Se você já ouviu algum dos discos do Moons, sabe. O íntimo e o cinematográfico são inerentes a sonoridade extraída ao longo das narrativas criadas pelo grupo mineiro. Suas melodias nos transportam para outros lugares, entre memórias, amores e contemplação.

As canções do Moons muitas vezes soam como trilha sonora para um filme que você pode até não ter assistido mas com certeza já viveu algo parecido.

Esse lado íntimo acaba trazendo o ouvinte para mais perto, seja pelas sensações como por suas narrativas tão intensas e de carne e osso. A sintonia, por sua vez, cria todo um vínculo emocional feito longas metragens onde nós mesmos podemos atuar como personagens.

Por muita vezes o clima de romance, seja na fogueira presente em uma faixa, ou no modo de cantar dos vocais, acaba mostrando esta chama, por mais que os temas das canções do grupo de Belo Horizonte variem bastante.


Moons Por Yannick Falisse_lowres

MoonsFoto Por: Yannick Falisse


Moons “Sweet and Sour”

Este é o caso da faixa, “Sweet and Sour”, presente em seu último disco, Dreaming Fully Awake (2019), em que André Travassos ainda em choque pelo resultado das eleições escreveu.

A canção do Moons fala do cuidado com o outro, muito necessário para se enfrentar o preconceito e a intolerância. A faixa é interpretada no disco por Felipe D’Angelo que soube captar esta carga presente na composição.

A Rotina de um casal como ponto chave do clipe

Para trazer esse clima de intimidade, e de cuidado com o outro, o diretor Pedro Furtado propôs um registro diferente, conceitual e até mesmo ousado para a produção audiovisual. Principalmente por abrir mão do seu papel em cena.

Ele enviou para dois casais uma câmera mini dv e também uma fita com capacidade de até uma hora de gravação. Dessa maneira, buscando o máximo de honestidade, os casais seriam os únicos responsáveis por captar cenas do seu dia a dia. O ponto de vista do diretor, então, entraria somente no momento da edição e finalização do material bruto recebido.

 A Execução e o Desapego

“Os casais convidados foram brifados sobre o conceito geral, sobre a ideia ampla, mas não existia nenhuma regra a não ser “divirtam-se durante o processo”. A compreensão do conceito foi muito específica em cada caso, porque quando você confere tanta liberdade de interpretação, é natural considerar essa multiplicidade de leituras e interpretações. E é interessante pensar que filmamos 4 casais, porém apenas 2 apareceram no corte final.

Isso, por si só, já dá um panorama de que os riscos imaginados eram reais. E obviamente isso não aconteceu porque as pessoas não souberam captar ou não geraram imagens interessantes – mas apenas porque, na hora de construirmos uma narrativa coesa durante a edição, somente as propostas de dois casais se alinharam totalmente com a ideia original.”, conta Pedro Furtado em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos

“Me retirar da etapa mais fundamental, que é justamente a captação das imagens, deu uma enorme insegurança em saber o que encontraríamos lá na frente, se de fato teríamos material suficientemente interessante para fazer um bom clipe.”, relembra o diretor sobre o desafio

Luz, Vida, Ação!



Como dito, os casais foram brifados para entender tanto o conceito, as referências que vão desde um vídeo da lua de mel do diretor a filmes, passando pelo conteúdo da letra…e a liberdade para registrar a individualidade de cada um. O que de fato rendeu bastante material extra e deixou em aberto várias possibilidades de narrativa para a edição.

O resultado final da experiência é belo pois mostra muitos momentos, da cumplicidade ao afago, passando por gestos em primeira pessoa e a câmera captando o (a) parceiro (a) por ângulos que permitem trazer para a tela: expressões únicas. A sensibilidade entra desde a produção por parte dos casais a edição que Pedro assina ao lado de Julia Violeta.

Ficha Técnica:

Direção geral: Pedro Furtado
Imagens: Emilia Aidar, Ana Júlia Rodrigues, Breno da Matta, Alexandre Makhlouf
Edição e finalização: Julia Violeta & Pedro Furtado
Agradecimentos: Fabio Lamounier & Rodrigo Ladeira

Entrevista: Moons

Conversamos com o vocalista do Moons, André Travassos, e com o cineasta Pedro Furtado para saber mais detalhes sobre a experiência do videoclipe.

A letra foi escrita em 2018 sob todo aquele clima de luto pós-eleições e necessidade de união e de estar junto de quem te quer bem para superar momentos difíceis. Como foi para vocês ver o desenvolvimento e a sensibilidade escolhida pelos diretores para contar essa história?

André Travassos: “Foi muito bonito ver a forma como a música se encaixou na narrativa proposta pelos diretores. Ela tem uma pegada delicada que é também marcante nas relações abordadas no clipe.

Tudo muito singelo e verdadeiro. Tal qual nosso desejo de que sejamos fortes para passar por esse momento tão triste da história do Brasil, sabendo que podemos ser o porto seguro e inspiração uns para os outros.”

