Revisitar o passado muitas vezes é também celebrar a vida. No caso do Fábio Cardelli poder relançar o material da sua banda de juventude em tempos de tantas incertezas é até mesmo terapêutico. O paulista nos anos 2000 ao lado de amigos criou o selo independente Escárnio e Osso! através de fóruns de internet. Quem viveu o começo do digital no país sabe muito bem como funcionava esse tipo de comunicação um tanto arcaica em tempos de instantaneidade. Por ele sua antiga banda, Wasted Nation, pôde lançar seus trabalhos.

Cardelli lembra como se fosse ontem dos shows do grupo tendo dividido o palco com o Vanguart no comecinho da carreira, Macaco Bong, Ecos Falsos, Zefirina Bomba entre outras. Em sua visão a Wasted Nation, que mais tarde mudaria de nome para Visitantes, seria possivelmente um “elo perdido” entre a cena rock paulistana dos 2000 (Ludovic, La Carne, Forgotten Boys, etc) e a explosão das bandas “fora do eixo” em SP (Vanguart, Porcas Borboletas, Los Porongas, Móveis Coloniais, Macaco Bong…).


Wasted Nation

Os tempos de Wasted NationFoto: Divulgação


Wasted Nation Tempos Difíceis (2006)

Esse engatinhar da internet, nova fase do D.I.Y., protagonismo do Myspace, os discos gravados em casa e os selos como a Trama Virtual abriram caminhos e novas possibilidades para uma nova geração.

O papo vem a calhar visto que nesta sexta-feira é relançado nas plataformas digitais o segundo álbum da Wasted Nation, Tempos Difíceis (2006).

O último registro antes de mudarem o nome para Visitantes, esta que durou até 2013 quando Fábio partiu em voo solo. Seu lançamento original aconteceu no naquele ano no finado clube Berlin; onde teve 300 cópias físicas e foi esgotado.

Após muitos pedidos de antigos fãs da banda e de amigos finalmente o lançamento está sendo disponibilizado nas plataformas de streaming. Com direito a até mesmo uma faixa bônus, “Corona”.

Entrevista

São praticamente 15 anos desse lançamento, dessa época da música independente que ainda navegava pela web do Myspace, MTV, Fora do Eixo, Trama Virtual e um circuito cheio de polêmicas, esquemas, competições, iniciativas e muitas casas de shows. Como você contaria essa história?

Fábio Cardelli: “Sabe o loop da arte imitar a vida que depois imita a arte de volta? A internet tinha mudado o consumo da música, e ali foi onde a música começou a ser criada já abraçando a internet como meio. Estávamos nos baseando nos números do Myspace e do Orkut pra avaliar alcance de bandas, e confiando em conversas de MSN e Facebook pra fechar shows e viajar por horas pra Montes Claros, Serrana, Cuiabá. E nessa época realmente a confiança deu certo, você gastava umas horas de networking e conseguia tocar em lugares inusitados, conseguia público, lugar pra dormir etc.

Tinha muita solidariedade, mas também tinha gente que começou a entender que não precisava investir no mercado porque ele se “auto geria” – as pessoas carregavam as próprias caixas, hospedavam as pessoas nas suas próprias casas, e “magicamente” tudo funcionava. Só que as caixas de som começaram a queimar, as pessoas começaram a ter mais contas pra pagar e não tinham mais tempo pra fazer flyer de show de graça – a romantização desse amadorismo de “fazer por onde, não importa como” acabou mais tarde implodindo essa cena brasileira.”

O que acha que mudou? Para pior e melhor em relação ao mercado, DIY e mobilização coletiva?

Fábio Cardelli: “Acabamos piorando muito em cidades menores, de 200, 100 mil habitantes. Tinham algumas cenas bonitas nessas cidades. Mas quando os coletivos e associações cresceram e quiseram vir para SP e RJ disputar espaços maiores de mídia, as cenas locais ficaram muito descobertas e minguaram total. Hoje geograficamente voltamos àquela estaca de 2002, de cidades menores só terem espaço pra cover e sertanejo, e a concentração do espaço pro novo estar quase que restrito às capitais. Tem raríssimas exceções, como o Laboratório 96 em Uberaba (MG) por exemplo.

Por outro lado, a consciência profissional está muito mais presente no DIY, e isso é muito positivo. Tem muito mais bandas que aparecem “prontas” em termos de sonoridade, que não vão queimar músicas boas em shows com som horrível. Tem mais gente com lápis na mão fazendo conta, mais banda discutindo e organizando grana desde o começo. Faz tempo que não vejo um show soar realmente ruim ou desencontrado, mesmo em casas menores. Isso abre espaço pra sobressair quem é rico em arte, em linguagem.

