Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre o NFT (Mas Teve Medo de Perguntar)

 Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre o NFT (Mas Teve Medo de Perguntar)

Grimes já vendeu uma obra de arte digital como NFT por $5.8 milhôes em 20 minutos. Um produtor da música eletrônica chamado 3LAU vendeu $11,6 milhões de suas obras em NFT. Assim como o Kings Of Leon fez o mesmo com seu novo disco, alguns rappers, e até mesmo memes – como aquele último meme do skatista passeando ao som de Fleetwood Mac que foram vendidos em NFT por $3 milhões. E mais recentemente, o robô de inteligência artificial Sophia criou artes digitais e as vendeu em NFT por $700,000.

Mas o que seria o NFT? Quais são seus benefícios e malefícios? Qual é o seu impacto no mundo e nas artes? 


NFT Nyon Cat Art
Meme do Nyan Cat teve venda milionária em NFT.

O que é NFT? 

Para simplificar, um NFT (token não fungível – ou um tipo especial de token criptográfico que representa algo único) é um tipo de certificado digital de autenticidade. A arte digital, por sua própria natureza, pode ser copiada e distribuída instantaneamente em todo o mundo.

Você compra um NFT com criptomoedas e esse token será vendido em uma plataforma específica, como OpenSea, SuperRare, entre outras. Mas ao comprar um NFT, o cliente detém uma prova de propriedade de tudo o que eles estão colecionando, independente de quantas cópias digitais existam. De certa forma, não é diferente de um CD ou vinil.

O que podemos observar quando interagimos nesse universo é que o NFT cria uma sensação de raridade – como se você comprasse uma obra de arte extremamente rara, mas em alguns casos apenas esse token é raro, não a obra em si.

Consequentemente, o NFT fala tanto quanto de comércio quanto de arte. Vai partir dos caprichos do mercado financeiro quanto de estratégias artísticas. Grimes vendeu imagens de bebês carregando lanças pelo espaço, o Kings of Leon vendeu pacotes de seu último disco com regalias de shows ao vivo. 

O Impacto do NFT no Mercado e nas Artes

Vivemos tempos que o BitCoin vem estabelecendo recordes. Day traders elevando preços de ações de empresas como a recente Game Stop e Rocket Mortgage como “brincadeira”. O NFT também pode ser um sinal de euforia do mercado.

O momento de maior relevância para o NFT, seria a crise causada pelo COVID-19 e muitos músicos perdendo suas fontes de renda e formas de gerar receita. Em um momento em que os fãs estão presos em casa mais tempo vendo lives e olhando para a tela do computador, catálogos de músicos podem ser vendidos por centenas de milhões de forma digital com algumas vantagens. Momento certo para o amadurecimento do NFT.

Mike Shinoda, ex-Linkin Park, também topou o experimento com NFT e descreveu em sua conta no twitter alegando: “O NFT não é a música – O NFT contém a música. Você pode até mesmo ripar o áudio ou o vídeo.”



A Controvérsia do Impacto ambiental causado pelo NFT

O Gorillaz, projeto de Damon Albarn do Blur, foi criticado por muitos fãs por aderir ao NFT. A banda que tem na bagagem o disco Plastic Beach na qual critica os impactos ambientais causados na terra, resolveu relançar seu disco homônimo de estreia para comemorar seu aniversário de 20 anos. Mas por quê tantas críticas?

Existem alguns estudos acerca das emissões de carbono que o NFT pode causar. Na plataforma SuperRare, a compra é realizada com a criptomoeda Ethereum. Essa criptomoeda, assim como a maioria delas, é construído em um sistema chamado “Proof Of Work” (PoW) – Um tipo de mecanismo que força membros da plataforma resolverem um quebra-cabeça matemático para impedir que alguém engane o sistema e também amplamente usada na mineração de criptomoedas para validar suas transações e minerar novos tokens – que consome muita energia. Existe uma taxa de transação do Ethereum, ironicamente chamada de Gás.

Segundo estudos, todo esse processo de PoW, usando máquinas que consomem muita energia, permite usuários adicionarem novos blockchains, assim ganhando mais tokens e transações como recompensas. Como resultado, apenas a criptomoeda Ethereum consegue gastar mais energia que o país todo da Líbia.

