9 Artistas da música africana pra ouvir durante a quarentena

A quarentena é um momento tenso que exige isolamento. E oportuno para conhecermos novas músicas. A contribuição das matrizes africanas na musicalidade brasileira é inquestionável de norte a sul vemos e ouvimos diversas manifestações que corroboram esta presença.

Apesar disso, a África contemporânea apesar de desconhecida pela maioria dos brasileiros é cada vez mais viva na cultura do país, o Hits Perdidos lista nove propostas de grupos musicais e artistas em trabalho solo que viveram ou vivem no Brasil e trazem na sua bagagem outras sonoridades até o momento pouco apreciadas por nós, bora ouvir?


Música Africana - Fanta Konatê e a Troupe Djembedon

A cantora e bailarina africana Fanta Konatê e a Troupe Djembedon apresentam “A África no Brasil”, espetáculo de dança e percussão que visa difundir a rica cultura herdeira do Império Mali, do século XIII. – Foto: Divulgação / Museu Casa Brasil


1) Obina Shok (Senegal | Brasil)

Um grupo pioneiro e de sucesso mas deixado de lado foi o Obina Shok, surgido em Brasília no meio do cenário punk local era formado pelo senegalês Jean-Pierre Senghor (vocais e teclados), neto do poeta Leopold Senghor, o falecido gabanês Roger Kedy (guitarra e vocais), o surinamês Winston Gound (bateria) e os brasileiros Henrique Hermeto (guitarra), Sérgio Galvão (sax-alto), Maurício Lagos (baixo), Sérgio Couto e Hélio Franco (percussão).

O nome do grupo musical significava “caminho da dança” (tradução da língua Miene, Gabão) eles mesclavam o pop, reggae, ritmos do caribe e a música senegalesa da década de 80 cantando em português, francês e línguas dos países africanos de origem dos integrantes do grupo. Em 1986 lançam o LP Obina Shok (RCA) ele continha a canção Vida com participação de Gal Gosta e Gilberto Gil nos vocais, ela foi o hit de sucesso do grupo a época. Ela foi regravada por Gilberto Gil e está no álbum Rhythms of Bahia do selo Snapper Music (2006). A banda não existe desde os anos 80 quando encerrou suas atividades.



2) Bukassa Kabengele (República Democrática do Congo)

Outro projeto musical pioneiro foi o do Congolês Bukassa Kabengele sua trajetória data dos anos 1980, mas, foi em 2000 com 30 anos que lançou seu primeiro disco solo “Quero viver” (Jam music), apresentando uma musicalidade influenciada pelo funk, a soul music e a MPB com letras cantadas em português.

Na mesma pegada em 2005 gravou no Brasil e lançou na França seu segundo álbum intitulado Mutoto, o repertório deste segundo trabalho utilizou-se da Rumba congolesa com batidas eletrônicas e a musicalidade brasileira cantando em português, francês, swahili e o tchiluba.

Bukassa era acompanhado pela banda de apoio Booka Mutoto, o primeiro nome Booka advém do apelido do músico e o segundo, Mutoto significa criança. Bukassa foi, também, pioneiro na organização de festas africanas na cidade de São Paulo por volta de 2000 em diante ele produziu no espaço cultural Urucum a festa Pé na África por onde passaram diversos artistas brasileiros e onde sua banda performou. O músico continua vivendo na cidade de São Paulo e produzindo.



3) Yannick Delass (Rep.Congo | São Tomé e Príncipe)

Ainda na pegada dos musicistas e oganizadores de eventos, o terceiro de nossa lista é Yannick Dellas, cantor, compositor e com dupla nacionalidade congolês são tomense, ele lançou no Brasil em 2017 o álbum Espoir (Dirs.Esperança), o repertório da obra é influenciado pela rumba congolesa, o afrobeat e o reggae.

Recentemente, lançou o clipe e single ‘Testment” em parceria com o coletivo brasileiro Treme Terra, a produção do clipe de mesmo nome ficou por conta da Coleta Filmes, a levada desta é inspirada no ritmo Kassa e nas batidas eletrônicas. Visionário como é lançou recentemente lançou o single “Balancê “(2019) em que usa da Rumba e o funk carioca na composição musical com uma letra irônica ao jeito brasileiro de falar francês.

