Em Premiere Yannick Hara incorpora Caçador de Androides e se despede do Afro Samurai. “Voight Kampt” é o novo single do rapper paulistano.

A Despedida do Afro Samurai

Quando trocamos o primeiro e-mail em 2016 Yannick Hara estava em outra fase de sua carreira. Agora mais leve, solto e tendo exorcizado a persona que trabalhou por 3 anos, segue seu novo caminho.

Despedidas não são fáceis. Disso ele sempre soube. Talvez até começou a sofrer antes de de fato consumá-la. Foi recente. Ainda está ressurgindo. Mas passa bem e tem novos planos e sonhos.

Mais maduro tanto nos palcos, como em perspectiva, o músico abraça uma nova identidade. Se mantendo do lado rebelde da força mas ainda mais contestador.

Se antes ele trazia uma história de mangá que se confundia com sua pessoa e origens… Agora ele tenta retratar a estranheza de nossos tempos.

Tempos onde não se posicionar é se posicionar. Tempos onde a ode ao absurdo é aceita. Tempos onde o improvável e imoral é tratado como mais uma notícia de tabloide.

Sai de cena o Afro Samurai para dar lugar ao Caçador de Androides.

O Caçador de Androides


Yannick Caçador de Androides

Yannick Hara em nova fase, deixa para trás Afro Samurai e entra em cena o Caçador de Androides. – Foto Por: Tiago Santana


Voight Kampft

Quem abre as portas para este universo é justamente a literatura. Mais precisamente do escritor Philip K. Dick, e seu livro, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Este que inspirou não apenas o filme Blade Runner mas toda uma geração.

Ele lança hoje em Premiere no Hits Perdidos o single “Voight Kampft”.

Este que questiona a essência do que faz com que sejamos seres humanos ou máquinas. Discussão no plano das ideias mas ainda atual. Forte e debatida em uma hora onde o cyberpunk não é mais o futuro. É o presente e os próximos anos.

Em uma era onde se fala sobre internet of things, casas inteligentes e substituição de humanos por ferramentas programáticas, o papo vira a chave. O perigo vive no hoje. E não mais em um possível futuro.

A canção questiona a Empatia

Questiona o quão intrínseca ela é ao ser humano. Ou o quanto é fabricada. Em tempos onde informação é usada de todas as formas…ele de certa forma mostra uma outra forma de observar.

“Seguindo essa linha, a empatia não é intrínseca ao sujeito e sim fruto da sua maturidade e é aí em que “as emoções se afloram e deterioram-se as noções”.”, relembra o rapper ao citar Sartre. 

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Essa dicotomia entre o bem o mal. O ser empático ou ser capataz é o fluxo de sua rima. Dita o flow. Provoca, debate e faz pensar. Ele não quer que você chegue a resposta em si. E sim permitir que feito matrix você escolha a pílula….e pense por si só.

Máquinas? Humanos? Para onde estamos indo?

Até onde nos permitimos ser automatizados e até onde seguimos o pastor. Seríamos ovelhas ou lobos tecnológicos em pele de cordeiros?

O quanto estamos desesperados por algoritmos e aceitação social para se inserir em um ambiente “seguro”?

Dedo na ferida, língua afiada e uma perspectiva que antes vivia nas sombras.

Um Yannick politizado mas tentando se comunicar em meio a um bombardeio de fake news – e milhares de máscaras sociais.

Entrevista

Para entender sobre a nova fase e o que irá agregar para sua música, conversamos com o rapper paulistano.

[Hits Perdidos] O Afro Samurai depois de ser trabalhado nos últimos anos deixa a cena e eis que surge da escuridão o apocalíptico Caçador de Andróides.

Conte para os leitores do Hits sobre o aprendizado que teve no primeiro registro, a evolução mercadológica, processo de reconstrução e origens da nova fase.

Afro Samurai

Yannick Hara: “O disco Também Conhecido Como Afro Samurai foi o início da ocupação do lugar de fala que tive dentro do rap. Como persona a identificação foi certa, sou filho de pai negro com mãe japonesa e o Afro é um homem negro inserido na cultura oriental, o Yasuke dos tempos modernos.

Dentro do mercado pude entender a funcionalidade dos processos, testei e apliquei diversos mecanismos. Alcancei resultados em todas elas e pude medir o que foi eficiente, e o que eficaz.

