22 anos depois da sua estreia, o Gorillaz continua a se reinventar, cruzar universos, unir pessoas, ficção, cinema e extrair o melhor que a cultura pop tem a oferecer. Genial como sempre, Damon Albarn, que deixou de ser apenas “O Cara do Blur” a muito tempo, ao lado de Jamie Hewlett, consegue reunir em um mesmo álbum artistas talentosíssimos como o lendário Elton John, o príncipe do post-punk Robert Smith (The Cure), Beck e a incrível, e versátil, St. Vincent, Fatoumata Diawara e Peter Hook (Joy Division, New Order), Slowthai, Slaves, Tony Allen, JPEGMAFIA entre outros.

De novidade mesmo tem a volta do baixista Murdoc Niccals que em Not Now estava preso. Se fosse só isso já bastaria mas o disco possui uma narrativa distópica, com a habitual mistura de gêneros musicais e em alguns momentos podendo soar até mesmo solar. Quando você acha que as soluções se encerram, o grupo conhecido por sua narrativa transmidiática, vai lá e tira mais um coelho da cartola dentro do seu vasto repertório que faz com que fórmulas não sejam repetidas. As canções, claro, ganharam episódios com direito a animações, ao todo o disco reúne 17 faixas.

“Song Machine é uma maneira totalmente nova de fazer o que fazemos, o Gorillaz está quebrando o molde porque o molde envelheceu. O mundo está se movendo mais rápido do que uma partícula supercarregada, então temos que estar prontos para cair. Não sabemos nem quem vai entrar no estúdio em seguida. O Song Machine se alimenta do desconhecido, funciona em puro caos. Seja o que for que esteja por vir, estamos preparados e pronto para produzir como se não houvesse amanhã”, revelou Russel Hobbs em entrevista durante o processo de produção do disco 


Gorillaz Song-Machine-Season-One-


Gorillaz Song Machine, Season One: Strange Timez

Cada single te leva para um lugar diferente sem aquela necessidade de soar como uma continuação o que faz com que diferentes universos possam co-existir em coesão. Em muitos momentos a sensação que passa é de uma estranha nostalgia como se você já tivesse vivendo tudo aquilo anteriormente, desta forma a melancolia fica como plano de fundo deste universo distópico. De certa forma o fantasma de Demon Days que assombrava o grupo se esvai.

Sua versão deluxe conta com mais uma hora de narrativa e sem os extras cerca de 42 minutos, ao todo são 11 faixas na versão comum, 17 faixas na Deluxe (e uma extra na versão japonesa). Gêneros como punk rock, bossa nova, synth-pop, eletrônica, art pop, hip hop e downtempo aparecem ao longo da trama dos Gorillaz. A produção é assinada por Remi Kabaka Jr. que desde 2016 também é baterista do grupo inglês.

Quem teve a oportunidade de assistir o show deles no Brasil pode ver como as canções do Gorillaz no palco se transformam a cada intervenção, seja das participações especiais como por parte dos novos arranjos que o grupo leva para suas apresentações. Fico até imaginando como será a recriação de um disco tão ímpar dentro da discografia nos palcos.



Strange Timez

“Strange Timez (feat. Robert Smith)” é politizada mostrando a decadência dos governos ao redor do mundo em versos vociferados por Damon e ao mesmo tempo se choca com os vocais melancólicos do vocalista do The Cure e a música eletrônica minimalista. O choque vem para a capacidade de fazer uma balada melancólica extremamente dançante.

Já a participação do Beck nos leva para o Gorillaz que conhecemos lá em 1999 em uma faixa que ao mesmo é revigorante, e irônica, com direito a boas doses melhor do humor inglês.

“The Lost Chord” traz teclados, boas melodias, suspense e desacelera o disco com ótima participação de Leee John mas de fato é um anticlímax da primeira parte do disco que mostra pela primeira vez a capacidade de transitar por lugares ainda não explorados.

O universo dos videogames e suas trilhas, vem com direito a scratches em “Pac-Man, faixa com participação de ScHoolboy Q, o sentimento de estar perdido em meio a multidão é latente na canção que ganha versos, beats e backin vocals, Damon abre alas para o rapper brilhar.

“Chalk Tablet Towers” prova mais uma vez que também a sonoridade do grupo pode ser extremamente pop ao lado da St. Vincent. O dueto ao mesmo tempo que é solar traz um ar de esperança para nossos “Strange Timez”.

Elton John, Peter Hook, Slaves, Tony Allen…

Vamos falar a verdade que privilégio é poder colaborar com Elton John. Em “The Pink Phantom (part. Elton John, 6LACK)”, eles conseguem fazer uma fusão entre rap e o piano man. Feito uma colagem de bases e vibes, o Gorillaz consegue criar uma atmosfera imersiva e seria interessantíssimo ver um clipe em 3D ou em VR isolando cada um dos sons. Consegue imaginar a experiência?

