Numa mesma semana de abril, dois músicos nova-iorquinos morreram vítimas da pandemia: o baixista Henry Grimes no dia 15 e o compositor Giuseppi Logan no 17. Estes nomes podem não acender muitas memórias, mas estiveram no time dos músicos mais influentes e requisitados do meio do free jazz na década de 1960, contribuindo com a parte mais surpreendente da discografia dessa época.

Embora nunca tenham trabalhado juntos, a vida dos dois tem muitas outras coincidências: ambos nasceram em Philadelphia no ano de 1935, estudaram em conservatórios de renome, foram tentar a vida em Nova Iorque e, depois de um período de produção intensa, desapareceram completamente da cena nos primeiros anos da década de 1970 por consequência de dificuldades financeiras.


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Giuseppi Logan

Um dos únicos registros em filme de Giuseppi Logan no início da carreira é um documentário de menos de cinco minutos gravado em 1966. Na cena inicial o compositor se questiona: “se pessoas em outras profissões conseguem sustentar suas famílias fazendo o que fazem, porque não eu e outros músicos que estão fazendo algo de bom pela sociedade?”

A frase em off aparece sobre imagens de Logan passeando numa praça com os filhos. Essa cena é apenas uma lembrança da frágil estabilidade que ele não conseguiria sustentar.



O vídeo curto foi uma encomenda da ESP-Disk, a gravadora nova-iorquina famosa por abrigar os músicos mais excêntricos, que não conseguiriam gravar seus trabalhos em nenhum outro lugar: álbuns históricos de Sun Ra, Ornette Coleman, Albert Ayler, Pharoah Sanders e toda a cena do free jazz nova-iorquino foi registrada pelo empresário Bernard Stollman, dono da ESP. Foi nesse meio que Henry Grimes e Giuseppi Logan encontraram o terreno mais fértil para trabalhar.

Henry Grimes

Grimes foi aluno de contrabaixo da Julliard, e por ser um aluno de destaque logo foi chamado para tocar com grandes nomes da época como Lee Konitz (que, por acaso, morreu no mesmo dia que ele também pelo coronavírus), Thelonious Monk, Benny Goodman e Sonny Rollins. Com Rollins, fez diversas turnês num trio sem piano, que o obrigaram a desenvolver um estilo enérgico para não deixar buracos.



Em 1963, Rollins chama para a banda o trompetista Don Cherry e o baterista Billy Higgins, que vinham do quarteto de Ornette Coleman. Grimes já tinha tido experiência tocando de forma mais livre em dois discos de Cecil Taylor para a gravadora Impulse, então se deu bem com os novos colegas. A partir daí, seria um dos baixistas mais requisitados entre os músicos mais aventurosos e espirituais do free jazz. 

A primeira data de Grimes para a ESP foi no emblemático Spirits Rejoice, registro de uma apresentação ao vivo de Albert Ayler em 1965. Grimes compõe um naipe junto com o baixista Gary Peacock, complementando as linhas do colega com drones de arco que dão um peso ao free jazz militar de Ayler. No ano seguinte, fez parte do naipe de outros três discos da ESP e chegou a gravar um disco pelo selo liderando um trio com bateria e clarinete.



As Memoráveis Performances de Henry Grimes

Uma das performances mais memoráveis de Henry Grimes é no disco Tauhid, de Pharoah Sanders. Alternando momentos texturais com grooves de soul, (Henry) Grimes sustenta a banda de explorando toda a sonoridade do baixo acústico, por vezes soando como uma guitarra, fazendo drones com arco e explodindo em solos furiosos. O ímpeto e a seriedade com a qual ele encarava seu dever de baixista foram sua marca nessa época em que o jazz se tornava cada vez mais feroz. 



O Excêntrico Giuseppi Logan

Giuseppi Logan, por outro lado, era o excêntrico no meio dos excêntricos. O baterista Milford Graves o conheceu em 1964 numa jam session em Boston, onde Logan era aluno de conservatório na época. Quando apareceu na casa, o comentário geral era “chegou aquele cara esquisito”. Logan tocava saxofone olhando para cima o tempo inteiro em estado de transe, extraindo a potência máxima do instrumento. Graves logo sentiu afinidade com ele, e o convenceu a se mudar com a família para Nova Iorque no mesmo ano.

