Linda Martini fala sobre independência, resistência e o futuro do rock português
Linda Martini retorna ao Brasil. – Foto Por: Paulo Sedagães
Após estrear em São Paulo, dentro da programação da SIM São Paulo, dentro da noite do festival português MIL Lisboa, onde dividiram o palco com Maria Beraldo, o Linda Martini retorna ao país para shows em Natal (RN), no Festival DoSol, no sábado (29), e em São Paulo, na segunda-feira (1/12), no Centro da Terra. As apresentações marcam o lançamento do disco Passa-Montanhas, sétimo trabalho de estúdio do grupo, disponível desde janeiro nas plataformas; e integram a programação da Mostra Portugal Contemporâneo no Brasil, ação inédita promovida pelo Arte Institute, de Nova York.
As iniciativas que trazem o Linda Martini ao Brasil
Para quem quer conhecer mais sobre a música portuguesa ao vivo: entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, a Mostra Portugal Contemporâneo no Brasil levará mais de 80 artistas de Portugal e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa a seis cidades brasileiras — Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói, Petrópolis, Vitória e Natal.
Capitão Fausto, Linda Martini, Surma, Marisa Liz, Churky e CORVO se apresentarão – ou dividirão o palco – com artistas brasileiros como Tim Bernardes e Zé Ibarra, em shows em grandes eventos como o Rock the Mountain (Petrópolis), Festival DoSol (Natal), Festival Crias e Delírio Tropical (Vitória) e em espaços icônicos como o Cine Joia e o Centro da Terra (São Paulo).

Já o Festival DoSol, que acontece neste fim de semana, além dos portugueses recebe nomes como: os sul-coreanos da Octopoulpe, Tuyo, Terno Rei, Black Pantera, Rancore, Dandarona, Felipe Cordeiro, Àiyé, Mukeka di Rato, The Mönic, Illucas, Cidade Dormitório, Backdrop Falls, Kobracaio e os Vida Cobra, Iara Gomes, Swave, Naimaculada, Menores Atos, Zimbra, Pelados, Vibrações, Maré Tardia, Jovens Ateus, terraplana, Test & Deaf Kids, Desalmado, Zepelim e o Sopro do Cão, The Renegades Of Punk e Leptospirose.
Além dos potiguares, Bixanu, Dani Cruz, Gracinha, Truve, Sourebel, Taj Ma House, Talma&Gadelha, Camarones Orquestra Guitarrística, The Sinks, Vagalumes do Mar, Cacto Neon, Unokkai, Sertão Sangrento, Julhin de Tia Lica, Wescley Gama, Noscopia, Cinthia, Scavenger, Cabocla de Jurema, Antiklan, Crise, Manjeronna, Ocular Jack, Mess the Cage, Dusouto, Santos Noctua, Zael, Ravia, Dona Liberdade, Dj Tesoura, Nandrill, Marti, Bessa, T-Light, Jennify C. e Emma.
Entrevista: Hélio Morais (Linda Martini)
Formado por André Henriques (voz e guitarra), Cláudia Guerreiro (baixo), Hélio Morais (bateria) e Rui Carvalho (guitarra), o Linda Martini é uma das bandas mais influentes da música portuguesa das últimas duas décadas. Por aqui, inclusive, já tivemos um especial português com Hélio Morais (Murais, PAUS) comentando mais sobre a cena independente do seu país (veja) .
Tivemos a oportunidade de conversar novamente com Hélio Morais em um papo riquíssimo sobre independência, espírito punk, intercâmbio cultural, parcerias e paixão que atravessa o Atlântico.

Linda Martini está vindo para o Brasil pela segunda vez em 2025. Como foi a primeira passagem e como estão as expectativas para essa próxima, com dois shows, um em Natal e outro em São Paulo?
Hélio Morais: “Bom, a gente tocar no Brasil, mais particularmente em São Paulo, na verdade, é um projeto já de longa data. Antes da pandemia, a gente tinha começado a botar um cachê fictício da Linda Martini de parte para a gente ter um fundo de maneio para poder ir finalmente até o Brasil. Aí veio a pandemia, né? Aí a gente teve que dividir o fundo de maneio, mas essa ideia sempre foi soando na cabeça da gente, porque como a gente é uma banda já com alguns anos, né?
