Projetonave & Caco Pontes abrem os caminhos pra vencer a miséria abissal em “Estranha Fração”

 Projetonave & Caco Pontes abrem os caminhos pra vencer a miséria abissal em “Estranha Fração”

Projetonave – Foto Por: Marcos Ramos Zenin

“Estranha Fração” ganha videoclipe dirigido por Caco Pontes

Na ativa ininterruptamente desde 1997, o Projetonave é um dos grupos mais representativos do underground do ABC paulista. Vivenciaram de perto mudanças na cena musical, no mercado, na cidade e no país.

Seu trabalho já os levou a estarem ao lado de alguns dos maiores nomes da música brasileira contemporânea: KL Jay, GOG, Emicida, Síntese, Drik Barbosa, Rapadura, Flora Matos, Buguinha Dub, Rincon Sapiência, Rico Dalasam e incontáveis outros. Mas mesmo com o longo e constante currículo, a banda permanece sendo um fenômeno essencialmente local.

Quando o programa da TV Cultura Manos e Minas foi retomado e repaginado em 2010 depois de alguns meses fora do ar, foi natural a escolha do Projetonave para ser a banda residente do programa. O convite de um emprego fixo na TV estatal foi um alívio e um conforto para uma banda independente autoral, além da possibilidade de interagir com uma quantidade e diversidade muito maior de pessoas do que na Sarajevo.

Saiba Mais sobre a História do Projetonave


ÓRBITA - Single Estranha Fração - Caco Pontes e Projetonave foto por Marcos Ramos Zenin
Projetonave – Foto Por: Marcos Ramos Zenin

Projetonave & Caco Pontes “Estranha Fração”

Agora, em 2022, eles se preparam para lançar o disco cheio Órbita que em sua narrativa que promete ir da poesia à política. Em parceria com Caco Pontes, o Projetonave apresenta o single, e clipe, para “Estranha Fração”. A produção audiovisual, inclusive, tem como roteiro um passeio pelos abismos da cidade/civilização e pede a benção de Exú e Xangô para mudar a trilha de miséria e devastação que assola o tempo presente.

Em um ano eleitoral onde o destino de milhões de vidas podem ser transformados no voto, esses abismos parecem ganhar ainda mais lastro em um país onde o acesso a educação, saneamento básico, saúde e cultura estão longe de ser para todos. Ainda mais em tempos de ascensão do conservadorismo marcado pela intolerância e doutrinação religiosa na hora de fazer política. Assim como o aumento da pobreza mediante o descaso das políticas públicas com as populações periféricas.

“Reunir a dura realidade concreta de um povo sobrevivente, por vezes dizimado, aos mistérios do universo invisível e metafísico…”, comenta sobre o lançamento o poeta e artista múltiplo Caco Pontes



Confira o papo com eles para entender mais sobre a parceria, mensagem, clipe e o que esperar do próximo trabalho.

Por que “Estranha Fração” abre os trabalhos de Órbita, sendo seu primeiro lançamento fonográfico?

Caco: “Muito provavelmente por trazer a mensagem-chave “Laroiê Elegbara abra os caminhos pra vencer essa miséria abissal”. Vale frisar que a letra foi construída tempos atrás quando recebi um mote do compositor Jonathan Silva, em que inicialmente ele citava o bairro da Lapa como ambiente que se dá o início da narrativa relatando o assassinato em clima de crônica urbana, ao que transpus para o universo da Cohab, por representar meu contexto de identidade, pertencimento e achar mais verossímil.

Daí em diante desenvolvi o restante da letra, com verso e refrão. Vejo a composição como um misto de canção com rap, pois envolve a estrutura padrão d A e B, mas com discurso-manifesto adotando um flow em cima do beat, além da atualização trazida pelo produtor musical e DJ B8 na pesquisa de depoimentos e reportagens sobre ações das milícias, utilizados como samples de introdução à faixa.

Existem duas versões, no single e videoclipe rola a repetição do verso e refrão, enquanto no álbum completo e vinil compacto 7” optamos pelo formato reduzido de única volta na música, propondo assim diferentes abordagens e possibilidades da obra.”

