Nada mais belo do que a atemporalidade de um trabalho artístico. Em uma indústria onde alguns consideram discos com mais de 2 anos “velhos”, ver o conteúdo se ressignificar aos olhos dos outros o torna tão cativante quanto uma taça de vinho. O Antiprisma acabou sentindo um pouco dessa dose durante o período de isolamento.

Os caminhos e percalços deste momento são inúmeros. Do caos da saúde a política, da incerteza de políticas públicas nos mais diversos âmbitos a impunidade. De um lado alguns cobrando para que sejamos produtivos, do outro um vídeo do Emicida viralizando dizendo justamente o contrário e se preocupando com a saúde mental.

Mas qual seria o ponto de equilíbrio no meio disso tudo? Para cada um que você perguntar com certeza encontrará uma resposta diferente. Seja na perspectiva como no olhar.

Seja ele otimista, como pessimista. E isso vai variar a até mesmo o dia que for feita a pergunta. Pois todos nós temos batalhas e conflitos diferentes ao longo do passar dos ponteiros daquele relógio que marca a cada dia, 24 horas, e não cansa de nos lembrar.

Antiprisma e a Quarentena

Essa Quarentena ainda prova que pode nos dar sustos. Seja com a perda de um emprego, um parente doente ou um conhecido que venha a perder a vida. São situações dolorosas que certamente causam medo. Um sentimento tão humano e que nos mostra a fragilidade da vida.

Elisa passou por um drama pessoal neste período. Durante o isolamento ela ficou sabendo que é mais um número das estatísticas de pessoas infectadas pelo COVID-19. E sabe bem que não é apenas uma “gripezinha”. Susto passado, ela felizmente se recuperou e tem usado o tempo ao seu favor. Tanto na vida pessoal como nos projetos, e é algo que lerão ao longo da entrevista exclusiva com o duo que de vez em quando é quarteto.


Antiprisma 2020

Victor José e Elisa Moreira (foto) participaram da live session do Antiprisma ao lado da Ana Zumpano (bateria) e Rafa Bulleto (baixo). – Foto: Divulgação


Meu Antigo Futuro de Sempre

De repente aquela canção lançada no ano passado, parece que ganhou vida própria. A transmutação fez com que aquele antigo futuro de sempre não ficasse datado. The times are a changin mas certamente sentimentos tendem a mudar a cada releitura, a cada execução, a cada apresentação. O tempo parece que deixou ela pronta para nos aproximar do ontem mas sem deixar de cruzar as fronteiras do hoje.

Como manda o script da Quarentena, Elisa Moreira (voz e violão), Victor José (voz e violão), Ana Zumpano (bateria) e Rafa Bulleto (baixo) gravaram respectivamente da casa de cada um sua parte.

O que quebrou uma tradição da banda que até então nunca havia sido tocada ao vivo com banda, apenas em dupla. Mas em tempos obscuros o que precisamos mesmo é quebrar tradições, não é mesmo?

A Ressignificação

“Além disso, é nosso primeiro lyric video. Durante a edição do vídeo, lembramos que vira e mexe nos pedem as letras das nossas músicas, então resolvemos colocar — ainda mais que essa é uma música bem focada na letra.

É uma versão inédita dessa música que estamos ansiosos para tocar ao vivo todos juntos, quando tudo isso acabar!”, anseia Elisa Moreira

“O que tornou ainda mais especial foi o fato de termos escolhido uma faixa que traz uma letra alinhada ao que a gente tem vivido e sentido. Engraçado ver como que as músicas vão se ressignificando com o tempo.

Ainda mais curioso é que essa é uma das nossas composições mais antigas, composta antes do nosso primeiro EP existir, na real até antes de Antiprisma ser Antiprisma. Ela atravessou todo esse tempo e agora ganha um sentido maior, finalmente com a identidade certa.”, relembra Victor José sobre a experiência.

A Session letrada



O contato com os amigos e fãs também se estende para o instagram e as redes sociais, estas que estão tendo que ser repensadas para a maioria dos projetos que ainda levarão tempo para se apresentar ao vivo e ter a experiência do contato humano.

“O Antiprisma sempre foi muito presente na minha vida. O prazer de trabalhar com eles está diretamente envolvido com a troca musical, afetuosa e pessoal. Antes mesmo da pandemia, tínhamos feito uma viagem juntos e, isso sempre foi muito positivo pra mim.

