Nada como se reconectar com as suas raízes e com a sua própria trajetória. É exatamente isso que Ava Rocha faz em seu novo compacto Sal Grueso. O registro que está sendo lançado via YB Music e Names You Can Trust (EUA), conta com duas faixas em espanhol. Além do lançamento ser duplo, ele acompanha duas capas, realizadas por Ava. São intervenções em fotos das brasileiras Ynaiê Dawson e Paola Alfamor.

O material final é o resultado de diversos encontros sem fronteiras. “Caminando Sobre Huesos” e “Lloraré, Llorarás”, conta com instrumentação e arranjos de Los Toscos (Bogotá / Colômbia) e colaboração de músicos convidados: os colombianos Camilo Barltesman e Andrés Gualdron, além dos brasileiros Negro Leo, Thomas Harres e Gabriel Mayall.


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Ava Rocha Foto Por: Carolina Amorim


Conexão Brasil-Colômbia

Ava Rocha em novembro de 2016 esteve com o Negro Leo em Bogotá. Inclusive no mesmo período da votação do acordo de paz na Colômbia entre as FARC e Governo, momento que inspirou a criação das músicas. Mas a sua relação com o país hermano é muito mais profunda. Além de ter vivido na adolescência no país, é parte fundamental de sua origem e treinamento.

Ava é filha da cineasta Paula Gaitán, nascida em Paris e que ainda criança retornou com os pais para Bogotá, onde cresceu; e neta de Dina Moscovici, brasileira judia que viera da Russia, ensaísta e importante diretora de teatro de vanguarda nos anos 60/70, e do reconhecido poeta colombiano Jorge Gaitán Durán.

Jorge Gaitán Duran, foi um dos grandes nomes da poesia e do pensamento colombiano, fundador da Revista Mito, suplemento literário da época, que publicou os primeiros textos de Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marquez.

Figura fundamental na literatura latino-americana, tradutor pioneiro de Marques de Sade, companheiro do mexicano Spinoza e Gabriel Garcia Marquez, também publicou importantes livros de poesia e ensaios sobre a politica colombiana. Nesse contexto Paula Gaitán cresceu e foi ao Brasil, onde casou-se com Glauber Rocha. Anos depois, retornou para Colômbia com seus três filhos, Ava, Eryk e Maira. Ava tinha 14 anos na ocasião e lá morou até os 20 anos.

A latinidade de Ava Rocha

Sal Gruesa sintetiza e deixa ainda mais explícita sua relação com a Colômbia mas quem acompanha sua discografia sabe que isto não vem de hoje.

Em seu debut, Diurno (2011), ela apresentou “Sé Que Esta Vivo”, um poema de seu avô, musicado por ela. Compôs também “Terrorista del Amor” (em colaboração com Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Paola Alfamor e Saulo Duarte), Tengo Piel (em colaboração com Guizado), “Diosa Pajara” (em colaboração com Mauricio Tagliari), “Canción Para Usted e Frio”, que está em seu terceiro álbum, Trança (2018), também fez versões em espanhol do álbum de Céu Tropix e compôs “Mi Dolor” para o longa-metragem de Eryk Rocha “Breve Miraje del Sol”.

Abre Aspas

Como um respiro, o fato deste trabalho existir é inspirador ainda mais em um país que deveria realizar mais intercâmbios culturais com os países latinos. Apesar de algumas iniciativas, festivais, festas, coletâneas e shows…ainda está longe de ser realidade em veículos de massa. Mesmo que a realidade social e cultura converjam em tantos pontos ainda existe uma falta de visibilidade. Iniciativas como Estamos, coletânea do Scream & Yell, neste ponto são louváveis.

Ava Rocha Sal Gruesa (2020)

Na ficha técnica o álbum ainda conta com a produção e mixagem de Benjamin Calais. Foi ele quem convidou  Ava, e também dono da emblemática casa de shows Matik Matik, onde o álbum foi gravado. “Caminando Sobre Huesos” e “Lloraré, Llorarás” mostram dois lados destes encontros com referências bastante distintas mas igualmente interessantes.

Sal Gruesa integra um projeto ainda mais audacioso dos veteranos do Los Toscos. A banda colombiana composta por Enrique Mendonza, Santiago Botero e Benjamin Calais continua o projeto que une Los Toscos a outros artistas, como Carmelo Torres e Tonny Malaby, com quem eles lançaram discos que precederam sua parceria com Ava, cujo objetivo principal é a experiência de residências artísticas que resultam em obras sonoras. O objetivo somar, fazendo o choque entre a vanguarda musical colombiana e a criatividade destes encontros. O próximo lançamento deles, inclusive, será com as músicas de Negro Leo.



Vulcão em Erupção

O estilo do Los Toscos é definido por eles como punk cumbiero o que deixa a surpresa para a hora de ouvir ainda mais interessante. Ainda mais quando é o resultado do encontro com a inventiva, versátil e multimídia Ava Rocha.

Os diálogos acabam se materializando nas canções com a mesma intensidade que os momentos sofridos politicamente nos países vizinhos. Existe espaço para a distopia, improviso e carrega o espírito de construção coletiva. Talvez este um dos pontos mais altos desta iniciativa um tanto quanto energética, tribal e pulsante.

“Caminando Sobre Huesos” faz uma viagem pelo vale de guerreiros mortos pela repressão. A faixa é emancipadora e destila diversas referências. Denunciando mesmo que de maneira indireta cicatrizes do passado e do presente. Entre os inúmeros nomes citados estão os de ativistas destemidos como Marielle Franco.

Os batuques e as cordas acabam ganhando e catalisando a tensão da canção. Criando, por sua vez, universos paralelos na imaginação do ouvinte. Feito escombros de uma guerra. Uma guerra que parece a cada dia mais perdida.

Já “Lloraré, Llorarás” traz um lado pulsante que justifica com todas as letras o rótulo punk cumbia. Com batuques ainda mais pulsantes, e com uma linha de guitarra para lá de caribenha, é impossível não tirar o pé no chão ao ouvir a música.

Por mais que a letra por si reflete sobre a lei do retorno; das dores mais intensas ao ato de se emocionar com as belezas da vida. A faixa vai se acelerando numa frequência que você é puxado para o centro da roda, feito a dança da vida.