Uma sociedade em colapso. Infelizmente não é de hoje. Não é um caso isolado, não são apenas os valores e o acúmulo de derrotas sociais que se empilham. São verdadeiros muros. Emparelhados, feito as casas geminadas, eles afastam cada vez mais a possibilidade de construir diálogos e futuros. De encontrarmos saídas dentro desse labirinto hostil em que o mundo tem se tornado. Essas barreiras transparecem nos versos de Ana Larousse de uma forma delicada que chega a arrepiar tamanha sua sensibilidade.

Embora a inspiração venha justamente da sua pesquisa compulsiva de livros em torno do conflito israelo-palestino, ela conseguiu traduzir tudo aquilo de uma forma tão universal que o uso de metáforas acabou encaixando no momento atual. Uma canção que fala sobre o quanto muros podem nos afetar das mais diversas formas como sociedade acaba, por sua vez, se ressignificando no período de isolamento social.

Os privilégios acabam ficando ainda mais expostos. Desde o sufocamento do sistema de saúde, ao acesso a educação online e o mercado de trabalho. Isso de imediato. Mas é claro que eles não param por aí na escala da sociedade.

O racismo, a homofobia, a aporofobia, a falta de empatia e humanidade, o valor de uma vida e as barbáries acabam aumentando a cada dia a altura dos muros. E se você ouve a canção de peito aberto, a identificação com nossos tempos será imediata. Uma música composta há 5 anos.


Ana Larousse por Coagula

Ana LarousseFoto Por: Coagula


Ana Larousse “Muro”

Após um hiato de quase dois anos, a poeta, compositora, cantora e musicista Ana Larousse está de volta com o single “Muro”, a faixa foi produzida por Érica Silva, da Mulamba.

Gravada por um coletivo de mulheres formado por Bia Cervellini (violino), Ana Paula Cervellini (viola), Fer Koppe (cello), Bruna Buschle (contrabaixo), Érica Silva (guitarra e voz), Lilian Nakahodo (teclas e synths) e Larissa Conforto (bateria), a faixa foi lançada oficialmente em agosto do ano passado na Coletânea Sêla de Produtoras Musicais.

O Videoclipe

Na mesma época a faixa teve o clipe produzido e desenvolvido pelo duo Coagula, formado pelos fotógrafos Paloma Bertissolli e Dennis Siqueira.

“Gravamos esse vídeo há quase um ano, mas por inúmeros pequenos motivos, decidi esticar um pouco mais o período de espera para jogá-lo ao mundo. Tanto a música quanto o vídeo são acolhidos pelo contexto atual de maneira quase impressionante”, explica Larousse.

“Como no vídeo, estou sozinha enquanto a cidade quase vazia. Há mais de dois meses sozinha. Daqui, desse lugar sozinho, vejo e ouço muitos amores meus ou amores de amores meus sofrendo consequências incrivelmente tristes devido à pandemia e ao que é o mais bárbaro governo possível.

Hoje fica muito escancarada a verdade de que, como se fala na música, ‘subiram o poder da gente de decidir quem vai viver’. O Brasil está escolhendo quem vive e não são os pobres. Isso está sendo mostrado, articulado, exposto às entranhas sem muro nenhum que esconda. Sem vergonha. Estamos todos vendo isso”, desabafa Ana Larousse

O Fascismo à Brasileira

“A ideia e a concepção desse clipe vieram no começo do ano de 2019, num momento onde aconteciam diversos movimentos turbulentos em um país que acabara de eleger o fascismo em sua presidência. Na época, sabíamos o que enfrentaríamos, mas nunca imaginamos tamanha proporção desse presente distópico em que nos encontramos”, explicam os diretores.

“O lançamento do material acabou sendo adiado por diversos motivos no curso do ano, quase como que por vontade própria estivesse aguardando o momento ideal pra sair. Profético ou apenas esperado, o universo que construímos aconteceu e estamos muito orgulhosos do resultado desse trabalho.”, completam

As Nuances da Produção Audiovisual

“A minha escolha de me colocar de costas no vídeo andando, sem mostrar meu rosto e sem outros elementos para além da cidade, veio da minha reflexão sobre meu lugar de fala nessa canção.

Eu sou mulher, me relaciono com outras mulheres, sofri violência sexual pesada e alguns episódios mais duros de homofobia.

