Radical Karma lança hoje o segundo capítulo de sua história. O quarteto paulista formado por Gabriel Zander, Fausto Oi, Mateus Brandão e Fernando Martins, teve a oportunidade de fazer 11 shows em seu primeiro ano, e logo tivemos a pausa por conta da pandemia.

O que definitivamente acaba mexendo com os ânimos de todos mas depois de lançarem um single em pleno período de isolamento, eles decidiram entregar um videoclipe (“Faz”, lançado ontem) e o EP Sintomas, hoje. A produção é de Phil Fargnoli que vocês devem conhecer por seu trabalho ao lado do CPM 22, Reffer e Dead Fish.

Fato é que a ansiedade e nossos dilemas do dia-a-dia acabam entrando como tema central. Do abuso no trabalho, passando pelas expectativas, frustrações, cobranças e vontade de conquistar seu espaço no mundo. Sentimentos tão humanos que acabam criando uma rápida identificação com o ouvinte.



À Beira de um colapso

Se o mundo está em colapso seja por diversos motivos, lidar com uma crise de saúde, governamental e numa rotina diferente para todos, acaba naturalmente criando um ambiente hostil. Onde o estresse e os desabafos acabam entrando no cotidiano mais do que gostaríamos. Seja pelas notícias, seja pelas frustrações, seja pelo medo de um amanhã. Tudo se somatiza de uma forma que parece não ter fim.

O EP que teve seu instrumental praticamente gravado na época de seu antecessor foi finalizado durante este período de reclusão. Gabriel Zander contou em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos mais detalhes e histórias por traz deste momento. Ouça o registro enquanto lê a entrevista.



Entrevista: Radical Karma

Conversamos com o Gabriel Zander para saber mais detalhes sobre o EP que está sendo lançado hoje em Premiere no Hits Perdidos.

Ouvindo o EP, assim como o anterior vejo um misto de influências que passa pelo emo, o punk rock e até mesmo o rock alternativo da virada dos anos 80.

Como foi condensar tudo isso? E como enxerga a estética do projeto?

Gabriel Zander (Radical Karma): “Na verdade apesar do espaço de tempo e com exceção das letras e vocais, todo o instrumental foi feito bem próximo. Assim que terminamos o primeiro EP, já começamos a trampar no segundo fazendo uma músicas por semana e pouco mais de um mês depois a gente já tinha a estrutura das músicas prontas.

Acontece que como a gente tinha acabado de lançar o primeiro trabalho, começamos a fazer shows também e isso atrasou um pouco a gravação e a conclusão das letras, mas por outro lado tivemos a oportunidade de tocar 3 dessas músicas ao vivo antes mesmo de terminar de gravá-las, o que na minha opinião, ajudou a deixar elas mais coesas.

Também já estávamos com um entrosamento muito melhor tanto entre nos 4 quanto com o Phil, nosso produtor nos 2 EPs, e acredito que foi muito mais fácil pra ele conduzir cada um nas performances, timbres e também ter um resultado final mais próximo em mente desde o início do processo da produção.

No primeiro EP adicionamos muitos elementos bem no final do processo, nesse a gente já sabia como ia ser e fomos já preenchendo muitas guitarras, efeitos e vozes adicionais desde o início.”

A ansiedade, as cobranças, o menosprezo, os fantasmas e as culpas acabam transparecendo no mar de sentimentos do EP.

Como foi o processo de composição e de digerir todo o mal a volta? Seria uma espécie de desabafo? Como enxerga essa fase na carreira e os propósitos?

Gabriel Zander (Radical Karma): “Claro, sempre é um desabafo e sempre é de verdade. Eu “sangro” pra escrever e pra gravar as vozes também. É um enorme sofrimento pra mim. Nem sempre eu estou falando de algo que aconteceu diretamente comigo, mas sempre é a minha visão sobre alguma situação real.

Ansiedade, medo, cobranças, injustiças, depressão, culpa são sentimentos recorrentes entre nós e toda humanidade, desde sempre, mas principalmente agora com a velocidade das coisas toda informação que chega, sejam tragédias na saúde e na política pelos noticiários e meios de comunicação ou conteúdo de entretenimento tóxico nas mídias sociais.