Como veem como maiores desafios para a execução do projeto? Vocês deram bastante liberdade para eles, como observam que foi o entendimento dos participantes em relação ao tipo de conteúdo proposto? A edição final acabou sendo um desafio à parte?

Pedro Furtado: “Eu acho que o maior desafio do projeto está relacionado com o desapego criativo em torno da ideia. Eu, como diretor, sempre tive um enorme prazer em estar presente no maior número de etapas possíveis do processo – desde a concepção da ideia até a entrega final.

Me retirar da etapa mais fundamental, que é justamente a captação das imagens, deu uma enorme insegurança em saber o que encontraríamos lá na frente, se de fato teríamos material suficientemente interessante para fazer um bom clipe.

O Processo

Os casais convidados foram brifados sobre o conceito geral, sobre a ideia ampla, mas não existia nenhuma regra a não ser “divirtam-se durante o processo”. A compreensão do conceito foi muito específica em cada caso, porque quando você confere tanta liberdade de interpretação, é natural considerar essa multiplicidade de leituras e interpretações. E é interessante pensar que filmamos 4 casais, porém apenas 2 apareceram no corte final. Isso, por si só, já dá um panorama de que os riscos imaginados eram reais. E obviamente isso não aconteceu porque as pessoas não souberam captar ou não geraram imagens interessantes – mas apenas porque, na hora de construirmos uma narrativa coesa durante a edição, somente as propostas de dois casais se alinharam totalmente com a ideia original.

As Interpretações

Por exemplo, teve um casal que filmou praticamente todo tempo com a câmera parada. Deixavam a câmera em registro por 15, 20 minutos enquanto faziam um lanche. Foi uma ideia interessante, uma proposta criativa que gerava certas sensações – mas que não era exatamente o que eu tinha em mente para a versão final.

Com relação à edição, eu tomei a decisão de, novamente, descentralizar o processo. Minha esposa, Julia Violeta, já colaborou comigo em diversos clipes – inclusive no clipe de Golden Sun, no qual ela foi diretora e eu fiz a direção de fotografia. A idéia do clipe de “Sweet And Sour” nasceu de um projeto que ela desenvolveu e tinha engavetado há anos.

Por isso, ela colaborou em toda a etapa de desenvolvimento dos conceitos e de briefing aos casais – e quando chegou o momento de editar, eu resolvi convidá-la pra assistir as imagens e fazer um primeiro corte. Eu assisti o material bruto antes dela, pré selecionei o que eu achava legal e passei a bola. E foi super legal ter mais um olhar colaborando no processo. E o corte que ela fez é praticamente o corte final que apresentamos pra banda – eu só troquei alguns poucos takes e finalizei tudo.”

Aliás até mesmo o filme para a lua de mel acabou servindo como referência para que não observassem a câmera Mini DV como um aparato e pudessem agir naturalmente. De onde veio a inspiração original e como acreditam que somou para a narrativa esse tipo de interação em primeira pessoa?

Pedro Furtado: “O filme da lua de mel foi uma coisa que nasceu muito naturalmente. Eu sempre tinha o hábito de levar câmeras fotográficas pra minha viagens, e essa foi a primeira vez que levei a filmadora – ainda meio sem saber o que isso ia virar. No fim das contas as imagens que fizemos foram tão honestas e significativas que acabei editando o vídeo em uma tarde, porque ele já estava praticamente pronto ali, no material bruto.

Um dia, durante uma reunião de briefing para trabalho comercial que eu estava fazendo, a roteirista responsável me apresentou esse vídeo como uma referência de honestidade e interação que ela desejava. Isso me chamou a atenção pela primeira vez dessa característica, de como o olhar da Ju extrapolava as lentes de uma maneira muito honesta.

Na hora que pensamos o projeto foi inevitável que ele viesse como referência. Acho que ele serve principalmente como um exemplo de que é possível trazer certo grau de honestidade diante de um dispositivo que, habitualmente, nos desperta a consciência de estar atuando e fingindo ser quem gostaríamos de ser.”

Com o material bruto em mãos encontraram mais similaridades ou diferenças no conteúdo registrado? No fim do processo ficou a sensação de que cada história é uma história e de que o amor por si só que acaba interligando elas?

Pedro Furtado: “O material bruto revelou, conforme já falei anteriormente, uma multiplicidade de interpretações da proposta original. Os dois casais que entraram para o filme foram os que mais se aproximaram em termos de linguagem e da tentativa de construção de uma narrativa, mas não necessariamente existem similaridades entre as suas histórias.

Então eu não sei se eu enxergo algo que os conecta, até mesmo porque não sei se essa era exatamente a busca. A ideia nasceu como uma proposta investigativa de entender como as pessoas expõe as suas relações e suas intimidades – e no fim das contas acho que isso trata mais de individualidades do que de conexões.”

Moons Dreaming Fully Awake (2019)