Foi durante uma Quarentena acidental em um dos grandes epicentros da pandemia do coronavírus que Labaq teve um click para o caminho eletro-acústico da sua nova fase. Atualmente vivendo em Leria, em Portugal, estudando e se desenvolvendo em um mercado completamente diferente do Brasil que ela apresenta seu mais novo single.

“Abrandô” carrega muitos sentimentos e confissões com amigos próximos o que certamente é marcante dentro da sua narrativa que fala sobre uma das doenças mentais mais presentes em nossa geração: a ansiedade.

“A música vem exatamente daí, eu e muitos amigos passando por isso da ansiedade, outros muitos amigos depressivos, crises de pânico e tudo que a gente vem vendo ser cada vez mais recorrente.”, conta Labaq


Labaq

Labaq Foto Por: Rui Pereira


Labaq “Abrandô”

É por isso que a intensidade de “Abrandô” é transmitida em camadas que vão desde a dureza dos beats, passando pela leveza dos acordes e a apreensão dos vocais de Labaq.

Os destemperos e a mixagem criam toda uma tensão para narrar sobre essas ondas que navegam na dicotomia entre a sensação de mal estar e a força para superar os obstáculos gerados pelas crises.

São 3 minutos que passam rápido mas que impactam pela escolha dos graves e pela intensidade do cantar da artista que agarra para si a árdua missão de buscar a paz em meio aos delírios.

A faixa composta e produzida pela própria artista, foi mixada e masterizada por Rui Gaspar e ganhou um lyric video produzido pela Casota Collective.

Nele o anticlímax de uma festa, em que ela se sente um verdadeiro peixe fora d’água, acaba transparecendo feito um copo que transborda e destila as emoções…enquanto tenta internamente segurar o choro.



Entrevista: Labaq

Conversamos com a Larissa para saber mais sobre os singles, vida em Portugal, Quarentena na Itália e os processos criativos deste novo ciclo.

Muita coisa aconteceu desde o lançamento do “Lux”, desde a mudança para Portugal, os aprendizados, novas vivências, intercâmbios e até mesmo uma pandemia no meio disso tudo. Como você observa todo o processo que resultou no single?

Labaq: “A minha energia de ação vem muito do incômodo e eu sou emoção da cabeça aos pés, então tem aí uma fórmula do caos, né?

Uma sede de saber e ver mais resultou em 9 anos quase ininterruptos de estrada e 2020 era pra ser meu ano mais quieto, descansar de estar tão pra fora de mim o tempo inteiro.

Quando eu parei pra me cuidar, mudei pra cá e veio a pandemia, mais uma mexida profunda no ser/estar e eu quis ir pela calma, daí vem “Abrandô”. Digo ali coisas que me disseram mil vezes e que eu já disse a amigos também mil vezes, quis engessar isso em uma obra pra olhar pra isso como um marco mesmo. A letra é basicamente um monte de frase de mensagem trocada com amigos nesses tempos mais difíceis.”

Aliás a estética do single já mostra um pouco que você quis mexer bastante na proposta sonora, conceitual e artística do projeto. Conte mais sobre as referências, texturas e o que te inspirou a dar essa guinada?

Labaq: “Foi uma escolha de mãos dadas com o momento que eu ando, eu me via afim de ir pra esse caminho eletro-acústico e tudo já estava rumando pra isso, mas o que deu o click oficialmente foi que fiquei presa na Itália no início da pandemia, foram 3 meses sozinha lá, sem wifi e sem a minha guitarra elétrica e só com um violão ali, isso me fez voltar a me apegar às texturas mais orgânicas de alguma forma, que dialogou com toda a história da calma, do chão que eu queria pra minha vida agora.”

Como foi o processo de produção do single e a oportunidade de trabalhar com o Rui Gaspar? O acha que acabou somando da experiência como um todo?

