[Premiere] O novo EP do Fábio Cardelli é divertido feito assistir a um filme da Sessão da Tarde

Em dezembro fizemos a Premiere do primeiro single de Cardellicious, “Depois de Nascer”. Nesta sexta-feira (26), chegou as plataformas de streaming o EP sucessor do álbum de estreia do Fábio CardelliA Palavra dos Olhos (Mono.Tune Records).


Audição_Dissenso_Fábio_Cardelli
Na terça-feira (23/01) pudemos acompanhar a audição no Estúdio Dissenso. – Foto: Hits Perdidos

Audição + Gravação

Na terça-feira pude ter o privilégio de acompanhar a audição do disco direto da sala onde ele foi “concebido”. Experiência ímpar diga-se de passagem. Afinal de contas poder ouvir o áudio direto das potentes caixas – e acústica do estúdio – transforma toda a experiência.

Em épocas onde ouvimos música em MP3 ou streaming com baixíssima qualidade, isso é quase uma benção para qualquer amante da música. Um detalhe interessante para os músicos que estiverem lendo é que mesmo o EP tendo sido gravado ao vivo, raw, e em apenas um dia, o resultado final aparenta uma produção mais complexa. Um mérito justamente do trabalho de mixagem e da qualidade da sala do Estúdio Dissenso.

Na gravação Cardelli contou em sua banda com Iuri Freiberger (bateria), que também é o produtor do EP e responsável pela mixagem, e João Augusto Silva “Jojo” (baixo). O instrumental foi gravado no Estúdio Dissenso, já as vozes foram captadas no Estúdio FC. Já a masterização ficou por conta do Guilherme Chiapetta.


CAVALO
As máscaras de cavalo que viraram literalmente verso em “Depois de Nascer” realmente fizeram parte das gravações. A bateria foi gravada trajando a vestimenta. – Foto: Fábio Cardelli

Fábio Cardelli “Cardellicious” (26/01/2018)

Um detalhe na primeira audição do EP é justamente a de ter a certeza de já ouvido aquelas canções antes. Mas não por ser cópia de algo ou por referências mas sim pela harmonia dos instrumentos e veia ora power pop, ora grunge e ora selvagem feito um garage rock.

Tudo isso se destaca na atmosfera noventista que Fábio sempre carregou em sua trajetória artística. Cardellicious realmente é um trabalho divertido feito assistir a um filme de sessão da tarde sem ter que se preocupar com o que vem depois.

Creio que com poucas bandas tive essa sensação ao longo da vida. Talvez com o Gramofocas, de Brasília, com os Dwarves, do debochado Blag Dahlia, com o Carbona – que tem até música para a “Sessão da Tarde” – ou até o Little Quail and The Mad Birds em sua simplicidade. Tanto é que aqueles 15 minutos de audição passam voando feito um tiro (e nem no clipe do Korn estamos).


 


“Depois de Nascer” resgata o espírito garageiro dos anos 90. Aquela energia que grupos como Autoramas, Second Come, Pin Ups, Acabou La Tequila aliada ao peso do grunge.

Conseguindo captar aquela atmosfera das fitinhas demo que eram replicadas até ficarem inaudíveis. A faixa consegue fazer este paralelo entre a garagem e o pop, já que a produção – bem melhor que a da época – ajuda a lapidar e deixar o som pronto para as AM e FM’s dos elevadô.

Em sua letra a canção fala sobre a dura vida e pressão que uma grande cidade como São Paulo te coloca sobre os ombros. É nascer e ter que lidar com a selva de pedra, rotina desenfreada e exaustão. Além do caos mental, o cidadão tem que enfrentar o ego alheio e suas próprias frustrações. Isso que se exala em seus acordes mais brutos.

“Shirley” poderia se chamar chiclete. Por conta de após ouvir algumas vezes você começar automaticamente a repetir o nome da paixonite – até mesmo para quem você não conhece. Como fã de Ted Leo and The Pharmacists e da simplicidade de Elvis Costello – em sua fase com os Attractions – consegui captar a veia pop e simples da canção.

A situação do personagem não é nada “amigável” já que ele é praticamente um “stalker” de uma garota, no qual teve um relacionamento no passado, porém foi pego (com algo que não era bala nem chiclete, rs). Após anos em cana ele tenta se reaproximar de sua amada mas parece que até agora não teve muito sucesso. Pobre garoto!

Os arranjos de “Mais um Café” por hora me lembram DEVO, nas pirações, aliado a guitarras alá The Jam e baixo acelerado. Algo bastante interessante que consigo notar na canção é a progressão, já que conforme ele vai “tomando os cafés” ela vai ficando mais acelerada. Boa sacada.

Talvez uma DEMO que me remeta a este EP até aqui é do Driving Music, projeto carioca que carregava (até então) influências diretas de artistas como: Paul Westerberg, Guided By Voices, Sugar, Pixies e Jawbreaker. Mais tarde o som evoluiu para algo mais indie.

É uma memória boa de uma DEMO que ouvi bastante e que bebe muito dos anos 90, assim como o EP do Fábio. Ao meu ver essa geração de artistas e a “tentativa” comparação se entende melhor na segunda parte do EP.

Se você se amarra em In Utero e Incesticide do Nirvana terá uma identificação instantânea com a fugaz e massacrante “A Carne da Flor”. Inclusive o solo de guitarra soa como uma sirene de um prédio prestes a explodir. A letra parece vir de um sonho surreal onde todos conflitos vem a tona.

A canção que fecha o EP, “Meu Amigo é um Perigo”, também flerta com o grunge, mas bebe mais do bubblegum, passeia pelo powerpop e se delicia com o rock dos anos noventa. Tendo até espaço para uma mini homenagem ao The Breeders (Sim! dá para notar) lá por volta dos 2:20 da canção.

Um fato interessante é observar que o EP conta várias histórias sem necessidade de ter uma ligação direta entre as faixas. Apesar da temática ser próxima, elas sozinhas funcionam muito bem. É como se tivéssemos logo 5 singles em um disco.

Aliás vale ficar esperto pelas sobras de estúdio, no aguardo pela versão em espanhol de “Depois de Nascer”, mas isso fica para um futuro post.


CAPA
A arte da capa foi feita por Leo Lage.

O novo EP do Fábio Cardelli, Cardellicious, é divertido feito tirar a tarde para ver sessão da tarde. Com doses homeopáticas de bom humor ele parece brincar com as mais diversas situações cotidianas. Carrega um repertório que ora bebe do powerpop, ora transgride como o grunge e ora fita pela liberdade como o garage rock. São 15 minutos que passam voando e entretem. Em um mundo repleto de (intragáveis) hard news, é um alento.

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