Acredito que toda banda independente em algum momento de sua trajetória se questiona: E agora? Continuar fazendo música ou Parar? Isso também serve para nós em diversas situações da vida, seja na vida profissional, afetiva ou estudantil. Fato é que esse processo não acontece da noite para o dia e com a Atalhos não foi diferente.

Partindo desse ponto o duo de Birigui (SP) decidiu entrar em um longo processo que resulta em 3 anos entre elaborar o que queriam, buscar referências e produzir um novo trabalho sob uma nova perspectiva. No fim, Tentação do Fracasso, disco que será lançado em breve via Scatter Records, selo de Buenos Aires (Argentina), é o resultado de um longo processo de amadurecimento e perspectivas. Entre lidar com uma série de escolhas, expectativas, paixão e música.

Em um mercado onde a arte muitas vezes é colocada como produto em uma prateleira com prazo de validade…ir na contramão dos algoritmos e fazer o que realmente acredita não é apenas louvável como extremamente necessário. Deveria ser o começo de tudo mas sabemos como muitas vezes não é.

Atalhos  Tentação do Fracasso

Gabriel Soares (Vocais, composições e bateria) e Conrado Passarelli (Guitarrista) neste álbum trabalham como duo, não que a versão trio esteja descartada de acontecer em eventuais shows, como Soares conta em entrevista exclusiva mas desta vez Marcelinho não pôde participar do processo. Um elemento crucial para o disco foi a participação de Ives Sepúlveda, do grupo chileno The Holydrug Couple, que assina a produção. O disco inclusive no momento está sendo finalizado.

Poesia, literatura, cinema e a cultura pop são universos que transparecem dentro da narrativa dos discos da Atalhos que como Gabriel comenta têm a intenção de apenas ser o start para uma experiência de descoberta. Seja ela intelectual, de repertório ou filosófica. O campo dos pensamentos e de criar universos acaba sendo parte substancial de cada obra. O que certamente não mudará neste lançamento.

Os Detalhes do Disco

Mas o disco marca também uma transição sonora, eles deixam o folk de lado e abraçam o Dream Pop que vem com diversas camadas em sua mixagem proporcionando uma nova experiência.

O registro teve grande parte das gravações estúdio Space Blues, do produtor Alexandre Fontanetti, em São Paulo. Ele que já trabalhou com artistas como Rita Lee, Nando Reis, Céu, Ana Cañas e Zeca Baleiro.

A a mixagem aconteceu no Estúdio Panda, em Buenos Aires, com o uso de uma mesa analógica vintage API dos anos 70, considerado o “Abbey Road da América Latina”, por lá já gravaram artistas como Charly Garcia, Soda Stereo, Spinetta e Fito Paez.

Já a masterização ficou sob a responsabilidade de Greg Calbi, no Sterling Sound, em New Jersey. Calbi é o engenheiro de som que masterizou os últimos discos do Tame Impala, do The War on Drugs, Angel Olsen, The National, Bon Iver, entre outros.


Atalhos - Foto Por Bruno Alfano

AtalhosFoto Por: Bruno Alfano


Atalhos “Mesmo Coração”

A explosão das cores já reverbera logo nos primeiro acordes da magnética “Mesmo Coração”. Logo nos primeiros versos a música já entrega a homenagem ao álbum Coração Selvagem (1977) do cearense Belchior. O plano dos sonhos, das expectativas e do flutuar também faz parte da órbita do single que conta com linhas de guitarra reverberantes e teclados que dão toda a sensação de liberdade e desprendimento.

A bateria também cria todo um anticlímax e gera uma expectativa para uma canção que tem todo um ar de vanguarda. O mundo dos sonhos se cruza com o outro plano e, como consequência, se choca com a realidade. É Atalhos abrindo os caminhos para o surgimento de um novo trabalho.

O Videoclipe

Para entrar no imaginário do ouvinte, o single ganhou um videoclipe dirigido por José Menezes, ele que já assinou os clipes para Dia Lindo”, do Terno Rei; e “Calma” de Tim Bernardes. Para complementar a produção audiovisual traz ainda projeções de Gabriel Rolim que já dirigiu clipes para artistas como Boogarins e Brvnks.