Labaq: “Eu compus ela no fim do ano passado e fui produzindo em maio, ainda presa na Itália. Gravei vozes e violões quando, por fim, cheguei em Portugal no início de junho e o Rui mixou e masterizou a seguir. O Rui vem trabalhando comigo há uns quatro anos, temos uma afinidade muito grande, referências muito próximas e um respeito e admiração mútuos, isso muda tudo pra alguém que é tão coração no que produz, eu adoro o caminho que a gente trilha trabalhando juntos.

O Lyric Video também tem toda uma levada anticlímax de introspecção em meio a uma festa ao meu ver. Conte mais sobre seu conceito e como se relaciona com a canção.

Labaq: “A ideia era me ter em um ambiente que não tivesse nada a ver eu estar tão pra dentro, por isso a festa e a minha distância dela.

Com a coisa da piscina e a água quisemos passar essa sensação de desconforto e quase de sufocamento, que é um lugar que eu ficava nas minhas crises de ansiedade de alguns meses atrás.

A música vem exatamente daí, eu e muitos amigos passando por isso da ansiedade, outros muitos amigos depressivos, crises de pânico e tudo que a gente vem vendo ser cada vez mais recorrente.”

Como tem passado essa temporada Européia? Desde as vivências do cotidiano, passando pelas trocas com produtores, cursos e outros músicos. Já sente um amadurecimento e crescimento tanto na esfera pessoal como profissional?

Labaq: “Tem sido muito engrandecedor, por mais que tenha uma pandemia impedindo de viver mesmo como eu achava que seria e poderia ser. Eu venho pra cá com mais frequência desde 2016, então eu já me sentia em casa por aqui, já não sofria tanto com compreender a forma como as pessoas são ou como as coisas acontecem em um ritmo completamente diferente do Brasil.

Na verdade é por entender e gostar nesses quesitos que decidi vir e Leiria é a cidade que eu escolhi pra ficar por ser a cidade da minha família portuguesa, a Omnichord Records, selo que faço parte como artista, produtora e RI, por assim dizer. Tenho nos meus dias pessoas que eu admiro demais e isso é inspirador pra qualquer um, ainda mais a uma altura dessas, isso é um combustível essencial.”

Como observa as diferenças entre o mercado de Portugal e Brasil? Sente uma conexão ou aceitação além da língua? Como observa os artistas brasileiros que se apresentam por aí e a recepção num geral?

Labaq: “Portugal tem mais ou menos o tamanho de Pernambuco, por aí já dá pra ter dimensão da distância das realidades. Uma viagem de duas horas pra eles é longe, então a relação de tempo/espaço é completamente diferente e isso faz com que o mercado, a vida siga de outra forma e eu gosto muito disso.

Eu sei que é difícil o Brasil ouvir Portugal, até por que nosso mercado por si já é o de um continente e tem coisa nova surgindo o tempo todo, e se não é imposto pela mídia com peso, nós aí não ouvimos e muitas vezes não vamos atrás por não termos esse costume.

Há alguns nomes portugueses que caíram nas graças de programadores e críticos mas não há nenhum português da nova geração que tenha tido êxito em termos de público por aí, infelizmente. Tenho minhas teorias sobre isso tudo mas não entro aí pra não alongar demais essa resposta (risos).

É muito bonito ver que os projetos do Brasil que acabam por vir pra cá são bem diversos, vai desde artista solo num rolê mais canção até eletrônico/pop/experimental. Tem uma curiosidade bem grande por sermos historicamente conectados, ao meu ver.”

Na sua visão porque Portugal abraça mais a música brasileira do que o Brasil abraça a música portuguesa? Quais artistas mais tem gostado de conhecer?

Labaq: “Penso que eles consumam muito nossa cultura por conta de novelas e as muitas vagas de brasileiros que vieram pra cá nas últimas décadas, pra além dessa conexão que mencionei na resposta anterior e, claro, da excelência artística dos projetos que acabam por vir pra cá.

Sinto que o que distancia o Brasil de abraçar a música portuguesa é, muitas vezes, não estarmos acostumados com a pronúncia do português de cá, também pela imensa dívida histórica, centenas de anos de exploração e escravidão não são esquecidos assim, certo?”