Os sonhos, os desejos e a espiritualidade estão presentes em “Azul Moderno” de Luiza Lian

Após o excelente álbum visual Oyá Tempo (RISCO, 2017) ficou difícil não prestar a atenção nos passos da paulista Luiza Lian. Misturando ritmos, religiosidade, aventuras e experiências pessoais seus trabalhos tem como característica a intensidade e os arranjos.

Além disso a linguagem visual é elemento bastante importante tanto no conceito do disco como em suas imersivas apresentações. Logo nas primeiras audições, o terceiro disco de Lian, Azul Moderno, consegue passar uma sensação de paz, expansão de espírito e reconforto.


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Luiza Lian. – Foto Por: Fernando Banzi

A conectividade com o mundo ao nosso entorno e o mergulho no campo de nossas relações pessoais acaba refletivo em Azul Moderno. Que vem sendo composto a anos, e como ela mesmo disse em apresentação no Fora da Casinha ao lado de Laura Lavieri, são canções que já vinha tocando ao longo dos últimos tempos.

Oyá Tempo por si só tinha sido feito para ser apenas um disco de transição mas acabou ganhando novos contornos e importância dentro de sua discografia. Muito por sua ancestralidade, raízes e sentimento.

Já o novo álbum chega mais solto e o ouvinte consegue captar isso sem muita dificuldade. Essa liberdade instiga e faz com que suas melodias sejam fáceis de cantarolar. O universo imaginário do novo registro faz com que possamos nos identificar com suas passagens, estas tão vivas quanto um sonho.

Luiza Lian – Azul Moderno (27/09/2018)

O novo registro foi produzido por Charles Tixier e co-produzido por Tim Bernardes. Já as composições são de Luiza que teve no álbum a companhia de:

Guilherme d’Almeida baixo (faixas 3, 6), Gabriel Basile: percussão (faixas 3, 10), Tim Bernardes: violão (faixas 1, 2, 3, 5, 7, 8, 10), baixo (faixas 4, 5, 8, 10), coro e arranjo de vozes (faixa 5), arranjo de sopros (faixa 5, 10), Gabriel Milliet: saxofone e arranjo de sopros (faixa 2), Filipe Nader: saxofone (faixas 5, 10), Tomás de Souza: piano (faixa 1, 6, 8), teclados (faixa 1), Charles Tixier: bateria (faixas 4, 7, 8), MPC (todas as faixas), baixo synth (faixas 1, 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10), teclados.

Azul Moderno tem 10 faixas, 36 minutos de duração e passeia por ritmos como a MPB, Samba, Axé, Techno, Bossa Nova, Reggae, Dub, Trip Hop em fusões interessantes que se confundem com o imaginário.



Com piano, e falando sobre a passagem do tempo, “Vem Dizer Tchau” já chega com synth deixando sua atmosfera envolvente. A leveza da viola na canção se choca com sua temática.

Esta que soa como uma crônica sobre as pequenas (e aceleradas) passagens do cotidiano. Um tapa na cara do paulistano que sai para trabalhar de manhã e faz tudo com o relógio cronometrado. Sem valorizar aqueles pequenos momentos de cumplicidade, gentileza e ternura.

“Mil Mulheres” traz o lado de aventura, romance e da intensidade das relações. É ardente feito o fogo e parece uma locomotiva de emoções. O cenário ainda é o caos da velocidade de São Paulo e o tempo para assimilar tudo que acontece. Seus encontros e desencontros que muitas vezes nos transmitem a tensão – e exemplificam a superficialidade das relações atuais.

Instigante e animada, “Sou Yaba”, traz o calor do dub e o samba-reggae-eletrônico para o caldeirão. Yaba carrega em seu significado Mãe Rainha e é o termo dado aos orixás femininos Yemanjá e Oxum, mas no Brasil esse termo é utilizado para definir todos os orixás femininos em geral.

A religiosidade, Yemanjá e o força do mar são exaltados na dançante canção que exalta a conectividade e nossas relações mais profundas. O azul do mar e seus encantos místicos. Fácil de cantarolar e gostosa de se ouvir feito uma leve brisa.

“Mira” faz uma homenagem a Mira Schendel, artista plástica suíça radicada no Brasil, hoje considerada um dos expoentes da arte contemporânea brasileira, e tem uma sensação de nostalgia no ar. Uma bonita balada atemporal que traz na delicadeza seu brilho. Seus efeitos e arranjos deixam tudo ainda mais intenso.

Iara segundo o folclore brasileiro — é uma linda sereia que vive no rio Amazonas, sua pele é parda, possui cabelos longos e verdes, e olhos castanhos. Elas que são as grandes protagonistas de “Iarinhas”, quinta faixa do álbum. Ao invés das margens do rio Amazonas, dão lugar as marginais do rio Tiête que cruza São Paulo e atravessa o interior.

A “cidade sufocou” o rio como diz os versos da canção. Suas enchentes fazem lembrar de sua importância e imponência. Que mesmo poluído ainda é o caminho das águas. O sentido figurado das iarinhas deixam seu significado aberto mas mantém a mística da natureza – e suas energias – como protagonista.

O trip hop vai de encontro com o samba e a ancestralidade em “Pomba Gira do Luar”. Incorporado ao luar, seu poder é destilado ao longo da faixa que tem em suas matas parte de seu ritual. O destaque fica pelas transições e vocais imersivos de Luiza.

“Geladeira” tem na Chillwave seu berço e se aventura entre suas incertezas, romances e temperos. A despedida mais uma vez, assim como em “Vem Dizer Tchau”, aflige em sua poesia.

Já “Notícias do Japão” flerta com o groove, texturas, gingado do brasileiro e uma história que cruza oceanos. Um samba-oriental que flerta com beats modernos e traduz uma série de emoções à flor da pele.

“Santa Bárbara” é uma das mais dramáticas do álbum e faz referência a mística estrela d’alva, esta tão presente em sambas e também muitas vezes sendo usada para se referir ao planeta vênus. O saxofone da todo um tempero e faz um paralelo com o swing das batidas, seus modernos sintetizadores e efeitos que simulam a ressaca do mar.

Mas quem tem a tarefa de fechar o disco é a faixa título, “Azul Moderno”. Intimista e magistral, ela nos conduz para uma estrada do auto-conhecimento, clama por perdão mas tem a ânsia por seguir em frente. Feito uma cigana pronta para novas aventuras. Wanderlust! Leve, solta e com novos planos para que seus planetas se alinhem quem sabe perto de novas constelações.

É o desapego exercitado, agradece ao passado mas sente que tem que seguir em frente sua própria jornada. Feito um rito de passagem, feito a vida. Agradecendo o ontem mas com olhos abertos para o que está por vir.


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Luiza Lian em seu terceiro disco, Azul Moderno, nos leva direto para o universo dos sonhos, dos desejos, das palavras não ditas, dos romances, das inseguranças e dos desapegos. Traduz ao longo de suas 10 faixas passagem de um tempo em constante mutação.

Faz uma mistura rítmica interessante que funde estilos como a MPB, Samba, Reggae, Eletrônica, Axé, Bossa Nova, Trip Hop, Chillwave e traz elementos como sintetizadores., saxofone, viola e sua poderosa voz. Com ancestralidade, religiosidade, vivências e espírito wanderlust, Luiza traz um álbum leve e com várias canções ótimas para cantarolar seus versos.

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