“Aries (part. Peter Hook, Georgia)” de certa forma homenageia o New Order em seu instrumental, bom, se eu pudesse ter uma banda que pudesse fazer um feat com o Peter Hook eu talvez faria mesmo; e não julgo o Damon. A saudade e o sentimento de nostalgia reverberam nos versos da canção que parece querer nos transportar para um antigo verão esquecido em nossas memórias.

“Friday 13th” consegue fundir dub, downtempo e trap ao mesmo com a participação de Octavian onde Albarn abre mão de ser protagonista; como já aconteceu antes na discografia do grupo.

O trapper de apenas 24 anos segura a bronca e o baixo, com aquela energia pulsante do The Clash, acaba conduzindo a faixa que ainda tem no teclado, e nas transições, o seu coração. Mais uma vez mostrando como uma banda de 22 anos de estrada está disposta a ouvir o que há de novo, e não é maravilhoso isso?

“Dead Butterflies (part. Kano e Roxani Arias)” também segura no grave mas conta com vocais que flutuam entre o R&B, a soul music, o hip hop e pop latino. Mais uma vez provando que o mainstream e o alternativo no universo do Gorillaz são bem vindos.

O Ponto Alto do novo álbum do Gorillaz

“Désolé (part. Fatoumata Diawara) (Versão Extendida)” traz a bossa nova, jazz e o soul para frente mas sem perder os beats eletrônicos e tem a cara de canção que você ouve no rádio e não associa diretamente a banda e talvez essa seja a graça, soa como uma música de outra época ao mesmo tempo que é extremamente moderna. Fatoumata Diawara é uma cantora de jazz, Wassoulou Africano e soul do Mali. Para mim um dos pontos altíssimos do disco dos ingleses.

“Momentary Bliss (part. slowthai e Slaves)” é a cara dos subúrbios ingleses por conseguir juntar uma banda de punk rock e um jovem rapper algo que consegue divertir e ao mesmo tempo provocar um bate cabeça eletrificado. O ecletismo que ainda entra com frequências e instrumentos que soam como sintetizadores de brinquedo em um caldeirão explosivo. Uma das mais divertidas do registro e com um refrão que dificilmente vai sair tão cedo da sua cabeça.

“Opium (part. EARTHGANG)” tem como base o minimalismo eletrônico, o soul, o som dos batuques, teclados e tem a capacidade de te transportar para uma rave que vai crescendo até o ponto que os vocais transformam a canção em uma experiência transcendental que une os universos de 6LACK e Damon Albarn. Parceria que deu liga até demais, o rapper colabora em duas canções ao longo do disco.

O Poder e a Arte dos Encontros

“Simplicity (part. Joan As Police Woman)” desacelera e mostra mais uma vez a versatilidade nas transições e a possibilidade de fundir instrumentos eruditos, soul e sing-a-longs dentro da obra. “Severed Head (Part. Goldlink e Unknown Mortal Orchestra)” é uma das combinações que estava ansioso para ouvir assim quando vi a tracklist. E a solução foge do óbvio e isso é o resultado que reunir mentes inventivas pode proporcionar.

“With Love To An Ex (part. Moonchild Sanelly)” conta com a participação da artista sul-africana de Dancehall, funk, hip hop e soul o que deixa ela bem a vontade dentro da cozinha inventiva do Gorillaz, as camadas eletrônicas e a mixagem deixam ela ainda mais monumental e cheio de elementos percussivos.

“MLS (part. JPEGMAFIA e CHAI)” é mais um dos encontros que só são possíveis em um disco do Gorillaz e o resultado é mais chill do que você pode esperar mas claro que tem intervenções dos personagens inventivos do grupo para tirar tudo dos eixos. E talvez seja por isso que gostamos tanto deles, não é mesmo?

“How Far? (part. Tony Allen e Skepta), encontro com o gênio do afrobeat que nos deixou neste estranho ano de 2020. A banda transformou ela em uma mensagem póstuma ao músico, nada mais justo e honroso.

O Legado

É muito para se processar mas ver um grupo que chega ao seu sétimo álbum, e talvez melhor em 15 anos, é revigorante em tempos como os nossos. Ainda mais juntando artistas e destaques ao redor do globo com uma ótima curadoria nesse sentido.

A música possibilita ótimos encontros e Damon Albarn sabe usar disso com muita sabedoria ao seu favor. Como é bom ouvir um disco que foge a qualquer regra da indústria fonográfica e ainda cria narrativas e universos paralelos sem necessariamente ter que explicar tudo isso.