Yannick Delass foi organizador durante dois anos da festa Gringa Music, diga-se de passagem um nome original que ressignifica a expressão “gringos” que os brasileiros usam como sinônimo para estrangeiros, o evento artistas de distintas nacionalidades se apresentavam no bar palestino Al Janiah a preços bem democráticos



4) Jéssica Areias (Angola)

Viajando da África francofônica aos países de língua portuguesa nos encontramos com a cantora, compositora e educadora Jéssica Areias. Há pouco mais de 6 anos no Brasil seu repertório sofisticado navega por múltiplas referências da música popular e folclórica angolana, a MPB, o fado e a música cubana. Jéssica tem um álbum lançado no país no ano de 2014, o Olisesa (Distr. Tratore) que significa licença na língua Umbundo.

Já fez apresentações diversas em canais televisivos, entrevistas para canais de internet e espaços artísticos como a FNAC, o extinto Gringa Music, rede SESC, além de performances por Portugal.

É uma destas artistas cujo repertório aborda temas universais e não apenas africanos fazendo uso de uma voz única com a qual ela explora diferentes tons em uma mesma canção, é o caso da canção “Guarani” em homenagem as várias nações indígenas brasileiras, sem esquecer a homenagem aos povos de seu país na música Angola Kandenge, suas apresentações são cantadas em crioulo de Cabo Verde, Umbundo (uma das línguas mais faladas de seu país natal) e português.



5) Lenna Bahule (Moçambique)

Atualmente, vivendo em Moçambique, volta e meia de passagem pelo Brasil, Lenna Bahule é uma musicista de grande visibilidade hoje uma referência artística sem dúvida, devido aos shows, oficinas e palestras que realizou por aqui. Cantora, compositora, orientadora vocal e ativista cultural, Lenna é igualmente conhecedora da cultura musical e social do Brasil.

A residência no país também lhe gerou mudanças em sua proposta de pesquisa passando a dedicar-se ao roots, digamos assim, da cultura moçambicana, especialmente, e não apenas, dos Machop´s (povo do originário do sul do país) e aos cantos populares de trabalho.

Aqui, um de seus projetos foi a parceria com João Taubkin, ambos se conheceram por volta de 2015 no projeto Gumboot Dance Brasil, desde então realizaram apresentações musicais unindo a voz, a música corporal e a percussão de Lenna e o baixo elétrico de Taubikin, criando um diálogo experimental entre Moçambique e Brasil.

Em 2016 Bahule lançou seu álbum solo “Nômade” (Loop Discos) que posteriormente se tornou um projeto artístico formado só com mulheres do Brasil e do Uruguai, o título deste trabalho evidência a experiência de deslocamento e diálogos entre continentes.



6) Hélio Ramalho (Cabo Verde)

Ainda na região do PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa) temos Hélio Ramalho, a pouco tempo no Brasil sua obra une a batida e experimentos eletrônicos do afro futurismo sons populares de Cabo Verde passando pelo morna, coladera, funaná e também a música brasileira.

O visual de sua banda Spinhera, um power trio de Funaná com pitadas psicodélicas formado conjuntamente com a dançarina e performer Arlete Alves e Pedro Dantas na base elétrica, o grupo representa bem esse futurismo africano.

Ramalho recentemente lançou duas músicas no melhor estilo verdeano a “Carnaval” que é o título do clipe (Produção Tuana Freitas) filmada no centro de São Paulo onde mostra o diálogo das tradições da festa popular entre seu país e o Brasil, “Sim mim que e carnaval mim que e tradição” (Hélio Ramalho, Carnaval, 2020), e a música “Mané Pchei” (Dist. Tratore) em homenagem aos seus familiares, ambas são cantadas em crioulo português.



7) Gloire Ilonde (República Democrática do Congo)

Cantor, compositor, desenhista, escultor, artista plástico, xilógrafo e performer Gloire Ilonde da República Democrática do Congo, com passagem por Florianópolis e São Paulo, é dos artistas dessa safra aquele que mais demonstra pegada groove.