Teve uma época que tinha muita galera do indie brasileiro em Lisboa, que é de onde a gente é, e eu acho que quando a galera voltou para o Brasil, voltou com o Linda Martini como referência de uma das bandas da época que morava em Portugal. Então sempre teve essa pergunta: “Ah, o Linda Martini em São Paulo? Como é que vocês veem tal tal?”. Mesmo quando eu ia com a banda PAUS por cá no Brasil, a galera sempre perguntava pelo Linda Martini.
Então isso foi ficando, mas, na verdade, você não sabe muito bem quanto disso se traduz em gente num show, né? Você não sabe se são umas 200 pessoas falando isso na internet e depois não tem reflexo no show, né?
Quando a gente juntou dinheiro, não rolou porque veio a pandemia. E aí quando rolou, foi exatamente quando a gente não estava esperando. Que é, na verdade, o jeito que a gente sempre faz as coisas acontecerem, pelos vistos, porque a gente vem do punk e a gente vai ser punk até o final da vida, né?
A gente mal teve tempo de reagir porque em janeiro surgiu a possibilidade da gente ir tocar em São Paulo de um mês para o outro, né? E aí a gente se organizou, arriscou, não sabia nem se conseguia arrumar apoio para ir ou não, né? E, bom, claro, a gente teve que investir um pouco nessa ida, mas fomos. E foi super legal, porque de fato tinha gente nos shows. Tinha gente cantando músicas com sotaque diferente do nosso, né? E isso foi super bonito para a gente.
Então estamos super animados de poder voltar logo no mesmo ano, né?”
É interessante que esse show de São Paulo, no dia 01/12, acontece exatamente um mês depois da primeira apresentação do Capitão Fausto na cidade, outra banda portuguesa que também tem boa relação com artistas brasileiros. Você acha que essa proximidade entre artistas brasileiros e portugueses ajuda nesse intercâmbio?
Hélio Morais: “Talvez. Sabe que a primeira vez que eu fui pro Brasil com alguma banda foi com a banda PAUS, né? E na época tinha uma coisa que soava muito, ressoava muito em Portugal, que era uma galera um pouco mais velha, né? Dizendo: “Ah, a gente sempre recebe artistas brasileiros de braços abertos e a gente nunca consegue ir lá”. Isso foi um discurso que sempre me incomodou.
Aí quando a gente foi com a PAUS a primeira vez, a gente foi gravar um EP na Red Bull Station, e do nada a gente não conhecia o Guilherme Kastrup. A gente só convidou ele: “Ah, cara, a gente vai estar aí, a gente não tem dinheiro, a gente pode dividir direitos de autor, royalties, todas essas coisas. Você toparia fazer um EP com a gente, produzir?”. E ele topou.
Depois a gente falou com o Dinho, do Boogarins, para cantar uma música. Ele topou. A gente falou com a Maria Beraldo, ela topou. A gente falou com o Novíssimo Edgar e ele topou. Então, sabe, eu fiquei pensando: poxa, está me soando à treta, né? Eu acho que a galera recebe de braços abertos, sim. Agora você tem que se colocar lá.
Isso aí é responsabilidade das instituições de Portugal, né? Porque vocês têm uma série de apoios que normalmente fazem com que os artistas se consigam colocar desse lado do Atlântico, né? E a gente… o que estava em falta era a gente ter apoio desse lado para a gente conseguir ir aí. Uma vez aí, a verdade é que a gente sempre só somou amizades. Então não tenho razão de queixa nenhuma, né?
Acho que é um discurso que está obsoleto. Mas eu sou apaixonado pelo Brasil, então não sei se sou o melhor exemplo.”
Vocês lançaram recentemente Merda e Ouro (2025), disco ao vivo com o registro das celebrações de 20 anos da banda, em 2023. Como foi preparar e registrar esses shows comemorativos?
Hélio Morais: “A gente ia fazer esses shows de comemoração dos 20 anos e o LP, na verdade, o disco físico saiu ano passado, mas este ano a gente decidiu disponibilizar porque não queria fazer isso no ano passado, porque o disco novo Passa-Montanhas (2025), que saiu em janeiro, estava quase saindo. Então ia tudo se atropelar, umas coisas nas outras.
