Todo fim de ciclo permite um novo começo e todo aprendizado é levado na bagagem. Por mais clichê que isso possa soar, isso se aplica a diversos projetos que temos ao longo da vida. A certeza de que nada se perde e toda experiência agrega de uma forma ou outra e é com esse espírito que apresentaremos para vocês o gran finale da banda paranaense Lia Kapp.

Após um início de trajetória ainda solo a vocalista, Lia Kapp, testou algumas formações para transformar o projeto em banda com a premissa de realizar shows. Até chegar na formação fixa com Erich Zimmermann (baixo e voz), Gabriel Bryl (guitarra e bateria) e Gustavo Mazuroski (guitarra).

O que afetou a proposta sonora da banda que para o ao vivo ganhou elementos de Doom Metal, algo bem distinto do que era feito antes. Ao longo do projeto lançou dois EPs [Conflito (2015), Júpiter (2019)] e um álbum, Metamorphösis (2018).

Um pouco antes da pandemia a banda estava à todo vapor produzindo canções e gravando o videoclipe para “Pasiphae (Verdict)”, com direito uma qualidade de produção que almejavam a algum tempo. Pelo caminho tiveram algumas situações que retardaram o lançamento e fizeram com que os planos iniciais da produção fossem mudados.

Assim como muitos projetos independentes a banda sofreu as consequências do distanciamento social. Impossibilitados de se reunir, e o fluxo online sendo totalmente distinto, após a saída de Gabriel, a Lia Kapp entrou em hiato ainda em abril de 2020. Em paralelo seus integrantes iniciaram novas jornadas e projetos musicais, o que consequentemente, culminou no fim em definitivo da banda.

Para presentear os fãs e fechar o ciclo, eles persistiram e finalizaram o videoclipe para simbolizar e encerrar esta jornada de uma maneira singela e calorosa.


Lia Kapp videoclipe

Lia KappFoto: Still videoclipe


Lia Kapp “Pasiphae (Verdict)”

A premissa do lançamento do clipe é mostrar que mesmos separados o grupo curitibano permanece unido. A produção do clipe contava com uma equipe completa e os integrantes apareceriam juntos, mas, devido à pandemia do coronavírus, a banda se viu obrigada a recriar toda a narrativa do vídeo, lidando também, nesse momento, com o término do projeto em conjunto.

A narrativa escolhida é um tanto quanto romântica no estilo: Qual seria a última coisa que você faria se o mundo fosse acabar amanhã?

“A narrativa de que o planeta Júpiter está em rota de colisão com o planeta Terra. Quando descobrem sobre o que está por vir, os quatro viajam para lugares afastados para fazer uma última coisa antes de morrer: tocar as músicas que criaram juntos.”, conta Lia Kapp

“O clipe conta com “easter eggs” de coisas especiais para os membros, como a camiseta com a estampa do EP; o local de shows 92 Graus the Underground Pub, onde organizaram e apresentaram diversos eventos, com grande apoio do dono, o JR; o carro que foi adquirido pelo pai de Lia Kapp para que a banda conseguisse viajar e levar os instrumentos; bem como parte do caminho da vida real de Gustavo Mazuroski, que é visto fazendo as malas para viajar – atualmente ele está estudando em outro país.”, revelam os integrantes



Entrevista: Lia Kapp

Para entender toda a simbologia do momento e contar mais detalhes para quem só está conhecendo o projeto em seu fim; conversamos com os ex-integrantes da banda curitibana Lia Kapp para saber mais sobre o passado, o presente e os planos para o futuro. Confira!

Conte um pouco sobre o surgimento do projeto e as transformações.

Lia Kapp: “Antes de qualquer coisa, queria agradecer ao Rafael pela oportunidade de estar apresentando no Hits Perdidos este trabalho tão especial para nós. Foram dois anos tentando finalizar e não há lugar melhor para inaugurá-lo.

O projeto começou comigo sozinha em 2014/2015, quando compus, gravei e lancei meu primeiro EP, Conflito, de maneira improvisada e com áudio bem amador. Na época, eu e o Mazu nos tornamos amigos e passamos a compartilhar nossas criações e a ajudar um ao outro em nossos projetos solo. Em 2015, comecei a compor meu álbum Metamorphösis e ele me auxiliou com a gravação e produziu o disco.

Nós fazíamos shows juntos desde o começo de tudo, mas só em 2018 que eu decidi que o álbum precisava de uma experiência ao vivo com uma banda completa, então convidei alguns amigos para formá-la.

