[Premiere] Não é Não! Quarteta grita contra o assédio em seu single de estreia

O movimento riot girrrl surgiu nas proximidades de Washington e chacoalhou os anos 90. A temática trazida do punk – que as Slits carregavam desde os anos 70 no UK – se expandiu para o universo do rock alternativo. Os temas eram urgentes – e ainda são – como denúncias a casos de estupro, violência doméstica, sexualidade, racismo, patriarcado e empoderamento.

Dessa leva se destacaram grupos como Bikini Kill, Bratmobile, Heavens to Betsy, Excuse 17, Huggy Bear, Skinned Teen, Emily’s Sassy Lime, The Muffs, Sleater-Kinney, The Breeders e grupos de queercore como Team Dresch e The Third Sex. Através de Zines e da cultura do D.I.Y. o movimento foi crescendo e mostrando força em outras vertentes como na política, na arte, no modo de agir e ativismo.

Lutando também contra discriminação de idade, racismo, sexismo, homofobia, agressão física e emocional contra mulheres e garotas. Veio para chacoalhar o mundo e seus velhos moldes.

Em junho do ano passado até cheguei a fazer uma matéria contando mais sobre a trajetória da mulher na música. E claro que o movimento riot grrrl não poderia passar batido. O lançamento que iremos fazer hoje dialoga com o punk rock e o feminismo.


Quarteta por Mo Bertuzzi-9237
Quarteta lança seu primeiro single hoje em Premiere no Hits Perdidos. – Foto Por: Mo Bertuzzi

Como o próprio nome já diz: a Quarteta é um quarteto de punk rock. Carinhosamente rotulado pelo produtor da banda, Carlos Eduardo Freitas, como: Punk Rock Feminista Festivo. Termo que veio de uma brincadeira, e acabou sendo absorvido, já que gostam de festa.

Em sua linha de frente elas contam com Camis Frank (baixo), Helena Hennemann (guitarrista / backing vocal), Katiane Romero (vocalista) e Sabrina Homrich (bateria). Elas que tem passagens por bandas como Recalque Roque, Enquanto Miguel Não Vem, Heleninha Roitman and the Punk Tosko Full Glass Band Project, Lagarto a VaporEnquanto Miguel Não Vem.

Mesmo falando de temas sérios – e urgentes – elas frisam que a zoeira é o combustível para a banda existir. Sendo uma das principais bases. Claro que o punk rock e seu lado anárquico propiciam toda esta atmosfera. Fato é que o som do primeiro single ao mesmo tempo que critica o assédio, diverte com sua simplicidade e batida.

Formada em 2015 a banda lançará no dia 08/06 seu primeiro EP que se chamará Quarteta. Este que foi produzido por Carlos Eduardo Freitas e gravado, mixado e masterizado por Aécio de Souza no Estúdio Aurora (São Paulo).

Em suas letras são abordados temas como assédio, a violência sexual, o preconceito de gênero entre outros. A mensagem é reta e direta e isso com certeza se intensificará no palco do estúdio onde será lançado o registro.

O disco contará com 5 músicas e será lançado pelo selo Ressaca Records (responsável pelos últimos lançamentos de Molho Negro, The Orange Disaster, Combover, Mad Monkees, Dercy e Bloodbuzz).



“Não é Não” em seus acordes me lembra bastante o ritmo pulsante – e dançante – de “Lust For Life” do Iggy Pop combinado com a simplicidade de “Town Called Malice” do The Jam. Em sua letra é exposto o assédio sofrido pelas mulheres em lugares públicos, da rua a balada, e frisa em alto e bom som: Não é Não.

Os versos ácidos e divertidos mostram o tom bem humorado na hora de passar o recado:

“…Não é porque eu tô livre que eu quero te pegar
Tô sussa com meu drink e não vem me perturbar
Então faça o favor porque eu não vou desenhar”

Neste trecho ainda é repudiada a cultura que vivemos de que na base da insistência “vai que cola”:

“…Quem foi que te ensinou que eu não tenho opinião?
É problema de semântica ou distúrbio de atenção?
Qual é o seu problema em entender que não é não”

Você também pode conferir a canção no bandcamp. Para entender mais sobre o momento vivido pela banda conversei com a vocalista Katiane Romero.

Entrevista

[Hits Perdidos] Primeiro gostaria que contassem mais sobre o divertido termo “punk rock feminista festivo”. Como chegaram nele para definir o som da banda?

Katiane: “Quem acabou cunhando o termo foi o Carlão, nosso produtor. Um dia nós estávamos conversando sobre nosso estilo e comentamos que a gente fazia um punk com viés feminista – por causa das nossas letras –, mas que a gente achava que o grande diferencial da banda era a festinha. Porque a gente gosta mesmo é de fazer festa.

Aí o Carlão veio com essa: punk rock feminista festivo. A gente morreu de rir e tomou o termo. Desde então, é assim que definimos nosso som para todo mundo que pergunta o que é que a gente toca.”

[Hits Perdidos] É o primeiro single a ser lançado oficialmente por vocês e com um tema que infelizmente nunca deixa de ser atual. Queria que tivessem esse espaço para comentarem tanto sobre o tema do assédio, como sobre os outros temas que o EP abordará.