A Criação do NFT

O CEO da tecnologia, Anil Dash, tinha a melhor das intenções em sua época de criação, no evento Rhizome’s Seve on Seven na qual o artista Kevin McCoy apresentou o processo de NFT vendendo um GIF para Anil e ainda publicando a transferência de propriedade no blockchain do namecoin – criptomoeda da Bitcoin:

“A ideia por trás dos NFTs era, e é, profunda. A tecnologia deve permitir aos artistas exercer controle sobre seu trabalho, vendê-lo com mais facilidade, protegê-lo mais fortemente contra outros se apropriarem dele sem permissão. Ao desenvolver a tecnologia especificamente para uso artístico, McCoy e eu esperávamos evitar que ela se tornasse mais um método de explorar profissionais criativos. Mas nada saiu da maneira que deveria. Nosso sonho de capacitar artistas ainda não se tornou realidade, mas gerou muito entusiasmo comercialmente explorável.”

O próprio criador lamenta os rumos que a tecnologia tomou e os impactos que são causados ao meio ambiente:

“A crítica mais comum aos NFTs é que eles são irresponsáveis do ponto de vista ambiental. Cada transação ou gravação de uma obra de arte requer cada vez mais poder de computação para ser concluída. Mais poder de computação significa mais recursos consumidos. Muitos entusiastas hoje responderão que os NFTs “limpos” ou “verdes” já estão começando a circular. Mas os entusiastas do blockchain e da criptomoeda da última década mostraram que a responsabilidade ambiental é menos do que uma reflexão tardia. Nenhuma evidência sugere que os criptotraders ganharão mais dinheiro adotando os NFTs verdes.”

O artista Kevin McCoy que tem sua participação na criação do NFT ainda acredita apesar dos problemas, continua sendo uma opção viável aos artistas para se sustentarem com seus trabalhos:

“Mas em meu trabalho como tecnólogo, meu otimismo foi frustrado muitas vezes por oportunistas que correram depois que uma tecnologia decolou. Nos primórdios da música digital, o advento dos MP3s e de novos sistemas de distribuição deveria permitir que os artistas vendessem diretamente aos fãs. Nos primórdios da mídia social, as empresas criaram tecnologias de blog com a promessa de que os escritores seriam capazes de se comunicar diretamente com seus leitores. Esse padrão se repetiu em uma indústria após a outra.”


BitCoin NFT


Existe vantagem para o artista pequeno?

O valor das obras de arte que agora estão sendo vendidas como NFTs aumentam graças ao seu marketing e claro, com os mineradores atrás de grandes artistas e marcas. O dinheiro passa por esse sistema, mas continua sendo uma bolha.

Um grande artista tem muitos seguidores e um grande alcance, ponto favorável para vender sua arte a rodo. Não funcionaria dessa forma para um artista pequeno com poucos seguidores, já que a mineração de NFTs não é gratuita e deve ser paga mensalmente. Prejuízo para o artista, enquanto alguém em algum lugar, ganha dinheiro com sua mineração.

Em contrapartida, artistas brasileiros alternativos vem aderindo ao NFT a algum tempo, como o caso do Digitaldubs. O coletivo Digitaldubs é conhecido como a principal referência na cultura sound system no Brasil. Primeiro sound system carioca, desde 2001 vem fazendo bailes que pavimentaram a cena alternativa do Rio de Janeiro, abrindo portas e ocupando novos espaços. O coletivo foi o responsável, por exemplo, por promover o encontro entre Tom Zé e a lenda do dub Lee Scratch Perry, resultando na gravação de “Estudando o Dub”. E hoje caminha na vanguarda da cripto-arte no Brasil.

Marcus MPC, artista gráfico, produtor musical e fundador do Digitaldubs explica a adesão ao NFT:

“Em 2010, nós lançamos o nosso quarto (e último) álbum, e naquela época eu já não via mais o CD como um formato interessante. Então, criamos um objeto de arte – limitado em 100 peças – que vinha com o código para download das músicas, em uma época que MP3 ou era grátis ou pirata, e o mercado do streaming não existia nem em sonho”

Agora em 2021 o projeto celebra a edição de 10 anos do álbum chamado “#1”, que será lançada na plataforma OpenSea em uma série de NFTs – 10 vídeos de animação 3D com tiragens diferentes de cada um. O comprador terá também acesso a conteúdos extras. O projeto visa tornar o NFT acessível:

“Nossa ideia é também democratizar o conceito NFT, que à primeira vista pode parecer algo especificamente elitizado. Nessa primeira série colocaremos no ar NFTs com tiragens maiores e valores acessíveis, estimulando o público a conhecer esse novo universo, uma tecnologia que possibilita colecionar, apoiar, investir e diversos outros desdobramentos criativos.”

