Sara Não Tem Nome lança ‘’A Situação’’, seu segundo disco de estúdio

 Sara Não Tem Nome lança ‘’A Situação’’, seu segundo disco de estúdio

Sara Braga (Sara Não Tem Nome) – Foto Por: Randolpho Lamonier e Victor Galvão

Multi-artista de Belo Horizonte, Sara Não Tem Nome, retrata a situação de um Brasil caótico dos últimos anos em 12 faixas.

No final de 2015 o povo brasileiro começou a testemunhar a fragilização de sua democracia. Foi quando se iniciou o processo de impeachment da ex presidenta Dilma Rousseff, seguido do governo Temer e posteriormente, o governo Bolsonaro. Foi nesse contexto que Sara Braga (conhecida como Sara Não Tem Nome) se inspirou para compor seu segundo álbum de estúdio, ‘’A Situação’’.

Conheci o trabalho de Sara logo em 2015, poucos meses após ela lançar seu disco de estreia ‘’Ômega III’’, um disco que me marcou e até hoje me faltam palavras para descrevê-lo. Logo na estreia Sara dispôs de boas referências e autenticidade, a sonoridade de ‘‘Ômega III’’ traz o melhor do indie rock com passagens que remetem a Arcade Fire e Mac DeMarco tudo sob a voz etérea de Sara (que antecipou o bedroom pop). As letras então criam imagens capazes de tirar qualquer um de si e nos transportar para um universo que também não tem nome, mas que transborda sentimento.

Desde então acompanho Sara em suas apresentações, performances, intervenções e demais projetos artísticos (Sara estudou Belas Artes na UFMG e amplia bem seu campo artístico para além da música). Nesse ramo, lançou em 2016 o single ‘’Geografia’’, em 2020 integrou a banda Tarda em seu disco de estreia e em 2021 formou o Clube das Exaustas junto com Julia Branco e Luiza Brina. Em 2022 iniciou os trabalhos d’A Situação com os singles ‘’Pare’’ e ‘’Cidadão de Bens’’, e na primeira sexta feira 13 de 2023 apresentou ao mundo seu segundo álbum.

Sara Não Tem Nome A Situação


Sara Não Tem Nome - Capa do disco A Situação
Capa de ”A Situação”, por Randolpho Lamonier e Victor Galvão

O disco A Situação começa com ‘’Pare’’, uma marchinha triste e agitada de carnaval que apresenta um arranjo diferente de tudo que Sara tinha produzido até então. Sem guitarra, sem baixo e com foco nos arranjos percussivos e nos metais, a faixa atiça a curiosidade para o qual rumo a artista seguirá no decorrer do álbum. A segunda faixa no entanto retoma à atmosfera do ‘’Ômega III’’ com alguns acréscimos. Em ‘’Ponto Final’’ a guitarra serve de base para uma linha de violino e um arranjo de metais que se desenvolvem junto à voz de Sara num clima melancólico e flutuante. Clima esse que se estende para ‘’Dejà Vú’’ até a bateria e o baixo nos trazer de volta ao chão. Um coro majoritariamente masculino nos surpreende em ‘’Incomoda’’, faixa essa que tem um quê de canção de protesto dos anos 70. As frases rápidas de Sara em confluência com viradas de bateria criam uma tensão que é resolvida no tema da música, ‘’Larga pra lá/ Vamo deixar como está’’.

As letras são fiéis ao conceito do álbum de ser um retrato atual do Brasil. ‘’Essa viagem já foi longe demais’’, ‘’Na corda bamba’’, ‘’As mesmas histórias de 50 anos atrás’’ são algumas das frases que, além de corroborar com a ótima capacidade de criar imagens que Sara possui, remetem diretamente ao sentimento de ser brasileiro nos últimos anos.

O disco segue com ‘’Revés, Volte 4 Casas’’, uma alusão à carta do banco imobiliário para representar a realidade de viver entre dívidas, boletos e obrigações financeiras. Uma balada do brasileiro endividado com um arranjo animado, com teclas e cantada em falsete. A faixa seguinte traz a primeira participação do álbum. ‘’Agora’’ conta com backing vocals de Carlos Antonio Mattos, o famoso Tantão. A música traz uma energia punk, com uma densidade maior, distorções envolventes que remetem ao OK Computer do Radiohead. Chegamos em “Cidadão de Bens’’, segundo single do disco e a faixa com a crítica mais escancarada. Em ‘’Parque Industrial’’ Sara se afasta do aspecto social para exaltar os sentimentos enquanto fala da cidade de Contagem (município da grande Belo Horizonte onde há um parque industrial) onde seus pais e os pais de seus amigos trabalharam. As longas notas de trompete e as linhas de violino ajudam a construir um tom nostálgico, pode-se ouvir também sons de maquinários que compõem a paisagem sonora do verdadeiro parque industrial.  

É especialmente emocionante reparar na fidelidade que o segundo álbum de Sara tem com o primeiro, mas sem conformismo. Eu consegui sentir nitidamente uma sensação de continuidade, a identidade do ‘’Ômega III’’ também está em ‘’A Situação’’ porém ampliada, desenvolvida, com arranjos mais ricos, mais instrumentos. Com certeza um passo à frente na carreira de Sara.

A etapa final do disco começa com ‘’Nós’’, uma música que carrega a especialidade da artista, a melancolia. Assim como em ‘’Ponto Final’’, ‘’Nós’’ parte de uma guitarra base para linhas de violino que dialogam com o vocal. O mesmo clima segue em ‘’Hoje Não’’, mas com o retorno dos metais. ‘’Vazio’’, que conta com participação de Bernardo Bauer (com quem Sara já colaborou antes na faixa “Coragem’’, do primeiro álbum de Bernardo) começa com teclas e batidas de um sino de igreja. É criada uma paisagem barroca que é alimentada pelas letras ‘’Mineiro de ferro/ Coração de aço/ Ferrugem nos ossos/ Minas de carvão’’. A voz de Sara e Bernardo se intercalam até se unirem em ‘’A fé não dá trégua” e seguem juntas embaladas pelas teclas e violinos. O disco é finalizado com ‘’Volta’’, parceria com a pianista Luiza Rozza. Sara inicia cantando sob o piano, a voz de Luiza entra dobrando e logo depois o violino. ‘’Anda o descompasso dos dias/ Fugindo da morte/ Procuro respostas’’, ‘’Segue o rumo incerto da vida/ O tempo não volta/ O mundo dá voltas’’. A música se esvai em efeitos e o disco chega ao fim. O silêncio agora é um aliado para digerir tudo que passou.

‘’A Situação’’ é um trabalho que transborda cuidado e carinho. São diversos os elogios que podem ser feitos à produção conjunta de Sara, Desirée Marantes e Victor Galvão. Os violinos de Desirée couberam como uma luva nas composições de Sara, assim como os arranjos de metais. As linhas de bateria de Larissa Conforto (ÀIYÉ) também acrescentaram muito com dinâmica nas faixas que estão presentes. As letras não falharam com o que era esperado, são imagéticas e profundas, cheias de significado. O conceito do disco é ampliado nos trabalhos visuais, a capa, feita por Randolpho Lamonier e Victor Galvão, também busca retratar a situação atual do país.

Finalizo ressaltando que valeu cada segundo de espera por esse segundo trabalho, já aguardo o terceiro.


Haroldo Bontempo

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