No Brasil participou em 2018 de uma das edições do Sarau Afrikanse (SESC Avenida Paulista) dedicado a mostrar a diversidade artística do continente, em 2019 fez parte do line up do festival Psicodália em Florianópolis acompanhado da banda Brass Groove Brasil e no mesmo ano junto a atriz Karina Buhr e o diretor de cinema Pedro Granato fez parte de uma transmissão global do espetáculo Babylon: Beyond Borders (Babilônia sem Fronteiras), uma experiência teatral tecnológica simultânea entre quatro países.

A banda Brass Groove Brasil acompanhou seus shows neste período na capital catarinense, seus integrantes foram responsáveis pelos arranjos e a produção do álbum Sambole (Distr.Tratore) de 2018. Neste trabalho a poesia das canções são cantadas em lingala (língua congolesa), francês e português, enquanto a musicalidade navega entre a luba, o mongo, makongo, a rumba e o funk americano, suas letras conectam Brasil e o Congo, como a música “Exu” que abre os trabalhos, e conecta seus sentimentos pessoais com reflexões políticas, como a canção “Dizem” que também o nome do clipe de Gloire.



8) Fanta Konatê (Guiné Conacri)

Retornando aos pioneiros organizadores de eventos africanos no Brasil temos a cantora, bailarina, compositora e ativista cultural Fanta Konatê da Guiné Conacri. Ela é membro de família tradicional da arte Malinkê filha do Djembefola Famoudoú Konatê mestre do instrumento Djembe.

Vive no Brasil desde 2002 desenvolvendo projetos voltados a educação artística e humanitárias no Brasil e na Guiné a partir do tema das culturas de matriz africana, o África Viva na cidade de São Paulo e o Instituto Nova Era em Ribeirão Preto e o Biomúsica sem Fronteiras que atua no Brasil e nos EUA, além de oferecer aulas em diversos espaços e institutos ao longo destes tempos, tornando-se, certamente, uma das responsáveis pelo crescente interesse local na cultura viva do continente.

O primeiro álbum lançado no Brasil em 2018 denominado Fanta Konatê tem produção de Luis Kinugawa, gravação de Thiago Baggio e participação do grupo musical que lhe acompanha em show a Troupe Djembedon.

O material traz estas referências de sua experiência e formação, a poesia de suas músicas dizem dos valores éticos de sua tradição, enquanto a musicalidade mesclam o Djembê e a bateria eletrônica com a guitarra, o saxofone e o violão; a música que abre o disco “Ielemá só”, introduz o ouvinte nesse clima de múltiplos instrumentos e a voz marcante da cantora, enquanto a canção que leva o nome do videoclipe “Milé” (Prod.F5 Filmes) insere o ouvinte esse clima de felicidade que atravessa todo o álbum.



9) Tyno Val (Togo)

Por fim, e não menos importante, em projeto de carreira a muito por trilhar e encantar temos Tyno Val do Togo. O cantor, compositor e instrumentista é integrante do grupo Maobé que se dedica a difundir através de apresentações musicais, oficinas de música e de dança as culturas da África subsaariana com ritmos do Togo, Benin, Burkina Faso e Gana, o grupo já se apresentou em espaços consideráveis da cidade de São Paulo o SESC Pompeia na festa Refúgios Musicais (SESC Belenzinho), no carnaval Africano do Gringa Music no Al Janiah, dentre outros, nestas oportunidades Tyno faz um bate bola com seu colega Edoh Amassize num repertório de voz, violão e percussão.

O músico já se apresentou solo no Sesc Vila Mariana e algumas vezes no Sarau Afrobase sempre com sua voz suave, melancólica e nostálgica este inclusive é o nome de sua, por enquanto, única gravação a “Nostalgia” (Tyno Val & Ablam Vinakui) pela Radinho Music ano passado, canção esta que fala de lembranças da infância.

Suas poesias estão escritas em francês, português, inglês e ewe (uma das línguas tronco das comunidades falantes de Gbe). Em parceria com o Instituto Nação e o estúdio Kalakuta, Tyno lançou em 2019 videoclipe que representa sua participação neste contexto onde podemos ver um pouco da sua performance estilo bluesman togolês.



Música Africana

Gostou da nossa lista com artistas da música africana?

Conta para gente qual o próximo país quer ver em nossa lista por aqui já fizemos listas dos países: Austrália (Parte 1 | Parte 2), PalestinaTurquiaPaíses ComunistasHolanda e Coréia do Sul.