A ideia do vídeo nos deu a oportunidade de trabalhar, mesmo que a distância, conectados e em sintonia. Fizemos como sempre, cada um contribui com o conhecimento que tem em diversas áreas e assim acabamos fazendo um trabalho harmonioso”, define Ana Zumpano.

Entrevista: Antiprisma

Conversamos com a Elisa e o Victor para entender mais sobre o momento, paz espiritual, rotina e o universo a sua volta.

Quão simbólico para vocês é lançar esse vídeo agora de uma música tão poética, mas que também pode dialogar com esse momento tanto na esfera política, como também com o isolamento?

Victor: “Quando essa letra apareceu foi meio que de uma vez só. Gosto das letras que surgem assim numa enxurrada porque parecem ser um tipo de apelo do inconsciente, como se tivesse mesmo que sair aquilo, um aviso. Com “Fogo Mais Fogo” foi assim, “Um Minuto Desse Ano”, “Das Coisas”… E vejo nessas músicas esse aspecto de sentimento onipresente.

Ultimamente a gente tem conversado muito sobre cultura, supondo o que acontecerá no campo da arte em geral depois da pandemia, e a conclusão que chego sempre é que as pessoas devem estar tão carentes de contato humano que as letras de um modo geral vão ganhar mais espaço por um tempo. Palpite meu, não sei… Eu acharia isso maravilhoso e, se assim for, já era tempo.”


Antiprisma Quarentena Quarteto

Antiprisma na formação quarteto em ação – Foto: Divulgação


Como têm sido para vocês este período de isolamento, tanto no campo da vida pessoal como no desenvolvimentos dos projetos artísticos?

Elisa: “Falando por mim, não está ruim, claro que tem dias que dá um desespero, uma vontade de sair, uma falta de ver pessoas e lugares. Saudades dos amigos queridos. Eu fiquei vários dias praticamente deitada, peguei Covid-19 e morri de medo de ver alguém da minha casa ficar doente. Sem falar da ansiedade e irritação diárias por conta do rumo do Brasil, né…

Porém essa privação da vida “normal” está me fazendo refletir e identificar aspectos da normalidade da rotina que eu levava que não faziam muito sentido pra mim, inclusive me faziam mal. Nesse sentido, esta pausa forçada trouxe até um sentimento de liberdade, o que é muito louco.

Quanto ao desenvolvimento de projetos, a quarentena deixou ainda mais claro que o grande lance é arrumar o espaço dentro da sua vida para fazer o que te importa – não só o tempo, que tanto faltava antes. Tenho a sorte de estar passando por isso com o Victor, que me dá um gás a mais para seguir produzindo para o Antiprisma e seguir com fôlego no nosso projeto do coração.”

O Medo

Victor: A única coisa que me deixou mais pra baixo mesmo foi a questão da Elisa ter contraído a Covid-19. Tem também o fator Governo, que acho que qualquer um com alguma coisa na cabeça percebe que é uma lástima total, para dizer o mínimo.

De resto, apesar de estar sentindo muita saudade da minha família e dos meus amigos, os dias por aqui não têm sido tão vazios. Eu mesmo estou trabalhando nesse momento num romance curtinho que escrevi há um bom tempo e que por uma série de motivos havia deixado de lado. Acho que agora vai!

Também tenho reservado um tempo pra ler, principalmente literatura brasileira. E algumas músicas já estão começando a sair, enfim… Já queremos entrar na vibe de pensar num novo disco.”

Como observam essa dicotomia entre produzir materiais x querer ficar tranquilo na sua? Vejo muitas bandas um pouco perdidas enquanto a isso, quais dicas vocês podem dar?

Victor: “Penso que o melhor agora é produzir. Isso não significa sair lançando coisas no desespero, mas de repente botar em prática alguns projetos engavetados pode ser uma boa, sabe?

Por outro lado sei que tem muita gente que anda sem inspiração, o que é normal. Não é pra ser uma competição, sabe? O negócio é procurar se sentir bem.

Elisa: “Eu acho que se por um lado é bom aproveitar a quarentena para fazer sua arte com mais atenção, por outro não devemos ficar na pilha de sermos obrigatoriamente produtivos nesse período. Boa parte dessa pilha se deve a um valor que está incrustado em nossas mentes, de que a improdutividade e o ócio são negativos.

Precisamos acabar com essa culpa e cuidar para não perdermos esse lugar de liberdade nas nossas mentes e emoções, tão necessário para a feitura artística. O que eu diria para as bandas é para que, se forem produzir, que seja com sinceridade e seriedade e espero que se divirtam também.”

Antiprisma Hemisférios (2019)