Decidimos dar um compasso de espera e, na verdade, acabou premiando também um pouquinho quem comprou o vinil logo, né? E decidimos fazer isso agora, já alguns meses depois de ter saído o Passa-Montanhas.
Esse registro aconteceu porque a gente queria celebrar esses anos todos juntos. E, para isso, fizemos dois shows: um em Lisboa e um no Porto, em salas muito parecidas de lotação. Lisboa tem 1300, o Porto tem cerca de 1000. São salas onde normalmente a gente apresenta os discos. E, dessa vez, a gente decidiu fazer vídeo — ou seja, tem um vídeo dos shows que passou na televisão nacional aqui e tem um registro também de áudio que a gente pediu para o Santi Garcia, que é o cara que normalmente produz nossos discos. Ele é da Catalunha, na Espanha, e ele misturou tudo. O irmão dele, que é o Víctor, masterizou.
A gente queria ter um registro, sabe? Essa coisa de ter um espólio da banda para contar a história para quem não conheça. A gente sempre olhou para isso assim um pouquinho… quase como criar um objeto de vaidade — e que é meio estranho para a gente. Tipo: “Vocês vão fazer um documentário sobre a banda?”, mas aí a gente vai estar falando… nada contra, mas tem que ver com a dinâmica da banda e a personalidade de cada um da banda. E não é muito o nosso rolê, né? Tipo “vamos produzir um documentário sobre nós mesmos”, não.
Para a gente, era uma coisa estranha, e essa foi a forma que encontramos de contar um pouco da nossa história: foi como a gente gosta mais de fazer, que é com o show ao vivo. E foi isso. A gente decidiu gravar esse disco, editar esse disco, filmar esse disco para ter um documento mais próximo daquilo que a gente é, que é no palco.”
Falando então sobre Passa-Montanhas, é um disco que mistura momentos contemplativos, quase como um pós-rock, com passagens mais pesadas e progressivas. Como vocês chegaram nesse direcionamento sonoro?
Hélio Morais: “A gente teve uma mudança séria na banda que, nesses mais de 20 anos, a gente não tinha tido: ninguém novo na banda. A gente era cinco. Depois o Sérgio Lemos, que era o guitarrista — um dos guitarristas, eram três guitarras no começo — ele saiu ainda em 2008. Ele teve pouco tempo conosco, mas, na verdade, é um dos fundadores da banda.
Depois disso, foram mais de 18 anos praticamente com a mesma formação de quatro: eu, Pedro Geraldes, André Henriques e Cláudia Guerreiro.
Aí, em 2022, a gente estava prestes a lançar o disco e o Pedro deixou de fazer parte da banda. Então foi um momento estranho, muito estranho mesmo, porque a gente tinha um disco para sair daí a um mês e tinha os shows também de apresentação. A gente ficou assim meio “ok, como é que a gente vai fazer?”.
Tanto que a gente não botou ninguém na banda. Decidimos: “Olha, vamos continuar com isso nós três”. Eu, a Cláudia e o André tínhamos vontade de continuar o projeto. E falamos com o Rui Carvalho — também conhecido pelo seu projeto solo Filho da Mãe — porque ele é família. O Rui é esposo da Cláudia, e ele tinha uma banda comigo, o If Lucy Fell, que é uma banda muito antiga da gente. Ele foi o primeiro cara com quem eu toquei, em 94.
O André e o Rui já tinham escrito para algumas fadistas, então ele fazia parte da família já, e entrou só para ajudar nos shows ao vivo. Mas aí foi ficando estranho, né? Porque a gente não é o tipo de banda que tem um músico contratado, né?
Então era estranho, porque depois tinha entrevistas e éramos só os três, e o Rui estava lá no show, mas não fazia parte da entrevista — mas, ao mesmo tempo, ele era super íntimo. Então a coisa ficou estranha e teve um momento em que a gente convidou ele mesmo para fazer parte da banda.