A amizade foi frutífera: Logan acabou apresentando Graves ao trombonista Roswell Rudd e ao saxofonista John Tchicai, dando início ao New York Art Quartet. Em outubro de 1964 acontece o festival October Revolution, reunindo todos os músicos mais jovens, desconhecidos e experimentais do jazz contemporâneo.

O New York Art Quartet toca, assim como Logan, Sun Ra e diversos outros grupos: um prato cheio para Bernard Stollman, que convida a maior parte desses músicos para gravar na ESP, então com poucos meses de existência.



New York Art Quartet

O disco do New York Art Quartet foi um dos primeiros a ser gravado. Stollman então oferece a Graves um disco como líder, mas em vez disso o baterista indicou seu amigo Giuseppi Logan para a oportunidade. Assim foi feito o The Giuseppi Logan Quartet, primeiro dos dois discos que Logan lançaria na ESP. Graves é o baterista do grupo, acompanhado por Don Pullen no piano e Eddie Gomez no baixo. O free jazz sombrio, cheio de instrumentos não-convencionais, texturas e mantras, era diferente até para os parâmetros da época.

O outro disco foi gravado no ano seguinte: More registra uma apresentação ao vivo, com a banda ainda mais solta e com um monumental solo de piano de Logan no meio. Além de seus discos solo, Logan aparece como flautista em discos de Roswell Rudd e de Patty Waters, sempre em seu estilo estridente e flutuante. Embora não tenha gravado mais discos, Logan e seu grupo tocavam o tempo inteiro nos inferninhos do free jazz nova-iorquino.



O Declínio do Free Jazz Nova Iorquino

A partir do final da década de 1960 a coisa começa a mudar. As tocadas são mais raras, o ápice do free jazz começa a esfriar em Nova Iorque: John Coltrane morre em 1967 e Albert Ayler em 1970, enquanto os grandes nomes do free jazz mudam-se para Paris onde são mais reconhecidos do que em casa. Nem Logan nem Grimes tiveram um nível de estabilidade que lhes permitisse seguir esse caminho, e se desdobraram para sobreviver na cidade.

Grimes perde o rumo ao se mudar para a Califórnia no início dos anos 70. Seu baixo sofre um acidente, ele o vende para conseguir pagar contas urgentes e acaba ficando sem instrumento e sem renda, vivendo de bicos. Logan, endividado e com mudanças de humor pioradas pelo uso frequente de drogas, é internado e abandonado pela família, vivendo os próximos anos entre ruas, hospícios e prisões.

Os dois foram dados como mortos por quase quatro décadas. Em 2002 Henry Grimes foi localizado por um assistente social em Los Angeles, em pobreza absoluta mas com a ideia fixa de que iria voltar a tocar. Em 2008 foi a vez de Logan ser reconhecido num vídeo postado no YouTube tocando um saxofone velho numa praça em Nova Iorque. Desde então, com a ajuda de velhos colegas e jovens músicos, haviam voltado aos palcos e estúdios.



A Morte de Henry Grimes e Giuseppi Logan

A morte recente deles, na mesma semana e pela mesma causa, é mais uma triste coincidência nas vidas de dois músicos, que embora nunca tenham sido conhecidos a ponto de serem considerados icônicos, foram representantes de uma comunidade relativamente pequena mas que exerceu uma grande influência mundial entre os músicos mais experimentais.

Embora tenham sido “redescobertos”, não se pode dizer que viveram confortavelmente seus últimos dias. Os dois estavam no lado mais fragilizado da população durante a pandemia: Logan morreu num abrigo para idosos onde estava há alguns anos com a saúde debilitada, e Grimes havia parado de tocar em 2018 com sintomas de Parkinson. O que nos resta é prestar homenagem à estimulante e vívida discografia deixada por esses dois mestres.