Depois de algumas trocas de integrantes, a banda se estabeleceu com o Gustavo, o Erich e o Gabriel. Ao passar do tempo, o que era apenas uma banda de apoio se tornou também parte criativa do projeto, e então, por volta de maio de 2018, decidimos manter o nome do projeto como Lia Kapp, apesar de todos dividirmos influência na criação musical, e começamos a compor juntos o que hoje é o EP Jupiter.

Nesse período, eu parei de me enxergar como uma artista solo e passei a visualizar um futuro como integrante de uma banda, mas aí vieram os problemas em 2019/2020: conflitos criativos, a vida pessoal de cada um, a pandemia…por fim, decidimos em conjunto que seria melhor parar as coisas e cada um seguir seu caminho, mas claro, com muito respeito e amizade.”

O que queriam passar com o vídeo para “Pasiphae (Verdict)” e quais foram as adaptações devido a pandemia? Qual a temática do single e do trabalho cheio?

Mazu: “O projeto do clipe teve início lá no começo de 2019. Estávamos terminando a composição do disco, prestes a entrar no processo de produção de fato, e queríamos um clipe que trouxesse imagens de uma performance em banda para justamente ilustrar aquilo que acreditávamos estar impresso no som do EP: uma “repaginada” no som de Lia Kapp, com a consolidação da formação e a ênfase nas apresentações ao vivo. Através de financiamento coletivo, conseguimos um dinheiro que serviria para a produção do EP e do clipe (aproveitando aqui para agradecer a todos que colaboraram conosco na campanha!)

Juntamos uma equipe de cineastas dispostos a trabalhar com a gente, e juntos conceituamos o que iríamos fazer. Na época, o clipe seria dividido em dois momentos: “Jupiter” e “Pasiphae (Verdict)”. Ambos apresentariam uma performance da banda em uma espécie de galpão, mas toda a linguagem do clipe, principalmente em relação aos enquadramentos e à luz, seria drasticamente diferente em cada um.

Entre os trechos, uma passagem onde todos da banda entrariam em contato com o planeta, fazendo com que na segunda parte estivéssemos mais conectados do que na primeira, com uma performance e filmagem mais energética.

A partir daqui a história fica muito longa, mas, basicamente, mesmo depois de mais de um mês de pré-produção e muito ghosting, fomos abandonados pela então equipe perto da data de gravação, porque decidiram priorizar outras produções…como os equipamentos e locações eram conexões que só eles tinham, ficamos órfãos, e tivemos de buscar novamente pessoas que pudessem embarcar nessa conosco.

A esse ponto, já estávamos no calor da produção do EP, pela qual fomos os únicos responsáveis, então não tínhamos como pôr o clipe em prática sozinhos. Logo depois disso vieram os shows e…o clipe atrasou. Depois de muita insistência, juntamos uma segunda equipe e passamos muito tempo tentando insistir na ideia anterior, até com locação fechada estávamos, mas por causa de dificuldades logísticas e novamente um abandono pela nova equipe, tivemos que alterar de novo. Depois disso e de uma terceira equipe, o clipe passou por outras 2 reconceituações. Quando finalmente estávamos prontos pra gravar… pandemia!

O Hiato da Lia Kapp

Logo que começou a quarentena, a banda decidiu entrar em hiato por complicações envolvendo novos membros, a pandemia e eu fui pro Japão. Então decidimos, com os equipamentos que tínhamos em mão e locações seguras, repensar o clipe de forma a não envolver aglomerações nem pessoas de fora (gravamos o clipe apenas com os membros da banda e pessoas próximas, que estão em isolamento conosco).

A pandemia também impossibilitou gravações da banda em conjunto. Tivemos, portanto, que repensar principalmente duas coisas — como o fim da banda nesse meio tempo afeta a simbologia do clipe? Como incluir no conceito o fato de estarmos fisicamente separados?

A partir daí o clipe evoluiu para o que é hoje: Júpiter simboliza um começo e um fim que move os pensamentos e desejos dos 4 membros à mesma direção.

Quando ficamos sabendo do fim que se aproxima, nos conectamos, mesmo distantes, através das músicas que fizemos juntos e das nossas memórias. É um clipe caseiro, muito mais simples do que era pra ser. Mas, na nossa opinião, um belo registro desses tempos tumultuosos e incertos para nós, como banda e como indivíduos que vivenciam morar num Brasil de péssima gestão da pandemia.

Cada um pensou em como iria incluir um pouco de narrativa nas suas filmagens e onde e como iria fazer sua performance desde que, ao final dela, se filmasse olhando o planeta se aproximar e, com pesar mas sem tentar mudar o destino, esperasse o fim.”