Como observa as mudanças e o legado daquela geração? Porque de certa forma acha que lembram tão mais da geração anterior e não dão tanta importância para a de vocês?

Fábio Cardelli: “A nossa geração ficou diluída porque se preocupou demais em discussões sobre “como a música vai se organizar a partir de agora” e acho que propusemos pouco em termos estéticos. O próprio Escárnio e Osso!, meu selo e coletivo de 2003 a 2009, ficou um pouco refém dessas conversas conceituais de “o que nós somos, como nos organizamos” e querer ser meio “modernidade líquida”, sendo que o mais legal do Escárnio que podíamos ter focado mais, era ser um pólo louco de excentricidades e novidades.

O Vanguart, por exemplo, foi uma banda da época que colocou a estética mais no centro da discussão, e se destacou. Hoje a gente tem a nova psicodelia, o rock triste, são coisas assim que fazem girar a roda.

O legado maior é ter sido a geração que fez música acontecer num dos períodos mais difíceis da indústria – o MP3 já tinha detonado os ganhos das gravadoras, e o streaming ainda não tinha nascido para ser um novo padrão de mercado. Talvez a gente possa aproveitar algumas lições de resiliência dos anos 00s pra superar essa nova crise do Coronavírus que está apenas começando.

Como iniciou o coletivo? Foi até quando? Quais foram os lançamentos?

Fábio Cardelli: “O Escárnio e Osso! nasceu em 2003 como um Yahoo Grupos (pros mais novos, era tipo um grupo de whatsapp só que as conversas eram por e-mail). Eu queria juntar todo mundo que não se encaixava nas tendências da época (Emo, rock-MPB tipo Los Hermanos, ou ser a versão mais arrogante e moderninha possível do Stooges) e trocar informações de espaços pra tocar, festivais, fazer zines, etc. Encontrei gente procurando pelo gênero “outros” do democlub.com (não era rock, nem metal, nem punk, era “outros”, risos.).

Começamos a nos conhecer na vida real, e no auge do coletivo fomos 14 bandas principais: Wasted Nation (depois Visitantes), SomoS, Correctivo, Seminal, Culto ao Rim, Cabongues, Ecos Falsos, Ultrafônica, Deize Confusa, Monaural, Forte Apache, Hater Sonics, Tudocore e Sufragetes. Tudo com reuniões semanais, residências em casas de shows, e mini festivais.

Álbuns lançados pelo Escárnio e Osso!:

Banda Título Ano
Wasted Nation Folclore da Nação Desperdiçada 2004
Seminal Medeiros Defenestra o Patinete Amarelo 2005
SomoS O Disco do Saco Bege 2006
Wasted Nation Tempos Difíceis 2006
Deize Confusa Deize Confusa 2008
Visitantes Na Brasa Fugaz da Cana Queimando 2009
Também rolaram EPs da SomoS, Ecos Falsos, Monaural, Seminal, Culto ao Rim, Deize Confusa e Sufragetes, além de várias demos. Fomos de 2003 até 2010, quando encerramos oficialmente as atividades após cerca de 250 eventos.

Em que momento a Wasted Nation passou a se chamar Visitantes? Qual foi o desfecho da banda? Para vocês qual é a importância de subir este material para as plataformas digitais e quais outros discos dessa fase gostaria de encontrar por lá?

Fábio Cardelli: “A Wasted Nation nasceu lá por 2000 com músicas em inglês, mas desde o primeiro show em 2001 cantávamos em português. Quando lançamos o Tempos Difíceis em 2006, já estávamos numa longa crise de identidade do nome… tanto que escondemos o nome Wasted Nation da capa de Tempos Difíceis, tem só um “WN” bem apagadinho. No meio da temporada do Tempos Difíceis, anunciamos no palco do Outs que a banda passaria a se chamar Visitantes. O nome veio da música de 18 minutos “Visitantes”, que inclusive está no Tempos Difíceis.

Em janeiro de 2013 estávamos desencontrados criativamente com a Visitantes e demos uma pausa na banda, mais ou menos quando eu comecei oficialmente minha carreira solo. Voltamos para um show pequeno em 2014 e depois paramos de novo por tempo indeterminado.

É bem importante o Tempos Difíceis estar nas plataformas pois reflete um monte de memórias, eventos e acontecimentos que só quem estava lá presenciou – não é que nem hoje em dia, que tem uma porrada de vídeos e fotos de tudo o que fazemos. “Comensal” chegou a ser uma música bem pedida, as pessoas se lembram com muito carinho. Quero lançar também o debut da Wasted – Folclore da Nação Desperdiçada, de 2004 – e adoraria botar todo o restante do catálogo do EO! nas plataformas também.

Wasted Nation Tempos Difíceis (2006)

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