Ainda assim, todo o resto da minha realidade é inteiro feito de muito privilégio. Existem pessoas (mais do que se consegue contar) que sofrem uma existência inteira por conta desses muros. Acaba que meu lugar fica muito mais de observadora”, define Ana Larousse

A Emoção na Tela



A delicadeza da produção aparece nos mais mínimos detalhes, que vão da cidade vazia, passando pela escolha da filmagem em P/B, a sensação de isolamento e o incômodo da calmaria de uma cidade antes viva. O fato de Ana estar de costas semioticamente já nos passa uma sensação de desconforto.

Os violinos dão todo o drama da trama e os muros vão subindo a cada verso recitado, que por sua vez, acaba traduzindo todo o momento delicado política e socialmente no país.

Cada frase vai ganhando ainda mais significados sob o cenário do acinzentado – e hostil – do centro de São Paulo. Os conflitos acabam sendo explicitados em uma canção na qual a voz emociona através da sinceridade em que traduz seus versos.

O cinza dos contornos da cidade se emaranha nas vigas dos muros e no instrumental que ganha a tela e coincide com o fim do vídeo e da canção. A vontade de fugir se choca com a que luta para sobreviver. O sentimento após assistir é de que a luta apenas começou.

Entrevista: Ana Larousse

Conversamos com Ana Larousse para saber mais detalhes sobre a composição, concepção, libertação e todos os outros muros. Confira a entrevista!

A música mesmo já tendo um tempo do seu lançamento dialoga assustadoramente com nossos dias entre as lutas diárias, o confinamento, seja ele da quarentena, seja os conflitos políticos, os dilemas da nossa frágil economia ou a situação da saúde pública.

Como observa o momento e o que estava sentindo na época da composição?

Ana Larousse: “Eu estava numa fase de leitura compulsiva de livros em torno do conflito israelo-palestino, mergulhada mesmo.

A letra e a melodia vieram de uma vez e muito rápido, como que meu corpo vomitando de mim aquela tristeza toda que eu não parava de ler. Mas meio que no meio da música, enquanto eu cantava a melodia e escrevia a letra torto num papel, me veio um “porque que eu estou indo tão longe pra falar de muros? Olha pro país onde cê vive…”.

Os nossos muros aqui são menos óbvios do que o literal muro da Palestina e a guerra aqui não se baseia em fronteiras geográficas. Digo isso, porque sinto ser um erro grande que cometemos, em especial nós brancos.

A gente olha pros muros e questões sociais lá de fora. Olha com dor – fingida ou não -, romantiza até, tão distante e literária nos parece. Enquanto se acostuma, aceita e naturaliza horrores daqui de perto de nós. É o exemplo recente da terrível morte de George Floyd e a comoção que isso tem gerado aqui no Brasil.

A Realidade no Brasil

O povo preto sendo exterminado aqui e o país chora quando morre um preto lá nos Estados Unidos. Uma semana antes foi a vida de João Pedro a ser brutalmente impedida aqui. A comoção da população branca em geral, não veio. E não vem. E é todo dia. Aqui no Brasil é todo dia.

Essa questão foi algo que veio muito forte quando escrevia a música. É claro que também posso passar pelos muros que enfrento não sendo heterossexual, sendo mulher fora do padrão de beleza, sendo artista e enfim. São vários e em vários tamanhos, né? Mas é surreal que existam fronteiras e barreiras gigantescas que causam o horror sendo tão simplesmente ignoradas.

Agora o que tem me parecido ainda mais atroz nesse momento em que vivemos, é que a barbárie está acontecendo sem que se tente disfarçar. Está todo mundo vendo, está sendo mais midiatizada do que nunca, está escancarada e ainda assim, estamos aqui, assistindo a isso, vendo um país inteiro aceitar isso.

Vendo um Estado não somente naturalizar a barbárie como propor das piores delas. Não tem nem muro mais que esconda. A sensação que tenho é que o povo de um lado do muro derrubou ele e veio pra cima pra exterminar de vez o outro lado (o mais pobre, claro). E a gente aqui vendo isso.

O Muro da Ignorância

Enquanto escrevo aqui, penso no tamanho de muro que é a ignorância. Em especial essa que vem sendo deliberadamente promovida pelo atual governo. Como é que se derruba esse muro?

É o que tenho me perguntado todos os dias e é o que espero conseguir minimamente fazer, em escalas proporcionais à minha capacidade e ao meu alcance. Derrubar esse muro talvez seja, ouso improvisar, o que de mais essencial tem a se fazer.

