Criado no sul de Minas Gerais Lucas Gonçalves chegou em São Paulo em 2012 quando fundou a Vitreaux. Em 2017 acabou entrando na Maglore e no ano passado tirou composições que vinham se rascunhando a alguns anos e de pouco em pouco tem apresentado suas primeiras faixas solo.

Seu voo solo por sua vez aflora seu lado como compositor. Se desprendendo do formato banda, mas nem por isso deixa de trabalhar de forma colaborativa como ele mesmo aponta em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos.

Em 2019 ele disponibilizou duas canções, “Sol e Chuva” (Ouça) e “Se Chover” (Ouça), e agora lança “Basta”, uma faixa sensível e infelizmente atemporal. É da tempestade de informação, tensão e descontrole que nasce a canção. Com uma melodia delicada com direito a arranjos de piano e flauta, no qual teve como parceiros o versátil Bruno Bruni e Beto Mejia (Móveis Coloniais de Acaju).

Antes de músico apaixonado por música e isso se reflete nas reflete nas distintas referências da faixa que vão de Ivan Lins ao Wilco. O interessante é justamente ver como a música se transformou ao longo do processo e o resultado criou toda uma atmosfera aconchegante e própria para acalmar os ânimos em tempos tão estranhos.

“Queríamos que ela soasse mais pesada, com a voz e o violão à frente, e a banda mais ao fundo, mas na mix final eu pedi para trazer à banda mais pra frente”, revela Lucas Gonçalves


Lucas Gonçalves

Lucas Gonçalves (Vitreaux, Maglore)  lançará seu debut via Pequeno Imprevisto.- Foto Por: Azevedo Lobo


Lucas Gonçalves “Basta”

A faixa foi gravada no estúdio Submarino Fantástico, em São Paulo. Em sua formação a banda contou com Lucas (Voz, Violões de Nylon), Bruno Bruno (Piano), Diogo Valentino (Baixo), Pedro Lacerda (Bateria e Beto Mejia (Flauta).



O piano dá o norte da faixa e a flauta o acompanha até a entrada da voz de Lucas. A incerteza do futuro e o impacto das notícias acabam entrando nas metáforas utilizadas como recurso na música.

Entre tremores, receios e medos, a canção traz o equilíbrio em sua bela melodia no melhor estilo sessentista. Além das referências já citadas, de Wilco e Ivan Lins, é impossível não lembrar também dos Beach Boys, e claro, dos Beatles ao ouvir o conjunto da obra.

Os sing alongs e backing vocals, por sua vez, ajudam a fazermos um passeio pela história dos hits radiofônicos de outrora…tamanha é a nostalgia e o refinamento que contrastam em um som com uma temática um tanto quanto insalubre. É no equilíbrio das coisas que ela ganha terreno e conquista o coração do ouvinte.

Se Chover, contará com 11 faixas inéditas de sua autoria e tem plano de ser lançado ainda em 2020.

Entrevista: Lucas Gonçalves

Você escreveu essa música a alguns anos mas ela infelizmente parece não envelhecer….até mesmo parece mais atual neste bombardeio de notícias, fake news e clck baits. Aliás como tem sido a sua relação com as notícias em tempos de Breaking News de hora em hora? Que mensagem deixaria para todos que andam ansiosos e tensos em casa?

Lucas Gonçalves: “Pois é, parece que a sociedade vai desandando, não evolui no tato, né? Eu acho
saudável dar um tempo do noticiário, tentar relaxar, desacelerar de verdade. O momento é
fatal, é desesperador. É preciso se desligar. É o que eu estou tentando fazer.”

Ivan LinsWilco, você cita que muitos chegaram a comparar a faixa com estes trabalhos e que era para ser uma canção ainda com mais peso. Quais foram as reais referências e como a canção foi crescendo dentro de você com o passar do tempo?

Lucas Gonçalves: “Eu e Tuca (Luciano Tucunduva), co-produtor do disco, miramos na sonoridade do Wilco, na relação entre canção e arranjo, como no disco Schmilco, as canções estão todas na frente. E o mais legal foi saber que isso ia dar em outro lugar. O Pedrinho (Pedro Lacerda, bateria) ajudou muito nisso também, ele puxou essa intro na batera e pronto, ficou bala!

