Debaixo de escombros da ignorância, Surra lança “Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo em São Paulo”

Agressivo, direto, engajado. Surra é um powertrio de thrashcore original de Santos (SP) formado por Leeo Mesquita (vocal, guitarra), Guilherme Elias (baixo, vocal) e Victor Miranda (bateria).

Lançaram no último dia 11 de abril, em meio uma pandemia do Covid-19, o registro ao vivo de seu último álbum de estúdio intitulado Escorrendo Pelo Ralo (Ouça). Inusitado, o lançamento aconteceu em uma live do youtube onde os integrantes interagiram com os fãs. Uma estratégia positiva para matar as saudades dos shows do Surra, conhecidos pela honestidade, agressividade e conexão com seu público.

O show foi gravado no dia 8 de abril no Full House Bar, localizado no centro histórico de São Paulo. Histórico também para o Surra, que além do registro inédito e inusitado no subterrâneo paulista, ainda provou seu poder de fogo nesse palco para 200 sortudos que testemunharam sua banda favorita em sua melhor forma.

Fãs que sobem ao palco e cantam a plenos pulmões todas as letras contra a política nacional, o capitalismo e elitismo entre riffs rápidos e furiosos completam essa calorosa apresentação que além de registrar o disco Escorrendo Pelo Ralo, também apresentou faixas de Tamo na Merda – primeiro disco lançado em 2016.


Surra de Santos (SP) – Foto: Marcelo Marafante

Entrevista

Com dois discos de estúdio lançados, como surgiu a idéia de um álbum ao vivo?

Victor: “Foi natural. Nós já havíamos produzido um disco/dvd ao vivo em Belém, em 2014, e achávamos que seria legal fazer um registro dessa época de agora, dessa turnê do Escorrendo Pelo Ralo, que foi um disco muito especial para nós e resultou em diversas oportunidades incríveis. O Surra é uma banda que vive para tocar ao vivo, portanto esse tipo de material é muito importante para nós.

Além disso, eu, pessoalmente, sou muito fã de discos ao vivo. Eu gosto de ouvir as bandas como elas realmente são, sem artifícios de estúdio, suando no palco.”

O que mudou para vocês entre o disco “Tamo Na Merda” (2016) e o último “Escorrendo Pelo Ralo” que possa ter refletido ao vivo positivamente?

Guilherme: Acredito que o nosso ritmo frenético de shows nesses 4 anos no Brasil e as nossas 2 turnês na Europa fizeram toda a diferença tanto na nossa maneira de compor quanto nos nossos shows.

As bandas que dividimos palco nos inspiram muito e durante esse período tivemos o privilégio de fazer turnês com uma infinidade de bandas excelentes tanto aqui quanto na Europa. Com certeza isso moldou nosso muito nosso modo de tocar ao vivo.”

Em tempos estranhos que estamos vivendo, como é para vocês tocar música extrema em um nicho com sua parcela conservadora e reacionária? O Público recebe bem a mensagem do Surra?

Leonardo: “Quando estávamos esclarecendo essas ideias em 2013 e 2014 era um pouco mais difícil lidar com reaças e conservadores porque ainda não tínhamos construído esse posicionamento nos materiais da banda. Isso foi durante o lançamento do primeiro EP Somos Todos Culpados.

Depois de um certo tempo, com nossas ideias ficando mais claras pra quem acompanha a banda, essa galera se afastou. Nunca demos palco pra essas pessoas e o nosso público hoje em dia recebe bem nossa arte porque entendem o mundo em que vivem e o porque falamos sobre as coisas que falamos.”

As letras do Surra são bem diretas ao ponto e abordam diversos temas, de religião – “Bom Dia Senhor” -, política nacional ao capitalismo. Já sofreram alguma censura?

Leonardo: “Censura direta contra nós ou proibirem diretamente algo relacionado à banda…? Olha, não que a gente saiba. Pelo menos até o presente momento, né?

Mas provavelmente somos boicotados em alguns veículos e festivais porque alguns organizadores/pessoas devem achar que ‘não pega bem’, e sem dúvida várias outras bandas do nosso meio provavelmente são vistas da mesma forma.”

O registro do show foi lançado em meio a uma pandemia mundial, com cancelamentos de shows e o isolamento social se tornando regra. O Surra sempre foi uma banda muito ativa, como esse momento vem afetando a rotina de vocês?

Guilherme: “O Surra realmente sempre foi uma banda que funcionou melhor com uma agenda cheia. Muitas das nossas ideias vem de conversas que temos na estrada e que acabamos materializando mais tarde em estúdio ou nas redes sociais.

Estamos tendo que adaptar isso para reuniões online e outros meios de se comunicar e produzir. Felizmente temos condição de finalizar nossas gravações nessa fase então temos bastante lição de casa e material novo pra lançar ainda esse ano. Fora isso estamos investindo em outros formatos de conteúdo como o nosso Podcast quinzenal (Surracast), vídeos e outras coisas também.”


SurraFoto: Marcelo Marafante

A música brasileira pesada vem se renovando com vocês, Damn Youth e tantas outras. Quais as referências de vocês no metal brasileiro hoje?

Victor: “Felizmente conseguimos fazer muitas turnês e viajar pelo Brasil inteiro conhecendo bandas diferentes e percebemos que, apesar das distâncias e oportunidades distintas, a música pesada tem ótimos representantes em muitas e muitas regiões diferentes.

Acho legal destacar o Institution, que acabou de lançar um disco novo muito bom, com sonoridades bem diferentes. O Desalmado também, que são nossos amigos e nos ensinam muita coisa. A Nervosa, que é uma das maiores representantes do metal brasileiro no mundo. O Krisiun também, que tivemos o prazer de fazer alguns shows juntos ano passado e imediatamente pensamos entre nós que “é isso que nós queremos ser”…

Acho legal destacar também o Cemitério, que é uma junção de vários elementos que curtimos no metal, e o Velho, do Rio de Janeiro, que faz um black metal cru cantado em português. Muito bom.”

Voltando para os discos de estúdio, ambos foram lançados em mídia física. O álbum ao vivo também será lançado? Qual a importância a vocês do lançamento físico?

Leonardo: “Sim! Já estamos mexendo os pauzinhos pra fazer um lançamento físico do nosso ao vivo em São Paulo e vai ter um merch junto nessa empreitada aí.

O lançamento físico hoje em dia tem uma importância diferente já que praticamente ninguém precisa dele pra escutar o som ou ler as letras.

Ele é, antes de qualquer coisa, uma parte do merch, uma forma de ajudarem a banda comprando algo. Nem todo mundo quer ou tem dinheiro pra comprar camiseta, por exemplo. Esse material também sustenta um certo ‘destaque’ naquele momento da banda.

Vejo não só no Surra mas em muitas outras bandas que o lançamento físico marca uma nova fase, um novo repertório, novas idéias. E no meio underground a galera que acompanha as bandas gostam de fazer parte disso e ter o CD/Vinil.”

Depois que todos os problemas do Covid-19 passarem, qual será o futuro do Surra?

Guilherme: “Basicamente voltar a nossa rotina incansável de turnês e produção de material. Até as coisas normalizarem, com certeza, teremos disponibilizados várias músicas inéditas então a ideia é fazer uma turnê de divulgação desses novos trabalhos tanto no Brasil quanto fora.”

Surra Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo em São Paulo


This post was published on 22 de abril de 2020 5:45 pm

Diego Carteiro

Apresentador do programa Ruído na Internova Radio, colaborador do Hits Perdidos. Entusiasta de shows e festivais e músico nas horas vagas. Siga o Hits no Instagram: @hitsperdidos

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