Tudo isso é muito pesado e agrava muito esses sintomas e a nossa forma de lidar com o mundo e com nós mesmos. A fase sempre está ligada ao redor do momento atual e os propósitos são sempre colocar pra fora, desabafar, iniciar uma conversa, um debate ou apenas me conectar com outras pessoas pra saber que não estamos sozinhos e compartilhamos muitas vezes dessa mesma angústia.”


Radical Karma_Foto_Por_Pedro_Henrique

Radical KarmaFoto Por: Pedro Henrique


Pude reparar que em “E Se Fosse com Você?” vocês falam sobre abuso físico e emocional e dá a entender que seria uma crítica ao drama vivido por muitos dentro de empresas e corporações.

Conte mais sobre o que queriam passar com a faixa e as motivações por trás.

Gabriel Zander (Radical Karma): “Sim. Essa letra trata sobre uma situação de uma mulher que sofreu assédio por parte de um prestador de serviços durante o seu trabalho, pelo qual ela estava pagando.

Para se redimir ou “escapar” esse tipo de gente tenta forçar uma amizade ou até mesmo oferecer um novo serviço de graça, como se isso fosse mudar alguma coisa, mas segue como se nada tivesse acontecido, sem assumir, sem se responsabilizar ou ao menos se desculpar. Isso é muito comum, infelizmente.

Quando a própria vítima cede a esse tipo de reaproximação interesseira, uma denúncia ou crítica vinda de fora pode ser classificada como exagero, importunação ou até mesmo inveja.”

Atualmente o que mais te deixa a beira de um colapso?

Gabriel Zander (Radical Karma): “Quase tudo. Ler as notícias, pensar na minha mãe, na minha filha, no meu trabalho, nas minhas responsabilidades e principalmente em todas as pessoas que não têm o privilégio que eu tenho de poder ficar em casa, ter onde e como se manter seguro, dormir e se alimentar pra se proteger e proteger os outros disso tudo que está acontecendo.

Em contrapartida, estou me esforçando muito para me reinventar no que eu faço dentro dessa nova realidade, estudar e testar muitas coisas, tentar deixar minha filha ser criança e feliz, brincar, mas também tentar passar o máximo de consciência que ela puder ter sobre o que está acontecendo e porque estamos apenas em casa, o que é muito difícil.

Conversar bastante sobre tudo e dividir e compartilhar, sentimentos, responsabilidades, tarefas, sonhos e pequenas alegrias cotidianas ou de trabalho com a minha esposa. Ligar pra minha mãe todos os dias pra saber como ela está. Fazer chamadas de vídeos com meus amigos, e continuar compondo, gravando , produzindo, pensando, falando e respirando música todos os dias. Essas são as coisa que não me deixam entrar em colapso.”

Qual o sentimento de lançar o EP agora e como acha que pode dialogar com quem está em casa tendo que lidar com o mundo e o stress desses dias?

Gabriel Zander (Radical Karma): “Não sei ainda. Pensamos muito sobre o momento, temos total consciência de que é muito delicado e chegamos aficar apreensivos, porém, estávamos com esse material na mão justamente nesse momento e sempre tento acreditar que tudo acontece por um motivo.

Quando lançamos “em colapso”, não só a resposta das pessoas em relação à música, sonoridade e produção foi muito além do que a gente esperava de positiva, mas principalmente o grande número de pessoas que se identificou com a letra e até contou o quanto ela ajudou agora nessa momento tão sombrio e pesado que estamos todos vivendo.

Isso me deu certeza de que a gente precisa lançar esse trabalho e nos expressar e nos comunicar com as pessoas através da nossa arte e dos nossos sentimentos. Agora veremos com o EP completo como vai ser. Sei que tem o melhor e mais sincero de nós 4 e também do Phil nesse trabalho e estou muito orgulhoso dele e dos meus companheiros nesse projeto.”