O videoclipe tem uma atmosfera dos vídeos exibidos na madrugada da antiga – e finada – MTV Brasil. Com direito a cores, sensação de movimento, projeções, conceito anos 90, luz, sombra….de certa forma ele te convida para adentrar a tela e participar da experiência.



Entrevista: Atalhos

Conversamos com o Gabriel Soares para saber mais sobre a nova fase e disco da Atalhos que sairá em breve.

Já se passaram 3 anos desde o lançamento de “Animais Feridos” (2017) um álbum que passeia pelo indie mas que também tem forte influência de folk. “A Tentação do Fracasso” mostra uma guinada para o Dream Pop em um processo que contou com diversas parcerias da produção, passando pela engenharia de som e até mesmo o lançamento por um selo argentino, país no qual vocês têm laços fortes dentro da trajetória. Como vocês avaliam o momento, os aprendizados e a série de mudanças e transformações que o novo disco trará?

Gabriel Soares (Atalhos): “Fazemos música já há muito anos, sabemos das dificuldades de se levar uma carreira por tanto tempo, e acho que para toda banda independente chega um momento de tomar a decisão mais crucial: decidir se vamos continuar fazendo música, ou se chegou a hora de parar.

O Título e o Processo

O título do novo disco, A Tentação do Fracasso, tem a ver justamente com esse dilema. E como decidimos por seguir fazendo música, isso só seria possível criando um universo completamente novo. Por isso passamos os últimos três anos dentro dessa criação, para que nascesse algo inédito, e que viesse do coração.

Estrategicamente não é a opção mais viável, ou seja, ficar tanto tempo sem lançar nada nas plataformas digitais, mas no nosso caso foi necessário para que nesse tempo a gente conseguisse amadurecer musicalmente, profissionalmente também. Essa guinada para o dream foi acontecendo de modo natural e para esse disco deixamos o violão como coadjuvante;  usamos muitas guitarras e existe toda uma atmosfera construída a partir da produção que fizemos com o Ives, toda uma montanha sonora com várias camadas que precisamos de anos para ir lapidando até encontrar a forma precisa.

O Respiro

Ter esse tempo foi fundamental também pra que a gente viajasse – literalmente – com as músicas. O disco começou em São Paulo, depois foi para Santiago no Chile, e depois de pronta toda a produção, levamos o álbum para Buenos Aires. Eu estive com o Ives em Santiago na produção, e depois nós dois nos encontramos em Buenos Aires para mixar no lendário estúdio Panda, onde Charly Garcia, Spinetta, e vários artistas argentinos que a gente ama também gravaram.

Queríamos um universo sonoro híbrido, texturas que fizessem lembrar que estamos em 2020, mas também buscamos um corpo para o som que fosse de “carne e osso”; e usar a mesa analógica API dos anos 70 que o estúdio tem para mixar, – além de outros equipamentos analógicos disponíveis – foi crucial para encontrar os timbres, as texturas, enfim, para desenhar essa paisagem sonora que buscávamos.

Por fim, levamos o álbum para masterizar no Sterling Soung nos Estados Unidos, e foi como a cereja do bolo, poder passar um dia masterizando com Greg Calbi, que tinha masterizado os discos que usamos como referência também para esse trabalho, como álbuns do Bruce Springsteen, The War on Drugs, Angel Olsen, The National, e vários outros.”

As composições sempre foram bastante profundas, filosóficas e cheias de referências da cultura pop. Sempre também trabalharam com conceitos bastante alinhados e com bastante apreço por juntar cinema, literatura, música entre outras artes. Qual o conceito e por quais universos o novo disco irá atravessar?

Gabriel Soares (Atalhos): “Nós sempre acreditamos que o momento a da música não precisa se esgotar na própria música, ou seja, todas as referências e as homenagens que colocamos nas canções e nos clipes são maneiras que encontramos de fazer com que a experiência de ouvir o nosso som sempre levasse à novas descobertas, à outras esferas.

