A Quarentena também tem rendido bons projetos, alguns que se não fosse por ela provavelmente demorariam um tempo para ganhar a luz do dia – já outros nem existiriam. Para Matheus Fleming que fez parte da ótima banda Câmera, e atualmente integra a nova formação da Young Lights, foi a oportunidade perfeita para produzir, gravar, mixar e masterizar em casa durante este período de isolamento o disco O Fim é o Começo.

Aliás o processo foi bastante artesanal já que o músico também foi responsável por gravar todos os instrumentos presentes no novo lançamento; ele foi responsável também pela capa que faz referência ao pintor surrealista belga Magritte.

“Quis colocar na capa algo que captasse esse deslocamento que estamos vivendo atualmente. Está tudo fora do lugar, não tem nada normal em 2020”

Inclusive a rotina da quarentena tem tudo a ver com a temática central do álbum: as grandes mudanças em nossas rotinas devido ao isolamento social e a pandemia do COVID-19.

“Para este álbum optei por um formato diferente do anterior O Estado das Coisas, de 2017, quando o foco principal não é mais só a guitarra. Todas as músicas foram pensadas numa estrutura de banda mais comum, com baixo, bateria, teclado, guitarra… e com uma novidade para mim, que foi cantar. É a primeira vez que coloco minha voz em um registro sonoro”, revela Matheus.


Matheus Fleming - Foto Por Flávio Charchar

Matheus Fleming (Câmera, Young Lights) – Foto Por: Flávio Charchar


Matheus Fleming O Fim é o Começo

O álbum conta com 5 faixas e aproximadamente 27 minutos de duração no total. Conceitual por si só, o trabalho não tem medo de experimentar desde a sua percussão, passando pela sua distorção, bases e melodias. Nem por isso o capricho em seu acabamento, e camadas, fica de lado.

O músico além do trabalho ao lado das bandas previamente citadas também é produtor o que acaba fazendo toda a diferença dentro do experimento.

Além de assinar a produção dos seus álbuns solos (O Estado das Coisas e Lembranças do Futuro (trilha sonora da série Cartas ao Cinema) ele ainda teve a oportunidade de trabalhar com Bruno Faleiro, (Sci Fi, 2016) e recentemente com Erik Batista no disco Mu(n)do (2019).

Assim como nosso mundo que atualmente anda de cabeça para baixo não só pela quarentena mas pelos valores invertidos, o disco reflete um pouco deste clima de apatia e de dificuldade de enfrentar tanto nossas lutas coletivas como nossas batalhas particulares.

Faixa a Faixa

As curvas e mudanças de humor da nossa rotina pouco saudável do isolamento acabam transparecendo nos ritmos, melodias, ambiências e alterações entre as faixas. Na primeira faixa, “Doismilevinte”, Matheus Fleming inclusive deixa claro o conformismo com a situação da reclusão em si.

Em “Entropia” ele reflete sobre o consumo e o estilo de vida monótono deste momento todo diferente. “Fora de Mim” traz o destempero, a melancolia e evidencia os dias ruins psicológicamente. “Projeção” navega por um oceano profundo em busca do autoconhecimento.

Quem fecha é emotiva e intensa “Enquanto Estivermos Aqui” que conta até mesmo com uma gaita em sua introdução e os vocais ganham o protagonismo entre guitarras lo-fi, distorções e epifanias. Nela ele trabalha ainda mais as camadas, experimentação e colagens. É daquelas para fechar o olho e deixar se levar por seu teclado hipnotizante.

É como se estivéssemos presos numa espiral entre o mundo dos sonhos, a rotina e o portão de casa. O disco encerra da mesma forma como começou, sem sair da quarentena e com poucas respostas…afinal de contas tudo tem sido uma experiência compartilhada coletivamente e qualquer conclusão seria extremamente precipitada.

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