Sabia deste o início que o disco tinha uma validade e que eu não poderia ser o Afro Samurai para sempre. Nos 3 anos deste disco pude entender o que sou como artista.

O quão me preocupo em ser performático e oferecer as pessoas não apenas um show e sim uma experiência. Essa construção foi longa e penosa, porém consegui chegar numa realização artística ideal para o trabalho.

Dizer adeus ao Também Conhecido Como Afro Samurai foi doloroso, quando fiz o último show no Centro Cultural da Juventude no Quinta Independente, me despi totalmente no final do espetáculo.

Deixei com cada pessoa do público partes do figurino, as bandanas, os anéis, os colares, os brincos, só fiquei com o kimono.”

Caçador de Androides

Yannick Hara: “Uma lembrança que quero carregar para sempre na minha carreira como artista. Diante deste panorama, já vinha me preparando para encarnar um novo personagem, o Caçador de Androides.

Falar sobre a distopia da ficção científica cyberpunk é o grande objetivo deste disco. Não falo apenas de Rick Deckard, mas também de Roy Batty, Pris, Leon, Rachel que compõem o elenco do filme, que inspirou esta nova obra.

O livro Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? do escritor Philip K.Dick meu deu também um novo horizonte, uma nova leitura sobre o mundo. K.Dick é um visionário, ele entendeu o mundo.”

A Política e a Literatura

[Hits Perdidos] O Afro Samurai era muito pessoal e conversava diretamente com sua identidade e origens. O Caçador segue a mesma linha? Como o mundo mágico de Philip K. Dick e a bagunça da política mundial acabou influenciando no processo?

Yannick Hara: “K. Dick ao meu ver, teve um vislumbre gigantesco do mundo em que vivia e do futuro. Suas frases, sua narrativa é muito real e atual. Não vejo a sua obra como ficção, vejo como realidade.

O Caçador é diferente do Afro Samurai, não falo de mim, mas falo o que penso alinhado ao que K. Dick pensa e ao que Ridley Scott relata no filme.

Eu sempre quis falar o que eu penso politicamente, esta é a linha de rap que gosto. Durante o processo do disco me permiti me influenciar por gêneros musicais que também tem uma narrativa política dentro do conceito musical dos anos 80 e 90, período que o filme foi lançado, e melodias que tivessem como influência a própria trilha sonora da obra.

A imersão e o estudo foi muito mais amplo e intenso neste disco, do que no Afro Samurai. Abri demais a mente e experimentei navegar por mares que antes eu não tinha noção que poderia nadar. Como pisciano amo o mar.”

[Hits Perdidos] O cyberpunk que mesmo não sendo um conceito novo e já tendo diversos livros, estudos e estética por aí, acaba entrando dentro do “pacote” e estética. Isso vai se refletir nos palcos?

Yannick Hara: “Com certeza, estou montando quase um teatro musical (risos). A preocupação visual é muito grande, percebi que cada música pede um cenário, e isto precisa ser traduzido, produzido, apresentado e performado no palco.”

O Single

[Hits Perdidos] Conte mais sobre “Voight Kampft”, quarta faixa do disco O Caçador de Androides, e o que quis relatar.

Yannick Hara: “A flutuação da pupila, a expansão involuntária da íris e a empatia seriam características humanas não reproduzidas pela inteligência artificial?

O que diferencia seres biológicos de máquinas? Os humanos o são humanos por essência ou a humanidade é algo que se adquire?

Em “Voight Kampft”, quarta faixa do disco O Caçador de Androides, trago uma discussão sobre o teste de empatia que leva o mesmo nome. Utilizado para diferenciar replicantes de humanos, o teste voight é como um polígrafo capaz de aposentar replicantes que não deveriam mais estar vivos.

No universo cyberpunk onde a tecnologia reproduz o corpo e a inteligência biológica, a dúvida consiste não em entender exatamente quem é o outro, mas o que somos nós a partir da existência do outro.

O perspectivismo ameríndio traz a noção de que o mundo é dominado por uma infinidade de espécies onde cada uma vê a si mesmo como humana e as demais espécies como não-humanas.

A falta de humanização do outro é a marginalização:
“Quem atinge? Quem é o crime? Quem é o pária?”.

Philip K. Dick se inspirou na criação do famoso matemático Alan Turing que desenvolveu um teste capaz de medir a capacidade de uma máquina em exibir comportamento humano. No teste original, se as respostas dadas pelo objeto fossem indistinguíveis de um ser humano, então o objeto seria humano.