Aí surgiu a urgência de fazer coisas juntos, que é: a gente se entende muito bem na amizade, no palco, na estrada, mas faltava saber como é que funcionaria compondo, né? Fazendo música juntos. Eu já sabia como era fazer música com ele, né? Mas com o Linda Martini, não. Então tinha essa expectativa.
E a gente decidiu então partir para essa residência com alguma urgência mais ou menos, né? Foi logo depois desses shows dos 20 anos que a gente fez a primeira residência. E fizemos do jeito que temos feito nos últimos três, quatro discos: a gente se fecha num espaço longe de Lisboa.”
Como foi o processo dessa residência e o desenvolvimento das músicas de Passa-Montanhas?
Hélio Morais: “A gente sempre projeta fazer oito, dez dias, mas sempre faz seis, sete, porque é muito cansativo. Nós não somos pessoas com “pouco fôlego”, ou seja: as residências para a gente são acordar às nove, tomar café da manhã e às dez, no máximo, estar na sala, todos compondo e gravando em simultâneo. Só para almoçar e depois outra vez até sete, oito da noite. É super intenso. A gente se dá muito bem nesse esquema.
Então a gente saiu de lá com nove estruturas de músicas mais ou menos dessa residência que a gente fez. E depois, aí sim, a gente fez uma coisa muito diferente do que costumava fazer, porque o Rui tem muito gosto por gravar e produzir coisas também. Então a gente depois foi para a sala de ensaios gravar e ensaiar e arranjar tudo.
Na verdade, esse disco, desde a primeira residência até o objeto final, é o disco que sofreu mais mudanças durante o processo. E por isso mesmo a gente fez uma edição especial de uma fita cassete com o disco, que chama Serra, que é na verdade o espaço onde a gente fez a residência. Essa maquete, essa fita cassete, são na verdade as versões das músicas como elas saíram dessa residência. Porque a gente achou interessante ver a diferença de uma para outra, do começo para o final.
Então foi esse o processo. A gente sempre faz isso porque você consegue focar e botar a cabeça só naquilo. A gente só tem que se preocupar em fazer música — e cozinhar.”
Há alguns anos, em 2021, você montou para o Hits Perdidos um guia da música independente portuguesa. Inclusive o primeiro artista que você citou foi o Filho da Mãe.
Hélio Morais: “Ah, ele é incrível! Sabe aquele artista brasileiro, Fabiano Nascimento? Eu adoraria ver esses dois juntos!”
Tem que fazer essa ponte, também acho que seria incrível.
Hélio Morais: “Ele vai tocar em Barcelona ano que vem, quem sabe fazemos!”
Como você vê o estado da cena portuguesa hoje, em 2025?
Hélio Morais: “Eu vejo tudo com muita força, com muita criatividade, muito talento, muita diversidade cada vez mais — e muita dificuldade também, cada vez mais. Eu acho que é geral, né? Acho que essa coisa do algoritmo… eu acho que a indústria está toda deturpada. Eu não quero parecer um velho falando sobre isso, mas falando objetivamente, né?
Eu sou músico, mas também sou promoter, né? Então eu estou muito atento a todas essas coisas da música. E a verdade é que a gente está numa… acho que a gente está numa fase de transição para alguma coisa que a gente não sabe bem o que vem lá, né? Eu sinto que a galera já começa a ficar um pouco saturada de coisas “perfeitinhas”, né? Então eu sinto que está tendo já outra vez um gosto por coisas mais rock, feitas com coração.
Agora… como é que isso se traduzirá em sustentabilidade para se ser artista? Aí eu já não sei, né? Porque eu vejo que isso está cada vez mais difícil. Eu vejo os ingressos subindo de preço. Vejo tudo o que diz respeito a montar um show encarecendo. E não é fazer o papel do coitadinho do músico, até porque eu estou num lugar privilegiado — eu tenho a sorte de poder fazer música como maior parte do meu trabalho, né?
Mas eu acho que, porque a gente começou faz muito tempo, se fosse começar hoje eu acho que seria muito difícil. Está muito difícil para artistas novos. Eu sinto isso.