Nunca colocamos essas referências de maneira pretensiosa, ao contrário, tentamos fazer da maneira menos despretensiosa possível; existem vários universos a serem codificados, mas o sentimento despertado ao ouvir uma música não depende de desvendar essas sutilezas, ao contrário, ouvir só a música é sempre o caminho imediato para o sentimento, como dizia Nietzsche (pra aproveitar e fazer uma citação aqui, (risos), mas claro, se a pessoa ouviu a música e já conhece a referência ou foi atrás para descobrir, acho que a experiência em si ganha novos rumos.

O Impacto de trazer referências

Por exemplo, outro dia um cara mandou um direct dizendo que conheceu os filmes do Leos Carax por causa de uma música nossa. Adoramos saber que fizemos parte dessas conexões. Sobre o universo do novo disco, quando as músicas já estavam mais encaminhadas, começamos a repensar também a nossa identidade visual e iniciamos um trabalho de concepção artística com a Thata Jacopini e a Tata Leon.

Elas foram fundamentais para essa guinada, para nos ajudar a compreender um novo espelho, uma nova maneira de nos ver, e também estão produzindo todas as capas dos singles e do disco. Estamos muito orgulhosos desse trabalho.”

Nesse trabalho, diferente do anterior, vocês atuam na formação como duo, quais foram os maiores desafios para atuar em um formato diferente do power trio? Inclusive o Ives Sepúlveda, do grupo chileno The Holydrug Couple, estar produzindo o material acabou inspirando? Conte mais sobre a parceria e o processo de produção.

Gabriel Soares (Atalhos): “Sim, nesse disco não pudemos contar com Marcelinho, meu primo, e que sempre foi um ídolo na música pra mim, aquela coisa de primo mais velho que a gente se inspirava quando era adolescente, sabe?

Por motivos pessoais ele não conseguiu participar da gravação desse trabalho, mas a ideia é que ele se junte a nós em algum momento, fazendo participações em shows especiais, participando de futuras produções, enfim, quando começamos a banda ele também não tocava com a gente, fazia parte de uma outra banda lá em Birigui. Depois de um tempo ele começou a se apresentar com a gente em ocasiões especiais, e acho que a tendência é ele voltar a estar com a gente em momentos especiais.

A Produção do Ives (The Holydrug Couple)

A entrada do Ives no projeto desse disco foi crucial. Ficamos muito amigos, ele se envolveu de uma maneira muito intensa com todas as músicas, eu passei um mês lá em Santiago trabalhando com ele, já somamos mais de quatrocentos e-mails com infinitos detalhes de produção, acho que já ouvimos as músicas um milhão de vezes até chegar no sumo do que cada uma pode entregar.

Aprendi muito com ele nesse processo, especialmente a exigir mais de cada música e não ter medo de experimentar. Pra você ter uma ideia, ainda estamos trabalhando na última faixa do disco que é a única que ainda não está pronta. Hoje mesmo já trocamos e-mail e ele, que agora está nos Estados Unidos, vai levar a faixa num estúdio lá para repassarmos a bateria em fita.”

Conte mais sobre as referências para o single, tanto da letra quanto para o vídeo, e como vai se encaixar no disco.

Gabriel Soares (Atalhos): “Eu mudei principalmente meu jeito de tocar bateria, se você pegar o primeiro álbum você quase não tem cinco segundos sem uma virada (risos). Agora experimentei uma bateria que sonoramente tem muito a ver com os drumbeats usados pelo Springsteen, mais recentemente pelo The War on Drugs também.

Em certos momentos parece até que a bateria é eletrônica, mas ela foi toda gravada pra ter essa cara mais minimalista, mais reta, sem muitas viradas. Algo que ficou bastante evidente é que, com eu disse, o violão deixou de ser o protagonista. Ele está presente, mas em camadas mais sutis, e também experimentamos bastante nos dedilhas das guitarras, o disco tem muito desses riffs que parecem estar em loop e que, com a atmosfera dos synths e teclados do Ives, ajudam a gerar essa onírica.

A letra faz uma homenagem a um artista brasileiro que sempre fui fã: Belchior. Não quero dar spoiler, mas quem é fã vai entender a homenagem feita na letra (risos). O vídeo era um desejo meu também de apostar em um universo mais de estúdio, como gravavam os videoclipes dos anos 90, especialmente.”