bemzão.

CRIS: Essa é com o Pinx né, vou apenas deixar meus sinceros elogios porque acho ele um baita compositor, a forma que ele tem de passar a mensagem é muito especial e dá a maior personalidade pro som da banda.

O processo em si do videoclipe parece ter sido uma aventura. O resultado final surpreendeu vocês? Acredita que o fato de vocês já terem experiências anteriores com gravação de clipe ajudou neste momento? Teve algum fato engraçado ou interferência externa, como por exemplo a internet cair, durante a gravação? 

DUANE: O Pinx foi muito feliz na idealização do roteiro, quando nos apresentou uma “história” concisa que guiaria o clipe. Em “Comer Frutas”, eu sinto que som e imagem casaram super bem e a música ganhou uma personalidade muito mais clara. Foi muito legal também a nossa parceria com a Geórgia Ayrosa, que criou nossa nova personagem, a Drapulinha, que aparece no clipe, na capa da música, em peças de divulgação e promete voltar de diferentes maneiras possíveis. A gravação do clipe à distância, por incrível que pareça, foi super tranquila e tivemos pouquíssimos contratempos. Foi um momento de grande aprendizado e descontração.

PINX: Para fazer acontecer eu concentrei a produção do clipe em mim assumindo a direção, escrevendo roteiro, editando e animando a Drapulinha. Queríamos mostrar as nossas “madrugas produtivas” e a Drapulinha foi o elemento que fechou a tampa do conceito da narrativa. Pensamos que podia existir um bichinho que habita ambientes escuros, que toca um som maneiro e que sai de madrugada buscando pessoas para inspirar e transformar. É um ser que depende não só do escuro mas também de música boa, então é realmente questão de sobrevivência. 

O Resultado

VINI: O resultado final definitivamente me surpreendeu. Estando longe não dava pra sacar muito bem como a imagem do resto dos meninos tinha ficado. Com certeza nossas experiências com clipe anteriores ajudaram. Além disso, eu e Pinx temos experiência com cinema e set de filmagem, eu no Som e ele na Direção de Arte e na Produção. Então fizemos tudo como manda o figurino: decupagem de planos, roteiro, argumento, ordem do dia. Foi fundamental para manter a produtividade e organização. 

CRIS: Fiquei sim muito surpreso com o resultado final. Não esperava algo no nível que ficou, levando em conta que nunca fizemos nada parecido. Eu entrei na banda logo antes do single então não estive junto dos caras na gravação dos outros clipes, mas tenho a total certeza que ajudou.

Eles já chegaram com um preparo, o que deu o maior gás pra mim que sou um total leigo em gravações de vídeos. Eu diria que todo o processo de gravação já foi um grande fato engraçado, foi muito descontraído e tranquilo. Só pra não deixar de citar algum fato, alguns posicionamentos de câmera foram bem difíceis de achar, tem cena por exemplo que foi gravada com a câmera dentro do congelador pra achar o melhor enquadramento.

O Contratempo e a Mecânica

PINX: Para mim o fato mais engraçado, mas conceitualmente IMPORTANTÍSSIMO, é resolver começar o clipe com Duane indo cagar. 

VINI: Pra gravar a gente se ligava por videochamada. Quem tivesse gravando as próprias cenas no dia com o celular testava ângulos, figurino, iluminação e performances e mandava rapidinho na nuvem ou mostrava a tela do celular no vídeo mesmo. Os outros três opinavam na hora pela chamada a gente ia ajustando até o take valer. Pinx coordenava tudo pois ele que ia editar e também ia riscando a planilha. Durou mais ou menos uma semana mas foi surpreendentemente dinâmico.

Vocês planejam ações digitais durante esse período de restrição de shows? Como tem observado essas possibilidades de interagir? 

DUANE: Essa pandemia tornou a nossa já importantíssima interação virtual com o público da Drápula, fundamental. O momento é de responsabilidade com as recomendações médicas. Nós artistas também temos a responsabilidade de levar arte a um público cada vez mais duvidoso do futuro do país e à mercê da maior crise de saúde dos últimos 100 anos. 

CRIS: Lançamos recentemente uma série de vídeos chamada “Ensaio & Lanche”, cujo conteúdo é de recortes curtinhos dos ensaios da banda em uma época que ainda podíamos nos reunir numa sala pequena e todo mundo se abraçar. Agora temos que ser criativos para continuar com uma relação gostosa com nosso público. 

PINX: Durante esse período eu fiz uma única apresentação live no Instagram da Drápula para o Festival Artevista. Foi muito bacana e pretendemos fazer mais, incorporando mais elementos à configuração voz e violão. Ainda não entendemos como, mas queremos fazer uma apresentação mais próxima da estética que a gente tá começando a propor.

A Articulação da Drápula e o Drapucast

VINI: Com certeza. A gente quer voltar a trabalhar no álbum mas realmente nos desanima o lance de não poder rolar show ou até mesmo produção de clipe com equipe grande ou uma galera participando no vídeo. Participamos numa música com As Mulheres Que Correm Com Os Loucos que sai em Setembro e Outubro vamos soltar outro single com clipe para manter a constância de material novo todo mês. Recentemente surgiu a ideia de fazer um podcast nosso ao vivo.

CRIS: Estamos experimentando a banda nesse formato de podcast. A gente vai bater um papo tranquilo, levar convidados bacanas, fazer uns quadros engraçados e falar de música. 

PINX: A gravação do DrapuCast acontecerá ao vivo nas noites de quintas-feiras na Twitch. O programa sai numa versão finalizada na terça seguinte no Youtube, Spotify e demais streamings de podcast.

Ouça o Single no Spotify