Katiane: “Não é Não” é bem biográfico. A Camis, nossa baixista, teve a ideia de escrever esse som depois de ser abordada de maneira bem mau educada por um cara em um bar. E, infelizmente, todas nós já passamos por situações parecidas.

Na verdade, acredito que a maioria das mulheres já passou por uma situação assim. O mais louco é que quando um cara te aborda e você diz não, o cara sempre insiste. Existe uma mística na nossa sociedade de que quando a mulher diz não, na verdade, ela está “só se fazendo de difícil, mas o que ela quer dizer é sim”. É isso que queremos explicar na música: quando uma mulher diz não, ela quer dizer não.

Entendam de uma vez por todas: não significa não.

No nosso EP, temos sons que falam sobre outros problemas que enfrentamos na vida simplesmente por termos nascido mulher. “Bucetinha My Choice” eu escrevi depois de ler uma notícia sobre um estupro coletivo no Rio de Janeiro. A notícia em si já era suficientemente horrorosa, mas os comentários das pessoas sobre o caso conseguiram o que parecia impossível: piorar a situação. E esse não foi um caso isolado.

Quantas vezes você já não ouviu dizerem coisas como “ah, mas ela ficava andando com aquele shortinho” ou “ela vive de decote, vai pra festa e fica bêbada. Tá pedindo!” Culpar a vítima é o absurdo do absurdo, do absurdo, do absurdo. Por isso, na música a gente fala sobre ter poder de escolha sobre o nosso corpo.

A nossa sociedade precisa perceber que não é colocando uma burca nas mulheres ou escondendo elas em casa que o estupro vai acabar – até porque sabemos pelas estatísticas que na maioria dos casos o agressor é conhecido da vítima, e a agressão acontece dentro de casa.”


QUARTETA_avatar


[Hits Perdidos] Pude ver que todas vocês tem um background do punk rock. Para vocês quais são as maiores inspirações dentro do estilo? E quais bandas mais admiram?

Katiane: “Acho que a gente tem os pés no punk mesmo. Seria impossível não citar Ramones. “1, 2, 3, 4 “= é isso! Coisa mais linda! (risos). Quando começamos, acho que Breeders foi das nossas primeiras grandes referências, ainda mais por conta dos vocais femininos. E aí podemos citar coisas que a gente ouve e que acabam nos influenciando na hora de compor, tipo: Blondie, Bikini Kill, Le Tigre, Mercenárias, Joan Jett, Dead Kennedys, Misfits, Undertones, David Bowie. E Monocelha, banda amiga e expert máxima no quesito zoeira.”

[Hits Perdidos] “Não é Não” tem um verso bem humorado falando sobre “Não preciso desenhar”. O que vocês acham que ainda precisa ser desenhado para que entendam de uma vez por todas?

Katiane: “Ixi, tanta coisa, né? Mas talvez um dos principais “desenhos” seria: meu corpo, minhas regras! A objetificação do corpo da mulher é uma desgraça tão grande que nós não temos direitos sobre o nosso corpo.

Quando uma mulher é estuprada dizem que foi por culpa da roupas dela (como se ela não tivesse o direito de usar a roupa que tem vontade), quando uma mulher é assediada na rua dizem que é porque ela estava andando de um jeito provocativo (como se ela não tivesse o direito de caminhar da maneira como acha que deve), quando uma mulher é assediada num bar, dizem que é porque ela saiu de casa sozinha (como se a gente não tivesse o direito de ir e vir).

Então, de uma vez por todas, a gente adoraria que as pessoas entendessem que o corpo da mulher pertence a ela, e só a ela. E que a mulher tem o direito de fazer com o corpo dela o que ela quiser. Uma mulher deveria ter o direito de sair na rua de decote profundo sem que ninguém atormentasse ela. Uma mulher deveria ter o direito de ir a um bar sozinha sem que ninguém atormentasse ela. Uma mulher deveria ter o direito de existir sem que vivesse com medo de sofrer assédio ou estupro todos os dias de sua vida.”

[Hits Perdidos] Como observam o momento atual das mulheres na música? Tanto em questão de cada vez ter mais minas tocando, produzindo, comandando festivais, selos… como perante o comportamento e recepção do público, produtores entre outros elementos do showbizz.

Katiane: “Sou um tanto Poliana e sempre acho que estamos caminhando para um lugar melhor. Mas ainda falta muito. Temos sim uma efervescência na cena e há várias bandas novas aparecendo.

Feministas ou não, fato é: temos hoje mais bandas independentes de mulheres, mas ainda somos uma pequena parcela ousando existir num rolê majoritariamente masculino.

Na conta geral dos festivais e eventos que rolam por aí, ainda é raro ver bandas formadas por mulheres. E ainda é raro ver mulheres comandando festivais, gravando, produzindo. Essas mulheres existem, mas ainda em um número bem pequeno. Vemos esse momento atual com bons olhos, mas a gente espera que ele seja só o começo. Ainda falta muito para chegarmos a um patamar igualitário.”

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