Marcus MPC compartilhou sua experiência com a plataforma e a nova tecnologia:

“A experiência está sendo exatamente isso: uma experiência ao pé da letra, no sentido de experimentação mesmo. Estamos trabalhando nesse projeto de NFTs há pouco mais de um mês e vivenciando o processo de troca de ideias com o nosso público, sentindo como é o interesse dos seguidores sobre esse assunto. Eu estou muito animado, pois vejo isso como um caminho para desenvolver projetos criativos e formas de troca com o público, e não só depender de fazer uma arte que alcance as massas, mas também poder ter uma aproximação real com quem realmente curte o nosso trabalho, acompanha, é fã, e que se interessa em apoiar e estar próximo”

Plataformas Brasileiras 

Também já existe uma plataforma brasileira chamada Hic Et Nunc, na qual trabalha com a criptomoeda Tezos. É uma criptomoeda viável comparada ao Etherium, que custa cerca de R$9.000,00 enquanto o Tezos custa apenas R$ 24,00. Também gasta muito menos energia que as gigantes, cerca de 0.0211 TWh/a, enquanto o Ethereum gasta 24.61 TWh/a e a Bitcoin os absurdos 77,78 TWh/a.


NFT TEZOS POLUIÇÃO


Hic Et Nunc

A compositora paulista Grisa lançou seu novo single “Incerteza II” – produzido por Vitor Brauer – em NFT nessa plataforma de forma pioneira, com arranjos diferentes da versão encontrada nas plataformas de streaming. O NFT é vendido por 1,22 Tezos a cópia, em 122 cópias disponíveis na Hic Et Nunc. Ao contrário das outras plataformas, a artista não necessita de pagamento mensal para manter suas obras na plataforma, apenas uma taxa para a conversão em NFT. Essa plataforma promete democratizar o NFT para o artista independente, de forma que todos possam vender sua criptoarte mantendo uma fonte de renda.

Em sua opinião, o NFT é o futuro para a classe artística: “ Uma obra em NFT pode resgatar o formato do colecionismo dos cds e vinis para o digital de uma uma forma mais única, com resposta financeira mais significativa tanto aos artistas quanto aos fãs.”


Tuyo - NFT Jean Machado
O trio curitibano Tuyo se prepara para lançar seu segundo álbum de estúdio – Foto Por: Luciano Meirelles (Hai Studio)

Jean Machado, do trio paranaense Tuyo também se enquadra nos early adopters do NFT na plataforma Hic Et Nunc. Expõe sua excitação sobre a nova tecnologia:

“O que manteve minha motivação foi entender que existe um habito muito forte de artistas se fortalecerem, incentivando, trocando e comprando as obras. Acho que tudo isso ficou bem agitado quando artistas tipo The Weeknd, Grimes e Flume começaram a participar com umas transações bem simples mas que se a gente for colocar o valor no papel e converter pra dólar ou real da pra ficar muito de cara. Dá esperança e assusta demais.”

Mas alerta sobre suas problemáticas em relação ao meio ambiente e a busca sobre a opção mais sustentável, compartilhando sua experiência:

“Também tem uma crítica bem forte e uns estudos alertando a respeito do que todo esse movimento custa ao meio ambiente com o tanto que essas transações nas blockchains em moedas mais “valiosas” gastam de energia elétrica. São discussões importantíssimas e no meio disso, a desinformação também corre solta dizendo que NFT não é uma coisa massa de fazer. Aí encontrei a Hic Et Nunc que pra mim tem sido a maneira mais interessante de participar agora.

A Hic et Nunc tem brasileiros no seu desenvolvimento, tanto na plataforma quando na comunidade, ta crescendo muito rápido e está na blockchain da moeda Tezos – que é gerida pelo mecanismo PoS e não trabalha dessa forma tão agressiva à natureza. Fui entrando de leve em grupos de WhatsApp, Telegram, Discord e fiquei assustado com a preocupação que toda a comunidade tem em informar e se proteger e aprimorar tudo que está acontecendo.

Ta sendo incrível criar e divulgar e me sentir parte disso porque eu sinto que apenas temos mais um nome e uma forma de organizar nossas criações no digital e estamos encontrando maneiras e motivação pra continuar criando e explorando novas técnicas e mídias.”

Com o avanço das tecnologias e as pequenas revoluções econômicas, produtos como o NFT pode se tornar a solução financeira da classe artística ou seria apenas uma agenda neoliberal de engenheiros da tecnologia da informação? A bolha ainda vai estourar, só uma questão de tempo.  

Diego Carteiro

Apresentador do programa Ruído na Internova Radio, colaborador do Hits Perdidos. Entusiasta de shows e festivais e músico nas horas vagas. Siga o Hits no Instagram: @hitsperdidos

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