Pra quem conhece o Projetonave e seus 23 anos de história, Ano Um é uma escolha no mínimo curiosa para o título do disco que foi lançado em dezembro. Pense nele como a resposta musical para a pergunta “o que você faria se voltasse à juventude com toda a experiência que juntou até aqui?”

Na ativa ininterruptamente desde 1997, o Projetonave é um dos grupos mais representativos do underground do ABC paulista. Vivenciaram de perto mudanças na cena musical, no mercado, na cidade e no país.

Seu trabalho já os levou a estarem ao lado de alguns dos maiores nomes da música brasileira contemporânea: KL Jay, GOG, Emicida, Síntese, Drik Barbosa, Rapadura, Flora Matos, Buguinha Dub, Rincon Sapiência, Rico Dalasam e incontáveis outros. Mas mesmo com o longo e constante currículo, a banda permanece sendo um fenômeno essencialmente local.


Projetonave

Projetonave no 74ClubFoto Por: Camila Visentainer


As origens do Projetonave

O grupo começou na Santo André (SP) no final dos anos 90. A partir do encontro entre o guitarrista Marcopablo e o cantor e multi-instrumentista Akilez, que começaram a convidar outros amigos. O grupo base se consolidou com a adição de Adalberto e Jubileu nos vocais, Flávio Tru no baixo e Renatão na bateria.

O som era uma amálgama de tudo que acontecia nas periferias da grande São Paulo na época: bases de punk rock encontrando a poesia do rap e o som de blues agressivo da guitarra de Marco. Foi essa formação que participou do Festival Skol Rock de 1999, ganhando o direito a uma gravação lançada pela Virgin feita no estúdio Midas, o de Rick Bonadio.



O que parecia uma vitória para uma banda nova teve o efeito de um anti-clímax. O abismo que havia entre as visões de música dos jovens andreenses e dos produtores musicais do Midas ficou evidente: a comunicação era tensa e difícil. Pra completar, Adalberto abandonou o grupo durante o processo. A demo chegou a ser lançada em fita cassete, mas sua distribuição se restringiu à cena local.

Os anos no baixo augusta

A partir da saída de Adalberto em 2000 e da experiência no Midas, a banda passou por diversas mudanças de formação. Apesar do baque, o Projetonave continuou na ativa. Na região do Baixo Augusta, que lentamente estava se tornando o centro da vida musical alternativa da capital, a banda começou uma nova fase. Tornaram-se banda residente da boate Sarajevo, tocando semanalmente madrugada adentro.

Embora sempre tenha sido uma banda autoral, na Sarajevo o Projetonave cumpria o papel de banda baile. Os shows precisavam durar duas, três ou mais horas. A solução foi investir em improvisação, muitas sessões instrumentais e participações dos vários artistas que passavam pelo palco da Sarajevo.

Agora com um trompetista na banda, o rap e o punk se uniram ao jazz e ao dub. Essa época marcou o som e a identidade da banda no imaginário do público, e foi aí que começou o contato com uma parte mais abrangente da cena do rap.



Nasbase do Manos e Minas

Quando o programa da TV Cultura Manos e Minas foi retomado e repaginado em 2010 depois de alguns meses fora do ar, foi natural a escolha do Projetonave para ser a banda residente do programa. O convite de um emprego fixo na TV estatal foi um alívio e um conforto para uma banda independente autoral, além da possibilidade de interagir com uma quantidade e diversidade muito maior de pessoas do que na Sarajevo.

Não por acaso, um dos projetos mais conhecidos da discografia da banda é o Nasbase, uma enorme coleção de singles com participação das várias personalidades que cruzaram o caminho da banda na Sarajevo ou no Manos e Minas. Durante anos o Nasbase foi o foco principal do Projetonave, crescendo indefinidamente e sem data pra acabar.



Se para olhares externos toda essa trajetória parece fruto de um apetite criativo insaciável, a situação estava se tornando cada vez mais incômoda para os músicos.

“É incontestável que durante este período abandonamos nossa música, deixamos de escrever poesia”, confessa Marcopablo. “O público lembrava de nós como uma banda que acompanha rappers, nunca por nosso trabalho autoral.”

A Nave dá voltas

Com a saída de Akilez em 2017, deixando Marcopablo como o único membro da formação original do grupo, o Projetonave começou lentamente o processo de olhar de novo para dentro.

Lançaram nesse ano o disco 20 Voltas, comemorando as duas décadas de banda com um disco cujo lado A traz composições e letras de Marcopablo e o lado B faixas instrumentais de autoria do DJ B8. Sem convidados, grooves bem polidos de produção impecável e o vocal de Marco, mais sussurrado e cantado do que de costume no rap.

Porém o 20 Voltas ainda era mais um disco da dupla (Marco e B8) do que um esforço coletivo da banda. O golpe final na zona de conforto veio em 2019, quando o Manos e Minas foi cancelado definitivamente no governo Doria. A notícia foi um abalo mas também um alívio.

“Ao mesmo tempo nos libertamos de uma peso, uma responsabilidade com um trabalho cujo significado não fazia mais sentido para nós”, diz Marco. A única opção agora era voltar pro início e reencontrar a voz da banda enquanto projeto autoral.

Ano Um

“Escrever letras e cantar sempre esteve em nossa rotina, abandonada pelas circunstâncias impostas pelo caminho que seguimos”. O Ano Um é o recomeço dessa rotina. Pela primeira vez na história da banda, todos os membros contribuíram com composições ou letras.

Além de Marco, a formação atual do Projetonave inclui o DJ B8, Flavio Lazzarin na bateria, Alex Dias no baixo e Willian Aleixo nos teclados e voz. O quinteto se internou por três meses entre os estúdios C4 e 74Club e saíram com o produto mais maduro da banda.



As Letras do Projetonave

As letras muitas vezes sombrias e distópicas soam etéreas com o estilo meio sussurrado, meio cantado do 20 Voltas. As bases instrumentais compõem o clima calmo porém inquietante do disco, que parece carregar o peso da melancolia de 23 anos de madrugadas na megalópole paulista.

Se o punk e o rap da juventude estão presentes em alguns timbres de guitarra e batidas loopeadas. Ano Um é decididamente um disco de amadurecimento e recomeço.

“Estamos nos reaproximando de nossa origem de forma muito natural. Creio que a música do Projetonave ainda trará facetas desconhecidas para muitos, mas que estão conosco desde o início”, diz Marco.