Então imagina: se o combustível fica mais caro, se o aluguel da van fica mais caro, tudo fica mais caro… A única coisa que normalmente, para bandas, estou falando de bandas e coisas independentes, não está subindo é o cachê dos músicos — porque está baixo, inclusive porque é óbvio que você não pode entregar a responsabilidade das coisas estarem encarecendo para um técnico de som. Porque o técnico não faz parte da banda no sentido de decidir se a banda aceita esse show ou não. Quem decide se vai tocar com cachê mais alto ou mais baixo é o artista.
Então, claro, essa responsabilidade de ganhar mais ou menos tem que ser do artista — ou seja, não vitimizando aqui o artista, porque a decisão é de fato do artista. Mas, realisticamente, está sobrando menos para o artista no final das contas, né? Então está ficando mais difícil criar a possibilidade para artistas se dedicarem majoritariamente a fazer música.
O que pode ter coisas legais e não legais, ou seja: talvez tire a pressão de certos discos porque você tem que encontrar um trabalho paralelo que te permita pagar o aluguel e os boletos e, ao mesmo tempo, fazer música. Ou seja, tira um pouco da pressão, talvez, de que o disco tenha que ter sucesso, porque você está provavelmente mais focado em fazer um objeto que curta.
Por outro lado, a verdade é que quando você se dedica mais tempo a fazer música, você fica mais experiente, né? E ganha outras capacidades, outras ferramentas. Então… não sei, está estranho. Está numa fase estranha. Eu não sei como as coisas vão ficar. Mas a verdade é que este ano eu tenho escutado muitos discos que eu tenho curtido muitíssimo — tanto de Portugal quanto de fora. Acho que criativamente está num ponto excelente. Agora, para pagar boletos… não está tão bom.”
Vocês sempre foram uma banda politicamente posicionada. Qual é a importância desse aspecto para vocês?
Hélio Morais: “Nunca é premeditado, a gente é o que é, ou seja: claro que a gente não está só cantando sobre a nossa vida, mas a forma como a gente absorve o mundo exterior informa a música que a gente faz e as letras, particularmente também.
Então… nós todos somos uma banda — eu posso afirmar taxativamente — de esquerda. Se é que isso existe, o que é uma banda de esquerda, né? Mas todos nós somos de esquerda. E então a gente tem preocupações muito parecidas, né? E quando tem crises, quando tem tumultos, quando tem convulsões sociais e culturais também, claro que isso faz parte do nosso dia a dia, da nossa discussão, das coisas que a gente fala uns com os outros.
Então não tem como fugir disso, não é? Ou seja, não é uma coisa… a gente nunca tenta apontar o dedo ou falar o que a galera deve fazer ou decidir para as suas vidas. A gente se coloca mais no papel de: “Olha, a gente acha isso. E você, o que você acha disso?”. Porque eu acho que as pessoas também estão um pouco cansadas desses arautos e desses porta-estandartes de causas — essas pessoas que tokenizam causas o tempo todo. Não é sobre isso.
É sobre conversar. Conversar melhor uns com os outros, né? E para conversar é necessário lançar questões, esperar respostas, e dessas respostas a conversa fluir e entender como a gente pode melhorar as coisas, né?
Então a nossa postura é muito politizada, sim, no sentido de que o diálogo, a conversa, o questionamento, o arrependimento… tudo isso faz parte de ser político, né? Faz parte de entender o mundo e tentar entender junto como é que a gente pode criar um lugar melhor para toda a gente, para todo mundo. Ou seja, desse ponto de vista, a gente é político.
A gente não é político no sentido de… quando a gente tinha banda de punk hardcore, a gente botava “political hardcore”, sabe? A gente botava esses… Por um acaso, as bandas que eu e o André tivemos juntos, a gente já não fazia isso na época. A gente era muito politizado nas letras, mas não necessariamente na forma de falar sobre isso.
Porque, no final das contas, você vai para uma manifestação. Não é sobre a pessoa que está no palanque. É sobre todas as pessoas que estão naquela manifestação — e as que não puderam ir, não é? Porque isso também existe, né? Não é só a galera que garante a sua voz que tem voz. Todo mundo tem voz. E a gente tem que conseguir, quando alguém não tem espaço para ter voz, amplificar. E garantir que passe a haver esse direito.”