O filósofo Jean Paul Sartre, no entanto, discordou da conclusão do teste porque para ele a existência precede a essência. Os humanos nascem, existem e sua essência seria uma constituição póstuma.

Seguindo essa linha, a empatia não é intrínseca ao sujeito e sim fruto da sua maturidade e é aí em que “as emoções se afloram e deterioram-se as noções”.

Estratégia de Divulgação

[Hits Perdidos] Como trabalhará sua estratégia de divulgação? Teremos voos do caçador além das fronteiras do país? Além disso o álbum terá uma porção de participações especiais, como foram as escolhas e processos?

Yannick Hara: “Comecei em maio o processo de trabalho do disco O Caçador de Androides. “Blade Runner” foi o primeiro single e videoclipe que lancei em maio. Quis realizar apenas um recorte da São Paulo distópica e uma letra que trouxesse a síntese das 12 faixas do disco.

Iniciei a narrativa pelo fim e vou terminar falando do começo, é o “trás para frente”. Em seguida veio “A Ideal Mão de Obra Escrava” um soco na sociedade mundial e um cuspe na cara da política brasileira.

A dificuldade em atacar a política no Brasil é tão complexa que uma música não é o suficiente. Realizei ali também, mais um recorte. Já em “Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?” vou um pouco mais além nesta questão política porém uso o livro de K. Dick para informar a sua existência àqueles que ainda não o conhecem.

Em relação aos “voos do caçador além das fronteiras do país”, claro é um desejo com o trabalho, mas não tenho expectativas na realização deste objetivo no momento. Preciso primeiro lançar o disco e deixo o resultado nas mãos do Universo, primeiro as primeiras coisas.”

Participações Especiais

Yannick Hara: “Já as participações especiais, fui novamente agraciado com a oportunidade de trabalhar com pessoas que sou muito fã. O processo sempre é muito simples e natural, eu fiz o convite e eles todos aceitaram (risos).

O Rafael Carnevalli é um grande poeta, o conheci quando me apresentei no programa Manos e Minas da TV Cultura e neste mesmo dia desejei trabalhar com ele. O Clemente, dos Inocentes é um caso bem antigo, ele é meu “tio” de consideração, o conheço desde criança, o punk rock vive dentro de mim graças a ele.

Ele sempre me guiou com suas críticas, eu me lembro que toda vez que eu mandava um trabalho ara ele, ele dizia “Yannick isto tá muito ruim, vá lá e melhore (risos), fizemos a canção “O Prólogo e o Título”.

Os irmãos Keops e Raony, Rike do NDK e Moah do Lumiére, são meus irmãos que a música me deu e como toda família, merece estar sempre nos meus trabalhos, tenho muita gratidão pelo o que eles fizerem e ainda fazem por mim, “Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?” single já disponível em todas as plataformas digitais é a resultante desta relação familiar musical.

O rapper Cronixta o conheci através de Keops e Raony, gostei demais do trabalho dele, ele segue uma linha muito diferente dentro do rap e eu me identifico demais com pessoas que buscam quebrar paradigmas, fizemos a música “O Artificial”.

A Sara Não Tem Nome, hoje uma grande amiga, sou muito fã de seu trabalho, ela é “fora da curva”. Mais uma conexão maravilhosa que a música me trouxe, ela proporcionou ao disco uma leveza enorme e sentido para a canção “Eu Quero Mais Vida Pai”.

Com o Rodrigo do Dead Fish, foi algo surreal que só a tecnologia pode proporcionar. Vocês podem não acreditar, mas eu mandei um direct para ele no Instagram, nos falamos em seguida nos conhecemos e depois de um tempo ele aceitou participar do disco, simples assim.

Quando sentamos para escrever a “Lágrimas na Chuva” foi um dos momentos grandiosos da minha carreira, o Rodrigo é uma pessoa maravilhosa, por influência dele também hoje eu sou vegetariano, não sofre de “Síndrome de Deus” que muitos artistas sofrem, aliás ele não é artista, é um operário da arte.

São estas “coisas loucas” que a música me proporciona, coloca na minha vida pessoas que fazem eu aprender e crescer como ser humano antes de crescer como artista e essa identificação e aprendizado faz eu evoluir muito. Agradeço e amo demais a todos, fico as vezes sem palavras para descrever tal sentimento.”