Essa música lembra muito uma do Ivan Lins, que é um artista que ouço bastante, que me influenciou muito nesse disco, em matéria de harmonias, talvez. São duas referências super reais dentro desta canção. A música ficou pronta depois do primeiro take de piano do Bruno Bruni. Foi quando a gente se olhou pra confirmar: É ISSO!”



Para você como está sendo a experiência deste voo solo? Por quanto tempo andou escrevendo e criando os arranjos? Como foi o andamento deste processo?

Lucas Gonçalves: “Eu estou bem animado com o disco. É muito louco perceber que é tudo fruto da
imaginação, carregada com frequências invisíveis. A gente diz que é solo, mas nunca é. Eu montei essa banda de amigos queridos para me acompanhar. Inclusive eles me ajudaram muito no processo de levantar e arranjar essas músicas. Feliz por tê-los nesse voo!

Eu comecei um disco em 2015, com Bruno Pontalti pilotando, lá na produtora Baticum. Mas demoramos muito no processo que acabei me desconectando desse trabalho e deixamos guardado. Aí em 2018, comecei a perceber que algumas canções recentes se relacionavam bem com uma & outra do disco que eu havia deixado.

Norteado, fui criando mais algumas & pensando esse tema da imprevisibilidade do tempo, como o sol, a frente fria, a chuva. Usando isso como metáforas para estados de felicidade, tristeza ou perdas ou
sorte. Montei o Trio Elétrico com Diogo Valentino e Pedro Lacerda & o Trio Acústico com Pedro e
Mali Sampaio. Começamos a ensaiar no Departamento de Cordas, de Junho a Dezembro de 2018. As sessões do disco começaram em Fevereiro de 2019, no Submarino Fantástico. Seguimos as sessões pelo ano todo, na calma, deixando as músicas amadurecerem também.”

Você está prestes de lançar seu debut. Já tem data? Como está sendo essa relação de lançar um disco durante esse ano todo estranho por si só?

Lucas Gonçalves: “Ainda não sei quando vamos lançar de fato, agora tem o selo Pequeno Imprevisto que está pensando tudo junto comigo. Além disso, tem o disco da Vitreaux também. Vamos tentar não chocar as datas de lançamento, para dar a atenção merecida a cada um desses trabalhos. Mas penso em lançar mais um single antes do disco.

Com esse cenário de pandemia é muito ruim. Quem está passando por dificuldades reais precisa manter forte o corpo agora, não a alma. Além disso tem toda essa trapalhada no governo, o que acaba incitando a nossa ansiedade, hora ruim de dar um play e tentar entender aquilo. Mas o disco está· pronto, masterizado, tô feliz à beça com ele, nos resta lança-lo com cuidado e dedicação.

É um disco de canção. Eu continuo acreditando na força da música e das artes em geral para dar algum sentido a esse caos ao qual pertencemos e, querendo ou não, somos coniventes.”

Como veio a ideia de ter piano na faixa? Bruno Bruni teve a liberdade de improvisar nos arranjos?

Lucas Gonçalves: “Essa música foi feita pro piano. Eu não lembro como foi que cheguei até o Bruno. Mas é um cara que eu já admirava desde os tempos de “Dr. Herman, I neeeed your heelp”. Ele é muito criativo, saiu improvisando e até inventou um solo na hora, que depois Beto Mejia dobrou na flauta. Dois músicos de luxo que pintaram bem no disco!”

Você já lançou anteriormente 3 singles deste projeto, qual será o conceito ou mensagem que irá abraçar o disco como um todo?

Lucas Gonçalves: “O disco trata de imprevisibilidade, instabilidade, encontros e reencontros, memórias, paisagens construídas na infância, vida, muita vida & um bocadinho assim de morte.

Eu acho que retrata o cotidiano, a simplicidade. O que a gente, toca & pisa, o que a gente sonha, o que a gente espera ou o que nos espera… não sei bem ainda. Só poderei dizer mais sobre o disco a partir da reação das outras pessoas.”