Ou ao menos, seja o meu lugar nessa briga. Ignorância de não saber e por ignorar. Ignorar os números de mortos por Covid-19, ignorar o extermínio dos povos indígenas e do povo preto, ignorar o racismo estrutural, ignorar a transfobia, ignorar o neofascismo vigente. Ignorar e, por consequência, tornar ignorante. É um baita muto grande, né?

Espero ter conseguido colocar bem o que quero dizer…”


Ana Larousse por Coagula

Ana LarousseFoto Por: Coagula


Como foi o processo interno para traduzir todas as dores e passagens terríveis que teve ao longo da vida em música? Foi libertador? Como sente a recepção de quem pôde ouvir a coletânea?

Ana Larousse: “Foi libertador sim. É ainda. Quando a gente pega uma dor nossa e encaixa ela nos símbolos das palavras, ela já se torna algo muito mais facilmente encarável, o bicho que assusta parece tomar uma forma mais fácil de se entender pra combater, sabe como? Agora a libertação mesmo acontece quando você expõe isso.

Expõe aquelas entranhas tuas ali, disfarçadas de canção ou poesia, e outras pessoas ouvem-leem aquilo e choram ou gritam suas dores que não têm nada a ver com as tuas. Tu entrega as palavras onde encaixou tuas bagunças e as pessoas tomam pras elas e pras bagunças delas.

Nesse momento, a dor se dissipa, se toma de outra forma e é lindo ver isso acontecer. Aquela dor não é mais só tua e o acolhimento calado que isso promove, pelos dois lados, faz tudo ter qualquer coisa que se pareça com ter algum sentido. É libertador.

O Lançamento da Coletânea Sêla

Na época do lançamento da coletânea, onde eu estava também envolvida como produtora junto da Sêla, eu não dei a atenção devida à saída desse single meu, genialmente produzido por Érica Silva (Mulamba). Por motivos diversos, eu havia optado por fazer mais barulho no lançamento dele quando viesse o clipe.

Então o retorno, na época, foi em escala curta. O curioso é que desde o início da quarentena e da pandemia, tenho sido diariamente marcada por pessoas em seus stories tocando “Muro” e sempre falando algo como sendo uma música que descreve perfeitamente o momento em que estamos vivendo.

Mais curioso ainda, é que entendo que esse “momento que estamos vivendo” tem entendimentos variados, nos comentários relacionados à canção, entre diversas questões que atravessam nosso país. Acaba que uma letra que começou pra se falar de algo bem específico se torna absolutamente aberta. É bastante triste que se tenha tanta coisa a associar a uma letra dessas.

Escrevi ela tem 5 anos e é atual. Se tivesse escrito ela há 50 anos, 100 anos, também seria atual há 50 ou 100 anos atrás. E o medo é sentir que ela talvez demore a se tornar obsoleta.”

No clipe o vazio da cidade, o sentimento à flor da pele e a busca por motivos por continuar marcam presença.

Como sente que ele se ressignificou? Conte mais sobre as inspirações sejam elas cinematográficas, como da vida.

Ana Larousse: “Foi bem assustador rever o clipe nesse momento em que se vive e se fala sobre isolamento social, sobre deixar as cidades vazias. Isso me deixa apaixonada. Essa vida própria que qualquer obra de arte tem, que vai se adaptando aos tempos, aos dias, aos entendimentos… Bom.

Na época, a minha escolha de me colocar de costas no vídeo andando, sem mostrar meu rosto e sem outros elementos para além da cidade, veio da minha reflexão sobre meu lugar de fala nessa canção.

“Existem alguns muros que podem sim afetar a minha realidade. Eu sou mulher, me relaciono com outras mulheres, sofri violência sexual pesada e alguns episódios mais duros de homofobia. Ainda assim, todo o resto da minha realidade é inteiro feito de muito privilégio.”

Existem pessoas (mais do que se consegue contar) que sofrem uma existência inteira por conta desses muros. Acaba que meu lugar fica muito mais de observadora. Por mais compaixão e empatia que eu possa ter ou tristeza que eu possa carregar por/com essas pessoas, não me caibo numa dor desse tamanho. Não sei nem o que é esse tamanho de dor.

Assim como eu sei o que devo fazer, sobretudo, é ouvir, sei que devo também brigar para que ouçam os que ouvem menos do que eu. E é nessa cadeia em que temos que estar. Minha intenção no vídeo e na canção é muito mais que ouçam os que sofrem barbáries por esses muros do que que me ouçam. Não olhem pra mim. Olhem pros que precisam ser vistos.”