Lia Kapp “Pasiphae (Verdict)”

Lia Kapp: “Quanto à música em si, nós fizemos uma regravação da faixa “Verdict”, presente em meu álbum Metamorphösis. O objetivo dessa versão era mostrar como o som mudou comparado ao projeto solo e foi graças a ela e à faixa “Jupiter”, que criamos para abrir os shows, que o EP tomou forma.

A letra fala sobre se sentir deslocado do restante das pessoas, sobre se sentir solitário e lembrar de um momento de felicidade que já passou, e querer que a sensação volte e seja eterna. Tem uma frase que diz “if there’s one thing I know is that I don’t belong to this world”, que significa “se tem algo que eu sei é que eu não pertenço a esse mundo”. Quando o “Jupiter” surgiu, eu senti que fazia muito sentido, sem querer, como se nós fôssemos desse outro planeta. Mas isso é só uma brincadeira minha (risos).”


Lia Kapp - Pasiphae Verdict Videoclipe

Lia KappFoto: Still Videoclipe


Como é para você fechar esse ciclo e iniciar outro? Como as diferenças estéticas e de formato têm afetado as novas produções em andamento?

Lia Kapp: “: Para ser sincera, foi até libertador. Eu queria com certeza continuar na banda, mas também queria lançar músicas sozinha e fazer isso tudo com o mesmo nome no projeto era confuso para as outras pessoas e até para mim. Foi um processo muito doloroso e sinto falta dos meninos, espero que um dia possamos voltar a tocar juntos, mas com outro nome para a banda.

Quanto ao meu momento atual, sinto felicidade em poder inventar sons sozinha, por mais que eu não faça isso com tanta frequência (risos). No nosso conjunto, seguíamos uma estética mais voltada para o doom metal, marcada pelos instrumentos orgânicos na intenção de mimicar a experiência de um show ao vivo.

Agora, voltei às minhas raízes e estou trabalhando com algo mais eletrônico, voltando um pouco para o dark pop. Mas não quero colocar nenhum nome, até porque nem sei direito do que se trata (risos). Daqui a alguns meses irei lançar um single novo, que na verdade está guardado desde 2017. Vai ser bom voltar a fazer isso.”

E os outros companheiros de banda: quais projetos irão tocar? Vocês continuam amigos, como tem rolado as trocas em relação às novas produções de todos?

Lia Kapp: “Sim! Ainda somos muito amigos. Na verdade, já éramos grandes amigos antes mesmo de termos a banda juntos, então nada mudou desde o fim. Nós estamos sempre nos ajudando e participando (às vezes ativamente) dos trabalhos uns dos outros – por exemplo, eu e o Erich participamos do clipe do projeto solo do Mazu, eles participaram de um clipe meu, e por aí vai…”

Mazu: “Eu tenho focado na minha carreira de compositor para cinema; desde o ano passado fiz a trilha de 2 curta-metragens “Eu te Amo, Bressan” e “Fique Bêbado, Ligue Para Sua Ex”. Além disso comecei um projeto solo de música eletrônica chamado Asu Asuni, o clipe do single “Agartha” já está disponível no Youtube!

Tenho planos de seguir lançando sob o Asu Asuni e de eventualmente retornar ao meu projeto And the Night Never Came com um EP que comecei a compor misturando post-rock, dark jazz e spoken words.



Erich: “Infelizmente, desde o encerramento do projeto, a música tem deixado o centro das minhas dedicações, por conta da minha atual dedicação à carreira como profissional de Letras. Tenho atuado como revisor e diagramador no mercado editorial, e pretendo, futuramente, seguir na produção acadêmica com alguma pós-graduação.

Mas como a música é parte essencial da minha vida, sigo descobrindo novos artistas e ouvindo muita música, bem como, quando possível, trabalhar em alguma produção amadora – mas, agora, como hobby.

Cogito, eventualmente, lançar um EP, quando tiver um número suficiente de faixas com as quais me contento. Mas a vida acontece, então não prometo nada (risos). Neste link, pode-se ter uma ideia do rumo que costumo tomar ao trabalhar sozinho, pois essa faixa certamente estará presente nesse potencial EP.”

Gabriel: “Atualmente estou participando da produção do EP Terrario de Nana com minha banda Clube da Colheita. Planejamos lançar o EP no segundo semestre de 2021, ele conta com influências que vão desde Lô Borges e Clube da Esquina, até bandas gringas como Stereolab e Lamp. Buscamos explorar essa troca cultural entre a música brasileira e a música de outros países, resgatando elementos da bossa-nova japonesa e do lounge europeu, tudo isso carregado com letras de temática ambiental e solarpunk.”

Lia Kapp Metamorphösis