E isso se faz sem haver porta-estandarte, sem haver galera tokenizando causas e se tornando o chefe e o CEO do ativismo, né?”
Linda Martini já tem mais de vinte anos de estrada, chegando ao status de uma das grandes bandas portuguesas da atualidade. O que vocês projetam para o futuro?
Hélio Morais: “Olha, um sonho muito grande que a gente tinha era, de fato, começar a criar uma rotina de tocar no Brasil. E isso está acontecendo: este ano pela segunda vez, o que está deixando a gente muito feliz.
Outra é: a gente vai investir também um pouquinho mais em tocar na Europa. Porque, bom, para quem não tenha tanta noção geográfica, Portugal fica — a gente brinca — “no c* da Europa”, né? E, além do mais, o salário da gente é, comparativamente com os outros salários europeus, menor.
Então imagina: fica difícil você atravessar a Espanha e a França até chegar no centro da Europa para viabilizar uma turnê. Então é mais difícil fazer isso com uma banda. Se você não tiver um bom parceiro, uma boa agência na Espanha, por exemplo, fica mais difícil ainda. Porque são tipo 1300 quilômetros que você tem que atravessar sem um show, né? É muito difícil.
Então a gente está focando um pouquinho em melhorar essa parte da nossa vida. Também porque, apesar de a gente ter mais de 20 anos, durante muito tempo o André, particularmente, tinha um day job o tempo inteiro, né? Ele só em 2015 passou a ser essencialmente músico. E pouco depois veio a pandemia, né? Então teve essa convulsão também.
Mas isso é uma coisa que a gente está agora tentando — não diria corrigir, mas mudar — que é investir. E a gente não tem nada a perder nessa fase da vida. A gente está bem estruturado em Portugal. A gente está feliz. A gente não está esperando, quando vai para a Espanha ou quando vai para o Brasil, ter exatamente as mesmas condições que a gente tem aqui, porque a gente é outra banda fora de Portugal.
Uma coisa é lotar uma sala de 2000 pessoas em Lisboa. Outra coisa é a gente ainda não ter lotado o Centro da Terra, né? São outras coisas, né? E eu acho que é importante também a gente partir desse lugar de noção de que está recomeçando. Não está do zero, claro — a gente vai se apresentar em alguns países pela primeira vez com uma rodagem diferente daquela que uma banda normalmente leva quando vai tocar num país pela primeira vez. Tem essa parte.
Mas em termos de público e de retorno, a gente tem que estar focado nessa ideia de que é um recomeço, né? E isso, ao mesmo tempo, é motivante. É tipo: “Poxa, você tem que provar outra vez que é bom, né?”.”
Para fechar, queria que você deixasse uma mensagem para os fãs brasileiros que aguardam os próximos shows.
Hélio Morais: “A primeira mensagem é: obrigado. Obrigado pelo carinho. Obrigado pela insistência, com as mensagens que a gente foi recebendo ao longo desses anos todos.
E é isso: a gente vai estar lá em Natal. Vai ser uma estreia em Natal. Acho que vai ser uma estreia — só o André que já esteve em Natal, mas de férias. E vai ser o primeiro show headliner que a gente vai fazer no Centro da Terra, em São Paulo, onde a gente vai poder tocar mais músicas, porque os showcases que a gente fez foram curtinhos, né?
A gente está muito animado de ter essa possibilidade. Então estaremos muito felizes de contar com todo mundo que já conheça a banda ou que tem algum interesse em conhecer. Vai ser muito, muito legal ter vocês lá no show. E vai ter uma surpresa também: vai ter um músico muito amigo da gente cantando conosco?”
LINDA MARTINI – TURNÊ PASSA-MONTANHAS
Dentro da programação da Mostra Portugal Contemporâneo no Brasil
Natal (RN)
Local: Festival DoSol – Palco Unimed
Data e horário: 29 de novembro de 2025 (sábado), às 19h
SÃO PAULO (SP)
Local: Centro da Terra (R. Piracuama, 19 – Perdizes, São Paulo)
Data: 1º de dezembro de 2025 (segunda-feira)
Horário: 22h
Valor: a partir de R$48
Ingressos antecipados: https://www.sympla.com.br/