Como se deu o processo criativo do clipe de “Estranha Fração”?

Willian Aleixo (Tecladista e produtor do Projetonave): “Como a letra fala de periferia, logo sugeri que poderíamos gravar uns takes na minha quebrada, lugar onde eu cresci e moro até hoje, região da zona leste, na Fazenda da Juta e nos arredores, Mascarenhas de Moraes, onde o Caco também viveu na sua infância. O ponto de encontro foi em casa e de lá fomos caminhando por algumas vielas e lugares como escadão, campo de várzea e córregos sujos que cruzam a favela.

Foi interessante reunir a banca do Projetonave pra dar esse rolê num dia frio e nublado, algo até então inédito na nossa caminhada juntos como banda . Várias ideias foram trocadas e até tiramos um tempo pra almoçar juntos ali por perto.”

O Momento

Tanto Projetonave quanto Caco Pontes somam mais de duas décadas em suas respectivas carreiras. A banda, além de possuir relevante trabalho autoral, desenvolveu muitas parcerias com expoentes do rap nacional, em reflexo da experiência enquanto residente do Programa ‘Manos e Minas’ ao longo da sua veiculação nacional na TV Cultura.

Caco, poeta e multiartista, além das publicações literárias que realizou desde o período em que integrou o coletivo Poesia Maloqueirista, no início dos anos 2000, desenvolve um trabalho com performance poética/musical e dentre outras iniciativas fundou e lidera o projeto ‘Baião de Spokens’, iniciado em 2014, com o qual já lançou álbum, EP, single e videoclipes.

O diferencial na junção do trabalho que refletiu na criação do álbum ‘Órbita’ se dá na primeira parceria do Projetonave com a linguagem do Spoken Word na essência da linguagem, bem como um processo criativo intenso e mais longo, possibilitando convívio com um artista da palavra que passa a ter lastro de maior profundidade na troca que já dura 3 anos e tem outros projetos paralelos sendo gestados, simultaneamente a este atual.



Órbita, que em breve será lançado, é um projeto conjunto, onde a inovação poética de Caco Pontes se soma à extensa trajetória musical do Projetonave. O que essa fusão significa para a carreira de ambos?

Marco Pablo Vitorino (Guitarrista e fundador do Projetonave): “Foi preciso encher os pulmões de ar para realizar este mergulho no encontro da nossa música com as palavras e poesias de Caco. Do ar pesado destes últimos anos retirar o suficiente para nascerem sonhos e movimento. Caco traz em si as marcas daquele que é um “urbanóide”, mas cheio de brasilidade. Esta última, que ao meu ver não se encontra muito na música do Projeto Nave, se fez presente em ritmo e poesia, e na própria convivência com o poeta e suas histórias, do dia-a-dia cheio de misticismo, deuses e demônios, energias e correrias.

Eu sinto o Projetonave ser uma banda punk. Não se fala muito ali. Mais se toca. Essa convivência pra mim traz o Projetonave de volta à terra durante os momentos em que estamos juntos. Coisa boa. Com o mínimo de recursos registramos um som autêntico, com sonoridade de garagem. Ouvir no vinil é emocionante. Seguimos em busca do sentimento.”

Projetonave e Caco Pontes “Estranha Fração”



Ficha Técnica “Estranha Fração”

de Caco Pontes, Jonathan Silva e Projetonave
Voz/Efeitos: Caco Pontes
Base/Samples: DJ B8
Guitarra: Marco Pablo Vitorino
Contrabaixo: Alex Dias
Samples/Pads: Flávio Lazzarin
Teclado/Synth: Willian Aleixo

Videoclipe

Concepção e Direção Geral: Caco Pontes
Câmera, edição e co-direção: Marcos Ramos ‘Zenin’
Operação Drone: Raphael Matos
Produção Executiva: Maria Fernanda Carmo
Elenco: Alex Dias, Annie Gomes, Caco Pontes, Daisy Coelho, DJ B8, Faustino Faz,
Flávio Lazzarin, Gildo Granada, Marco Pablo Vitorino, Oliver U-Róla e Willian Aleixo.

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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